Coluna da Digi # 67 – Leonardo Panço, o bluesman do Rock.

Dando sequência à série de crônicas exaltando o trabalho de pessoas que adimiro em razão do excelente trabalho realizado em diversas áreas, publiquei na Digi uma coluna no dia 03 de agosto de 2009, homenageando o músico e escritor Leonardo Panço, líder do Jason e autor do livro “Caras dessa idade já não lêem manuais”. Fiquei feliz em direcionar mais esse elogio a um alvo mais que merecedor.

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Leonardo Panço, o bluesman do Rock.

Essa é mais uma crônica da série Realizadores. Dessa vez, o personagem é o carioca Leonardo Panço, guitarrista, líder da banda Jason, escritor e um homem de atitudes corretas e muitíssima iniciativa. No fim dos anos 90 e início dos 2000, eu já era muito fã da banda do Panço ( e continuo até hoje, diga-se). Eles vinham todos os anos tocar no Nordeste, passavam por Natal e alguns amigos em comum me arrastaram para uma dessas visitas. Na ocasião tocariam Ravengar, Memória Rom e Jason. Naquele primeiro show fiquei impactado com o hard-core bem humorado dos rapazes do Rio, a presença de palco e ótima voz do vocalista Vital e as letras sagazes do Flávio Flock, misturando deboche com a medida certa de agressividade, soando sempre como um divertido desabafo. Não me restava alternativas a não ser me tornar imediatamente um admirador da banda e comparecer a todas as apresentações dos caras por Natal dali até o fim da vida, do grupo ou do mundo.

Anos depois, quando saiu meu primeiro livro, o “Verão Veraneio”, que fazia diversas referências ao Jason e suas letras em contos e crônicas e incluía seu nome nos agradecimentos, eles vieram a Natal mais uma vez. Compareci ao concerto no “Centro Cultural Dosol” junto com algumas dezenas de espectadores que cantavam junto todas as músicas, como o hino dos solteiros convictos “Que bom que eu não amo ninguém”: “Que bom poder ficar sozinho todo dia/ Que bom comprar só um ingresso na bilheteria/ Que bom não dizer onde, como nem porque/ Que bom ver um jogão de futebol e torcer/ Que bom que eu não amo ninguém, NINGUÉM! / Quem bom que eu não amo ninguém.” A certa altura do espetáculo, Ânderson Foca, diretor do Centro, me disse que quando terminasse o show, Panço queria falar comigo. Ele recebera de Foca um exemplar de “Verão Veraneio” e ficara curioso com aquele fã que registrou em livro sua preferência.

No camarim do Dosol, uma conversa rápida, troca de e-mails, MSNs e ganhei o primeiro livro do autor: “2001 – uma odisséia na Europa”, do tempo em que odisseia ainda levava acento. A obra contava a viagem de 80 dias e 60 shows que a banda fez no velho continente no início do milênio. Dali pra frente a amizade prosseguiu e tomamos uma cerveja nos Rios, Grande do Norte ou De Janeiro. O Panço se tornou leitor de vários outros autores potiguares: Daniel Minchoni, Thiago de Góes, Pablo Capistrano e Patrício Jr.

O tempo foi passando quando em 2008 ele decidiu lançar o seu segundo livro: “Caras dessa idade já não lêem manuais”, uma seleção de crônicas e alguns contos curtos repletos de diálogos inspiradíssimos. Para minha surpresa e enorme alegria, fui convidado para escrever a orelha do novo rebento. Recebi o arquivo PDF e tinha uma semana para ler, redigir e remeter o texto de pouco menos de uma página de A4. Em meio a uma correria danada de trabalho, cumpri a missão, sentindo-me culpado, pois sabia que poderia tê-lo feito melhor. 

Menos de 2 meses depois, chega a minha casa alguns exemplares para que eu pudesse guardar o meu e distribuir os demais para alguns leitores privilegiados da terrinha. Na ocasião, aproveitei para reler o livro com mais calma e atenção. Foi aí que a ficha caiu. Fiz uma orelha muito aquém do alcance e da relevância da obra. “Caras dessa idade já não lêem manuais” é um dos melhores livros de crônicas que li nos últimos anos. Sua importância passa despercebida em meio à simplicidade com que foi escrito, editado e lançado. Discretamente, sem grandes publicidades ou chamarizes. Entenda-se que simplicidade é diferente de simploriedade e a edição é bela e caprichada.

Porém, tanta discrição é marca registrada do nobre Leonardo Panço, um homem que há muito tempo decidiu fazer em vez de falar e sair por aí tocando sua guitarra, fazendo o seu som, divulgando seu trabalho. Foi assim, meio na surdina, que o Jason já fez mais de 200 shows na Europa, uns 300 pelo Nordeste do Brasil, lançou 5 CDs no Brasil e 2 na Alemanha, o Panço publicou 2 livros, foi produtor da turnê dos Replicantes no velho continente.

Voltando ao livro, Panço fala de viagens, lugares, descreve sensações e propõe reflexões diversas. Reflexões que são suas, mas que poderiam ser de qualquer um de nós. Por meio de questionamentos, aparentemente simples, ele lança de uma forma introspectiva e intimista, perguntas profundas sobre até que ponto vale a pena fazermos certas coisas, se não seria bom ficarmos sozinhos vez em quando, quem são nossos verdadeiros amigos ou o que faz um lugar ser “um lugar do caralho!”

Permeando os textos, engendrados com talento e estilo próprios, existem termos familiares, referências mil do universo pop e acabamos nos sentindo cúmplices do autor ao reconhecermos algumas citações em comum que fizeram parte da vida dele tanto quanto da nossa. Partes como “E como todo mundo sabe Jacarepaguá é longe pra caramba” ou “Na festa estranha com gente esquisita havia uma mesa de sinuca no canto da sala.” fazem com que nós sáibamos exatamente do que ele está falando.

Maneiras peculiares de tratar de assuntos comuns dão uma certa leveza às crônicas, nos deixando com um sorriso permanente no rosto enquanto vamos (rapidamente) avançando na leitura:  “Ele ainda estava com aquela sensação incômoda de não estar muito certo sobre ter feito a coisa certa. Uns dizem ser coisa do signo. Uma certa dificuldade em tomar decisões. Escolher entre isso e aquilo.”, e “Às vezes pensava que a chance de conhecer pessoas legais nos lugares novos seria maior se eu fosse sozinho. Afinal, teria que puxar assunto com alguém ou estaria sozinho o tempo todo. O que talvez não fosse má ideia.”, e ainda  “Uma canção deve ser respeitada como uma pessoa que você gosta muito, mesmo que elas não existam em grande quantidade.”

Em certa altura, Panço fala sobre um conceito que ele elaborou a partir da capa de um livro do Robert Crumb. Tratava-se do que viria a ser um “bluesman” pra ele. Para ele, desde que aquela capa do Crumb penetrou em sua memória e nela fez morada, um bluesman passou a ser um cara que cai na estrada tocando sua música, viajando na direção que o vento levar. “Só aceitando que o vento te sopre ou soprando o vento para outra direção. Bob Dylan falou algo assim?”, pergunta na crônica em que propõe o tema.

Conforme escrevi na orelha do livro, “Sensações. O livro do Leonardo Panço nos levam a ter muitas delas. Ele nos descreve sentimentos, lugares, pessoas e situações, mas está longe de ser uma obra descritiva, entenda-se chata. Panço delineia lugares, apresenta personagens, expressa seus sentimentos, faz suas descrições, enfim, sem nunca interromper a ação. É como se nos convidasse: “Vem comigo. No caminho, eu te conto tudo.” E nós seguimos com ele, sentindo suas sensações e vivendo suas histórias.”

Frio, sono, fome. Sonhos ruins. Sensações de distância, angústia, deslocamento. Com naturalidade e de forma bem coloquial, o cronista cria uma intimidade com o leitor. Ler “Caras dessa idade já não lêem manuais”, vai fazer de você também um amigo do Panço, um autêntico bluesman do Rock que sai por aí conhecendo pessoas, tocando sua guitarra e voltando sempre para nos contar em suas excelentes crônicas.

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