A Cidade Morta – Parte 5

– Alex de Souza era um rapaz lutador. Ainda muito jovem partiu para um país humilde, para ajudar um povo sofrido que tanto precisava de ajuda…

7h30 da manhã. Cheiro de flores. Choro de alguns. O som inconfundível de muitos narizes fungando simultaneamente.

– …ele não se negou a ajudar. Dedicou dois anos de sua juventude para prestar auxílio a uma nação pobre, longe dos amigos, da família, de tantas pessoas queridas que enchem esta igreja na mesma medida em que o próprio Alex sempre encheu seus corações de alegria…

Na primeira fila, os pais desconsolados, tentavam entender o porquê. Se ele havia sobrevivido à instabilidade de um país dividido, aos perigos da guerrilha, como é que poderia ter morrido logo de uma febre? E depois de já ter voltado pra casa. Desde que o doutor do hospital militar ligara para a família com a notícia, todos custavam a crer no inusitado da situação. Parecia um sonho ruim. Ou uma piada de humor negro, de péssimo gosto e baixíssimo calão. A matriz da paróquia de Santa Terezinha, localizada entre os bairros de Tirol e Petrópolis reunia todas as pessoas que costumavam sentar-se juntas no alpendre da avó de Alex na casa de Zumbi. Ou quase todas. A prima, por alguma razão, não comparecera. Há muito se esquecera do primo por quem tinha uma boa amizade quando adolescente. Por isso a sua morte não lhe causou impacto forte o bastante para que ela acorresse à missa de corpo presente. Daria “uma passadinha” no velório porque “família é família”, mas nada de fortes emoções e sentimentos à flor da pele. Além disso, ela trabalhava num supermercado na Avenida Engenheiro Roberto Freire e ficava um pouco fora de mão se deslocar até a região central da cidade.

O padre continuava seu sermão:

-… ele se levantou e partiu em socorro dos mais necessitados, pois Alex sempre se erguia diante das injustiças.

Qual não foi a supresa de todos os presentes quando Alex levantou-se, mas não diante de nenhuma injustiça, e sim dos olhos de todos. Surpresa, sobressaltos, terror, burburinho. Um e outro grito, além de alguns desmaios súbitos. Monsenhor Lucas emudeceu. Chegou perto do corpo para certificar-se de que aquilo estava mesmo acontecendo. Alex abriu os olhos. O padre anunciou a boa nova: “É UM MILAGRE!” Foram suas últimas palavras antes que o cadáver revivido pulasse sobre ele e investisse contra sua jugular. O sangue jorrou e a mãe de Alex correu em direção ao filho. “Menino, saia já daí! Deixe o Monsenhor em paz!” Alex interrompeu o ataque parou diante da mãe e pareceu estar reconhecendo alguém remotamente familiar. “Meu filho.”, disse ela, chorando e o abraçou. O pai também se aproximava para participar daquele abraço quando o celebrante da missa, ágil como um ginasta, levantou-se do chão e, com a batina, ora branca, agora tingida de vermelho, surgiu em seu caminho. “Pa-pa-padre? O senhor está bem?”

Uma forte mordida em seu ombro direito foi o atestado de boa saúde do sacerdote. A mãe, ao vislumbrar o marido sendo atacado pelo Monsenhor, numa clara represália ao que o filho do casal fez com ele havia pouco, partiu indignada com a bolsa em punho. “Que coisa feia, Mosenhor Lucas! Um homem de Deus não pode guardar rancor no coração. Tem que perdoar! Solta o meu marido!” Quando se aproximou, foi o próprio marido que, livrando-se do padre, mordeu o nariz da mulher. Ela urrou de dor, mas logo se entregou em silenciosa letargia. Os 4 permaneceram na nave da capela por mais alguns minutos, como se assimilando sua nova condição. Todos os presentes à cerimônia se haviam evadido daquele lugar tão rápido quanto puderam ante os últimos sucessos. Aquele templo, outrora sagrado, agora se tornara maldito. Os 4 personagens restantes (um padre, um jovem militar e o casal que representava o seio de uma família) tomaram uma atitude anarquista: separaram-se e saíram da igreja, cada um por uma porta, para saciarem sua fome. Era, mais uma vez a história se repetindo: “Deus, Pátria e Família, marchando pela liberdade”, ou pelo menos marchando pra matar a fome. Só que dessa vez, subversivamente, foi cada um marchando por si.

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