Coluna da Digi # 74 – Baile dos coroas.

Esta republicação de hoje é bastante oportuna. Na verdade, trata-se de uma incrível coincidência que motivou, inclusive a mudança do nome de uma personagem citada pela protagonista. Ela foi publicada no dia 28 de setembro de 2009, quando eu estava passando uma temporada em Madrid, mas vem dando o que falar até hoje, mais de um ano depois.

Boa leitura.

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Baile dos coroas

Pode uma única noite provocar tão lindo desabrochar em flores cujas pétalas permanecem 364 alvoreceres cerradas em si, aguardando (e guardando-se) para finalmente revelarem sua esplendorosa beleza durante uma curta caminhada do ponteiro mais largo? Sim, pode. E eu sou testemunha deste cortejo anual, quando todas as atenções se voltam para o que mulheres e homens estão dispostos a usar para chegarem mais próximos do Olimpo. Uma noite em que a justiça divina é ensaiada com rigor de purgatório, podendo ser condenados com olhares inquisitores os que fracassarem na missão de parecerem membros de um plano superior em visita oficial ao mundo dos mortais, garbosamente flutuando em nosso mundo, como se fossem nossos quase iguais.

Se a aparência angelical de uma Grace Kelly ou a elegância viril e inconteste de um Humprfey Bogart não forem suficientemente convincentes aos ávidos olhos alheios, os próprios réus seguirão dantescas jornadas ao mais baixo andar do inferno, pois nem o tormento de mil demônios e o calor sufocante de toda a lava do Vesúvio será capaz de aplacar a vergonha inerente a um deslize tão imperdoável quanto não fazer da grande noite uma ocasião perfeita, ferindo com a indisfarçável marca da inveja o semblante de todos os presentes.

E não há palavras que possam expressar a angústia, expectativa e ansiedade das horas que antecedem a grande noite, divisora de águas em biografias e reputações. Nem há ciência que possa medir o regozijo por saber-se absoluta, senhora de suas ações, capaz de atrair os mais rasgados elogios que, apesar de verdadeiros, contrariam sentimentos vis, oculto no mais profundo da alma feminina.

Precisamente hoje, vivo o porvir e antevejo a cada fechar de olhos mais demorado como será minha entrada triunfal que, de tão arrasadora, fará soar trombetas celestiais, a ponto de parecer que o próprio céu estará abrindo seus portais para minha passagem. Nas mentes atentas povoará pensamentos de que meu vestido poderia ter sido feito para ninguém menos que Santanna, encomendado para a mais hábil costureira, pela maior de todas as devotas.

Os calafrios que percorrem meu corpo produzem suores febris e me fazem padecer em vida, eriçando pelos, causando vertigens poderosas de tanta pressão. A relevância deste momento não poderia ter menor medida, uma vez que há exatos 12 meses, seus preparativos são tratados como prioridade absoluta de minha e de muitas outras famílias. E foi um caminho árduo o que trilhamos até aqui. No último ano passamos por terríveis provações e vimos os recursos escassearem ante os gastos cada vez mais vultosos. Nos vimos forçados a cortar certos luxos e benesses com as quais contávamos dada à bonança em que vivíamos antes.

Os meninos, mudamos de escola. Uma mais simplezinha, com mensalidade mais barata. O que, no fim das contas, nem fez tanta diferença, já que atrasamos o pagamento em 6 meses. Em casa, entramos todos em um regime inclemente, pois com o preço que anda a comida hoje, dá pra contratar um bom alfaiate e fazer um terno sob medida para o Marcelo, meu marido. O carro não pudemos vender ou trocar por outro mais barato ou econômico. Acontece que, além de estar financiado em muitíssimas prestações, desafiando a expectativa de vida de um ser humano saudável, não seria bom para nossa imagem um retrocesso automobilístico. Todo mundo sabe que um bom carro separa os vencedores dos fracassados. O jeito foi deixar de quitar alguns meses para sobrar uma laminha pro uísque 12 anos e o complemento do enxoval.

Um esforço hercúleo, 12 trabalhos e até mais, se você analisar direitinho, pois esta noite teremos a oportunidade de experimentar extremos absolutos e de encarar feras tão terríveis quanto Cérbero. Arrisco dizer que há mais dignidade nos vermes que se alimentam do cadáver de um rato que em certas víboras que destilam o produto de suas peçonhas pelo abarrotado salão de vítimas potenciais.

O brilho de um longo admirável e deslumbrante, bem como o corte irrepreensível de um terno perfeito não bastam em si. É necessária uma extenuante bateria de embelezamento. Para nós, mulheres: pés, mãos, maquiagem, cabelo, depilação. Tudo para que, por uma noite, sejamos alguém que desejamos ser, bem diferente de quem somos. E é preciso ser persuasivos para que as outras pessoas também acreditem ou admitam acreditar que sejamos pessoas mais belas e felizes, próximas da perfeição humana. Elas vão continuar nos odiando, claro, mas pelos motivos certos. Sentirão inveja, mas nunca indiferença.

E os outros, meu Jesus! Os outros e principalmente as outras! Que Deus tenha piedade de suas almas desgraçadas por cometerem o grave pecado de não saberem combinar razoavelmente as roupas ou exibirem maquiagens tão berrantes quanto suas vozes gasguitas. Algumas delas tem um olhar de fazer murchar todas as plantas do Seridó e a língua mais ferina que faca amolada. Pessoas assim, quando pousam os olhos sobre minha imaculada figura, fico baratinadinha. Tenho que me benzer 10 vezes e tomar um banho de sal grosso senão caio doente de cama e nem todo o lambedor do mundo vai me levantar. E são bregas, visse? Ali cabe mais cafonice que água no Itans. Gostam de usar umas roupas mais coloridas que penteadeira de rapariga. Mas, assim, se eu encontrar com uma cururu dessas no baile, pois além de tudo costumam estar tão gordas que devem estar almoçando e jantando queijo de manteiga com carne de sol, eu vou dizer pra assim: “Meniiiina, você está tão bem. Tá forte, saudável… muito bem. Um beijo, querida.” E saio logo de perto desse poço de falsidade, dando graças a Deus. Afe! Aquela ali nem Abbis e Arlete juntos dão jeito. Nasceu pra ser uma prejura e vai morrer uma prejura, bicha véia beradeira!

Ai, meu Deus! Já vai dar 4 da tarde! Tenho hora marcada no salão. Espero ficar tão bela a ponto de derramar lágrimas alheias ao simples vislumbre de minha entrada no salão do baile. Fiz minhas escolhas, espero corretas, para levantar-me acima da obscuridade comum. Serei ilustre ou estarei ao menos notável? Penso que sim. Tenho o instinto das elegâncias e um bom gosto inato. Tomara que tudo dê certo, que seja uma noite divina para mim e meu marido. Que se agrade Nossa Senhora de Santanna dos nossos atos para que amanhã não nos venha censurar com o arrependimento.

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