A Cidade Morta – Parte Final

A prefeita ficou sabendo da epidemia, ou que pelo menos havia algo de muito estranho acontecendo, através do seu assessor pessoal. A maneira, porém que o braço direito da gestora escolheu para revelar a verdade não poderia ter sido pior. Ele entrou em seu gabinete quando ela estava sozinha. “Oi. Tenho que despachar uns assuntos com você.” Aproximou-se da mesa da prefeita e com as duas mãos em seu pescoço, apertou com força e suspendeu-a bem alto até sufocá-la. Ela não teve nem tempo hábil para pensar o porquê de aquilo estar acontecendo e logo por meio de seu seguidor mais fiel. Depois de morta, o assessor para todos os assuntos deixou o corpo inerte da prefeita sobre a mesa oficial. Estranhamente, o zumbi assessor não quis morder ou sequer devorar a antiga chefe. Contentou-se em matá-la, uma atitude incomum a sua natureza de morto caminhante, inexplicável até mesmo para os maiores especialistas no assunto.

A zona norte da cidade também já começava a sentir os efeitos da contaminação. Milhares de mortos viventes andavam pela Ponte Newtom Navarro ou pela Ponte de Igapó, no afã de compartilhar com os irmãos do hemisfério mais populoso da capital, o que eles tinham para lhes oferecer. A residência do Deputado populista símbolo da localidade foi transformada em trincheira por centenas de fiéis seguidores e eleitores do político. A Governadora estava desaparecida desde o fim da manhã. Havia sido vista pela última vez numa solenidade no Centro Administrativo ao lado do vice, que concorreria para o cargo majoritário do governo, e de alguns secretários. O ponto alto da festa foi quando o seu filho, que também era candidato nas eleições, adentrou o evento zumbificado e causou mais um escândalo para sua administração ao morder diversos dos presentes. Aliás, o filho da gestora, que era candidato a deputado estadual, já havia abocanhado bastante durante o governo da mamãe.

Uma tropa de altos mortos viventes, sarados, outrora saudáveis e atletas marchavam pela cidade, saídos todos da academia Athletica. Na frente Alex de Souza, o paciente zero da epidemia, ladeado pelo Deputado Federal e empresário dono da academia, muitos alunos e instrutores de musculação e ginástica, além da namorada do político e empresário, a artista Preta Gil. O zumbi Federal parecia ser o mais satisfeito com sua recém adquirida condição de morto. Era como se tivesse descoberto, após a morte, a verdadeira razão por que nascera. Observando-o mais atentamente, poderíamos até dizer que parecia mais inteligente morto do que quando em vida.

A noite caía na capital potiguar e a profecia da prima gostosa de Alex de Souza finalmente se cumprira. “Natal é uma cidade muito morta…” Os que não conseguiram fugir, ou haviam se convertido em mortos-vivos, ou em mortos-mortos, ou estavam em bunkers improvisados, muito bem ocultos, como um pequeno grupo que se refugiou no Gringos, bar Rocker de Ponta Negra, bairro turístico da cidade convertido em zona de prostituição pelas autoridades.

Os zumbis tinham que caminhar cada vez mais longe para conseguir boa carne humana, fresca e nutritiva. Um grupo de sobreviventes que fugia em um carro na BR 101 desde um supermercado da Avenida Roberto Freire parou no meio da pista por falta de gasolina. Agora, estavam ali, sujeitos aos ataques certos dos mortos que tomaram conta da cidade. Não demorou muito para eles serem completamente cercados por uma multidão.

De repente, ante o pânico generalizado daqueles 5 condenados, do desespero que a morte próxima, o fim iminente e inevitável, traziam, viram um grupo de mortos mais fortes abrirem caminho entre os demais. Eram os zumbis anabolizados da Athletica, o Deputado Zumbi entre eles, transformados em lacaios e escravos por Alex de Souza. Acontece que uma das pessoas que constituía aquele grupo fugitivo era, ninguém menos, que a prima, objeto de seu afeto, que faltou a sua missa de (suposta) despedida.

Ela reconheceu o primo e, em seus olhos brilhou uma centelha de esperança de escapar com vida daquela situação absurda. “Meu primo lindo.”, disse chorando. “Por favor, peça pra eles não machucarem a gente, peça pra eles não machucarem a gente.”, implorava de joelhos. Alex ergueu a prima e olhou diretamente em seus olhos. Parecia lembrar de algo, de reconhecer alguém do passado. Queria lhe dizer alguma coisa, exprimir um sentimento, um desejo, querer retomar o fluxo sanguíneo, que abandonou suas veias. A prima retribuía o olhar como quem se agarra a uma possibilidade única de escapar. Alex então, rápido e preciso, deu o bote. Matou a prima rapidamente, sem dor, enquanto a multidão em sua volta, avançava sobre os outros 4 do grupo sobrevivente.

Alex, após a morte, realizou finalmente o seu grande sonho, quando em vida. Comeu a prima e constatou o quanto, de fato, ela era gostosa. Não foi exatamente da maneira que ele havia imaginado, mas, a essa altura dos acontecimentos, não fazia lá muita diferença.

E verdade seja dita: Natal é mesmo uma cidade muito morta.

FIM

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2 Respostas to “A Cidade Morta – Parte Final”

  1. Orlando Seabra Says:

    Muito bom!

  2. marcio Says:

    lapa de texto, fialho!

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