A Cidade Morta – Parte 1

A carta da sua prima não poderia ser mais desanimadora. “Por aqui, tudo na mesma. Nada de novo. Natal é uma cidade muito morta, você sabe.” Alex, ou soldado De Souza, leu e ficou pensativo por um instante. Pensou numa frase feita, um lugar comum, aquela história de só se dar valor a uma coisa depois que a gente perde. Sua prima havia dito na carta que “queria estar no lugar dele, conhecendo o mundo, vivendo aventuras como viajar pro Haiti e trabalhar como soldado de paz da ONU (Que orgulho!). E o Haiti é muito Caribe, sabe? Muito música do Caetano. Com certeza estava sendo uma experiência e tanto.”

Ah, se ela soubesse que ele trocaria toda aquela “experiência e tanto” por um fim de semana em Natal, uma caída no mar em Ponta Negra com sua prancha Radical, uma reunião em família na casa de veraneio da avó, na praia de Zumbi, em noite de lua cheia com todo mundo junto na varanda.

A verdade é que a sensação de adrenalina, o espírito de aventura e o friozinho na barriga de emoção que costumava sentir no início, assim que desembarcou em Porto Príncipe, nas primeiras missões externas, o acompanharam por algum tempo, mas logo se esvaíram. Dispersaram-se em meio a uma infinidade de protocolos militares e burocracias oficiais que faziam sua rotina ser mais monótona que a da cidade interiorana de sua família materna, onde a única diversão era levar as cadeiras para as calçadas com a urgência de quem assiste um reality show de rostos conhecidos.

Outra coisa que o deprimia na capital haitiana era a miséria. Não era uma miséria envergonhada, disfarçada, escondida e acanhada como em Natal. Lá não havia prédios luxuosos tapando o morro de Mãe Luíza. Era uma pobreza orgulhosa da sua extrema carência, extravagante, exibicionista até, com urgência de se mostrar, de exigir um olhar, de impedir qualquer indício de indiferença. Tanto sofrimento e falta de perspectiva na vida daquelas pessoas se tornavam tão opressores que, por mais que permanecesse mil anos por ali, jamais se acostumaria.

Sua sorte grande era que se avizinhava a hora de partir. Ele relia a carta da prima, recebida havia quase dois anos, quando fazia apenas 2 meses que chegara ao país, e que funcionava como um talismã, uma distração, um consolo, um recurso para os piores momentos, ícone de toda a esperança que ele tinha de sair dali um dia, símbolo dos prazeres que encontraria na volta pra casa, da ambição acalentada desde a puberdade de comer a prima, de persuadi-la a deitar-se com ele, de penetrá-la na mesma cama onde passaram tantas tardes conversando sobre a vida, sobre sua falta de opções para o futuro e a vontade dela de sair daquele inferno de cidade, cheia de pessoas fúteis, provincianas, de cabeça pequena. Ele ouvia suas lamentações, mas muitas vezes estava concentrado no contorno dos seios que a blusinha justa permitia vislumbrar. Ficava mirando a proeminência dos biquinhos firmes que tanto se esforçavam em perfurar a malha. Imaginava-se lambendo os mamilos e ir descendo, descendo, até que chegasse à…  “E você?” “Hã?!” “E você? Não pensa em sair de Natal, esse cu do Brasil?”

Ele não sabia. Não sabia o que faria de sua vida. Não sabia se faria vestibular para Engenharia Mecânica ou se tentaria o exército. Na verdade, nesses momentos em que ficava tão junto da prima, só lhe restavam duas certezas: estava apaixonado pela prima e seu pau estava a ponto de explodir.

CONTINUA

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