Coluna da Digi # 76 – Um Dia Verde

Textinho bem legal que escrevi ano passado. Curto muitíssimo. Boa leitura.

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Um Dia Verde

Eu gosto do verde. Da cor verde. E não se trata de consciência ecológica ou simpatia gratuita. Minha predileção por essa cor tem duas razões bastante simples: sou consumidor e fã da cerveja holandesa Heineken e quando eu tinha 15 anos ouvi um certo som que fez muito bem aos meus ouvidos em meio à confusa e cheia de sobressaltos adolescência na medíocre classe média (e por que não dizer mediana?) natalense. Era um som, digamos assim, “verde”, contagiante e, como não poderia deixar de ser, punk. Naquele já longínquo 94 do século passado, ano de muita efervescência musical, tive a consciência que só o Punk salva. Amém!

O ano do tetra foi relembrado outro dia aqui mesmo na Digi na ótima crônica de Hugo Morais a respeito dos 15 anos do CD “Da Lama ao Caos” de Chico Sciensce e Nação Zumbi. O texto me fez voltar no tempo para aquele ano e foi como se eu vivesse tudo de novo. Além do CD da Nação, teve o acústico do Nirvana (e do tiro na cabeça do Kurt Cobain), o primeiro disco dos Raimundos, a explosão do Oasis (“Wonderwall”, “Don’t look back in anger”), o surpreendente “Usuário” do Planet e o “Smash” do Offspring, só pra citar alguns de memória. Gosto de todos, mas para mim talvez o mais divertido que foi prensado naquele ano tenha sido um com encarte bonito em que havia uma ilustração bem bacana de uma cidade e uma explosão, o “Dookie” do Green Day.

Som vibrante, alegre, moleque, urgente e pegajoso até que invadiu meu toca-CDs e segue tocando alto nos fones de ouvido até hoje. Faixa por faixa era um disco quase todo composto por hits e meio que me salvou de um caminho muito perigoso. Entre os 13 e 17 anos o adolescente vive aquele período de tomada de decisão, busca de uma identidade, formação de um caráter e de uma personalidade. As escolhas que a gente faz nessa fase da vida podem marcar para sempre nossa passagem por este mundo. Por isso eu me encontrava em um terreno bastante perigoso, pois o Colégio das Neves onde estudava era uma verdadeira incubadora de idiotas. O nível educaional era muito bom. Tínhamos bons professores e o conteúdo, tirando os dogmas medievais que nos eram repetidos como mantras, produziu alguns dos melhores e mais bem sucedidos adultos de minha geração. O problema era a mentalidade reinante entre os meus colegas, uma gente muito simpática, mas careta, preconceituosa e adepta de uma estupidez corrosiva e mais contagiante que vírus da gripe.

Num ambiente como esse, se você não reza segundo a cartilha reinante da coletividade, o que para um jovem aluno Neves significava ir a shows de Axé, saber dançar forró e frequentar os pagodes de fim de semana, pode estar condenado à uma rápida morte social ou, muito pior, ganhar reputação de excêntrico o que, aliás, dá no mesmo. Eu gostava de rock. Até me esforçava (não muito) para ser igual aos outros, mas não dava. Paguei um preço por minhas opções. Meus amigos achavam exótico, as meninas da GRD nem olhavam pra mim e os que não me conheciam tinham a sensação de que era melhor continuarem assim. Até que descobri em outras salas e séries, alguns como eu.  Minha solidão terminou quando percebi que havia um pequeno nicho roqueiro na escola. Fiz amigos como Fernando Filho, Thales Lago, Caio Vitoriano, Leonardo Medeiros, Diogo Salim, Vítor Duarte e juntos criamos nosso próprio gueto, protegido da intolerância e hostilidade dos demais.

O Green Day, Offspring e muitos outros conjuntos roqueiros gringos e também brasileiros proporcionaram minha catequese, pavimentano um caminho para que eu conhecesse outros sons, bandas mais pesadas, ritmos mais frenéticos. Estava salvo. Só havia um problema: possivelmente eu nunca teria a oportunidade de ver meus dois grupos californianos ao vivo. Numa cidade em que Durval é rei e todos os puxadores de bloco ganham títulos de cidadãos locais, deveria haver alguma lei que mantinha os shows internacionais a milhares de quilômetros. Felizmente, os anos mostraram que eu estava errado.

Em 2004, o Offspring tocou em Recife. Em 2009, foi a vez do Iron Maiden fazer o mesmo. Vez por outra também rola um concerto imperdível em São Paulo ou Rio e, com um pouco de economia e planejamento, dá pra marcar presença. Mas ainda faltava o Green Day. Faltava, pois por uma dessas jogadas do destino, acabei vindo passar um período de estudos fora de Natal e haveria um show dos californianos aqui onde estou morando.

Quando chegamos à fila do evento, gigantesca, dando voltas no quarteirão, a primeira coisa que vi foi a multidão de camisetas pretas que passavam uma mensagem clara: eu estava em casa. Depois percebi que a maioria era de adolescentes, ou pelo menos adultos bem jovens que eu. Senti-me o tiozão do Rock. Aquela gurizada conheceu o grupo certamente através do American Idiot. Ao percorrer a extensão da fila, comecei a perceber representantes de minha época, facilmente identificáveis pelas primeiras rugas, precoces pelos grisalhos ou proeminentes calvícies. Fiquei imaginando se a banda foi tão importante para eles, na formação de seus gostos musicais, quanto foi pra mim. durante a espera, muitos senhores e senhoras que passavam, paravam um pouco para nos perguntar o propósito de uma multidão de jovens como aquela disciplinadamente alinhados, ordenadamente a espera de algo certamente grande. “Vamos a um concerto de Rock”, eu respodia todo sorrisos.

Até que, finalmente, teve início o espetáculo: público ensandecido, devotado e de alma lavada. Inclusive eu, pois finalmente podia ver Billy Joe, Tré Cool e Mike Dirnt numa performance memorável. Quase 3 horas de clássicos (“Basket Case”, “She”, “When I come arround”), canções históricas (“Minority”, “American Idiot”, “Boulevard of broken dreams”) e baladas (“Good riddance”), além das novas do “21st Century  Breakdown”. Tudo bem orquestrado com uma produção alucinante, muita energia na plateia e ótima presença de palco.

A data de 29 de setembro de 2009 entrou para a história, pelo menos para a minha história. Foi um bom dia, colorido com contornos verdes, regado ao sabor amargo de muita cerveja e cada vez que lembro do concerto se anuncia um largo sorriso em meu rosto. O que aconteceu naquela terça-feira foi uma celebração aos 15 anos que se passaram desde que eu ouvi o Green Day pela primeira vez.  A alegria que eu exibia no show não era apenas de um fã que via ao vivo a performance de seus ídolos, mas de um adulto que se descobria muito feliz pelas escolhas que fez.

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3 Respostas to “Coluna da Digi # 76 – Um Dia Verde”

  1. Raissa Ferreira Says:

    Bem legal seu texto. Essa é mais ou menos a história padrão do “roqueiro classe média dos anos 90” aqui em Natal. Me identifiquei demais com todo ele. Parabéns pelo excepcional final feliz, que me fez lembrar de também ser grata pelas escolhas que fiz!!!

  2. Juliana Lima Says:

    Oi Fialho, estava no Congresso Científico da UnP, e vi sua palestra. ameeeii! por falar nisso! kd nosso livro? o meu email está bem escrito lá na folhina de papel. rsrsrs. Parabéns pelo trabalho, eu ri muito da orelha do livro ” Tudo é mentira”.

  3. Bia Madruga Says:

    entendi completamente seu lado ex aluno neves
    hahah a
    ;)))

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