Coluna da Digi # 75 – Tem piadas que duram 40 anos ou mais.

A piada mais engraçada do mundo foi tão hilária que muitos dos que souberam de seu conteúdo, morreram de rir fulminantemente. Ela foi contada pela primeira vez no dia 5 de outubro de 1969, quando a TV inglesa BBC levou ao ar o primeiro episódio de “Monty Python Flying Circus”, o programa televisivo que reinventou o humor como nós conhecemos, elevou a arte de fazer rir a um patamar de excelência e estabeleceu uma referência obrigatória para todas as produções do gênero no mundo a partir de então. O Circo Voador do Monty Python foi um divisor de águas, um registro do melhor que o homem pode fazer para arrancar gargalhadas de seus semelhantes, uma pós-graduação em Oxford ou Cambridge do riso, um tributo ao exagero. O legado deixado por eles é objeto de culto para milhões de fanáticos em todo o planeta, entre eles, este que vos tecla.

Quem me conhece sabe como eu tenho o riso frouxo. Sou o melhor público para piadas e rio com as mais incrivelmente simples besteiras. Muitas vezes, minha namorada, dominada por seu pragmatismo feminino, custa a acreditar em certas situações que me fazem rir. Gosto do absurdo, como a falta absoluta de noção (favor não confundir com mau gosto, escatologia ou demais distorções morais exibidas como se fossem humor na televisão hoje em dia) também conhecida pelo seu original em inglês, o nonsense. Pois bem, os ingleses são os mestres do nonsense. Além dos saltimbancos do Circo Voador, havia também ótimos escritores como Douglas Adams, o homem que escreveu “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, que Hollywood fez questão de estragar.

O Monty Python era composto por John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Jones e o americano Terry Gilliam, que depois virou um diretor muito bem sucedido. A primeira vez que tive contato com eles foi quando, ainda na infância, tive o prazer de assitir ao filme “Monty Python em busca do cálice sagrado” (1974), narrando uma improvável e fantástica aventura do Rei Arthur e seus cavaleiros. Umas duas décadas depois, concluo feliz que, até hoje, aquele foi o filme mais engraçado que já vi na vidae para muitos, a obra prima da trupe. O fato de não usarem cavalos, mas sim quengas de coco para simular o galopar, os confrontos contra o Cavaleiro Negro e os homens que dizem “NI”, a antológica cena de travessia da ponte, a cômica arrogância de Sir Robin, o bravo. Cenas que fazem parte do meu imaginário afetivo e as quais recorro sempre que sinto saudades de reviver momentos de alegria incontida.

Após o fim do programa na TV (que durou 5 temporadas, de 69 a 74), eles viajaram o mundo se apresentando em espetáculos de quadros escritos, protagonizados e dirigidos por eles próprios. Em meio à turnê escreveram mais um filme, “A vida de Brian”, sátira da vida de Jesus Cristo. Como nenhuma produtora quis patrocinar a sacrílega aventura, a aventura acabou sendo bancada pelo ex-Beatle George Harrison. O enorme êxito da película, repetindo o desempenho de “Em busca do cálice…” (que aliás também havia sido financiada por outros músicos, no caso, as bandas Led Zeppelin e Pink Floyd), rendeu um ótimo retorno para o espiritualizado rapaz de Liverpool e dezenas de sequências impagáveis, entre elas, o inesquecível final do filme, clímax do politicamente incorreto, em que condenados crucificados cantam a inesquecível “Always look to the bright side of life” (algo como, “Sempre veja o lado bom da vida ou olhe sempre para o lado bom das coisas”). Canção esta que foi cantada no episódio da morte de Graham Chapmam, o único integrante que já nos deixou, há exatos 20 anos, em 1989. Este episódio rendeu uma crônica em uma das minhas primeiras colunas da Digi: “O lado bom da morte”.

Hoje, com a relativa democratização dos meios eletrônicos, é possível encontrar o conteúdo humorístico do Monty Python muito mais facilmente. DVDs como “Ao vivo em Hollywood” de 1982 e o filosófico “O Sentido da vida”, pretensiosa produção de 1983, podem ser encontrados em boas locadoras como a Videolaser ou nos sítios de compra da internet. Todos os outros filmes lançados e também as 5 temporadas do “Flying Circus” estão disponíveis da mesma forma. E, como não poderia deixar de ser: abençoado seja o Youtube! O grupo foi um dos primeiros a ter um canal oficial no portal de vídeos número 1 do mundo. É possível assitir suas sketches originais em ótima qualidade. Se o internauta preferir ver legendado em português, tudo bem, graças a uns bons samaritanos que prestam esse importante serviço de utilidade pública virtual. 

Eu não me canso de rir de quadros como o “Ministério do andar idiota”, “O futebol filosófico disputado entre Alemanha e Grécia”, “O Papa fazendo alterações na Santa Ceia de Michelângelo” e oO serviço de discussão” e seu maravilhoso diálogo:

“Isso não é uma discussão!”

“ É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“…”

De lá para cá, todos os humoristas de TV que se prezem beberam desta fonte. Do Saturday Night Live, passando pelos globais TV Pirata e Casseta&Planeta, até os propositalmente toscos Hermes e Renato, ninguém está livre de sua influência,carregando em seu código genético o DNA dos loucos ingleses e seu estilo único, revolucionário, inconfundível.

No dia 5 de outubro de 1969, eles deram início a essa piada que não tem prazo de validade, pois nunca vai perder a graça. É, sem sombra de dúvida, a piada mais engraçada do mundo. Há 40 anos, o Monty Python implantou um programa de qualidade total em nosso senso de humor.

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