Coluna da Digi # 64 – Mano Celo Prefeito

Em 17 de junho de 2009, eu havia lançado o livro “Mano Celo – O rapper natalense” havia menos de 1 mês. Por isso, resolvi publicar parte do conteúdo na coluna da Digi. Dessa forma, poderia promover o livro, despertando a curiosidade dos leitores da Digi. Acho que deu certo. O livro praticamente esgotou. 🙂 No texto, eu brinco com a história dos filhos de políticos concorrerem a cargos públicos para sucederem seus pais.

Divirtam-se!

***

Mano Celo Prefeito

O pleito daquele ano foi muito bom para alguns amigos pessoais do Sr. Maurício Dutton. Políticos experientes e tarimbados, velhos caciques, como diz o povo, ou representantes das antigas oligarquias, para os analistas, conseguiram eleger seus filhos deputados. Meninos de ouro, educados no sudeste, empresários de sucesso precoce, incompetentes, é bem verdade, mas paradoxalmente de sucesso. Por mais que seus conhecimentos de contabilidade não chegassem à tabuada de 7 e a noção de gestão não sirva nem pra administrar as mesadas recebidas dos painhos (gordas, polpudas e estribadas, diga-se de passagem, ao contrário dos desnutridos, pobres e famintos que os elegeram), as empresas que eles herdaram ou ganharam de presente, prosperavam exponencialmente conforme seus nobres genitores se mantinham na crista da onda, ou seja, no poder.

Logo, cogitou-se então, no embalo do sucesso dos meninos, um novo prefeito para Natal, alguém de pouca idade, que passasse para os eleitores a imagem da renovação, o viço da juventude e a disposição para o trabalho que ele cosmética-publicitaria-marqueteira-espertamente pareceria ter. Os garotos prodígios recém-eleitos deputados não se animaram muito com a idéia. Deixar de ficar em Brasília, propondo um projetinho aqui, outro acolá, participando de uma votaçãozinha de vez em quando, negociando uma ou outra benesse, vantagem, favorecimento, lendo uns discursozinhos redigidos por algum assessor letrado e, nas horas vagas (que seriam muitas), poderiam torrar a verba de gabinete em festas nababescas, cheias de mulheres, bofes, banquetes e o que mais se pudesse consumir, ingerir, beber ou cheirar, enfim, não parecia lá uma grande idéia ter que voltar a Natal pra trabalhar.

Então a solução seria radicalizar de vez. Propor um nome realmente novo no cenário político. Alguém que embarcasse na onda da renovação rumo à vitória nas próximas eleições municipais. Um candidato que respondesse aos anseios da população por mudanças.

Porém, a radicalização não poderia fugir ao controle dos líderes políticos. Seria uma passagem de bastão supervisionada, promovida, financiada, endossada e patrocinada pelos velhos nomes do tabuleiro do poder local. Em resumo, o novo nome não passaria disso: um nome. Novo, mas só um nome. O real comando da cidade ficaria a cargo dos velhos protagonistas, atores de enredos arcaicos e sem finais felizes, a não ser para eles.

Nesse ambiente favorável de efervescência eleitoral, logo surgiu o nome da família Dutton. O Sr. Maurício, empresário bem sucedido nos ramos de exportação e importação, educação e construção civil, figurinha fácil das colunas sociais, com bom trânsito nos diversos setores da sociedade, cunhado de um ilustre investidor do setor hoteleiro, irmão de um deputado estadual bem-avaliado, que quase nunca se envolvia em escândalos. E, como que por encomenda, o Sr. Maurício tinha um primogênito em idade perfeita para assumir o papel que seria conveniente a todos. Um paladino da mudança, baluarte da renovação, agente da transformação, herói dos novos tempos, príncipe de uma nova era: Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Gadelha Dutton, o Mano Celo, irmão dos desvalidos, irmão dos humilhados, irmão dos oprimidos e irmão da Marcinha, aquela puta!

***

–          Marcelo, eu já disse mais de mil vezes que esse negócio de rap não tem futuro, rapaz!

–          Isso é arte, pai. E justiça social, tá ligado? É futuro sim. Futuro e opção pra muita gente carente.

–          Ah, quer dizer que você está engajado em projeto de assistência a comunidades carentes? Isso é bom, Marcelo. Pode render muitos votos e…

–          Votos?! Que é que há, Sr. Maurício? Que história de votos é essa?

–          A oposição quer que você seja o candidato a Prefeito de Natal.

–          Eu? Político? Sai fora, mano!

O pai tentou explicar que a cidade precisava de um novo nome para comandar seus destinos. Alguém jovem e cheio de energia. Um candidato cujos ideais pudessem trazer valores positivos para a gestão municipal e que significasse um sopro de novidade e dignidade para o povo. Sr. Maurício disse estar convencido de que esse nome era o de Marcelo. Desconfiado, o Mano Celo perguntou quem mais achava isso. E os nomes de políticos tradicionais, amigos de seu pai, não agradaram nada. Ficou claro para ele que não é nem um pouco bobo, que uma vez vitorioso, ele passaria a ser apenas um testa de ferro de grupos tradicionais.

Em todo caso, ficou de pensar e foi dormir.

***

–          Acorda. Acorda Dr. Marcelo.

–          O que houve? Mano Fuinha?! O que você tá fazendo todo alinhado? E que lugar é esse?

–          Eu sou seu chefe de gabinete. Não lembra? O senhor é o Prefeito da cidade.

–          Prefeito?

–          É. Prefeito. Acho que o senhor adormeceu na sua mesa e acordou meio desorientado. Tem um grupo de vereadores aí fora. Eles têm hora marcada com o senhor. É sobre um projeto imobiliário.

Entram os vereadores. Eles vêm tratar de um projeto que será votado no dia seguinte na câmara a respeito de uma área de preservação ambiental, na região conhecida por “Lagoazinha”, que será liberada para construção de edifícios residenciais. Já estava tudo certo para a aprovação. Até os vereadores “verdes”, antes radicalmente contrários à iniciativa, de repente mudaram de posição após reuniões com os donos das construtoras em hotéis de luxo no litoral, que duraram fins de semana inteiros. Para o Mano Prefeito, até que aquilo não pareceu tão incoerente. Eles continuavam amando o verde, mas o verde das notas de Real que receberam pra apoiar o projeto. Os vereadores falaram da necessidade de o Prefeito sancionar a lei, assim que aprovada, pois dessa forma seria “melhor pra todo mundo”. Quando o Mano ia contra-argumentar e enxotar de lá os vereadores desonestos, sua voz não saía e ele não conseguia. O principal representante dos vereadores entendeu o silêncio do prefeito como uma concordância. Piscou um olho, apertou sua mão e saiu.

Mal eles saíram e Mano Fuinha anunciou:

–          Dr. Marcelo. Os donos das empresas de ônibus que operam na cidade estão à espera.

Os donos das empresas queriam uma autorização para aumentar os preços das passagens e precisavam da autorização da Prefeitura para tal. A margem de lucro já não era a mesma de antes um aumento naquele momento poderia trazer um resto de ano muito mais gordo para todos eles, “inclusive o senhor, prefeito”, fez questão de ressaltar um deles e após essa afirmação caíram todos na risada. O Mano Celo já se preparava para declamar rimando todos os desaforos conhecidos e desconhecidos, quando percebeu que não conseguia emitir nenhum som. Os empresários saíram da reunião bastante agradecidos e disseram que iriam reajustar as passagens imediatamente.

–          Dr. Marcelo – entrou novamente na sala o Mano Fuinha, ou melhor,  Sr. Abelardo, chefe de gabinete – o vice-prefeito está aí.

E entrou o vice-prefeito, um conhecido e veterano ex-deputado federal. Ele vinha acompanhado do secretário de finanças para falar das contas irregulares da Prefeitura. O secretário conseguiu uma forma de camuflar os gastos excessivos e conseguir notas frias de shows supostamente realizados no carnaval anterior. O dinheiro teria ido para promover o lazer e a folia da população. Ninguém jamais descobriria nada. Um trabalho de gênio. Mas para que eles fizessem isso, precisavam do aval do prefeito. O que ele tinha a dizer? Nada. O prefeito não disse nada. “Ótimo! Pode mandar bala, Aristides.”, disparou o vice-prefeito para o secretário que saiu como um raio para pôr em prática o plano desonesto.

O vice olhou para o Mano Celo com sincera admiração. Afirmou que chegou mesmo a desconfiar de sua capacidade de administrar “corretamente” uma cidade como Natal e que, agora enxergava nele um brilhante futuro como político, uma verdadeira liderança, um homem público por excelência. E arrematou: “Parabéns, Prefeito!” ouviu-se novamente a voz de Fuinha: “Prefeito!”

E a voz do seu pai: “Prefeito!” E a da sua mãe “Prefeito!” E a da sua irmã, que agora não precisava sair dando para os políticos jovens da cidade, pois o irmão dela era um dos mais importantes. Ela agora escolhia modelos a quem dar a boceta: “Prefeito!” E novamente seu pai: “Prefeito!” E repetidas vezes: “Prefeito! Prefeito! Prefeito!”

Quando despertou do susto estava todo suado em sua cama. Ouvia ainda os gritos do pai lá embaixo. “Fulaninho vai ser o prefeito! Não! Ele prefeito não!” Um dos deputados-mirins havia aceitado o desafio e disputaria o cargo de prefeito de Natal. Com isso acabavam-se as esperanças do Sr. Maurício. Mano Celo chegara mesmo a pensar em ser um bom administrador. Fazer um bom trabalho junto às comunidades carentes, prover educação, saúde, cultura e melhores oportunidades para quem precisa. Pura ilusão! Nada como um sonho pra fazer a gente cair na real. 

 

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