A Cidade Morta – Parte 8

No interior do Estado também ocorreram muitas mortes quando as prefeituras decidiram armar barricadas nas entradas das cidades com ordem de manterem o vírus fora dos perímetros urbanos. Com isso, carros foram metralhados na entrada de Mossoró, Caicó, Currais Novos e principais interiores do RN. Em algumas cidades correram boatos que davam conta da origem da “raiva humana”, como vinha sendo chamada. Diziam que era uma derivação da hidrofobia comum em cães. Com isso, pessoas que criavam cachorros ou que haviam tido contato com esses animais passaram a ser assassinadas por seus vizinhos, amigos e até familiares em toda parte. A doença logo ganhou o apelido de “A gripe do cão” com mais de um sentido. Por isso, claro, os cachorros também foram dizimados.

O primeiro vereador a se transformar em zumbi foi justamente o primeiro na contagem de votos nas eleições anteriores. O apresentador Paulo Wagner discursava em plenário quando um guarda municipal maneta entrou e correu para ele. Ainda teve tempo de dizer “É a oposição raivosa atentando contra a minha idoneidade e moral! Este homem está me agredindo! AI, DANOU UMA DENTADA NO MEU BUCHO!” Os engravatados colegas, aspones, jornalistas e curiosos viram de seus assentos o guarda municipal zumbificado arrancar as tripas do político. Cena dura demais até para os mais destemidos como a vereadora Sargento Regina. A desordem instaurada não foi distinta de nenhum outro ambiente ao viver semelhante situação. Os políticos foram se dirigindo à saída tomados de horror, mas esta já trazia plenário adentro, toda uma turba de mortos caminhantes, ansiosos por provarem das carnes, órgãos e vísceras dos representantes do povo, sentir um pouco do gostinho de seu sangue, justo eles que eram acostumados a terem a atitude inversa, vivendo dos suores do povo que agora os comia ou transformava em neo-mortos.

Os zumbis veradores Júlio Protásio, Adão Eridan e Dickson Nasser talvez disputassem a liderança daquela nova comunidade da qual fariam parte. Porém, não tiveram sorte (sorte?) de semi-sobreviver aos ataques da população que, carente já em vida, tornou-se ainda mais necessitada de boas quantidades de carne que aplacassem sua fome, agora como mortos-vivos. Com isso, estes estimados políticos foram devorados por completo.

Ao verem aquele jovem fantasiado de monstro, as recepcionistas pensaram tratar-se de uma estátua viva que havia trocado o prateado noturno, por uma indumentária que pudesse usar durante o dia, numa performance estática em troca de algumas moedas. Acharam a iniciativa interessante, apesar do extremo mau gosto, pois deveria ter escolhido uma fantasia esteticamente mais agradável. Alex entrou na academia e dirigiu-se direto à recepção, atraído pelas duas belas garotas que ali trabalhavam. Parou diante de uma delas e, ao ouvir um elogio ao “realista que estava” sua fantasia, desferiu-lhe um beijo de língua. Desesperada por desvencilhar-se da atitude sedutora de micareta, a recepcionista se sacudia toda. Até porque, a decrepitude no hálito do morto já se evidenciava no odor sufocante. Foi Alex, porém, que interrompeu o beijo. Voltou-se para trás, levando consigo a língua da recepcionista que, não encontrou nenhuma solução melhor que não fosse desmaiar de dor. A segunda recepcionista também desmaiou diante da visão da cena. Do alto da escada da academia descia um professor de Jiu-jitsu muito alto e forte. Este atleta, por um mero acaso, namorava a garota que acabara de ser despojada de sua língua por Alex. Impressionado com a cena, desceu para espancar o zumbi, pois era mais urgente fazê-lo que socorrer sua consorte. Enquanto ele aplicava um golpe, uma chave no pesoço com o intuito de imobilizar e desmaiar o oponente, este lhe mordeu o braço. Logo, o professor subia novamente as escadas rumo ao pátio de exercícios da academia, acompanhado de Alex. Aquelas dezenas de pessoas se exercitando fariam ambos salivar, caso ainda dispusessem de alguma secreção corpórea. Como um cachorro diante de um frango assando e rodopiando, eles contemplaram por alguns segundos as meninas que corriam nas esteiras enfileiradas. Depois, cambalearam a passos de zumbi para aproveitarem o banquete.

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Uma resposta to “A Cidade Morta – Parte 8”

  1. Gabi Says:

    hahahah, quero so ver como vai terminar essa epidemia!

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