A Cidade Morta – Parte 2

O freio do caminhão resgatou-lhe de seus devaneios e o trouxe de volta ao presente caribenho. Ele que viajava olhando fixamente a carta da prima, guardou os papéis num bolso e desceu com o resto do pelotão. “Lembrando da namorada? Daqui a uns dias, você vai estar lá de novo e ela vai cavalgar sobre você!”, disse o Carioca e gargalhou. Pensou em reprimir a falta de respeito do companheiro para com o objeto de seu afeto, mas logo a imagem da prima cavalgando sobre ele, gritando palavras obscenas surgiram na mente, aplacando qualquer reação firme e provocando um sorriso satisfeito. Chegou mesmo a ficar grato ao colega de tropa por proporcionar visão tão alentadora.

E mais feliz ainda ao ser recordado novamente que dentro de dois dias chegaria a Natal. Seu trabalho no Haiti haveria terminado. Ele dormiria aquela noite, despertaria no dia seguinte para arrumar suas coisas, se despedir dos amigos e partir. Após dois anos de trabalho duro, tensão permanente e toda a estupidez inerente à vida militar, voltaria para casa. Mas antes, o Carioca tinha uma proposta:

 – Você não pode ir embora do Haiti sem uma despedida.

– Hômi, me deixe quieto!

– É sério! Uma parada diferente. Um ritual típico local. Uma cerimônia vudu.

– Afe, Maria! Você tá ficando é doido!

– Vâmu lá, rapá! Sacar um pouco da cultura local. Passou dois anos só indo do quartel pra rua, da rua pro quartel. Não viu porra nenhuma! Pelo menos na última noite, poderia ver umas paradas novas.

– E vudu lá é cultura, hômi de Deus!

– Cara, 90% dos haitianos são católicos, mas 110% são vudus. Se isso não for a cultura do país, não sei mais o que é.

– Quem vai?

– Eu, você e o Edu. O François vai dar um bonde pra gente.

– Tá bom. Depois do jantar já vou estar de folga. Aí a gente vai.

– Ah, mulheque! É assim que se fala, meu quiriado! Formou, então. E hoje, maluco, vai ter um ritual ali que é Copa do Mundo, tá sabendo. Eles vão ressucitar um figura que já morreu. Vão transformar o presunto em zumbi.

– Ai, meu Deus! Dá pra desistir ainda?

– Ah, não vai peidar não, vacilão! Deu a palavra, então já era.

CONTINUA

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Uma resposta to “A Cidade Morta – Parte 2”

  1. GERALDO BATITA Says:

    Ave Maria,
    depis de ler tanta Cidade Morta, estou morto de cansaço, mesmo asim gostei.
    Geraldo Batista.

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