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Coluna da Digi # 68 – Pra cima!

setembro 29, 2010

No dia 10 de agosto de 2009, publiquei na Digi uma crônica a respeito do então mais recente filme da Pixar, “UP – Altas aventuras”. Quem me conhece sabe que sou fã da empresa e dos seus produtos fílmicos, inclusive colecionando os DVDs. Republico aqui no blogue e recomendo a todos este e todos os demais filmes da Pixar.

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Pra cima!

Sou suspeito para comentar qualquer coisa a respeito das produções da Pixar. Há muito deixei de ser um mero admirador  e espectador satisfeito para me tornar aficcionado por tudo o que eles nos trazem ano após ano. A diversão levada a sério, com uma preocupação genuína em contar boas histórias, amparadas por ótimos roteiros, situações envolventes e um cuidado obsessivo com os detalhes, que certamente faz a diferença. Nenhuma ponta solta, nenhum acontecimento sem propósito, as referências, a trilha sonora como elemento essencial à narrativa, a capacidade de encantar (e a palavra é bem essa mesmo) crianças e adultos em igual medida são características inerentes a Procurando Nemo, Os Incríveis, Carros e todos os outros.

Ano passado, eles bateram um recorde de capricho ao realizarem um filme que chegou muito perto da perfeição, se é que isso é possível. Gosto de criar meu próprio ranking pessoal de melhor show, livro ou filme de cada ano. E em 2008, Wall-e, produção da Pixar, sobre o robozinho solitário que se apaixona e corre atrás de sua Eva, atingiu com folga o primeiro lugar desta criteriosa lista pessoal na categoria cinema. Arrisco dizer, após ter visto Wall-e que, os desenhos do estúdio são o casamento perfeito do entretenimento com a arte. E quando digo arte, faço-o com enorme respeito para o que essa palavra representa. É arte mesmo, no sentido mais sagrado do vocábulo, representando tudo aquilo que vale a pena ser lembrado, merecendo seu lugar na tão criteriosa posteridade. Filmes que são importantes hoje e que o tempo os tornará clássicos.

A primeira meia hora de Wall-e é antológica. São 30 minutos de um absoluto silêncio em que a trilha sonora elaborada por Peter Gabriel nos embala, mostrando a rotina do robozinho na Terra arrasada e abandonada. Longe de ser monótono, o efeito é, na verdade, hipnótico. Adultos, crianças e os que não temos certeza, todos!, de olhos arregalados, sem ação, sem palavras, diante da beleza das imagens, da maestria da fotografia, das sutis trapalhadas do simpático herói.

Essa semana assisti “UP”, a mais nova película da turma do Steve Jobs. E, jovens, eles conseguiram de novo! Mais um filmaço pra lista de produções imperdíveis da Pixar. A história do velhinho que viaja à América do Sul com balões (isso, isso, exatamente como aquele padre maluco quis fazer.) diverte, encanta, satisfaz, vale cada centímetro de celulose e cada minuto investidos pelos muitíssimos profissionais que devem ter trabalhado nela. A passagem em que se conta a vida do velhinho e de sua esposa com música e imagens é emocionante. E a história, redundância seja dita, está magistralmente bem contada.

O curta-metragem que antecede o filme também repete o desempenho de todos os seus antecessores. Um quê de genial e muito divertido. Além disso, a boa notícia fica por conta do próximo filme que vem por aí: Toy Story 3. Woody, Buzz e todos os brinquedos que nos trazem lembranças irresistíveis de nossas infâncias com suas deliciosas referências a quem foi criança naqueles confusos anos 80.

UP é outra demonstração de excelência técnica e artística desses criadores mágicos, bruxos do entretenimento. Segue à risca, o altíssimo padrão de qualidade ditado por Monstros S.A, Vida de Inseto e todos os outros que, por ventura, eu não tenha citado aqui. É ótimo para quem, como eu, adora desenhos animados ou boas histórias contadas na tela grande. O filme mantém a Pixar no mesmo patamar onde sempre esteve, bem acima dos concorrentes. Eles parecem levar a sério o jargão do patrulheiro estelar Buzz Lightear: “Ao infinito e além!”

Coluna da Digi # 67 – Leonardo Panço, o bluesman do Rock.

setembro 27, 2010

Dando sequência à série de crônicas exaltando o trabalho de pessoas que adimiro em razão do excelente trabalho realizado em diversas áreas, publiquei na Digi uma coluna no dia 03 de agosto de 2009, homenageando o músico e escritor Leonardo Panço, líder do Jason e autor do livro “Caras dessa idade já não lêem manuais”. Fiquei feliz em direcionar mais esse elogio a um alvo mais que merecedor.

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Leonardo Panço, o bluesman do Rock.

Essa é mais uma crônica da série Realizadores. Dessa vez, o personagem é o carioca Leonardo Panço, guitarrista, líder da banda Jason, escritor e um homem de atitudes corretas e muitíssima iniciativa. No fim dos anos 90 e início dos 2000, eu já era muito fã da banda do Panço ( e continuo até hoje, diga-se). Eles vinham todos os anos tocar no Nordeste, passavam por Natal e alguns amigos em comum me arrastaram para uma dessas visitas. Na ocasião tocariam Ravengar, Memória Rom e Jason. Naquele primeiro show fiquei impactado com o hard-core bem humorado dos rapazes do Rio, a presença de palco e ótima voz do vocalista Vital e as letras sagazes do Flávio Flock, misturando deboche com a medida certa de agressividade, soando sempre como um divertido desabafo. Não me restava alternativas a não ser me tornar imediatamente um admirador da banda e comparecer a todas as apresentações dos caras por Natal dali até o fim da vida, do grupo ou do mundo.

Anos depois, quando saiu meu primeiro livro, o “Verão Veraneio”, que fazia diversas referências ao Jason e suas letras em contos e crônicas e incluía seu nome nos agradecimentos, eles vieram a Natal mais uma vez. Compareci ao concerto no “Centro Cultural Dosol” junto com algumas dezenas de espectadores que cantavam junto todas as músicas, como o hino dos solteiros convictos “Que bom que eu não amo ninguém”: “Que bom poder ficar sozinho todo dia/ Que bom comprar só um ingresso na bilheteria/ Que bom não dizer onde, como nem porque/ Que bom ver um jogão de futebol e torcer/ Que bom que eu não amo ninguém, NINGUÉM! / Quem bom que eu não amo ninguém.” A certa altura do espetáculo, Ânderson Foca, diretor do Centro, me disse que quando terminasse o show, Panço queria falar comigo. Ele recebera de Foca um exemplar de “Verão Veraneio” e ficara curioso com aquele fã que registrou em livro sua preferência.

No camarim do Dosol, uma conversa rápida, troca de e-mails, MSNs e ganhei o primeiro livro do autor: “2001 – uma odisséia na Europa”, do tempo em que odisseia ainda levava acento. A obra contava a viagem de 80 dias e 60 shows que a banda fez no velho continente no início do milênio. Dali pra frente a amizade prosseguiu e tomamos uma cerveja nos Rios, Grande do Norte ou De Janeiro. O Panço se tornou leitor de vários outros autores potiguares: Daniel Minchoni, Thiago de Góes, Pablo Capistrano e Patrício Jr.

O tempo foi passando quando em 2008 ele decidiu lançar o seu segundo livro: “Caras dessa idade já não lêem manuais”, uma seleção de crônicas e alguns contos curtos repletos de diálogos inspiradíssimos. Para minha surpresa e enorme alegria, fui convidado para escrever a orelha do novo rebento. Recebi o arquivo PDF e tinha uma semana para ler, redigir e remeter o texto de pouco menos de uma página de A4. Em meio a uma correria danada de trabalho, cumpri a missão, sentindo-me culpado, pois sabia que poderia tê-lo feito melhor. 

Menos de 2 meses depois, chega a minha casa alguns exemplares para que eu pudesse guardar o meu e distribuir os demais para alguns leitores privilegiados da terrinha. Na ocasião, aproveitei para reler o livro com mais calma e atenção. Foi aí que a ficha caiu. Fiz uma orelha muito aquém do alcance e da relevância da obra. “Caras dessa idade já não lêem manuais” é um dos melhores livros de crônicas que li nos últimos anos. Sua importância passa despercebida em meio à simplicidade com que foi escrito, editado e lançado. Discretamente, sem grandes publicidades ou chamarizes. Entenda-se que simplicidade é diferente de simploriedade e a edição é bela e caprichada.

Porém, tanta discrição é marca registrada do nobre Leonardo Panço, um homem que há muito tempo decidiu fazer em vez de falar e sair por aí tocando sua guitarra, fazendo o seu som, divulgando seu trabalho. Foi assim, meio na surdina, que o Jason já fez mais de 200 shows na Europa, uns 300 pelo Nordeste do Brasil, lançou 5 CDs no Brasil e 2 na Alemanha, o Panço publicou 2 livros, foi produtor da turnê dos Replicantes no velho continente.

Voltando ao livro, Panço fala de viagens, lugares, descreve sensações e propõe reflexões diversas. Reflexões que são suas, mas que poderiam ser de qualquer um de nós. Por meio de questionamentos, aparentemente simples, ele lança de uma forma introspectiva e intimista, perguntas profundas sobre até que ponto vale a pena fazermos certas coisas, se não seria bom ficarmos sozinhos vez em quando, quem são nossos verdadeiros amigos ou o que faz um lugar ser “um lugar do caralho!”

Permeando os textos, engendrados com talento e estilo próprios, existem termos familiares, referências mil do universo pop e acabamos nos sentindo cúmplices do autor ao reconhecermos algumas citações em comum que fizeram parte da vida dele tanto quanto da nossa. Partes como “E como todo mundo sabe Jacarepaguá é longe pra caramba” ou “Na festa estranha com gente esquisita havia uma mesa de sinuca no canto da sala.” fazem com que nós sáibamos exatamente do que ele está falando.

Maneiras peculiares de tratar de assuntos comuns dão uma certa leveza às crônicas, nos deixando com um sorriso permanente no rosto enquanto vamos (rapidamente) avançando na leitura:  “Ele ainda estava com aquela sensação incômoda de não estar muito certo sobre ter feito a coisa certa. Uns dizem ser coisa do signo. Uma certa dificuldade em tomar decisões. Escolher entre isso e aquilo.”, e “Às vezes pensava que a chance de conhecer pessoas legais nos lugares novos seria maior se eu fosse sozinho. Afinal, teria que puxar assunto com alguém ou estaria sozinho o tempo todo. O que talvez não fosse má ideia.”, e ainda  “Uma canção deve ser respeitada como uma pessoa que você gosta muito, mesmo que elas não existam em grande quantidade.”

Em certa altura, Panço fala sobre um conceito que ele elaborou a partir da capa de um livro do Robert Crumb. Tratava-se do que viria a ser um “bluesman” pra ele. Para ele, desde que aquela capa do Crumb penetrou em sua memória e nela fez morada, um bluesman passou a ser um cara que cai na estrada tocando sua música, viajando na direção que o vento levar. “Só aceitando que o vento te sopre ou soprando o vento para outra direção. Bob Dylan falou algo assim?”, pergunta na crônica em que propõe o tema.

Conforme escrevi na orelha do livro, “Sensações. O livro do Leonardo Panço nos levam a ter muitas delas. Ele nos descreve sentimentos, lugares, pessoas e situações, mas está longe de ser uma obra descritiva, entenda-se chata. Panço delineia lugares, apresenta personagens, expressa seus sentimentos, faz suas descrições, enfim, sem nunca interromper a ação. É como se nos convidasse: “Vem comigo. No caminho, eu te conto tudo.” E nós seguimos com ele, sentindo suas sensações e vivendo suas histórias.”

Frio, sono, fome. Sonhos ruins. Sensações de distância, angústia, deslocamento. Com naturalidade e de forma bem coloquial, o cronista cria uma intimidade com o leitor. Ler “Caras dessa idade já não lêem manuais”, vai fazer de você também um amigo do Panço, um autêntico bluesman do Rock que sai por aí conhecendo pessoas, tocando sua guitarra e voltando sempre para nos contar em suas excelentes crônicas.

Coluna da Digi # 66 – Realizadores: Valério Medeiros

setembro 24, 2010

Publicado na coluna da Diginet em 07 de julho de 2009.

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Há algumas colunas, escrevi sobre o filme “Sangue do barro” de Fábio de Silva e Mary Land Brito. Gostei de falar de um amigo (no caso, Fábio.) que fez um bom trabalho em sua área. Por isso decidi fazer isso de vez em quando e vou chamar essa série de crônicas de “Realizadores”. Hoje (07 de julho de 2009), trago mais uma dessa série. Um arquiteto natalense que está fazendo um trabalho da maior importância lá em Brasília. Senhoras e senhores, com vocês: Valério Medeiros!

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 Realizadores: Valério Medeiros

Valério Augusto Soares de Medeiros é uma dessas pessoas extraordinárias com as quais a gente convive durante um certo período da nossa vida. Inteligentíssimo, de uma cordialidade bastante distinta, detentor de caráter e maturidade incomuns para um adolescente. Aos 15, já era a prova viva de que existem alguns seres humanos mais evoluídos do que outros. E antes que eu seja acusado de pregar a eugenia, explico o que entendo por ser humano evoluído: alguém cuja compreensão de mundo se dá de forma tão ampla que não guarda sentimentos mesquinhos e negativos, preocupando-se basicamente com o bem comum das pessoas que o cercam e do mundo em geral.

Valério sempre foi assim. Generoso, fazia questão de dividir sua capacidade intelectual fora do comum com quem quer que precisasse fazer uso dela. Além de tirar 10 em todas as matérias do colégio, escrevia com talento e desenvoltura invejáveis, além de ter aptidão para desenhar. Com tantos atributos, nós, seus colegas e amigos, sabíamos que o seu destino era ser bem sucedido qualquer que fosse a carreira escolhida por ele. Hoje, são os arquitetos que têm o privilégio de chamá-lo de colega de profissão. Aliás, primeiro lugar no vestibular da UFRN.

Um entre muitos primeiros lugares acumulados durante a vida. Venceu o concurso de monografias “O Senado das Mulheres”, promovido pela Fundação Vingt-un Rosado e também levou a primeira colocação num concurso nacional de redação do Ministério da Marinha com o tema “A importância do mar para o Brasil”. Na ocasião, recebeu o prêmio do próprio Presidente da República.

Hoje Valério é pesquisador da Universidade de Brasília e arquiteto da Câmara dos Deputados (Antes que alguém pergunte, nenhum político conseguiu esse emprego pra ele. Prestou concurso e passou em primeiro lugar.). Fazia um tempo que eu não sabia notícias dele até que, meio por acaso, li seu nome nos jornais.

Valério havia desenvolvido uma pesquisa na qual analisou as condições de tráfego de 164 cidades do mundo, incluindo 44 cidades brasileiras, identificando quais as melhores e piores cidades para se transitar e quais os fatores que influenciam para a fluidez dos carros. Numa época em que todas as capitais brasileiras sofrem com a lentidão do trânsito e as autoridades buscam incessantemente soluções para desafogar as ruas e avenidas, a pesquisa do arquiteto potiguar lança uma luz sobre o tema, uma vez que permite identificar razões para que as cidades melhor colocadas ocupam tais posições e seguir exemplos que possam evitar os nefastos engarrafamentos tão comuns nessa chuvosa cidade do sol.

De posse dos mapas de 164 cidades do mundo, Valério estudou todas as rotas e trajetos possíveis de serem percorridos e calculou (com a ajuda de um programa de computador) o “grau de integração” entre os caminhos. O estudo resultante de seu trabalho está a disposição de urbanistas de todo o Brasil e deverá dar uma enorme contribuição ao trânsito das cidades brasileiras e na consequente melhoria da qualidade de vida das populações. Ou seja, nesses anos todos, Valério Medeiros não mudou nada. Continua dividindo generosamente seu conhecimento com as pessoas. Ainda bem. Quem ganha com isso somos todos nós. 

A Arte de Caio Vitoriano 3

setembro 22, 2010

Veja mais obras de Caio Vitoriano no www.flickr.com/caiovitoriano

A Arte de Shiko 2

setembro 21, 2010

Mais Shiko. Para verem a obra completa, acessem: www.flickr.com/derbyblue

Coluna da Digi # 65 – Pelo amor dos meus filhinhos!

setembro 20, 2010

Essa crônica foi publicada no dia 21 de junho de 2010. É toda baseada em um relato verdadeiro que ocorreu com um amigo meu que pediu para não ter o seu nome divulgado. Por isso, vou guardar segredo e não direi a vocês que se trata do Thiago Lajus.

Boas risadas!

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Pelo amor dos meus filhinhos!

Será que existe um método científico para medir a virilidade? Algum procedimento feito em laboratório que indique se um cara é mais macho que outro. Ou se é macho o suficiente para os níveis de macheza exigidos pela sociedade contemporânea. A resposta é não, pois a ciência não avança na mesma velocidade que o metrossexualismo. Em todo caso e na falta de algo melhor, existe um exame que mede a fertilidade masculina. É o espermograma. E, como estou chegando aos 30 no próximo mês, resolvi me submeter para saber se meus meninos corredores estão em forma.

Procurei um laboratório bem recomendado, próximo à Afonso Pena, a nossa Oscar Freire. Liguei, marquei com antecedência e estava lá na hora marcada. Fazer o primeiro espermograma me lembrou bastante da vez em que comprei minha primeira Playboy. Aliás, não por acaso, pois o produto das duas experiências foi o mesmo. Na época, o carinha da banca perguntou: “Seu pai deixa você comprar essa revista?” Eu respondi que sim, né? E nem foi exatamente uma mentira. Eu sabia que meu pai aprovaria se soubesse que eu queria ver mulher nua. Ficaria bravo se eu quisesse comprar uma Capricho, isso sim.

Mas vamos nos concentrar no assunto da crônica: o exame. Cheguei meio acanhado no laboratório como um adolescente comprando camisinhas na farmácia. O lugar estava lotado de clientes, esperando para fazer testes com seus mais diversos fluidos e excreções corporais. Isso me deixou mais tranquilo, pois as pessoas não saberiam o que eu fora fazer lá. Eu poderia pregar um esparadrapo no braço para me passar por um destemido paciente de exame de sangue. Fezes não ia colar, não estava tão arrumado. E urina… francamente, coisa mais sem graça. Dirigi-me tão discreto quanto pude à recepção, identifiquei-me e a recepcionista gritou: “Doutor! O paciente do espermograma chegou!” Desmascarado na frente de toda aquela gente da sala de espera, rezei para me encaminharem logo pra um quartinho, quando a moça pediu: “Espera um pouco até o doutor lhe chamar, por favor”.

Depois de intermináveis 5 minutos, o médico me convocou para estar diante dele. O doutor era um senhor de uns 80 anos bem vividos, mas parecia estar mais sem graça que eu. “Você sabe o que fazer, né, meu filho?” “Er, acho que sim.” “Você vai ter que se masturbar e colocar nesse potinho aqui.” “Tudo bem. Parece ser algo que sou capaz de fazer.” Tive vontade de dizer inclusive que tenho bastante prática, que sou muito bom nisso e que já me pus a fazê-lo até debaixo d’água, tentando balancear o ph de nosso mar, mas julguei dispensável. Outra coisa que eu poderia ter mencionado era a medida do “potinho”. Era mais ou menos do tamanho de uma lata de Leite Ninho. Quando eu o segurei, pensei de imediato: “Putz! Será que eu tenho que encher todo?” Porém, tudo o que eu perguntei foi: “Pra onde devo ir, doutor?” “Vá no banheiro à direita no corredor. Quando sair, deixe o pote com a enfermeira.” E lá fui eu, como um bom técnico, botar os meninos pra correr direto pro pote.

Sabe aquelas histórias que os caras das clínicas dão umas revistas de mulher pelada ou deixam você ver uns filmes de sacanagem pra criar um clima? É mentira, gente! O banheiro é tão impessoal quanto se pode ser impessoal e a coisa mais próxima de excitante que tem lá dentro é o sabonete. Então, bota a cabeça pra funcionar, apele pras suas musas e empreenda com força na libidinagem imaginativa pra o seu negócio crescer. Era justamente o que eu estava fazendo quando ouvi uma cantoria “Seguuuuura na mão de Deeeeus! Seguuuuura na mão de Deeeeus!”. As paredes do banheiro eram finas demais e dava pra ouvir a tiaziinha da limpeza do lado de fora mandando ver na música gospel. Além de a voz dela ser bem ruinzinha, algo como uma Heloísa Helena protestando contra o Mensalão, a cantoria só me fazia lembrar das freiras do Colégio das Neves e do ambiente ascético e nada excitante da capelinha que tinha lá. Broxei.

Para encurtar um pouco a história, consegui. Depois de muito estímulo e concentração, os meninos correram e saltaram bonito dentro do potinho. Deixei o vidrinho com a enfermeira. Aliás, as enfermeiras também não tem nada a ver com tudo o que carinhosamente idealizamos delas no nosso incosciente distorcido de maníacos sexuais amadores que somos. Quando eu já saía da clínica, sereno e introspectivo, com uma sensação gostosa de missão cumprida mesmo após mais de meia hora de tentativas, a recepcionista me chamou. “Foi tudo bem lá dentro?” Fiquei pensando no que responder pra ela. Eu poderia partir pra linha mais empolgada: “MARAVILHOSO! SENSACIONAL! ESPLÊNDIDO! Foi uma explosão de emoção e de muita excitação que culminou no inigualável conteúdo do potinho de vidro!” Eu também poderia adotar uma linha alarmista: “Minha senhora! Me ajude! Foi tudo tão horrível e demorado! Deve haver algo errado comigo! FAÇA ALGUMA COISA POR MIM!” Decidi simplificar as coisas: “Foi sim. Tudo bem.” “Muito obrigado, senhor. Entraremos em contato para o senhor vir pegar o resultado.”

O resultado! É muito difícil para mim falar sobre ele assim, na lata. Chegou semana passada e, segundo me explicou o doutor, está “dentro da normalidade”. Meu esperma é homogêneo, de cor branco acinzentado e demora 20 minutos para se liquefazer. O tolerável é até 30 minutos. Meu PH é máximo. Num nível que vai de 7 a 8, meus meninos obtiveram média 8. O volume também  me deixou feliz: 4,5 numa escala aceitável que vai de 2,0 até 5,0. A viscosidade é normal e o odor é “próprio”. Esse último quesito me pôs a pensar. Existe uma profissão de cheiradores de esperma? E você aí reclamando do seu emprego! Tsc, tsc, tsc. O número de hemácias e leucócitos também está bom e a população (confesso que me emocionei um pouco quando li) é de 52 milhões de espermatozóides por milímetro cúbico. Densidade demográfica invejável. Tive ganas de dar nomes a todos eles, meus filhinhos. Mas estou sem tempo hoje e vou deixar pra depois. A contagem diferencial morfológica, que chamo carinhosamente de “que-porra-é-isso?”, também teve porcentagens seguindo os padrões exigidos pelo Inmetro ou pela OMS ou seja lá por que órgão regule os espermas em nosso país. Por fim, os dados sobre motilidade. Após uma hora, 70% dos espermatozóides que saem de casa apresentam “motilidade progressiva rápida”, 5% demonstram uma “motilidade progressiva lenta”, 5% uma “motilidade não progressiva” e 20 % ficam imóveis. Esses 20%, eu deduzo que tenham parado pra fumar um cigarrinho ou algo que os espermatozóides fazem nas horas vagas, quando não estão correndo feito uns malucos.

O fato é que a leitura deste exame não me fez nada bem. Fiquei um pouco desapontado. Sabe aquele romantismo que a gente tem pelos nossos incipientes filhotinhos? Todo aquele papo de sermos os guardiões do néctar da vida? Pois é. Nada como a frieza da linguagem médica para acabar com tudo isso. Para mim, que comecei nas crônicas escrevendo um texto chamado “galado” (e galado vem de gala, todos devem saber disso.) o resultado desse exame foi especialmente impactante.  E isso não é nem um pouco gozado. Com trocadilho, faz favor.

Sim, fui eu que escrevi “O Raqueiro”!

setembro 17, 2010

Um professor ou professora passou para seus alunos a tarefa de me perguntar se fui eu que escrevi a crônica “O Raqueiro”. Desde ontem tenho recebido comentários aqui no blogue a respeito disso. A resposta é SIM. O texto é meu. Na própria postagem do texto aqui no blogue, vocês podem constatar isso, pois eu explico no início como tive a ideia de escrever a crônica.

Quero agradecer à professora ou professor que passou um trabalho sobre um texto meu. Muito legal isso. Agradeço também aos estudantes pela leitura e, por favor, me digam qual a escola de vocês, quem é a professora, e em quê consiste o trabalho.

Digam à professora também que, desde já, me coloco à disposição de ir à sala de aula de vocês para bater um papo sobre esse e outros textos.

Saudações,

Carlos Fialho

Rugby. Isso ainda vai ser grande no Brasil.

setembro 17, 2010

A campanha da Topper para promover o rugby brasileiro está sensacional. É dessas ações de marketing institucional memoráveis que promove uma diferenciação na marca, gera empatia instantânea e funciona tão bem que parece até entretenimento. Quando o publicitário consegue inverter o fluxo da comunicação e faz com que os consumidores procurem o anúncio de tão bem feito, imaginativo e divertido que ele se mostra, ele sabe que fez um bom trabalho. E da próxima vez que eu for comprar um produto esportivo, vou pensar seriamente em adquirir um Topper pela boa impressão que a comunicação me causou. Veja os comerciais e divirtam-se!

Coluna da Digi # 64 – Mano Celo Prefeito

setembro 17, 2010

Em 17 de junho de 2009, eu havia lançado o livro “Mano Celo – O rapper natalense” havia menos de 1 mês. Por isso, resolvi publicar parte do conteúdo na coluna da Digi. Dessa forma, poderia promover o livro, despertando a curiosidade dos leitores da Digi. Acho que deu certo. O livro praticamente esgotou. 🙂 No texto, eu brinco com a história dos filhos de políticos concorrerem a cargos públicos para sucederem seus pais.

Divirtam-se!

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Mano Celo Prefeito

O pleito daquele ano foi muito bom para alguns amigos pessoais do Sr. Maurício Dutton. Políticos experientes e tarimbados, velhos caciques, como diz o povo, ou representantes das antigas oligarquias, para os analistas, conseguiram eleger seus filhos deputados. Meninos de ouro, educados no sudeste, empresários de sucesso precoce, incompetentes, é bem verdade, mas paradoxalmente de sucesso. Por mais que seus conhecimentos de contabilidade não chegassem à tabuada de 7 e a noção de gestão não sirva nem pra administrar as mesadas recebidas dos painhos (gordas, polpudas e estribadas, diga-se de passagem, ao contrário dos desnutridos, pobres e famintos que os elegeram), as empresas que eles herdaram ou ganharam de presente, prosperavam exponencialmente conforme seus nobres genitores se mantinham na crista da onda, ou seja, no poder.

Logo, cogitou-se então, no embalo do sucesso dos meninos, um novo prefeito para Natal, alguém de pouca idade, que passasse para os eleitores a imagem da renovação, o viço da juventude e a disposição para o trabalho que ele cosmética-publicitaria-marqueteira-espertamente pareceria ter. Os garotos prodígios recém-eleitos deputados não se animaram muito com a idéia. Deixar de ficar em Brasília, propondo um projetinho aqui, outro acolá, participando de uma votaçãozinha de vez em quando, negociando uma ou outra benesse, vantagem, favorecimento, lendo uns discursozinhos redigidos por algum assessor letrado e, nas horas vagas (que seriam muitas), poderiam torrar a verba de gabinete em festas nababescas, cheias de mulheres, bofes, banquetes e o que mais se pudesse consumir, ingerir, beber ou cheirar, enfim, não parecia lá uma grande idéia ter que voltar a Natal pra trabalhar.

Então a solução seria radicalizar de vez. Propor um nome realmente novo no cenário político. Alguém que embarcasse na onda da renovação rumo à vitória nas próximas eleições municipais. Um candidato que respondesse aos anseios da população por mudanças.

Porém, a radicalização não poderia fugir ao controle dos líderes políticos. Seria uma passagem de bastão supervisionada, promovida, financiada, endossada e patrocinada pelos velhos nomes do tabuleiro do poder local. Em resumo, o novo nome não passaria disso: um nome. Novo, mas só um nome. O real comando da cidade ficaria a cargo dos velhos protagonistas, atores de enredos arcaicos e sem finais felizes, a não ser para eles.

Nesse ambiente favorável de efervescência eleitoral, logo surgiu o nome da família Dutton. O Sr. Maurício, empresário bem sucedido nos ramos de exportação e importação, educação e construção civil, figurinha fácil das colunas sociais, com bom trânsito nos diversos setores da sociedade, cunhado de um ilustre investidor do setor hoteleiro, irmão de um deputado estadual bem-avaliado, que quase nunca se envolvia em escândalos. E, como que por encomenda, o Sr. Maurício tinha um primogênito em idade perfeita para assumir o papel que seria conveniente a todos. Um paladino da mudança, baluarte da renovação, agente da transformação, herói dos novos tempos, príncipe de uma nova era: Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Gadelha Dutton, o Mano Celo, irmão dos desvalidos, irmão dos humilhados, irmão dos oprimidos e irmão da Marcinha, aquela puta!

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–          Marcelo, eu já disse mais de mil vezes que esse negócio de rap não tem futuro, rapaz!

–          Isso é arte, pai. E justiça social, tá ligado? É futuro sim. Futuro e opção pra muita gente carente.

–          Ah, quer dizer que você está engajado em projeto de assistência a comunidades carentes? Isso é bom, Marcelo. Pode render muitos votos e…

–          Votos?! Que é que há, Sr. Maurício? Que história de votos é essa?

–          A oposição quer que você seja o candidato a Prefeito de Natal.

–          Eu? Político? Sai fora, mano!

O pai tentou explicar que a cidade precisava de um novo nome para comandar seus destinos. Alguém jovem e cheio de energia. Um candidato cujos ideais pudessem trazer valores positivos para a gestão municipal e que significasse um sopro de novidade e dignidade para o povo. Sr. Maurício disse estar convencido de que esse nome era o de Marcelo. Desconfiado, o Mano Celo perguntou quem mais achava isso. E os nomes de políticos tradicionais, amigos de seu pai, não agradaram nada. Ficou claro para ele que não é nem um pouco bobo, que uma vez vitorioso, ele passaria a ser apenas um testa de ferro de grupos tradicionais.

Em todo caso, ficou de pensar e foi dormir.

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–          Acorda. Acorda Dr. Marcelo.

–          O que houve? Mano Fuinha?! O que você tá fazendo todo alinhado? E que lugar é esse?

–          Eu sou seu chefe de gabinete. Não lembra? O senhor é o Prefeito da cidade.

–          Prefeito?

–          É. Prefeito. Acho que o senhor adormeceu na sua mesa e acordou meio desorientado. Tem um grupo de vereadores aí fora. Eles têm hora marcada com o senhor. É sobre um projeto imobiliário.

Entram os vereadores. Eles vêm tratar de um projeto que será votado no dia seguinte na câmara a respeito de uma área de preservação ambiental, na região conhecida por “Lagoazinha”, que será liberada para construção de edifícios residenciais. Já estava tudo certo para a aprovação. Até os vereadores “verdes”, antes radicalmente contrários à iniciativa, de repente mudaram de posição após reuniões com os donos das construtoras em hotéis de luxo no litoral, que duraram fins de semana inteiros. Para o Mano Prefeito, até que aquilo não pareceu tão incoerente. Eles continuavam amando o verde, mas o verde das notas de Real que receberam pra apoiar o projeto. Os vereadores falaram da necessidade de o Prefeito sancionar a lei, assim que aprovada, pois dessa forma seria “melhor pra todo mundo”. Quando o Mano ia contra-argumentar e enxotar de lá os vereadores desonestos, sua voz não saía e ele não conseguia. O principal representante dos vereadores entendeu o silêncio do prefeito como uma concordância. Piscou um olho, apertou sua mão e saiu.

Mal eles saíram e Mano Fuinha anunciou:

–          Dr. Marcelo. Os donos das empresas de ônibus que operam na cidade estão à espera.

Os donos das empresas queriam uma autorização para aumentar os preços das passagens e precisavam da autorização da Prefeitura para tal. A margem de lucro já não era a mesma de antes um aumento naquele momento poderia trazer um resto de ano muito mais gordo para todos eles, “inclusive o senhor, prefeito”, fez questão de ressaltar um deles e após essa afirmação caíram todos na risada. O Mano Celo já se preparava para declamar rimando todos os desaforos conhecidos e desconhecidos, quando percebeu que não conseguia emitir nenhum som. Os empresários saíram da reunião bastante agradecidos e disseram que iriam reajustar as passagens imediatamente.

–          Dr. Marcelo – entrou novamente na sala o Mano Fuinha, ou melhor,  Sr. Abelardo, chefe de gabinete – o vice-prefeito está aí.

E entrou o vice-prefeito, um conhecido e veterano ex-deputado federal. Ele vinha acompanhado do secretário de finanças para falar das contas irregulares da Prefeitura. O secretário conseguiu uma forma de camuflar os gastos excessivos e conseguir notas frias de shows supostamente realizados no carnaval anterior. O dinheiro teria ido para promover o lazer e a folia da população. Ninguém jamais descobriria nada. Um trabalho de gênio. Mas para que eles fizessem isso, precisavam do aval do prefeito. O que ele tinha a dizer? Nada. O prefeito não disse nada. “Ótimo! Pode mandar bala, Aristides.”, disparou o vice-prefeito para o secretário que saiu como um raio para pôr em prática o plano desonesto.

O vice olhou para o Mano Celo com sincera admiração. Afirmou que chegou mesmo a desconfiar de sua capacidade de administrar “corretamente” uma cidade como Natal e que, agora enxergava nele um brilhante futuro como político, uma verdadeira liderança, um homem público por excelência. E arrematou: “Parabéns, Prefeito!” ouviu-se novamente a voz de Fuinha: “Prefeito!”

E a voz do seu pai: “Prefeito!” E a da sua mãe “Prefeito!” E a da sua irmã, que agora não precisava sair dando para os políticos jovens da cidade, pois o irmão dela era um dos mais importantes. Ela agora escolhia modelos a quem dar a boceta: “Prefeito!” E novamente seu pai: “Prefeito!” E repetidas vezes: “Prefeito! Prefeito! Prefeito!”

Quando despertou do susto estava todo suado em sua cama. Ouvia ainda os gritos do pai lá embaixo. “Fulaninho vai ser o prefeito! Não! Ele prefeito não!” Um dos deputados-mirins havia aceitado o desafio e disputaria o cargo de prefeito de Natal. Com isso acabavam-se as esperanças do Sr. Maurício. Mano Celo chegara mesmo a pensar em ser um bom administrador. Fazer um bom trabalho junto às comunidades carentes, prover educação, saúde, cultura e melhores oportunidades para quem precisa. Pura ilusão! Nada como um sonho pra fazer a gente cair na real. 

 

Coluna da Digi # 63 – Realizadores: O filme heróico de Mary Land e Fábio de Silva.

setembro 16, 2010

No dia 07 de junho de 2009, publiquei na Digi uma crônica sobre o documentário feito pelos diretores Fábio De Silva e Mary Land Brito. Foi o início de uma série de crônicas intitulada “realizadores” nas quais costumo enaltecer o trabalho de pessoas que fazem bastante pela arte e pela cultura. O filme “Sangue do barro” foi premiado e agradou bastante gente. É bom elogiar quem merece. Valeu!

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Realizadores: O filme heróico de Mary Land e Fábio de Silva.

A coluna de hoje seria novamente sobre a Copa de 2014, dessa vez repercutindo opiniões abalizadas sobre o evento, seus possíveis impactos sobre o país, a economia e a população. Seria um texto esperançoso, falando bem mesmo, mostrando dados de pesquisas e estudos sérios que trazem um pouco de luz ao horizonte que se vislumbra.

Contudo, precisei mudar às pressas o tema da crônica de hoje por uma ótima e justíssima razão. Fui arrebatado pelo filme potiguar “Sangue no barro” dos diretores Fábio de Silva e Mary Land Brito. Isso mesmo, vocês não leram errado: eu utilizei as palavras “filme” e “potiguar” na mesma sentença e não estou delirando nem nada. É daqui, feita por conterrâneos de sensibilidade, talento e capacidade de realização comprovada.

Fábio e Mary Land foram contemplados pelo programa Doc.TV do Governo Federal que patrocina películas em todos os Estados brasileiros. A ideia deles era produzir um registro do massacre de Santo Antônio das Barreiras, distrito de São Gonçalo do Amarante, ocorrido em 1997. Na época, um até então pacato morador chamado Genildo Ferreira assassinou 14 pessoas. Ele teria premeditado uma vingança em razão de um boato de que seria homossexual.

O episódio é reconstituído pelos realizadores de maneira envolvente, através dos depoimentos de gente que viveu o fato. Reportagens do finado “Aqui Agora “ também são mostradas para relembrar as horas de tensão vivenciadas em todo o Estado. O resultado é um documentário dinâmico, bem costurado, estarrecedor e emocionante. A sala (abarrotada, por sinal) ficou perplexa, estupefata e acabou a sessão de alma lavada.

Os diretores souberam explorar muito bem os contornos do episódio e contar a história sem tomar partido. Nem o assassino foi mostrado como um monstro e nem foi beatificado tal qual um justiceiro romântico, equívoco muito comum em produções do gênero. As possíveis motivações do bandido, seu passado, traumas sofridos, as palavras de sua família, amigos e conhecidos se alternam com falas de parentes das vítimas que revelaram todo o drama inerente às perdas irreparáveis que sofreram e o desamparo que se seguiu ao trágico ocorrido. Em meio a tudo isso, reflexões sobre o papel da imprensa no episódio nos relembram a importância da mídia em um caso como este.

Entre as cenas marcantes do filme, está o momento em que a filha de Genildo finalmente consegue ler a carta de suicídio do pai e a hora em que o repórter pergunta à garotinha que viu a mãe ser assassinada na sua frente: “O que seu pai fez com sua mãe?”

No fim da sessão, enquanto subiam os créditos, logo após os efusivos aplausos, ouvia-se nitidamente o choro incontido de muitos espectadores. Emoção coletiva ante um filme que não deixa ninguém indiferente, seja pela primazia com que foi realizado, pelas palavras fortes e emocionates daquela gente simples ou pelo orgulho de o filme ter sido produzido por gente como Gustavo Lamartine e Gabriel Souto (trilha sonora original), Flávio Aquino (fotografia) e Keila Sena (produção). Gosto de ver os amigos fazendo bonito e concretizando algo tão significativo.

Por isso, convido todos a verem o filme e constatar, como eu fiz, que apesar de ser um documentário, “Sangue no Barro” tem dois grandes heróis: Fábio e Mary Land.

A Arte de Shiko

setembro 15, 2010

Para continuar na pegada da arte, vou homenagear mais um cara de quem sou fã número 1. Eu já publiquei aqui em alguma postagem do passado, ilustrações e desenhos de Shiko, o artista paraibano que ilustrou as capas de “O Dia das Moscas” e “Mano celo” para os Jovens Escribas.

Como não sei as etiquetas com que marquei a postagem, o jeito vai ser publicar mais uma vez alguns trabalhos do cara. Apreciem. E quem quiser conhecer mais obras do ilustrador, acesse http://www.flickr.com/photos/derbyblue.

A arte de Caio Vitoriano 2

setembro 14, 2010

Já postei aqui uma vez alguns cartazes criados pelo artista gráfico Caio Vitoriano. Um dia vamos organizar uma exposição bem legal para fazer justiça ao ótimo trabalho que o filho de Vicente dona Nunes vem mostrando. Por enquanto, apreciem aqui alguns pôsteres. Quem quiser conferir mais do portfólio do rapaz, acesse http://www.flickr.com/photos/caiovitoriano

Para começar, este que anuncia o show de Camila Masiso nesta quinta no Teatro Alberto Maranhão. Todo mundo lá, hein?!

Coluna da Digi # 62 – Copa 2014 – Bombas de Efeito Imoral

setembro 13, 2010

Esta foi a 4ª crônica que escrevi e publiquei na Digi a respeito da Copa de 14. Foi publicada em 31 de maio de 2009 e hoje republico aqui. Boa leitura.

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Em uma das cenas do filme “A Queda – As últimas horas de Hitler”, Eva Braun, mulher do ditador, organiza uma festa num salão enquanto Berlim está sendo bombardeada pelos aliados. Ela queria passar para as pessoas a falsa impressão de que tudo estava indo muito bem a despeito das explosões que se ouviam. Até que uma bomba caiu no salão e todas aquelas pessoas perceberam que viviam uma grande mentira.

Ultimamente tenho lembrado constantemente desta cena como alegoria da candidatura de Natal a uma das sub-sedes da Copa de 2014. Candidatura vencedora, aliás, conforme foi anuncado ontem.

É claro que nós queremos participar da festa, usufruir dos investimentos público-privados que beneficiarão a cidade, viver um clima de Copa do Mundo aqui mesmo na terrinha, mas por que precisam mentir tanto pra gente? Por que precisam nos fazer palhaços com tanta frequência? Por que não admitir que as bombas caem lá fora enquanto dançamos ao som de Banda Grafith aqui dentro do salão?

Sexta retrasada fui ao Machadão. O mesmo que será demolido para a construção da Arena das Dunas. O que eu vi mais uma vez? Um estádio que atravessa décadas de descaso e obras de maquiagem. Sempre que vou ao estádio, fico procurando os R$ 17 milhões investidos pelo então prefeito Carlos Eduardo e sinto extrema dificuldade em encontrá-los. Foram investimentos na infraestrutura, me explicam pessoas mais esclarescidas, obras necessárias para que o estádio não caia, como aconteceu com a Fonte Nova em Salvador. Tudo bem, explicações dadas. Mas, vem cá: não dava pra ter estruturado minimamente os banheiros para que o torcedor não tenha seus pés embebidos em xixi a cada vez que precise usar o banheiro?

E a nova Prefeita que promete fazer das tripas coração, mover mundos e fundos, dar tudo de si, para que Natal esteja pronta, e não é capaz de solicitar um placar para o estádio. E nem precisa ser eletrônico não, porque nós torcedores, que estamos em petição de miséria, nos contentamos com um placar manual, a manivela, enfim, qualquer um que a FENAT tenha a boa vontade de conseguir para nós.

Um exemplo de como o poder público zomba de todos nós foi o que fizeram com o arquiteto Moacyr Gomes da Costa. Ele foi convidado para apresentar na CBF um estudo de adaptação do Machadão a todas as normas exigidas pela FIFA para a realização de um jogo internacional. Vale lembrar que a Alemanha só precisou construir dois estádios para realizar sua Copa e que a França só ergueu uma única arena em 98. É claro que as estruturas deles são mais bem cuidadas, em virtude do zelo que eles têm pelo seu patrimônio, o mesmo zelo que justifica a não demolição/reconstrução da maior parte de seus estádios.

O fato é que, enquanto o arquiteto potiguar apresentava seu projeto de adaptação do Macahadão, que custaria muito menos aos nossos bolsos de contribuintes e seria suficiente para que tivéssemos uma praça de esportes decente e de sentir orgulho, o Governo do Estado encomendou um outro projeto que custou R$ 3,6 milhões a uma empresa norte-americana que contempla a demolição e reconstrução de uma nova arena. Em suma: mentiram descaradamente para o arquiteto potiguar e o usaram, enquanto ganhavam tempo para terem uma outra carta na manga muito mais dispendiosa e, sabe-se lá Deus se necessária.

Mentiram para o senhor Moacyr assim como mentem para todos nós, mas a maior distorção dessa história toda é que eu não vi nenhuma declaração de político, seja a governadora, a prefeita ou o deputado micareteiro que, cada vez mais, tem certeza de que somos um bando de otários, que falasse em promover o ESPORTE DA CIDADE, em transformar Natal em uma referência em formação de atletas, em inclusão social através da prática de atividades. Nossos projetos têm o objetivo de construir estruturas, mas cadê os projetos para construir cidadãos? Querem erguer um complexo esportivo de primeiro mundo, mas vão colocar QUEM pra jogar lá? A nossa letargia e insensibilidade é tão gritante que os políticos nem cogitaram essa hipótese. Não seria natural que aproveitássemos o “efeito Copa” em benefício real dos nossos cidadãos e da sociedade em geral?

Enquanto isso, as bombas caem lá fora. A bomba dos remédios estragados, a bomba da insegurança pública e dos problemas viários, a bomba da educação que parece sem solução possível. Elas vão explodindo e nós, como bons natalenses que somos, vamos repetindo o nosso mantra: “Me engana que eu gosto!”

50 mil acessos!

setembro 12, 2010

– Que massa! O blogue completou 50.000 acessos.

– Legal. E aí? Você ganha o que?

– Nada.

– Pô, então que merda, hein!

De qualquer forma, muito obrigado a todos vocês que acessaram e continuam acessando. Valeu mesmo!

Inclusive, logo aí embaixo está a foto da última confraternização dos leitores do blogue. Pena que deu pouca gente. Foi um verdadeiro Fiasco mesmo.

Pérolas 14 – Por Siney Cláudio

setembro 12, 2010

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