Coluna da Digi # 77 – Adoráveis Bastardos

Um dos melhores filmes do ano passado pra mim, foi “Bastardos Inglórios”. A maestria de Tarantino me pegou de jeito. Fiquei encantado pela película e escrevi uma coluna a seu respeito. Hoje, republico a coluna da Digi postada em 19 de outubro de 2010. Espero que gostem tanto quanto eu curti o filme.

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Adoráveis Bastardos

Sabem o que eu mais gosto do estilo Tarantino de fazer cinema? Do prazer que ele sente ao trabalhar com isso. A satisfação do diretor em realizar suas obras é nítida em cada centímetro de celulose. No seu mais recente filme, “Inglorious Basterds” ele parece que escreveu uma história por pura e inconsequente diversão. Brincou de redigir o roteiro, acompanhar a préprodução, dirigir as cenas e montar. O resultado é uma divertida fábula que se utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para contar a história dos arruaceiros judeus que tinham como missão matar o maior número de nazistas quanto pudessem em território europeu.

Ao assistir “Inglorious Basterds”, tive muitíssimas lembranças de outros filmes ou personagens do cinema ou da literatura, algo perfeitamente natural diante da grande quantidade de referências e homenagens que costuma fazer o diretor em seus trabalhos. De Sherlock Holmes a Cinderela, passando por filmes de Western e suspense, a história flui num ritmo bastante agradável repleta de pequenas mensagens subliminares, discretos acenos à plateia capazes de fazer os mais atentos ou bem informados darem um que outro sorriso a mais. E, claro, as longas e maravilhosas cenas de impagáveis diálogos, já uma marca registrada do diretor, não poderiam faltar, dando à história um equilíbrio essencial. Suas ideias parecem delírios juvenis, nascidas a partir de uma fértil imaginação adolescente e anabolizada por uma profusão de hormônios típica daquela idade.

Lembro de um conto que escrevi certa vez e que se chama “Anjos”. Tratava de 3 jovens de 20 e poucos anos que decidiam matar italianos e espanhóis que vinham fazer turismo sexual com menores em uma Natal dominada pela violência, um quadro bastante fiel à Natal de Vilma Maia e sua filhota bastarda (apesar de não reconhecida) Micarla de Sousa. A tensão da narrativa, os diálogos e a ação chamaram a atenção de Henrique Fontes, dramaturgo potiguar, dizendo que ele poderia tornar-se um curta. Levei o texto a Buca Dantas que se interessou e deverá transformá-lo em cinema muito em breve. Essa minha história, quando a escrevi, tem um pouco da empolgação adolescente presente nos roteiros tarantinescos.

É aquilo que todos nós temos vontade de fazer, mas como não podemos, mandamos nossos personagens fazerem por nós. Como nos velhos filmes de ação em que um dos mocinhos morre, mas ainda consegue, antes de exalar o último suspiro, dizer a um amigo: “Vá lá e pegue eles por mim!” É precisamente o que os meus 3 garotos fazem no conto “Anjos” o que os bastardos sem glória de Quentin fazem no novo filme. Enquanto meus personagens assassinam italianos maníacos como eu adoraria fazer, o pelotão comandado por Brad Pitt cumpre aquilo que o diretor teria o maior prazer em fazer se tivesse a oportunidade: matar nazistas.

A sede com que Tarantino busca fazer algo prazeroso, encontrar satisfação plena no seu ganha pão também é contagiante, não raro resultando em verdadeiras jóias do entretenimento, encontrando um cômodo lugar entre o cine de arte e o cinemão pipoca. “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” já são objetos de culto merecido, “Jackie Brown” e “Death Proof” garantias de diversão, e os dois volumes de “Kill Bill” são uma colcha de retalhos de referências (inclusive a si mesmo) que renderam até uma ótima produção brasileira, o engraçadíssimo curtametragem “Tarantino’s Conection” protagonizado por Selton Mello e Seu Jorge.

Porém, a despeito de toda sua obra anterior, com a nova película, o cinesta parece ter ido além. Conforme têm apregoado em entrevistas pelos 4 cantos a fim de promover a produção: “Essa pode ser a minha obra prima!” Após assisti-lo, faço eco às declarações do diretor. Ele não está exagerando.

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