Coluna da Digi # 71 – Cortando cebola

Gosto dessa crônica. Foi publicada no dia 07 de setembro de 2009. Espero que gostem também.

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Cortando cebola

Não resta dúvida, o mundo ocidental moderno atravessou nas últimas décadas uma degradante disputa de interesses entre valores individuais e coletivos. Hoje, com a derrocada do socialismo e as evidentes falhas que tem demonstrado o capitalismo a ponto de realçar o nosso lado mais individualista e, por que não dizer?, mais “humano”, tomamos partido de vez pelo farinha-pouca-meu-pirão-primeiro, atendendo aos nossos instintos mais primitivos (ou mais modernos).

A desigualdade provocada por essa tendência mundial nos traz ao estágio atual das coisas, em que o culto às celebridades já ultrapassou todos os limites do tolerável e as pessoas comuns sentem uma crescente angústia para serem alguém em detrimento a serem elas mesmas. Basta alguém se destacar por ser dotado de um talento fora do comum ou por saber aliar trabalho e com uma boa dose da aptidão necessária para virar estrela, ter hordas de fãs e seguidores, ávidos por saberem cada novo detalhe de sua vida particular e colecionar imagens do ídolo. Essa necessidade de pessoas célebres tem produzido fenômenos difíceis de explicar como os Ex-BBBs ou o Fábio Faria, o que no fim das contas é mais ou menos a mesma coisa. 

A música é um bom exemplo do prevalecimento do mérito individual sobre as realizações grupais. Para haver sucesso, uma banda inteira se esforça em ensaios mil, viagens desgastantes, shows exaustivos e muito trabalho de bastidores para que, por fim, o vocalista leve toda a fama.

No futebol, um esporte essencialmente coletivo, em que cada um dos homens em campo cumpre um importante papel em prol da equipe, ocorre o mesmo. Os craques, os centroavantes, os fazedores de gols são objetos de adoração mundial e modelos a serem seguidos, não só pelo que fazem em campo, mas também pelos valores frívolos, ostentação da riqueza e proezas sexuais. Mas e os cabeças de área? Os exímios ladrões de bola que dão início às jogadas? Os competentes defensores que conferem equilíbrio à equipe, impondo respeito, exercendo liderança e, claro, obtendo vitórias.

Para mim, esses valorosos e marginalizados profissionais são tão importantes quanto os definidores lá da frente. Na Copa de 94, por exemplo, jogadores com esse perfil foram imprescindíveis para a conquista. Para cada Romário existe um Mauro Silva e para cada Bebeto, um Dunga disciplinado e incansável, botando ordem na casa. São os carregadores de piano, operários da bola, que derramam rios de suor para que os dianteiros brilhem e façam gols. É por causa deles que meu número preferido às costas de minhas camisas de futebol é o 5. Enquanto todos os outros garotos disputavam para ter em suas costas o 10 ou o 9, eu me contentava com a meia dezena, feliz da vida.

Revivo essa história hoje porque recentemente decidi ingressar no misterioso e fascinante universo culinário. Obediente e disciplinado como um bom Daniel San diante dos ensinamentos do Senhor Miyagi, passei a cumprir obstinado a tarefa a mim conferida: cortar cebola. A cebola, segundo tenho aprendido na prática, é o mais importante ingrediente da milenar arte do preparo mais sofisticado dos alimentos. Um bom prato, desde a macarronada com molho vermelho, passando pelo frango com champignon, até o salmão com legumes, todos levam o nobre vegetal cheio de camadas. E notem que a cebola, assim como os cabeças de área, também vem sendo discriminada esses anos todos. Foi divulgada para gerações de jovens que este importante componente dos pratos mais elaborados era sinônimo de mau hálito, irritação nos olhos e cheiro desagradável nas mãos. Não obstante tudo isso seja verdade, não é toda a verdade.

O cortador de cebola, portanto é um marcador implacável que se sacrifica em prol do sabor resultante de seu esforço.  Ele é o carregador de piano que realiza o trabalho braçal para que um chef de cozinha internacional faça os gols, seja ovacionado por sua genialidade ao conceber as mais criativas receitas, tendo seus minutos de fama nesse mundo de culto ao talento individual e às personalidades.

O que pouca gente parece perceber é que apenas a inspiração sem transpiração não basta. Se fosse realmente o único fator decisivo, Portugal, Suécia e Argentina já estariam classificadas para a próxima Copa do Mundo em virtude dos superlativos Cristiano, Ibrahimovic e Messi. A conclusão que tiro disso tudo é que todas as equipes, seja de que natureza forem, precisam em igual medida de craques e médio-volantes, chefs talentosos e cortadores de cebola. Tanto na Copa como na cozinha.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 71 – Cortando cebola”

  1. joão lyra Says:

    Há um movimento na cidade, liderado pelo poeta Jarbas Martins, para candidatar o seu colega João da Mata ao prêmio Nobel de literatura. Estamos colhendo assinaturas e apoios.

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