A Cidade Morta – Parte 9

Pelo Twitter, alguém deu a dica. “Acabo de matar meu pai. Tem que furar a kbça. Atirei nele c/ arpão.” Era um alento virtual aos vivos diante do tumulto real e geral. As lutas começaram a produzir as primeiras baixas zumbis, graças a essa nova informação propagada aos gritos pelos que fugiam em desabalada carreira pelas ruas, se escondiam em apartamentos ou refúgios improvisados, ou aglomeravam-se em lugares de difícil saída e flagrante desvantagem geográfica. Como no restaurante Buongustaio, por exemplo, uma ilha suspensa nos confins de Petrópolis, onde os empresários Paulo de Paula, Fernando Fernandes e uma infinidade de Patriotas, Flores, Gadelhas e afins viram-se cercados por centenas de homens, mulheres e crianças, todos gemendo e grunhindo, com os braços estendidos, arrastando-se para eles.

Alguns reconheceram ligeiramente os flanelinhas que costumavam guardar seus carros importados, sempre que estacionavam ali, algumas esposas vislumbraram vendedoras de lojas chiques localizadas próximas ao restaurante. Era como se aquelas camadas mais baixas da sociedade se insurgissem contra eles, cobrando finalmente uma fatia do bolo social, tudo o que eles temiam, que os pobres se organizassem contra o monopólio do dinheiro. A verdade é que, enquanto conversavam animadamente a espera do almoço, os comensais perderam todo o espetáculo dantesco que ocorria a sua volta. Agora, era tarde. Os zumbificados que sempre tiveram suas vidas exploradas pelos detentores do capital vinham agora virar o jogo, extraindo eles próprios as vidas dos corpos bem alimentados e fartos dos clientes do Buongustaio.

A esta altura, o Midway Mall, maior centro de compras da cidade, estava um caos. Mas nenhuma metamorfose ou experiência de ida-e-volta ao mundo do além foi registrada. É que o dia-a-dia do lugar era marcado pela loucura frenética de uma população sem opções que acorria às vitrines das lojas à guisa de entretenimento, que sucumbia aos apelos fáceis do capitalismo rasteiro para compensar a falta de cultura e educação. Também havia os que se refugiavam nos ar-refrigerados e praças de alimentação constantemente vigiadas dos centros comerciais, da rua lá fora, cada vez mais ameaçadora nesta Natal de sequestros relâmpagos e assaltos a mão armada. Quando a turba alucinada e sem vida invadiu o shopping numa horda numerosa, muitos pensaram se tratar de uma ação de marketing, como o lançamento de uma nova loja âncora ou ainda uma dessas mobilizações ruidosas convocadas pela internet para chamar a atenção promovidas por adolescentes com os hormônios em erupção. O fato é que logo, os zumbis vivos que se arrastavem pelo Midway se converteram em zumbis mais autênticos dada a ação dos muitos que entravam para lhes enfiar os dentes nos couros, devorando bem mais que os sanduíches do Pittsburg ou as carnes da Montanna Grill.

CONTINUA. AMANHÃ: PARTE FINAL.

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2 Respostas to “A Cidade Morta – Parte 9”

  1. Orlando Seabra Says:

    Continua?

  2. Carlos Fialho Says:

    Continua sim.
    Nesta sexta, a parte final!

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