A Cidade Morta – Parte 7

Repetindo mecanicamente gestos que realizava em vida, como é corrente entre os zumbis, a mãe se dirigiu ao Banco do Brasil da Afonso Pena. Entrou sem avançar contra ninguém. Foi direto a um dos caixas eletrônicos que encontrou desocupado e, ali diante do visor, parecia ser invadida por reminiscências de hábitos costumeiros, instintivamente posicionada diante da máquina, mas sem saber o que deveria fazer. Logo, alguém argumentou que “aquela senhora furou a fila”. Os protestos se multiplicaram e uma funcionária de colete amarelo foi pedir-lhe gentilmente que cedesse lugar para as pessoas que esperavam ordeiramente e de maneira adequada. No entanto, para supremo infortúnio da estagiária, a cliente investiu, mas não no banco, em suas ancas, causando alvoroço no recinto e a reação do segurança que, de arma em punho veio em socorro da funcionária mordida.

Os médicos que saíam dos dois hospitais, com dentes à mostra em sorrisos aterradores de psicopatas, olhos sem vida a mirar o vazio e atitudes firmes de presos amotinados contra todo e qualquer ser humano que cruzasse o seu caminho, eram apenas alguns dos muitíssimos tipos bizarros que surgiam de suas portas escancaradas para ganhar as ruas de Natal, espalhando medo, sangue, terror e morte. As primeiras equipes de TV que tentaram registrar o evento ao vivo foram devoradas diante dos olhos incrédulos de telespectadores de todo o Estado. Com isso, a notícia se espalhou um pouco antes da epidemia que também seguia a galope de jumento fugindo de cachorro brabo.

As pessoas dos mais distantes grotões da cidade passaram a fugir imediatamente. O caos tomou conta de tudo. Nas ruas em engarrafamento contínuo simplesmente pararam de circular automóveis. O número de acidentes nos cruzamentos, sob semáforos que ninguém mais respeitava, cresceu assustadoramente. As brigas e conflitos provocados pelas batidas de trânsito, tentativas de fuga e o próprio desespero típico de uma situação capital como aquela, cobravam também os seus óbitos. Muitos mortos por golpes de armas improvisadas, artefatos dos mais diversos convertidos em instrumentos de batalha. Atropelamentos, saques, gente pisoteada, acontecia de tudo na, outrora ordeira, cidade do sol.

Alguns com mais sorte, por estarem próximos dos limites da cidade ou por se encontrarem em trânsito, ao ouvirem as cataclísmicas notícias que chegavam pelo rádio ou TV, conseguiram se evadir rapidamente, numa diáspora revisitada, holocausto reloaded, alerta de tsunami. Todos só queriam fugir do apocalipse que se levantava e os perseguia, rente a seus calcanhares. Um cenário de Orson Welles se apoderou da cidade e arredores. Uma “Guerra dos Mundos” de HG Wells, narrada pelo cultuado cineasta, revivida agora no mais improvável dos cenários, tão distante do Central Park e próximo do Bosque dos Namorados. Por átimos de segundo, pensavam nos entes queridos e amigos do peito, deixados pra trás, pensamentos de pesar logo sobrepujados pela impotência justificadora de qualquer covardia. Sair dali era sinônimo de permanecer com vida. Muitos fugiam também a pé. Um sem número de atropelamentos fatais puderam ser vislumbrados nas BRs. Andarilhos que atravessavam na frente dos carros, implorando uma carona redentora, eram atingidos em cheio, sem nenhuma hesitação, pelos condutores, temerosos que eles fossem os infectados anunciados pelo rádio, que espalhavam uma espécie de “raiva” pelos bairros natalenses. De repente, um locutor em pânico começou a berrar ao vivo: “Saia daqui! SAIA! SAIA DAQUI! AAAAAAAAAH!!!!” A transmissão saiu do ar.

CONTINUA

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