Olha o Paulo Celestino aí, gente!

Paulo Celestino é um jornalista potiguar radicado em São Paulo e erradicado em Natal há 8 anos. Competente e questionador, dono de um estilo opinativo muitíssimo bem embasado, escreveu-me semana passada a fim de dividir comigo e os leitores deste blogue suas opiniões acerca do episódio envolvendo a estudante de direito paulistana que deu uma opinião preconceituosa por meio da internet. Senhoras e senhores, com vocês, Paulo Celestino:

Avisem à Petruso e ao Movimento República de São Paulo que tá tudo dominado! Só não se sabe quem domina quem.

Moro há oito anos em São Paulo. Nunca fui discriminado, a não ser naquilo mesmo que eu me discriminei. Claro que sempre encontrei opiniões, pre-conceitos abertos, sem a mínima preocupação em respeitar o outro. Muitas vezes essas conversas foram em mesas de bar, no papo “quente” gelado pela cerveja.

Sempre fui aberto ao diálogo, aprendi a conviver com isso, creio que as pessoas podem ter suas opiniões assim como eu tenho as minhas (um argumento que já ficou meio batido nesta história). E com o tempo notei que, quem fala mal do Nordeste, é porque nunca se deu ao trabalho (ou deleite) de entrar em um avião e por os pés em qualquer lugar dos 10 díspares estados que compõe a tal da região da discórdia.

Portanto, para mim, não é nenhuma surpresa pensamentos igual ao da estudante Mayara Petruso. Mas o episódio representa uma mudança de paradigma neste pensar-dizer-baixar a cabeça entre Sul-Norte, Sudeste-Nordeste. Uma coisa é soltar pensamentos em uma mesa de bar, onde uma andorinha só não faz verão (para ambos os lados). Mas a outra é deixar registrado. E desde o advento das redes sociais e Twitter, engana-se que pode vociferar ou ser verborrágico aos ventos.

Mayara e tantos outros esquecem-se que algo pode fazer coro, como alguém que grita “Olha o ladrão” em praça cheia. Do outro lado (de quem realmente se reconhece na ofensa ou é simpatizante ao ofendido, ou abomina qualquer ofensa do tipo e isso vale para os tais dois lados), a reação também não foi a habitual do “deixa passar”. Não é mesa de bar. Com os meios de publicação digital disponíveis e o famoso ‘Copiar e Colar’, uma revolução estava feita: era claro que não iam deixar passar sentimentos e opiniões daquelas.

O que eu vejo como muito interessante é que sempre encontrei muito gente elegendo o Nordeste (assim como muita gente elege São Paulo ou qualquer outro lugar). Elegendo aqui eu quero dizer é escolhendo por livre e própria iniciativa. E encontro muitos Paulistas que conhecem bastante o dito Nordeste, mais do que eu como Nordestino.

Essas pessoas desbravaram interiores, foram até os Picos do Piauí, ao (des)sertão baiano de Antonio Conselheiro, a Cabrobó do Ceará ou à mítica Caicó do Rio Grande do Norte. A Bahia é quase um território paulista com suas praias que conheço bem pelos contos de quem por lá passou: Itacaré, Morro de São Paulo, Ilhéus, Porto Seguro, Prado, Mucuri, Itaparica, Praia do Forte entre tantas outras. Faz também parte dessa “cultura” paulista, também se encher de São Paulo (ou de qualquer lugar) e o Nordeste ainda representa quase essa terra idílica, o retorno ao paraíso. Assim como as montanhas de Minas, do Rio ou do Vale do Paraíba. É questão de gosto e escolha. 

Sem falar na culinária, voto vencido, há a diversão. O Forró é praticamente hoje uma instituição cultural de São Paulo. Algo que originalmente veio do Nordeste, mas foi transformado Brasil afora, e ganhou o sufixo de Universitário. Casas de show como o Canto da Ema (e não é só ela) estão cheias quase todas as noites. Tenho certeza que as pessoas lá não estão por ordem da Comunidade Nordestina, algo arranjado pelo Centro de Tradições Nordestinas, com caravanas cheias de gente com a bandeira levantada da manutenção de uma nordestinidade. E não é coisa de pobre, se quiser usar isto como argumento. Tem até forrós vips, que só entram com nome na lista.

E isso não é privilégio de São Paulo. O Rio de Janeiro e Espírito Santo, Brasília (onde se pode reclamar a origem do universitário da história) e até a mais “tradicionalista” Curitiba têm também os seus grandes bailes de forró. Já é quase uma dança nacional, ouso dizer. E, olha, que tirando o ritmo, pouco me reconheço no seu bailado cheio de rodopios plásticos (e isso não quer dizer que é pior ou melhor, embora tenha precisado de um curso para poder dançá-lo).

É dessas pessoas que curtem viajar e viver por estes universos que encontramos uma prazerosa conversa, sabem ver a diferença, deixam de lado essa visão “chapada” do Nordeste como apenas uma terra desvalida, pobre e cheia de aproveitadores de uma tal riqueza sulista. Muitos são os problemas. Não negam (e não negamos), há muito o que mudar. Mas não reduzem tudo a algo monocromático de uma terra árida e rachada a ser abolida.

Ainda sobre o assunto, é emblemático que o tal Movimento República de São Paulo, que defende uma autonomia do estado paulista, admita que o Nordeste tenha uma cultura forte que se sobrepõe a “deles”. Mas pera lá: Não é sempre nós, Nordestinos, que nos achamos em pé de eterna desigualdade e desvalor, de pobre cultura? É meus caros, de todos os lados parece que os problemas são os mesmos quando se fala em identidade. O interessante é que, ao mesmo tempo, muitos nordestinos – principalmente de um outro perfil que vêm em busca de estudos e especialização, além da busca de trabalho-,  também saem de suas regiões pela busca dos marcos de uma cultura urbana que só São Paulo oferece.

Então, lanço uma reflexão: alguma ideia de quem sempre estar a ganhar mais? Quem sempre pensa em excluir ou quem sempre está a encontrar a diversidade na diferença, aproveitá-la e transformá-la?

Nesta conversa toda, pra finalizar, só tenho a sugerir para Mayara Petruso e Movimento de São Paulo que desencanem. Faça como muitos dos seus conterrâneos. Se já não tiverem ido, vão curtir o Nordeste no estilo Facebook da palavra, pegar o lado paradisíaco da coisa, relaxar, tomar um sol e sorver uma boa caipirinha com o pé molhado em qualquer de suas praias. Mas não se preocupem, se quiserem trabalhar, também tem muito sim senhores.

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Uma resposta to “Olha o Paulo Celestino aí, gente!”

  1. Raissa Ferreira Says:

    Curti!

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