A Cidade Morta – Parte 6

A mãe partiu em direção à Avenida Afonso Pena e, ao chegar na esquina onde se localiza o Hospital Papi foi abordada por um médico que chegava para dar plantão. “Minha Nossa! A senhora está bem? Alguém me ajude a levar essa mulher pra dentro. Ela está ferida.”, pediu ele, impressionado com o rosto encharcado de sangue e um nariz pendurado. As pessoas já começavam a aglomerar-se em torno deles, quando a defunta deformada mordeu, com toda a força de seu potente maxilar, num golpe profundo de animal selvagem, o doutor ali mesmo na calçada. Ele gritou um grito de morte, sem saber que o era de fato, e a mulher sem vida era segura pela multidão, enquanto mastigava um generoso naco do braço do médico. Ele chorava baixo, encostado ao muro, amparado por outros tanto transeuntes e funcionários do hospital que saíram em seu socorro. A mãe investia contra os que a continham, estes cada vez mais certos que seu caso era para a Casa de Saúde Natal ou para o Hospital Colônia, conhecidas instituições para pacientes mentais, e não para o PAPI. Um dos homens que tentava contê-la, já eram 6, teve um dedo arrancado e saiu deseperado direto para a emergência do Natal Hospital Center, vizinho ao PAPI. Os outros se surpreendiam com a força de bicho, fúria de besta ferida, demonstrados por aquela senhora. Com raiva quase canina, ela desferiu mais um par de mordidas em seus algozes que agora recebiam a ajuda de mais dois homens fortes, policiais militares que passavam pelo local.

O médico que era levado para dentro por um casal de enfermeiros, curvou-se em direção ao ouvido da moça que o sustentava. Parecia que iria lhe fazer um pedido, uma súplica, falando baixo, sussurrando, utilizando as poucas forças que a copiosa hemorragia não fizera esvair-se de seu corpo convulso. Ela aproximou a cabeça para ouvir o que ele tinha a dizer, mas só sentiu uma dor fina e o morno líquido rubro deslizar pelo lado do rosto quando sua orelha direita foi arrancada. Pânico na sala de espera da emergência. O doutor, diante de uma plateia atônita e paralisada pelo medo, pela surpresa e pela mórbida curiosidade, avançava para o maior número de vítimas possível. Logo a enfermeira “monorelha” se juntou a ele em sua fome de zumbi nova. Nunca o PAPI viu tanto sangue.

O pai saiu da Santa Terezinha e pela porta da frente, caminhando chegou à rua Campos Sales sem conseguir morder ninguém. Devido ao seu aspecto deplorável de morto, os moradores de Petrópolis/Tirol desviavam do seu caminho, por confundi-lo com algo, para eles, muito pior: um mendigo. Em seus passos errantes, porém, coseguiu chegar a um edifício de paredes brancas. Um guarda municipal o abordou, mais um que o confundia com um despossuído. “O senhor não pode entrar agora pra pedir. Os vereadores estão em sessão. Volte umas 11h, quando acaba o expediente deles e…” A mão do sentinela repousada sobre o peito do pai pareceu-lhe apetitosa demais para não receber uma mordida, convertendo-se em sua primeira refeição de morto. Enquanto tinha suas falanges, falanginhas e falangetas, carpo, metacarpo e tudo mais sendo avidamente deglutidos pelo pseudo-mendigo, o vigilante desferia poderosos golpes em sua cabeça com a mão que lhe restava, o que não parecia produzir muito efeito a não ser o recuou provisório do farrapo faminto e semi-humano. Num puxavanco vigoroso, porém, o pai conseguiu arrancar a mão do guarda a partir do punho e saiu mastigando seu lanche matinal. Aquele, desesperado, gritava correndo para dentro da Câmara Municipal.

Alex foi mais feliz em sua caminhada, tendo mordido várias vítimas tão logo saiu da Santa Teresinha e se deparou com os populares que iam, vinham ou “pastoravam” carros na Rodrigues Alves. Pacientes ou profissionais das clínicas, clientes dos restaurantes que buscavam suas marmitas para levar a casa, pedintes mil. O cardápio era variado e sua voracidade típica de um jovem zumbi faminto que, empolgado com o fato novo e mantendo intactos a energia e impertinência próprias dos 20 anos, mostrava-se ensandecido, não podendo ver uma jugular à mostra ou rosto apavorado que arremetia seus dentes e tirava bifes inteiros dos pedestres que tinham a falta de sorte suprema de cruzar o seu caminho.

Distanciando-se um quarteirão da igreja de onde se levantara e saíra à rua, parou diante de um prédio, vizinho ao América Futebol Clube. Um edifício envidraçado, repleto de pessoas com suculentos nacos de carne fresca em exibição, correndo em esteiras, pedalando em bicicletas ergométricas, forçando os músculos em máquinas de roldanas. Era a Academia Athletica.

Monsenhor Lucas caminhou pela parte central da paróquia de Santa Terezinha. Logo, cruzou com uma beata que passava e lhe puxou pela mão. “Monsenhor! Não sabia que a missa de corpo presente do rapaz ia durar tão pouco. Venha! Vamos participar do curso de padrinhos que está acontecendo no anexo. O padre Marlos vai ficar feliz com sua presença.”

“Monsenhor, seja bem-vindo! Estamos agora falando dos valores cristãos que o padrinho deve transmitir ao seu afilhado até o fim da vida. O senhor gostaria de falar alguma coisa para os nossos alunos? Palmas para o Monsenhor Lucas!” As palmas foram ouvidas imediatamente, em resposta aos pedidos do professor Padre Marlos. Tanto que, quando ele se fundiu com o Monsenhor num apertado abraço de urso, mexendo freneticamente a mão direita em espasmos verticais, os assistentes pensaram que se tratava de um pedido para subirem o tom e a intensidade da homenagem. Por isso bateram palmas com ainda mais força e rapidez. A beata então, comovida com o vigoroso gesto de afeto dos dois sacerdotes, gritou para o público: “Viva o Monsenhor Lucas!” E todos responderam: “Viva!” Novamente: “Viva o Monsenhor Lucas!” “Viva!” “Viva o Monsenh…!” Neste momento ele deixou cair o corpo já sem vida do Padre Marlos Apyus e com o sangue, que não era de Cristo, escorrendo pela batina, rangeu os dentes para os pretensos padrinhos. Um deles, menos atento e de raciocínio pouco prodigioso, ainda respondeu retardatário: “Viva!” Aquela saudação, porém, não poderia ser mais inadequada.

CONTINUA

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