Coluna da Digi # 69 – Mundo Estranho

Em agosto de 2009, li um artigo a respeito da política do governo italiano contra imigrantes, baseada no ódio, na intolerância e na estupidez, sentimentos resgatados de um passado não muito distante e que renasce com força total em toda a Europa principalmente depois que governantes como Sílvio Berlusconi foram alçados ao poder. Esta coluna publicada no dia 17 de agosto de 2009, repercute uma reportagem lida no jornal espanhol El País. Aproveito a ocasião e disponho um vídeo que demonstra o quanto o primeiro ministro italiano é sequelado.

Boa leitura.

Mundo Estranho

Sílvio Berlusconi é o primeiro ministro da Itália. Ele também é dono da maior rede de comunicações do país (incluindo aí o maior canal de TV privado, a RAI) e presidente do Milan, um dos clubes de futebol mais populares e ricos do mundo.

O seu partido, a Liga do Norte, de orientação conservadora, aprovou uma lei que criminaliza todo e qualquer trabalhador estrangeiro que esteja em situação ilegal no país. Eles chamam o conjunto de medidas de “Paquete de Seguridad”. Os 650 mil imigrantes ilegais, os chamados “sem papéis”, já estão sujeitos a prisões de 2 a 6 meses nos centros de identificação e expulsão, além do pagamento de multas que podem atingir 10 mil Euros. A simples presença deles no país já os converte em criminosos e as primeiras prisões já começaram a ser efetuadas no último dia 8.

A lei não abrange apenas os trabalhadores estrangeiros em situação irregular no país. Os empresários que empregarem imigrantes ilegais também serão punidos e os cidadãos italianos que hospedarem ou alugarem imóveis para os “sem documentos” também estarão sujeitos a penas que vão de 6 meses a 3 anos de prisão por favorecerem a ilegalidade. Também foram criadas regras mais duras para naturalizações e matrimônios.

Tudo isso significa que pessoas que ganham a vida honestamente podem, desde a semana retrasada, ser presos como se fossem ladrões, traficantes ou assassinos, quando o único crime que cometeram foi tentar melhorar suas condições de vida.

Segundo Guglielmo Epifani, secretário do CGIL, maior central sindical da Itália com mais de 6 milhões de afiliados: “A política do governo para a imigração é contraproducente para as pessoas e o país”. Ele afirma que das 700 mil solicitações de empresários italianos para regularizar seus empregados, o governo só atendeu 170 mil e pergunta: “Por que? Se eles já trabalham aqui! Acabam de aprovar uma medida discriminatória.” O secretário se revolta contra o que ele classifica de irracional: “É tudo ilógico porque são medidas que não levam em conta a realidade. É pura ideologia e propaganda da Liga do Norte. Nos rebelamos como deveria fazer qualquer um com o mínimo de consciência civil.” Por fim, ele dá seu veredicto e possível caminho mais sensato para a atual situação:“Num momento de crise como este, o melhor seria regularizar a situação dos que já trabalham aqui, aumentando as contribuições, ingressos fiscais e arrecadação.”

O problema é que justamente em tempos de crise econômica, o protecionismo, o preconceito, a xenofobia, a ignorância (pra não dizer burrice) crescem de forma inversamente proporcional às oportunidades de melhoria de vida. Setores construção civil e agricultura, segundo os especialistas, vão simplesmente parar se a lei for posta plenamente em prática.

A lei de Berlusconni e seus partidários é uma medida autoritária, preconceituosa e um atentado público aos direitos humanos. É estarrecedor que a maioria dos italianos sejam favoráveis a ela. Inclusive haverá patrulhas de cidadãos voluntários, que estão sendo chamadas de Patrulhas Cidadãs, para fiscalizar ruas, condomínios, empresas, denunciando os ilegais residentes em solo italiano. Algo como as patrulhas civis que buscavam judeus na Alemanha ou em territórios dominados pelos nazistas durante a segunda guerra. Qualqur semelhança não é mera coincidência, mas herança política e descendência direta.

Aliás, a xenofobia na Europa é curiosa. Os mesmos países que destroçaram meio mundo com suas políticas colonialistas e neo-colonialistas agora reagem com violência e intolerância ante os imigrantes. De Paris a Lisboa, o pensamento parece ser um só.

A boa notícia é que a popularidade do premiér italiano está em baixa. Mas não tem nada a ver com medidas contrárias aos seres humanos como as que comentei aqui. Ele deverá abrir mão de se eleger presidente do país porque andou se envolvendo com algumas jovens prostitutas de Bari. Isso me lembra o protagonista do romance “A Vaca de Nariz Sutil” de Campos de Carvalho. Um veterano de guerra que matou muitos nos campos de batalha e que, por isso, recebeu medalhas e foi saudado como herói. Porém, quando se envolveu amorosamente com uma garota bem mais nova do que ele foi condenado pela sociedade da cidadezinha em que vivia.

O que o visionário escritor brasileiro afirmou há mais de 40 anos é um retrato do que acontece hoje na Itália. E é mais ou menos o que acontece em todo mundo. Algo como “ódio é permitido, mas sexo é imoral”. Realmente é um mundo bem estranho esse em que vivemos. E agora já é tarde demais para desistirmos dele.

  1. As declarações de Guglielmo Epifani foram extraídas de entrevista concedida ao jornal espanho “El País” de 09 de agosto de 2009.
Anúncios

Tags: , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: