A Cidade Morta – Parte 3

Os 3 recrutas saíram da base um pouco depois das 8. Seguiram de carona com o François, intérprete da ONU, que havia se tornado amigo do Carioca e aceitou ciceroneá-los num ambiente que raramente recebia estrangeiros. Eles iriam testemunhar um ritual de magia negra realizado por um dos principais bokors (feiticeiro vudu) do país. Ele traria de volta à vida um jovem trabalhador rural morto há menos de 24 horas. François explicava em português algumas peculiaridades sobre as crenças do país. “Posso assegurar aos senhores que o que veremos esta noite não tem nada a ver com supertisção nem com qualquer cerimonial religioso ou tradições populares. É uma prática real, demoníaca, mas real. E, no Haiti, práticas como esta são mais frequentes do que se possa imaginar.” Um suspiro de hesitação foi ouvido vindo do banco de trás do automóvel. O Carioca riu excitado.

O local do ritual ficava numa zona remota de Porto Príncipe, num bairro ainda mais pobre que as zonas centrais da capital. O “templo”, uma espécie de quintal de uma casa paupérrima estava cheio de expectadores com olhos tão atentos ao sacerdote (bokor) que nem se deram conta da presença estrangeira a observar tudo ali. No centro do terreno, uma mesa comprida. Fogueiras e batuques remetiam a velhos rituais de origem africana, como pode ser ouvido nos terreiros de macumba brasileiros. De repente, ao som de batidas cadenciadas, entram quatro homens negros e fortes, carregando uma maca com um corpo coberto por um lençol. Eles o depositam na mesa central e retiram o lençol. É um homem sem vida, não resta dúvida.

O bokor se aproximou do cadáver e começou a dizer palavras supostamente mágicas em um idioma indecifrável, num transe convincente. “É a língua dos mortos.”, disse o “guia” do grupo. Após proferir solenemente as palavras, ofeiticeiro abriu um frasco e jogou um líquido, algo como uma poção mágica no morto. Depois disso, fez silêncio. Ele e o público. Os tambores e o vento. Nada se atrevia a manifestar-se. Todos prendiam a respiração. Poderia ser ouvida a queda de um lenço na areia. O bokor retirou de um dos bolsos um saco e derramou sobre a palma da mão seu conteúdo, um pó branco amarelado. O Carioca cochichou com os amigos sorrindo: “Vambora que é antraz.” O feiticeiro fechou a mão e ficou esperando algo. O morto permanecia, obviamente, imóvel.

De repente, gritos, choros, interjeições de espanto das mais variadas. O homem, deitado na mesa, levantou-se. Os 3 soldados brasileiros empalideceram. “O que é isso, maluco?”, gritou o Carioca. O feiticeiro começou a entoar um cântico, novamente em transe e se preparava para jogar o pó no ex-morto quando foi mordido no pulso por ele. As muitas testemunhas estarrecidas entraram em pânico. Muita correria e barulho. Tumulto. Pela reação dos haitianos, não foi difícil concluir que algo não havia saído como esperado.

Os negros fortes que trouxeram o cadáver se precipitaram em sua direção, armados com espingardas e atiraram na cabeça. O ex-morto estava novamente 100% morto. Ouvia-se ao longe os berros do feiticeiro. “Tuer moi! Tuer moi!”, que significa “Mate-me” em francês. No empurra-empurra, Alex foi parar no meio do terreiro. Viu de longe o guia e seus dois colegas se juntarem para fugir dali. Eles olhavam desesperados em volta, à sua procura. Um pavor quase de morte o assaltou ao ser seguro pelas calças. Olhou pra baixo e viu ninguém menos que o bokor de joelhos implorando: “Me mate! Me mate!” Disse isso, revirou os olhos e caiu para trás. Alex olhou em direção dos amigos e se preparou para correr quando sentiu uma dor dilacerante no antebraço esquerdo. O bruxo o havia mordido. Deu um soco no bizarro personagem, desvencilhou-se dele e disparou ao encontro dos companheiros. “Onde você tava, maluco! Vambora daqui! Tá sinistro! A chapa esquentou de vez! Ih, ó lá! Tão matando o macumbeiro!” Os homens negros e parrudos davam tiros na cabeça do sacerdote que há bem pouco tempo comandava a cerimônia.

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