Coluna da Digi # 60 – Breve Manual do Escritor Editor Independente.

No dia 18 de maio de 2009, escrevi uma crônica de utilidade pública, dando dicas a quem quisesse publicar um livro por conta própria ou montar um selo literário com bons resultados na edição, divulgação e venda dos livros. Fiz isso porque muita gente sempre me perguntava a respeito de como poderiam fazer para lançar uma publicação sem precisar correr atrás de ninguém. Foi assim que escrevi o “Breve Manual do Escritor Editor Independente” que, inclusive, estou transformando em palestra para difundir a ideia de que as pessoas podem sim publicar suas ideias e que o livro não é tão excludente e elitista como já foi no passado.

E hoje, no dia da Independência do Brasil, celebro o escritor independente brasileiro. Viva nóis!

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Breve Manual do Escritor Editor Independente.

Muitos comentários de amigos e leitores chegaram acerca do “Mano Celo”, livro que lancei no início do mês. Festança e tanto, cheia de gente boa, ótimos papos, alegria, em meio a livros e regada a uma birita de leve. O que pouca gente sabe é a trabalheira que dá enfrentar as etapas desde a concepção até o momento do lançamento, a famigerada noite de autógrafos.

Muitos acham que o trabalho maior é escrever o livro. Não é. Na verdade, dá trabalho sim. Ocupa muitas horas de digitação, silêncio, concentração, pesquisa, retrabalho, seleção criteriosa e muita leitura. Mas o que demanda mais articulação e um sem número de tarefas é o que vem a seguir. Pensar e produzir o objeto livro que vai nascer a partir da história ou da reunião de textos elaborados pelo autor.

Depois de digitar o derradeiro ponto final, é preciso escolher o nome para elaborar o prefácio. Geralmente é bom destacar alguém que tenha relação com o tema abordado no livro. Por exemplo, se o seu livro for sobre o movimento punk, não convém escolher um pesquisador da obra de Ariano Suassuna. Já se o seu livro for sobre futebol, ele fatalmente terá o prefácio escrito pelo Juca Kfouri. Para o prefácio de “Mano Celo”, escolhi o cáustico e gente fina Marcus Vinícius (MV) que escrevia para a Revista Foco. Quem me conhece sabe que sou fã de MV há tempos e gosto do seu jeito sarcástico de falar de assuntos parecidos com os que eu abordo nas colunas da Digi. Achei que um texto dele abrindo o livro daria um bom abre-alas para os leitores. Relendo o prefácio depois de impresso, constatei que foi uma escolha acertadíssima.

Terminado o prefácio, enviamos o texto para um revisor de português. A revisora que trabalha para os Jovens Escribas é a roteirista e escritora mineira Pilar Fazito. Ela recebe os textos e devolve tudo certinho, corrigindo eventuais erros de digitação e deslizes do autor.

Recebido o texto definitivo e corrigido, é a vez de entrar em cena os homens da imagem: o ilustrador (ou fotógrafo) e o diagramador. No caso de “Mano Celo”, a ilustração de capa ficou a cargo do paraibano Shiko e a diagramação foi feita por Danilo Medeiros.

Concluída a diagramação, ficamos sabendo quantas páginas vai ter o livro, aí é vez de pegar um orçamento com as gráficas. São selecionados o tipo de papel (pólen bold 90g), o formato do livro (14x21cm), as especificações da capa (papel supremo 250g, laminação fosca e aplicação de verniz localizada) e mais algum detalhe qualquer. Tudo isso influi no preço. Aprovado o orçamento, o arquivo finalizado segue para a impressão com miolo e capa.

Nesse ponto também é preciso tirar o registro do livro (ISBN) junto à Biblioteca Nacional. Custa alguns Reais, mas não é muito difícil. No sítio da entidade www.bn.br/portal eles explicam passo-a-passo. Se você não tiver editora, é preciso também fazer um registro de editor independente.

Enquanto a gráfica imprime o livro, a editora e o autor trabalham pesado para realizar um bom evento de lançamento. O “Mano Celo” foi lançado na Livraria Siciliano. Também é preciso fazer uma divulgação do livro e da noite de autógrafos. A campanha foi encomendada à agência Comitê de Soluções Criativas, que elaborou uma estratégia virtual bastante agressiva e contou com a ajuda do Camaleão Photo Art Video, Mais Video, Diginet, Marlos Apyus e o diretor Joca Soares. Ações nos blogues importantes da cidade, vídeos no Youtube, divulgação no Orkut e também no Twitter. Os caras pensaram em tudo. Com a ajuda de alguns patrocinadores (a saber: Art&C, Bora, Comitê, Camaleão, Diginet, CALL, Oficina da Notícia, Revista do Versailles, Alive, Dosol, Digisound, Mais Vídeo, Profilmes, JET, Siciliano e Dr. PC) imprimi cartazes, convites e panfletos.

Meus amigos professores e coordenadores de escolas e cursos superiores (Letras, Comunicação e Direito) distribuíram os panfletos entre os alunos e colaram os cartazes em lugares de grande circulação de estudantes. Os convites impressos foram para pessoas importantes da cidade como Professor Tarcísio Gurgel, Francisco Paulo de Araújo e Nei Leandro de Castro.

Os anúncios virtuais divertidos e pertinentes ao livro, criados pela agência de propaganda, seguem via e-mail para centenas de contatos que espalham na net, publicam em blogues e comentam os anúncios. Sítios de internet como o Plog, Apyus.com e vários blogues da cidade também ajudam a criar a corrente do bem em torno do livro, do autor e do evento.

Uma assessoria de imprensa bem feita também é fundamental. Um release elaborado por um assessor de imprensa e enviado para as editorias de cultura dos jornais impressos, virtuais, rádios e TVs levam o evento e o lançamento à mídia de massa, caso haja fatos jornalísticos que gerem notícias interessantes. No caso de “Mano Celo” era o décimo lançamento do selo editorial Jovens Escribas, uma iniciativa independente. Também marcaria o aniversário de 5 anos dos Jovens Escribas e o autor (no caso, eu) estava prestes a alcançar a marca de 1000 exemplares vendidos só em Natal. Esses argumentos, ditos no release ajuda ao jornalista perceber que tem um bom material para noticiar em mãos.

Depois de pagar a gráfica, é hora de contratar uma transportadora. O “Mano Celo”, que foi impresso pela Interage do Rio de Janeiro, viajou a Natal pela Lentidão Cometa, que quase não entrega a tempo do lançamento. O preço deles, pelo menos, é imbatível e, no fim, eles entregaram a carga por aqui a tempo de eu deixar na livraria.

Na semana de lançamento é hora de arregaçar as mangas, ir aos veículos que se interessaram em noticiar o evento e vender o peixe na TV ou nos jornais. Também é importante cuidar dos últimos detalhes como alguma ação no evento que sirva de contrapartida para os patrocinadores. No lançamento de “Mano Celo” distribuí marcadores de página com as logomarcas e havia um display divulgando os patrocínios.

Se o autor oferece comida e bebida aos convidados é bom contratar um buffet ou comprar tudo e pagar aos garçons. É bom providenciar que a comida, a bebida e os garçons estejam no lugar do lançamento uma meia hora antes do que foi marcado.

Outras três coisas que fiz foram:

1 – Levar dinheiro trocado para o caixa da livraria, principalmente notas de R$ 5, já que meu livro custa R$ 25;

2 – Pegar emprestada uma mesa e cadeira alta do Sargent Peppers, pois prefiro ficar na altura dos amigos e leitores. Evita dor de coluna;

3 – Forrar o bucho com algo sólido (um sanduba de leve, por exemplo) e mandar ver num açaí na tigela, dopping natural para quem vai passar as próxima 4 horas escrevendo dedicatórias.

Por fim, é hora de receber os convidados, amigos, colegas, familiares e leitores. Assinar os livros e se divertir o máximo que puder. Muitos autores mais ranzinzas que eu não gostam de noites de autógrafos, acham desagradável, se dizem tímidos, mas não passam de uns chatos. Eu gosto. Considero um momento para curtir junto com os amigos, a celebração de meses de trabalho minucioso que culminou com a chegada dos exemplares nas mãos do autor.

Depois da noite de autógrafos, vem o epílogo do lançamento: beber para comemorar no seu bar preferido em caso de sucesso ou afogar as mágoas em caso de fracasso total.

Resumindo todas as etapas, temos:

1 – Escrever o livro;

2 – Enviar originais para autor do prefácio;

3 – Enviar originais e prefácio para revisora;

4 – Ilustração ou foto da capa;

5 – Diagramação;

6 – ISBN;

7 – Orçamento gráfico;

8 – Impressão;

9 – Publicidade;

10 – Assessoria de imprensa;

11 – Transportadora para os livros (se necessário);

12 – Buffet e garçons;

13 – Livros na livraria (importante);

14 – Comer antes da festa;

15 – Mandar ver nas dedicatórias;

16 – Beber pra comemorar.

Aí, quando estiver escrevendo um próximo livro, capriche, pois para ter todo esse trabalho de novo, é bom que o compêndio valha a pena.

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