Archive for janeiro \28\UTC 2011

Coluna da Digi # 98 – Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.

janeiro 28, 2011

No dia 15 de março de 2010, publiquei um texto que se tornou mais um viral nessa minha carreira de seguidos e fugazes sucessos internéticos. A crônica “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ” nasceu de muitos relatos de amigos a respeito do comportamento habitual dessa juventude carnatalesca que é linda. Publiquei o texto na NET e logo ele se tornou um hit. Foi repassado por e-mail, divulgado no twitter, passado adiante das mais variadas formas. Virou assunto em mesas de bar e inflou meu ego a ponto de eu ter deixado de cumprimentar alguns amigos. Hômi, me deram tanto cabimento que até gente bacana da cidade escreveu textos opositores e Cristiano fez um bom trabalho, dizendo-se alvo do texto e, espertamente, promovendo  o Jukebox.  Enfim, foi muito legal tudo o que essa coluna provocou.

Boa leitura! E divulguem pra galera. Quero bombar esse blogue de acessos nessa sexta!

Valeu!

***

Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!

Major, a vida anda cada vez mais difícil. Se esse hômi soubesse… Tá foda, bicho. Difícil mesmo. E o que é difícil, como esse hômi deve saber, não é fácil. É nada, hômi. Nem a pau. Ser um jovem de classe média alta em Natal está ficando cada vez mais trabalhoso. Pra mim, tem sido uma tarefa bastante árdua atender todas as exigências impostas pela sociedade e manter a pose de nababesca futilidade que se espera de um bom playboy natalense. Antigamente, bastava ter um carrão, com um som potente no porta-malas, um guarda-roupa cheio de grifes da moda, frequentar uns poucos lugares e exibir-se com a urgência de um pavão no ritual da corte. Valia falar alto, brigar em shows de axé, ser fotografado pelos colunistas sociais e ficar vergonhosamente bêbado em lugares públicos. O importante era ser notado pelos seus pares.

Mas essa moleza acabou. Hoje em dia o jovem playboy natalense e a autêntica patricinha conterrânea têm muito mais a fazer do que pensar em como vai ser o carnatal a partir de janeiro. Eles têm que cumprir uma rotina de compromissos sociais e extenuantes maratonas de eventos que deixariam qualquer chefe-de-estado em frangalhos.

Pra começar, os lugares que requerem a presença do jovem playboy são muitos. E se deixar de ir a algum deles pode significar a morte. Não a morte, morte mesmo, morrida de verdade. Mas uma morte ainda pior, uma morte social. Se você deixa de ir a um dos lugares da moda, já era! No outro dia tá todo mundo comentando, com maledicência, suposições, scraps no Orkut e SMSs mil, a respeito de sua ausência. Antigamente o roteiro de locais obrigatórios se restringia ao camarote da Vila Folia ou àquela boate da estação. Hoje, para ver e ser vista, nossa “geração Y” tem que ir a muitos barzinhos, boates, points, festas e, ainda por cima, tomar muito cuidado com a seleção dos locais que frequenta.

E não se trata só de seguir o rebanho, como muitos pensam. Deve-se ir aonde todos vão, mas com muito bom gosto, sabe? Teve até um amigo meu que quis escrever um guia de boa conduta para facilitar a nossa vida. Algo que dissesse o que é e o que não é cool. Seria o máximo para nós, membros orgulhosos dessa juventude carnatalesca que atrofiou as sinapses neuronais por falta de uso e total inapetência para a arte do pensamento. Imagina só, major, um circuito seguro para não derrapar e manter intacta a imagem e boa reputação de playboy/patricinha acéfalo potiguar. Hômi, isso não ia prestar não! O problema era que meu amigo não sabia escrever direito, daí nunca saiu o tal guia. Sem bronca, nossos iguais não iam conseguir ler mesmo. Sabe como é: a gente se cansa de ler qualquer coisa que não seja as legendas das fotos do Bobflash.

De qualquer maneira, eu, como sou um cabra de peia e gosto de ver meus amigos se darem bem, sem vacilar, saca?, vou lhe dizer qual o roteiro que deve seguir para não se queimar com as bichinhas. O caminho de tijolos amarelos se inicia nas baladas de quinta e sexta no circuito Seven, Maranello e Medievo. Não tem muito mistério não. Vista-se igual aos outros cabras, com as marcas da moda e o mesmo tipo de calça, camisa e pisante que eles estiverem usando. É melhor comprar tudo ali pela Afonso Pena, saca? Eles têm umas marcas “exclusivas”. Quer dizer, são iguais à maioria das roupas de qualquer shopping da cidade, mas como são muito mais caras, vão ajudar a te dar uma moral na noite. Quando estiver na boate, é bom estar entrosado com os grupinhos de pessoas VIPs. É gente badalada que geralmente tem nome e sobrenome. Eles nunca se chamam Renata ou Roberto. Sempre têm um sobrenome que indica status e sem o qual eles não são ninguém. Algo como Renata Faria, ou Roberto Maia. Aliás, se você próprio tiver um sobrenome legal, pode se integrar e ser aceito com muito mais facilidade. Tem certeza que não se chama De Paula ou Rosado?

Vamos seguindo. No sábado, no fim da manhã, dirija-se para a frente do hotel Manary, em Ponta Negra. Não se esqueça de sua bermuda florida. Nada de calção de futebol, senão as meninas não vão nem te olhar, a não ser com um desdém de quem acabou de ver um asquelminto gigante piscar pra elas. Se você estiver em dia com a academia e as aplicações de “estró”, melhor. Pois poderá se amostrar um pouco sem camisa pra todo mundo ver.

Depois da praia, saia correndo e dá um pulo pelo Dom Vinícius, Cervantes ou Pitanga. Uns tira-gostos legais, cervejinha ou uisquinho e papo animado sobre carros, shows, festas e resenhas diversas. É sempre bom pra saber quem tá comendo quem e qual dos amigos trocou de carro essa semana. De lá, uma passadinha no Shock Bar pra se espremer entre toda a galera. Não vale ficar cansado e deixar de ir. Tem que marcar presença, ver e ser visto. Por isso, toma um Redbull e vamu simbora, major! Vai com fé.

O “esquente” no Shock Bar termina cedo e o sábado ainda é uma criança. Por isso, vá em casa, tome um banho e volte pro circuito de bares por trás da AABB ou, pra “variar” um pouco, um Dom Café até que vai bem. Inclusive, aqui vai uma dica. Sabe o que é legal?, levar o ipod com as caixinhas de som pra colocar na mesa. Quanto mais caro e moderno melhor. É a nova versão da mala do carro escancarada. O efeito fica ainda melhor se todo mundo na mesa cantar junto as músicas alto para passarem o recado: “helloooo, eu tenho um ipod”.

No domingo, é dia de descanso? Que nada! Durma até meio-dia e depois trate de descobrir onde a galerinha esperta se encontra e vá correndo pra lá. Um churrasco na mansão de alguém, um almoço num restaurante chiquê, tipo o Buongustaio, onde as pessoas podem lhe ver da rua e admirar o quanto você é interessante por estar ali. Um sushizinho à noite também vai bem. Mas, olha só, tem que ser onde a turminha estiver, senão é o mesmo que não ter ido. É que, a partir do momento em que você decidiu se tornar um jovem society natalense, deve ir sempre aos mesmos lugares, ver e ser visto sempre pelas mesmas pessoas e julgar e ser julgado por elas. É como fazer parte de um clube, uma sociedade secreta, aliás, de secreta não tem nada. É bastante exibicionista, na verdade. Mas não importa. Você faz parte dela, então assuma o seu fardo.

Ah, sim! E cuide de se comportar de forma adequada. Tem que ser um pouco de ator também. Nada de discrição. Você não deve ser coadjuvante de porra nenhuma. Nesse filme, todos são protagonistas. Então, tudo o que fizer, faça com que seja notado por sua “plateia”. E entenda-se por plateia toda essa gente bronzeada, siliconada, anabolizada, de sorrisos perfeitos e valores frívolos que lhe circunda. Não faça nada, desde acender seu cigarro a balançar seu drink, sem o mínimo de estardalhaço. Fale de suas posses, de grandes feitos (nada precisa ser verdade. Lembre-se: você é um ator), de seu saldo bancário, de suas inúmeras conquistas amorosas. Mas fale alto, pra todo mundo ouvir. Nesse clube, as mulheres são gasguitas e os homens são gabolas.

Quando o fim de semana acaba vem a segunda-feira. A semana, lembre-se, serve pra recarregar as baterias para a próxima sucessão de compromissos inadiáveis, com início marcado para a quinta seguinte. Por isso, nada de atividades desgastantes como um estágio, faculdade difícil ou, pelo amor de Deus, um trabalho! Se for estagiar em algum lugar, dê preferência a alguma empresa do seu pai ou da família, onde você goze de todos os privilégios e regalias, como chegar tarde e sair na hora que quiser.

Agora, como eu sou seu amigo, major. Vou lhe dizer qual é o pulo do gato: trabalhar com algo que esteja ligado a sua rotina. Promotor de boate, comissário de bloco ou produtor de show. Ou ainda, major, você pode ser, sabe o que?, pois eu vou lhe dizer agora. DJ, meu amigo! É limpeza e dá a maior moral na cidade. Basta inventar um nome invocado e manter a pose nas picapes. Nem precisa desse negócio de conhecimento musical. Isso é coisa de amador. Descubra quais as musiquinhas da moda entre a rapaziada dos camarotes ou nas boates de São Paulo e Recife. Daí, encha seu equipamento de MP3 e fique lá todo posudo com a testa franzida e fones nos ouvidos.

Mas isso, claro, se você quiser se estressar. Porque dá trabalho ser DJ. Você acaba ficando muito solicitado e famoso demais. E ainda tem que cumprir toda a rotina semanal de ir aos lugares da quinta ao domingo, enfim, os seus dias úteis. Não pode descuidar. Qualquer passo em falso e sua reputação vai pro espaço. Porque é aquela coisa, major. É um dia-a-dia muito trabalhoso, sabe? É um sacerdócio, uma vida de renúncias e sacrifícios. Mas é assim que é. A vida pra um jovem playboy natalense anda cada vez mais difícil. E o difícil, major, não é nada fácil.

***

1. “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!” é uma frase de um publicitário amigo que não me autorizou a publicar seu nome.
2. Agradecimentos especiais para Paulo André Linhares e Rodrigo Silveira (o Rodra) pelas dicas.

Anúncios

Colunas da Digi # 93 a #97 e # 99 – Big Bróder Natown

janeiro 28, 2011

Em 2010, no comecinho do ano, cometi a insensatez de publicar o saudoso BBN (Big Bróder Natown), utilizando 12 celebridades natalenses escolhidas por votação popular. A brincadeira rendeu 6 crônicas durante mais de 2 meses em que Clênio Maciel, vocalista da banda Uskaravelho, terminou por sair vencedor, segundo o próprio graças ao seu numeroso fã-clube feminino. Sei, sei. Bem, relembro a história aqui apenas para dizer que não republicarei os textos. Este ano, quero produzir crônicas e colunas mais edificantes e aquela brincadeira, apesar de muito divertida, ficou no passado. Além disso, acredito que tiver sorte de não ser processado por nenhum dos “participantes” e mais sorte ainda por quase todos terem levado na brincadeira. Ainda mais porque acabei pegando pesado com alguns. Fiquei sabendo que pergonagens diversos se divertiram junto. Monsenhor Lucas, por exemplo, conheceu os textos por meio de Sylvinha Serejoe teve crises de riso. Até mesmo os políticos foram informados de suas, er, performances e encararam a situação com humor. Massa. Dessa, eu escapei. 🙂

Mas vamos lá. Bola pra frente que á próxima postagem vai fazer bastante sucesso também. Vai ser a republicação do meu texto de maior projeção do ano passado.

Um abraço.

Carlos Fialho

Coluna da Digi # 92 – Bem-vindo a Natal

janeiro 27, 2011

Em 4 de janeiro de 2010, publiquei a coluna de número 92 da Diginet. Era uma crônica cheia de ironia, em que um conterrâneo escrevia a um amigo, convidando-o a passar uma temporada na cidade e expondo razões para tal. Uma coluna que passou meio despercebida à época, mas que nem por isso fica de fora da nossa retrospectiva.

***

Bem-vindo a Natal.

Meu amigo, como vão as coisas por aí? Espero que bem. Escrevo para transmitir as saudades que sentimos da sua agradável presença, de sua família linda. Inclusive, manda um beijão na Joana e nas crianças. Minha senhora deseja o mesmo. Imagino que a vida de vocês ande corrida, aquele ritmo de cidade grande, né? Escritório, trânsito, deixar as crianças na escola, pegar as crianças na escola, voltar pra casa, mais trânsito, uma loucura. A impressão que me dá é que vocês sempre estão precisando de férias. Aí, já sabe, né? Venham pra cá, pois vocês têm a sorte de ter amigos que moram onde vocês passam férias. E aqui não tem o trânsito que vocês têm aí. Bem, er, quer dizer, ainda né? Porque a quantidade de carros que as concessionárias botam nas ruas a cada mês sem que a cidade tenha condições de absorver está deixando as ruas um tanto quanto lentas e até mesmo intransitáveis em certos horários. Barulho, fumaça, stress e alguns ingredientes novos no caldo cotidiano natalense. Mas normal. É um preço a se pagar pelo desenvolvimento.

Fora isso, tudo na paz. Quer dizer, metaforicamente falando, porque a onda de assaltos a mão armada, sequestros relâmpagos e assassinatos parece não ter fim. Ninguém mais pode morar em casa para não ter a propriedade invadida por bandidos que fazem as famílias reféns e depenam tudo o que eles têm. A nossa casa de veraneio que você tão bem conhece, lembra? Só esse ano foi arrombada duas vezes. As saídas de banco então, são o ponto favorito dos trombadinhas com revólver em punho. Os sinais vermelhos também não são exatamente os lugares mais seguros para se estar parado, pois logo se encosta uma arma no vidro e aí já viu, né? A gente tem que dar um passeio forçado com um cano frio na nuca bem menos prazeroso que aquele que demos pelas dunas em janeiro passado. Com emoção, mas não a mesma daquela vez, sabe? Veja você que até mesmo a Afonso Pena que é tipo a Oscar Freire daqui sofre com os marginais. Todos os dias as lojas, restaurantes, bancas de revista e comércios em geral são assaltados. Os comerciantes estão contratando segurança privada, incluindo uma margem para os assaltos no orçamento, enfim, se virando como bons brasileiros que são, pois se ficarem esperando pela polícia ou pelo poder público, dançam bonito.

Mas é como você sempre diz, meu amigo: “o importante é ter saúde.” E isso a gente tem de sobra. Ainda mais com a benção de Deus que recebemos, que nos deu essa natureza belíssima, exuberante. Se bem que… sabe como é, os cenários aqui estão sofrendo umas pequenas mudanças circunstanciais. É que a especulação imobiliária, os empresários do setor, as construtoras e essa turma toda fazem de tudo pra construir cada vez mais. Eles deram uma “impactante” ajuda aos vereadores em 2007 para votarem um “plano diretor amigo”, financiaram a campanha da prefeita, querem construir uns arranha-céus na frente do Morro do Careca e, a última deles é o seguinte: pressionam a opinião pública para construir uns emissários submarinos, levando os esgotos da cidade toda direto para o mar de Ponta Negra. E olhe que a água da praia já está imprópria pra banho faz tempo. É que a CAERN, órgão estadual que deveria cuidar da nossa água e dos esgotos é, na verdade, um loteamento de empregos para um deputado aliado da governadora. É um que tem um filho bem famoso que vive pegando mulher bonita da televisão. O resultado são as línguas negras de ligações clandestinas e a água da zona norte da cidade, contaminada com nitrato.

E quer saber? Esse negócio de “o importante é ter saúde” já não é tão certo, viu? Tenho uma prima que é enfermeira e trabalha numa unidade de saúde da prefeitura. Ela andou reclamando que faltava esparadrapo e até sabonete pra lavar as mãos. Nos hospitais do Estado também tá feia a coisa. Veja você que um dia desses precisei passar no Walfredo Gurgel e o que vi por lá foi um cenário desses que a gente vê nos filmes de guerra. Desde que eu sou pequeno, ouço falar que ali é uma filial do inferno e ninguém muda a situação.

Mas pelo menos a gente tem o… o… bem, er, o clima, né? O ano inteiro aqui é verão. Um verão cada vez mais intenso, pois estão cortando todas as árvores da cidade. Aí a temperatura sobe mais e a cada ano tá mais quente. Outra coisa que li por aí é que as árvores também absorvem muito a água da chuva, talvez por isso temos sofrido tanto com alagamentos. De maio a agosto fica tudo inundado por aqui. Só você vendo.

Em todo caso, estamos esperando vocês aqui pra passar as férias com a gente. Sabe como é, né? Sou um otimista nato e acredito sempre que as coisas vão melhorar. Então já sabe, estão convidados. Mas, olha só: se vocês decidirem ir a outra parte, viajar por aí, nos avise antes, talvez a gente queira ir junto. Tá bom?

Um abraço.

Seu amigo.

Coluna da Digi # 91 – Top 5 Literatura 2009

janeiro 26, 2011

No dia 30 de dezembro de 2009, publiquei a segunda parte da retrospectiva daquele ano, desta vez enfocando os livros. Li umas cousas muy buenas na temporada que passei na Espanha. Belas dicas.

Boa leitura e boas leituras.

***

Top 5 2009 – Literatura  

Laranja Mecânica, há mais de 4 décadas fundindo cérebros mundo afora.

Diferentemente da lista dos filmes, a de livros não terá uma ordem de preferência. Citarei os top 5 com breves comentários, mas sem dizer qual deles é o melhor na minha opinião, mesmo porque, eu não saberia fazê-lo.

O homem do Castelo Alto – Philip K Dick

No final de 2008, li na coluna Bazar de Alex de Souza no portal Nominuto, uma breve sinopse deste romance de Philip K Dick a respeito de um desfecho diferente na Segunda Guerra Mundial. As nações do Eixo haveriam vencido a guerra e o mundo, em 1960, se encontrava loteado entre Alemanha, Japão e Itália. Trata-se de uma rara história de K Dick que nunca recebeu uma adaptação para o cinema e, segundo informou Alex em sua coluna, inaugurou o gênero de “História Alternativa”, hoje muito difundido na ficção científica e que alcançou seu auge com “The Watchmen” de Alan Moore.  Publicado com capricho pela editora paulista Aleph, para mim é simplesmente inexplicável que ainda não tenha ido parar na telona.

Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski

Esse livro eu estava me devendo a mim mesmo. Minha namorada me emprestou e dediquei umas boas semanas em sua leitura. Era só ter uma folguinha do trabalho ou momento de solidão que abria o Dostô pra descobrir o que o Raskolnikof iria aprontar em seguida. Já escrevi aqui em outras oportunidades que “Os Irmãos Karamazov” é o melhor livro que eu já li. Isto posto, fica justificada a obrigatoriedade de ler também o “Crime e Castigo”. Muito bom! Que adorável canalha que é o protagonista assassino de velhinhas.

Laranja Mecânica – Anthony Burgges  

Escrevi uma crônica inteira sobre o livro, ainda inédita, mas que deverá ser publicada aqui mesmo na Digi. Fiquei muito impactado pela história e encantado pelo autor, Anthony Burgges. A maneira como ele escreveu sua história passada num futuro próximo sombrio, em que as ruas, durante a noite, viram território livre para adolescentes violentos e niilistas saquearem, agredirem, estuprarem e consumirem drogas, é quase hipnótica. O jogo de palavaras que ele utiliza também é sensacional. Burgges criou uma língua própria de seus adolescentes, o Nasdat, e no fim do livro, de tão habituados com os termos ditos pelos jovens, nós próprios já nos encontramos quase fluentes no idioma. É considerado ao lado de “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) e “1984” (George Orwell) como uma espécie de santíssima trindade da ficção. Justíssimo.

A Fortaleza dos Vencidos – Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro em estado puro. Um livro cheio de sátira, uma ótima narrativa, ambientado num período de grande relevância histórica para o nosso país. Um dos melhores lançamentos do ano em terras potiguares. Ótima leitura para as férias de verão.

O cobrador – Rubem Fonseca

Entra na lista porque foi graças a ele que voltei a ler o Zé Rubem depois de uns anos de pausa, felizmente interrompida por este que é um dos mais emblemáticos livro de contos de sua carreira.

A zona do desconforto – Jonathan Frazen

Este livro é uma biografia do autor norte-americano premiado com o romance “As Correções”. Uma história contada francamente em que divide com os leitores sua história de vida sem se preocupar em fazer demasiados floreios e ainda contextualiza os acontecimentos de sua vida com a história dos Estados Unidos e com as figuras da cultura pop que povoavam sua vida como o Snoopy e as bandas de Rock. Este livro entrou na lista por razões pessoais e também porque eu sempre fui meio capenga em matemática, a ponto de, como vocês podem averiguar, fazer uma lista de 5 com a presença de 6. Normal. As razões pessoais se dão porque estou tentando escrever uma história longa aqui do exílio onde me encontro e o livro do Frazen me ajudou a elucidar algumas dúvidas narrativas que tento esclarecer para que meu trabalho resulte em uma boa história.

Menção Honrosa

Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine – José Manuel Serrano Cueto

Gostei muito de ter lido este livro-reportagem sobre a história e os detalhes dos filmes de zumbis. O resultado da leitura se deu através de 4 crônicas publicadas recentemente aqui mesmo na Digi. Quem tiver curiosidade de ler, basta clicar em colunas anteriores deste autor.

Feliz 2010!

Coluna da Digi # 90 – Cinema Top 5 2009

janeiro 25, 2011

Todos os anos, desde 2008, eu fazia uma breve lista de melhores do ano. Em 2010, falhei, é verdade. Foi um ano corrido e, confesso, vi poucos filmes. 😦 Porém, 2009 não foi assim. Naquele ano, havia frequentado muitas salas escuras e pude fazer uma boa lista. Republico aqui a coluna da Digi publicada em 28 de dezembro de 2009.

Bom texto pra vocês e ótimos filmes, caso ainda não os tenha visto.

***

Top 5 2009 – Cinema

Este 2009 foi animador em se tratando de bons filmes assistidos. Mesmo com todos os problemas, embargos, crise econômica, queda de arrecadações, pirataria e tudo mais, foi difícil fazer a lista de 5 mais, não pela escassez, mas pela profusão de boas opções a indicar. Sem mais milongas, vamos à lista:

Os eleitos

05 – Na natureza selvagem

Este filme de Sean Penn é um sensível manifesto à vida simples, ao respeito à individualidade, ao idealismo, ao idealismo e à heróica atitude de negar-se a ter mais do que precisa ter. É um libelo contra as pressões sociais que nos impõem valores como o consumismo, a aparência, o sucesso e os posiciona acima das pessoas, da amizade, da natureza e da beleza das pequenas coisas. O filme é também uma bonita homenagem à solidão voluntária, à opção pelo silêncio, pelo sossego, pelo autoconhecimento. A trilha sonora a cargo do Eddie Vedder do Pearl Jam também é primorosa e se integra perfeitamente à história. Destaque para a excelente canção “Society” que traz o trecho “Sociedade, espero que você não se sinta sozinha sem mim”. O filme, que é baseado em uma história real, é de 2007, mas como eu só vi esse ano, acabou entrando na lista.

04 – Se a coisa funciona

Uma vez o Saramago disse numa entrevista que iria escrever o máximo de livros que pudesse dali pra frente, pois sabia que estava perto de morrer e publicar seus livros seria o seu legado. Bem, acredito que Woody Allen chegou à mesma conclusão e entrou nesse ritmo meio Roberto Carlos de um lançamento por calendário. Tem gente que torce o nariz, que acusa a queda de qualidade, que transborda de saudosismo em declarações como “eu preferia os filmes de antigamente” ou “já não é o mesmo”. Bobagem. “Match Point”, “Scoop” e “Vicky Cristina Barcelona” são sim bons filmes. E ainda por cima nos trazem Scarlett Johanson no papel principal. Porém, dessa vez, ele nos brindou com um roteiro de rara competência com diálogos divertidíssimos e uma divertida visão da America contemporânea e todas as suas ideologias falidas, sentimentos reptimidos e hipocrisias extremistas. Se a coisa funciona? Pra mim, funcionou às maravilhas.

03 – UP

A Pixar é um estúdio de animação que elevou suas produções ao mais alto grau de perfeição. Não se pode definir o trabalho da empresa sem utilizar superlativos ou elogios grandiloquentes. Sou fã de primeira hora e colecionador dos DVDs. Acredito que eles são os que melhor sabem combinar os conceitos de arte e entretenimento no mundo. Para 2010, já estou ansioso para ver “Toy Story 3”, ler o livro “A Magia da Pixar” e o documentário que conta a história da empresa. Quanto ao filme, “UP”, é sensacional. Uma ótima história, muitíssimo bem escrita e produzida com o esmero já característico do estúdio. Imperdível!

02 – Bastardos Inglorios

Estava ansioso para ver o novo Tarantino. A história parecia divertidíssima e as primeiras críticas que chegavam me enchiam de boas expectativas. Fosse pelo equilíbrio perfeito entre uma boa história e entretenimento, fosse pelos diálogos tarantinescos, ou ainda pelas atuações inspiradas dos atores, especialmente o austríaco Cristoph Waltz que acumulou prêmios de melhor ator. Vi o filme e não me decepcionei. É o melhor Tarantino. Superou, para mim, os já clássicos “Cães de Aluguel” e “Pulp Ficction”. É muitíssimo melhor que os bonzinhos “Jackie Brown” e “Death Proof” (gostei mais da metade do Robert Rodriguez da “Grindhouse”). E, por fim, não vou nem falar dos “Kill Bill”, pois eu detestei aquilo lá. “Bastardos Inglórios” é, talvez, e como defeiniu o próprio Tarantino, sua obra prima.

Na ocasião em que assisti ao filme, publiquei uma crônica aqui na Digi. Leiam aqui.

01 – The Watchmen

É difícil adaptar um objeto de culto. Por isso, Zack Snyder foi extremamente corajoso ao embarcar na produção de “The Watchmen”, que levaria ao cinema uma obra que figura em 9 de cada 10 listas de melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Estava brincando com fogo e continuou caminhando na corda bamba ao peitar os executivos e insistir em fazer um filme o mais fiel possível ao original. Resultado: críticas dos não-iniciados, os ignorantes da história de Alan Moore e bilheterias muito aquém do que poder-se-ia projetar. O diretor conseguiu desagradar a muitos expectadores mundo afora, mas conseguiu algo muito mais importante: o respeito dos fãs e um lugar no céu da posteridade como um homem de colhões que enfrentou dificuldades hercúleas e fez uma entrega decente. O filme “The Watchmen” tem um destino certo e bem traçado. Foi combatido num primeiro momento, não obteve o êxito de arrecadação esperado, mas certamente será visto e admirado por gerações, convertendo-se num “cult”, assim como ocorreu com o Blade Runner do Ridley Scott há quase 30 anos. será justo, pois Alan Moore está à altura do K. Dick. Pela minha adoração à história em papel e pela satisfação em ver tudo passado para a telona sem traumas ou sacrilégios, este é o meu primeiro lugar no pódio.

Menção honrosa

Quem quer ser um milionário?

Valsa com Bashir (este tambémnão é uma produção lançada em 2009, mas como eu só vi este ano, tá valendo).

O pior

Transformers 2

Não vejam este filme por nada nesse mundo! Nem se lhe oferecerem o cachê do Padr Fábio! E tenho dito.

Coluna da Digi # 108 – Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

janeiro 24, 2011

Hoje, resolvi subverter a sequência cronológica de publicações neste blogue. Tudo porque, após ter anunciado a morte da série de crônicas sobre zumbis no cinema (Coluna da Digi #98), afinal já havia publicado 5 textos a esse respeito, ressucitei o assunto em uma 6ª e, por hora, definitiva coluna. A crônica “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, publicada em 20 de setembro de 2010, fala do surpreendentemente ótimo filme de comédia protagonizado por Woody Harelson e Mark Zuckberg.

Curtam eo texto e vejam o filme depois. Valeu!

***

Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

 

 “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. A frase não passa de uma piadinha para muitas pessoas, para legiões de leitores e expectadores ao redor do mundo, ela é um truísmo estático sedimentado por centenas de livros, filmes, HQs, videogames. Quando um morto-vivo surge numa narrativa, ele carrega nas costas uma respeitável bagagem de histórias que deram certo, que aterrorizaram, divertiram e fizeram pensar”

Daniel Galera, na orelha de “Areia nos dentes”, do autor Antônio Xerxenesky.

 

Dia desses, saí de casa para conferir dois filmes novos que acabavam de entrar em cartaz. Estava curioso acerca de “Onde vivem os monstros” do diretor Spike Jonze (“Quero ser John Malkovitch”), roteirizado pelo escritor americano Dave Eggars. No mesmo local estava passando também uma comédia com zumbis chamada “Zumbilândia”. Este último fui ver sem muitas expectativas. Apesar de fã confesso das produções sobre mortos-vivos e de estar empolgado com a recente leitura de “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” do jornalista espanhol Jose Manuel Serano Cueto, eu sabia que aquele filme representava uma aposta de alto risco.

Uma comédia americana sobre mortos andantes poderia resultar num desastre muito pior que uma infecção real de zumbis. “Shawn of dead”, que no Brasil ganhou a tradução ridícula “Todo mundo quase morto”, é uma divertida paródia do gênero, mas é inglês. As comédias inglesas costumam ser mais inteligentes que os filmes sorvete na testa americanos. Mesmo assim, resolvi arriscar. “Zumbilândia” vinha sendo elogiado, havia recebido boas críticas e além do mais, como disse o escritor Daniel Galera na orelha do romance “Areia nos dentes” do autor Antônio Xerxenesky: “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom”. Generalizações a parte, resolvi conferir.

Foi então que ocorreu uma reviravolta digna dos bons roteiros, uma inversão de expectativas realmente inesperada. Decepcionei-me com “Onde vivem os mostros”. Um bom filme, mas apenas isso. Nada perto do que se poderia esperar de uma parceria entre o inventivo diretor Spike Jonze e Dave Eggars, que vem sendo cultuado nos Estados Unidos como o queridinho da nova geração de escritores, já tendo sido até chamado de “o Bono da literatura”.

“Zumbilândia”, por sua vez, agradou em cheio. Para minha surpresa, não se tratava de é uma paródia dos filmes de George Romero, nem de outras produções sobre moribundos andarilhos. Trata-se de uma história original, bem escrita, com boas piadas e partindo de uma premissa bastante interessante: a de que, para sobreviver a um mundo dominado por zumbis, é preciso criar regras estritas e segui-las rigorosamente. Dessa forma, foi concebido o improvável protagonista frágil, nerd e extremamente tímido que, paradoxalmente é o mais indicado a sobreviver num mundo infectado. Tudo porque o personagem criou seu próprio manual de sobrevivência e repassa sempre as normas estabelecidas para não se tornar mais um morto-vivo.

A fonte de inspiração do filme pode muito bem ter sido o livro “The zombie survival guide”, de 2003. Algo como “O guia de sobrevivência para um mundo de zumbis”, do autor estadosunidense Max Brooks, filho do cineasta Mel Brooks. Max vem se destacando por escrever livros muito bem sucedidos sobre o gênero. Sua segunda publicação, “World War Z: an oral history of a zumbi war”, repetiu as ótimas vendas da estreia. Em seu guia de sobrevivência, Max explicita duas informações básicas. A primeira é: como não ser mordido, infectado, devorado ou morto pelos monstros. A segunda: como matá-los, informando diferentes maneiras de acabar com as aberrações a parte do clássico tiro na cabeça.

Em “Zumbilândia”, além do tímido Columbus (…), surge também o excêntrico Talahasee (Woody Halreson, muito bom) que se especializou em matar zumbis das mais variadas maneiras. Assim, os dois personagens principais se complementam e parecem tirados do primeiro livro de Max Brooks. Um especialista em fuga e sobrevivência e o outro em acabar com os mortos que surgirem no caminho. Os próprios comerciais de TV disponíveis no Youtube ilustram bem isso ao mostrarem os dois protagonistas, respondendo perguntas acerca de como agir num mundo zumbificado.

Columbus e Talahasee tem a companhia de duas garotas em sua aventura. Uma delas é interpretada pela atriz Abigail …, que ficou conhecida como a “Pequena Miss Sunshine”. E tem também os zumbis, que seguem a tendência moderna desta década, ditada pelo filme “Extermínio” do diretor escocês Danny Boyle. Zumbis rápidos, ágeis e mais ameaçadores. Esta nova realidade já havia sido explorada por Zack Snyder na nova versão de “Madrugada dos Mortos” (2004). 

Além desses elementos principais da história, há diversos outros que temperam o filme. Detalhes capazes de diferenciar um bom filme de um ótimo.

1 – Boa trilha sonora – A abertura com … do Metallica é sensacional, já servindo para introduzir os expectadores na história, avisando que o que eles verão ali é ação da boa, intensa e mostrando também que os realizadores tem bom gosto.

2 – A parte visual é uma atração a parte. Os cenários apocalípticos ou abandonados, como as estradas, cidades, supermercados ou comércios estão ótimos. Recomendo que assistam aos extras do DVD para verem como eles produziram tudo.

3 – Os letterings interativos – a maneira com que eles aplicaram os caracteres tanto na abertura quanto durante todo o filme é de uma criatividade arrebatadora. As regras sempre relembradas por Columbus surgem o tempo todo em perfeita harmonia com o cenário onde ocorre a ação. Seja no interior do carro, acompanhando o bip do cinto de segurança ou no asfalto, após um acidente, você pode sempre recapitular as regras junto com o personagem.

4 – As regras – as regras estabelecidas também são bastante divertidas, pois trazem consigo as lembranças de todas as produções do gênero ao concluírem que alguns segredos de sobrevivência são bastante simples e até mesmo ridiculamente óbvios: ter bom preparo físico (“os gordos foram os primeiros a serem pegos”), cuidado com banheiros, ponha o cinto de segurança, olhe o banco de trás, alongue sempre, mate duas vezes. Enfim, mandamentos que poderiam ser transmitidos aos muitos personagens de outros filmes que foram alcançados pelos monstrengos por pura ignorância dessa lista de normas de conduta.

No filme, existem algumas piadas referenciais a outros filmes como Anaconda, Garfield, Titanic. E há também uma participação sensacional de Bill Muray interpretando a si mesmo. 

Por todas essas peças que se encaixam harmoniosamente, formando um ótimo filme, com um bom roteiro, ação e entretenimento de primeira, recomendo a todos que são fãs desse que é o subgênero cinematográfico mais popular da atualidade. Se você não é fã ou alimenta algum preconceito a respeito, é bom ficar onde está e não macular esta produção com sua audiência pouco qualificada e opiniões descontextualizadas. “Zumbilândia” é para quem tem senso de humor e o mínimo de conhecimento específico. Se você preenche esses requisitos básicos, divirta-se.

Camisetas Jovens Escribas Coleção 2011

janeiro 21, 2011

Jovens, esses dois modelos já estão a venda. R$ 35 cada. Quem quer?

Uma, duas, meia e JÁÁÁÁÁ!!!

Coluna da Digi # 89 – Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

janeiro 21, 2011

E a sequência continua. Esta crônica foi publicada em 26 de dezembro de 2009. E parecia ser o fim definitivo da saga… parecia.

Valeu!

***

Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

"Planeta Terror" de Robert Rodriguez (2007)

Esta é a quinta e última crônica de minha saga particular sobre o universo dos zumbis, a não ser que o assunto ressuscite em uma crônica futura, o que aliás é bem possível. Ainda deve pintar um conto (talvez dois) com base nos mortos vivos mais populares do cinema. A razão de toda essa instiga com o tema se deveu à leitura do livro “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”, conforme já externei anteriormente, mas nunca é demais reforçar, caso você não tenha lido os 4 capítulos primeiros desta série. A publicação é um compêndio elucidativo a respeito do tema que há muito me interessava, mas nunca havia podido encontrar palavras adequadas para expressar com o mínimo de respeito a tão distintos monstros.

Este derradeiro texto tratando do assunto traz uma seleção de dicas genéricas presentes no livro ou não para os que quiserem conhecer alguns artigos literários, cinematográficos e musicais alusivos aos zumbis.

No início do livro, o autor, José Manuel Serrano Cueto explica a origem do mito. Os zumbis surgiram no Haiti, quando pessoas supostamente mortas eram revividas pelos  feiticeiros locais (bokors) em rituais vudu. O assunto chegou a ser capa da revista “Time” no início dos anos 80. Ele também expõe duas possíveis explicações para o nome “zumbi” (ou zombie em inglês e zombi em espanhol). Poder-se-ia ser uma referência a uma serpente divina norteafricana ou seria uma derivação de “jumbie” (fantasma) ou “nzambi” (algo como o espírito de um morto em um idioma falado em regiões do Congo. Em todo caso, o próprio autor reconhece que é muito difícil descobrir a origem correta do termo uma vez que são muitas as teorias a esse respeito.

Depois de fazer essa contextualização histórica, o livro discorre sobre a presença de zumbis em todas as manifestações artísticas. Partindo do princípio que o primeiro zumbi que aparece em livros é Lázaro (Bíblia), faz uma retrospectiva de todos os quadros onde aparece o personagem ressuscitado por Jesus Cristo. Na literatura, o autor expõe uma extensa bibliografia sobre o assunto que vai do “Frankenstein” de Mary Shelley (1818), representando a volta à vida de, não um, mas de vários seres humanos que tiveram suas partes unidas no surgimento de um novo ser, passa pelos universos de Edgard Alan Poe e H.P. Lovecraft e pelo “Cemitério Maldito” (1983) de Stepehen King.  Algumas publicações  indicadas são os livros do autor estadosunidense Max Brooks (curiosamente, filho do cineasta Mel Brooks) “The zombie survival guide” (2003) e “World War Z: an oral history of zombie war” (2006). Por fim, ele faz uma exaltação ao “Monster island, a zombie novel” (2006) que, na sua opinião é o melhor romance sobre o tema e acabará se tornando filme.

O autor destaca também a presença de zumbis na música em bandas como “The White Zombie” ou “The Zombies”, o revolucionário clipe “Thriller” de Michael Jackson (outro que foi ao mundo dos mortos para voltar e nos atormentar) e a canção “Pet Semetary” dos Ramones.  São ainda muito frequentes aparições desses bizarros seres nos quadrinhos (com destaque para a história “Marvel Zombies” em que descobrem uma dimensão paralela onde os heróis Marvel se converteram em… adivinhem!), nos videogames (“Resident Evil” comanda a turma), animação (“A noiva Cadáver” de Tim Burton) e televisão, demonstrando a todos como esse monstro cinematográfico se tornou uma das criaturas mais pops de nossos tempos.

Outros filmes de zumbis que não foram falados anteriormente nesta série, uma vez que me limitei a abordar as películas de George A. Romero, e que são destacadas pelo jornalista Serrano Cueto são  “Re-animator”, “Pet semetary 1 e 2”, “Braindead” (este de humor negro, dirigido por Peter Jackson que já me havia sido apresentado pelo professor Gustavo Bitencourt), “Resident Evil”, a ótima sátira inglesa “Todo mundo quase morto” e o filme francês “Les revenants” que traz uma ótica diferente sobre o assunto, com os mortos levantando-se, mas causando outro tipo de problema, como rombo na previdência, suas antigas casas sem espaço para acomodá-los, seus cônjugues casados com outras pessoas. O enredo se assemelha aos livros de Saramago, especialmente o “Intermitências da Morte”. Não poderia faltar também a série “A volta dos mortos vivos”, aquela em que os zumbis saem clamando por miolos e que foi uma irmã enviesada da saga de Romero.

Um espaço considerável também é dedicado aos zumbis apócrifos, como os presentes em “REC” (filme espanhol de grande sucesso que rendeu a continuação “REC.2”), “Planet Terror” (metade que coube a Robert Rodriguez da Grindhouse feita com tarantino) e a série “Extermínio” que deverá ter uma terceira produção em breve.

O mesmo autor do livro é pai de uma tirinha que pode ser facilmente encontrada na inetrnet que tem como protagonista um zumbi chamado “Johny Putrido”. Além de todas essas dicas dadas por ele no livro, eu gostaria de incluir umas poucas por minha conta e risco. O livro “Sangue e Areia” do jovem escritor gaúcho Antonio Xerxenesky (que pode ser adquirido no sítio www.naoeditora.com.br) e a insana versão “Orgulho e Preconceito e Zumbis” que deverá, inclusive, virar filme em breve. Cito ainda as bandas brasileiras “Zumbis do espaço” e “Zumbi do mato”.

Por fim, algo que tem no livro e que eu reforço também fora: as “passeatas zumbis” (Zombie Walks”) que ocorrem em todo o mundo e que já teve até uma edição (ou mais de uma?) na sempre quente e festiva Caicó. Como se vê, os zumbis estão mais perto do que se pensa, presentes em muitas manifestações culturais e seguem vivos, vivos demais até.

Com essa crônica, encerro o ciclo. Nos vemos além.

Coluna da Digi # 88 – Zumbis 4 – George Romero Revivido

janeiro 20, 2011

No dia 23 de dezembro de 2009, publiquei mais uma crônica da série sobre filmes de zumbis. Dessa vez, abordando as refilmagens de clássicos romerianos e novas produções do próprio diretor. Espero que sigam gostando.

Um abraço.

***

Zumbis 4 – George Romero Revivido

Cartaz da refilmagem de "Dawn of the dead" de Zack Snyder (2004)

Esta crônica é uma continuação de outras escritas anteriormente. Para entendê-la melhor recomendo que leiam os demais textos aqui, aqui e aqui.

“The night of the living dead” (1990)

Quando “The night of the living dead” foi lançado, em 1968, um problema burocrático fez com que George A. Romero e seus amigos perdessem os direitos autorais sobre a obra. Com isso, acabaram faturando menos do que esperavam, servindo apenas para recuperar o dinheiro investido. Em 1990, o filme e a saga romeriana iniciada na “Latent Images” já havia se tornado célebre e muitas homenagens, referências e releituras livres haviam sido feitas sobre suas obras em todos os meios possíveis, sobretudo no cinema, claro. Os amigos, decidiram, entretanto, fazer eles mesmos um remake para ver se finalmente ganhavam algum dinheiro. Romero não quis dirigir o filme e a função foi desempenhada por Tom Savini que tinha pouca experiência como diretor e antes era o responsável pela maquiagem das entregas anteriores. A escolha se mostrou acertada, todos gostaram do resultado e “The night of the living dead” (1990) tornou-se uma bela homenagem à obra original com o selo de qualidade do próprio criador da saga.

“Dawn of the dead” (2004)

Em 2004, um novato chamado Zack Snyder, também foi convidado para realizar uma releitura de um filme de Romero. Dessa vez, seria o segundo filme, “Dawn of the dead” (1978), em que um grupo de sobreviventes se refugia em um centro de compras, configurando-se em uma crítica explícita ao consumismo. Snyder dirigiu um filme exitoso em vários sentidos. É entretenimento dos bons, teve boa recepção do público e faturou bem no mundo tod. Ainda por cima, agradou ao homenageado, apesar de ele ter feito algumas ressalvas: “É um bom filme de ação, bom entretenimento, mas não há muita substância por baixo de uma embalagem tão bonita”.

A afirmação de Romero tem razão de ser. Em vez do universo reduzido de protagonistas da versão original (apenas 4) com seus conflitos, relação tensa, dramas psicológicos oriundos da situação extrema de sobrevivência, aqui existem 12 principais. A crítica ao consumismo da película mãe também se perde e o centro de compras que era como um personagem se torna um simples cenário para a ação, nada mais que um refúgio seguro para os apersonagens. Outra licença artística do diretor foi a não continuidade. Snyder optou por contar a história de um novo início para a epidemia enquanto no filme de 1978, já se haviam passado 10 anos do surgimento. Em contrapartida, outro dogma sagrado romeriano foi mantido ao não explicar a origem do ocorrido. Essa não é a única referência, os mais atenciosos e nerds encontrarão várias pequenas homenagens e participações especiais que remetem à produções do cultuado diretor.

“Dawn of the dead” (2004) recorre a uma concepção mais moderna do espetáculo audiovisual e utiliza ação frenética e diversos focos de dramaturgia para não aborrecer o público atual. Apesar dos “poréns” apontados acima, é um filme muito bom e divertido que agrada a diferentes públicos, revelando o diretor Zack Snyder para o grande mercado, fato que acabaria por convertê-lo num dos grandes nomes da nova geração, a despeito das acusações de “gozar com o pau dos outros” feitas em virtude de sua obra até o momento (adaptações das obras de Romero, Frank Miller e Alan Moore).  

Uma boa dica para os que virem o longa é a existência do curta “The lost tape: Andy’s terryfing last days revealed” com um minidocumentário sobre os últimos dias de Andy, o dono da loja de arma que fica em frente ao shopping e interage com os sobreviventes protagonistas do filme.

“Diary of the dead” (2008)

Este filme marca o feliz regresso de George Romero às catacumbas do cinema independente após a fracassada tentativa de ser mainstream em “Land of the dead” e que resultou em algo tão deslocado quanto uma apresentação da banda “Expose your hate” no Faustão.

Dessa vez a produção não segue a trama original, revelando-se uma peça independente da história clássica, e mostra um outro início para o fenômeno zumbis. O alvo da reflexão proposta é a era da (des)informação que vivemos com a explosão de de meios de comunicação alternativos que observamos ao nosso redor. Para chamar a atenção, os meios tradicionais, principalmente a TV, recorrem a uma linguagem sensacionalisma cada vez mais escandalosa. O diretor desenvolveu uma leitura sobre a necessidade e obsessão da imagem nos tempos atuais, na era do Youtube.

Sobre o filme, ele declarou: “Se eu pusesse alguns estudantes de cinema na noite em que ocorre a loucura no mundo (a epidemia zumbi), provavelmente filmariam. Em 1968 não. Naquele tempo, eles correriam, mas hoje filmariam. Daí, surgiu a ideia.”

O filme segue a linha de outras produções como “A bruxa de Blair”, “Cloverfield” e “REC”. Câmera nervosa, no ombro, registrando as cenas de um pseudodocumentário. A história mostra uns estudantes iniciando a produção de um filme de múmia (que, na verdade, pode ser encarada como uma ancestral dos zumbis modernos) quando percebem que o seu protagonista, envolto em ataduras converteu-se em um zumbi de verdade. Daí, eles percebem que um morto real daria muito mais projeção audiência que um de ficção.

No Brasil, vivemos um pouco dessa realidade mórbida ano passado quando cultuamos o cadáver da menina Isabela Nardoni. Quanto mais apareciam notícias referentes à menina na TV, maior era nossa urgência em violar o túmulo, profanar seus restos mortais, mexer, remexer, impedir seus descanso. E fizemos com muito deleite e regojizo, ataravés do Jornal Nacional, Ana Maria Braga, noticiários da Record e tantos outros. “Diary of the dead”

 fala um pouco desse fascínio que sentimos e não conseguimos disfarçar pela morte.

Uma cena marcante da película ocorre quando, já perto do final, um dos personagens percebe que está se tornando um zumbi, entrega a câmera para um colega e decreta: “Grave-me.” Este segura a câmera com uma mão e uma arma com a outra e dispara as duas simultaneamente no amigo moribundo.

…of the dead (2009/2010)

Atualmente está em fase de pós-produção um novo filme de Romero chamado “…of the dead”. É mais uma produção independente e, com toda certeza, o mestre dos zumbis nos trará mais uma pérola do gênero. Pois como seus personagens favoritos, George A. Romero sabe voltar. E cada vez mais assustador do que antes.

Informativo JEs – Janeiro de 2011 – Lembram daqueles Jovens Escribas?

janeiro 14, 2011

 

# UM 2011 CHEIO DE REALIZAÇÕES

Pra começar, um feliz ano novo pra todo mundo. E antes que você argumente que o ano já não é tão novo assim, afirmamos que não faz a menor diferença. Afinal, nós também já não somos tão jovens assim e nos autodenominamos Jovens Escribas. Não é verdade? Então, feliz 2011 pra todos vocês.

 # JOVENS ESCRIBAS

 

Para começar, vamos voltar a publicar ficção. E em altíssimo estilo. Logo depois do carnaval o escritor Pablo Capistrano estreia pela editora com o livro “É preciso ter sorte quando se está em guerra.” Uma honra para nós e um belíssimo cartão de visitas para começar bem os trabalhos.

 

Por falar no livro de Pablo, estamos vendendo camisas dos Jovens Escribas para cobrir as despesas gráficas. O primeiro modelo (o branco) foi um sucesso de vendas. Restam apenas 3 unidades nos tamanhos P (Feminino) M (Feminino) e M (masculino).

 

E já está a venda também o novo modelo (verde) nos modelos feminino e masculino e em todos os tamanhos pela pechincha de R$ 35.

 

Comprando nossas camisetas vocês estarão ajudando este escritor a lançar seu novo livro.

Pablo Capistrano

 

# BONS COSTUMES

 

 Junto ao livro de Pablo Capistrano também publicaremos “Pés no caminho, campo de estrelas – O caminho de Santiago pela Galícia”.  Esta obra da professora Ana Célia Cavalcanti resultou num relato leve, divertido e muito útil a todos aqueles que pretendem percorrer o tradicional Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Será o segundo lançamento do nosso selo de não-ficção, o “Bons Costumes” e devido à abrangência do assunto ganhará distribuição inclusive em outros Estados.

 

 # DISTRIBUIDORA DAGOTA

 

Este ano também estamos resolvendo um problema histórico que aflige as editoras independentes há vários anos: a (falta) de distribuição. Para isso nasce a Distribuidora Dagota que levará os livros dos Jovens Escribas, Bons Costumes, Flor do Sal, Sebo Vermelho e Não Editora (RS) para os Estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Também iniciamos as vendas dos livros em bancas de revistas e no decorrer do ano, diversificaremos mais ainda os pontos de venda para chegarmos a um público mais amplo.

 

 # ESCRIBAS DE BOLSO

 

Também serão lançados até maio as primeiras edições de bolso dos Jovens Escribas. É a coleção Escribas de Bolso que vai oferecer ótimos livros a preços mais acessíveis.

 

# EM BREVE MAIS NOVIDADES.

Estas são as notícias que temos para começar o ano. Mês que vem voltaremos com mais. Um feliz ano não tão novo assim. São os votos dos já não tão Jovens Escribas.

Coluna da Digi # 87 – Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

janeiro 14, 2011

No dia 14 de dezembro de 2009, publiquei a terceira crônica a respeito do universo dos zumbis no cinema, inspirado pelo livro “Zombie Evolution”, cuja leitura acabara de concluir.

Boa leitura, jovens.

***

Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

George Romero

George A. Romero nasceu em Pittsburgh, estado da Pensilvania, Estados Unidos. Levou uma vida normal, tornou-se um jovem fanático por ficção cientíica e terror (uma espécie de Alex de Souza estadosunidense), estudou cinema e junto com alguns amigos, começou a fazer filmes nas horas vagas. Até aí, esta parece ser a trajetória de milhares de estudantes de cinema ou comunicação pelo mundo que, realizam suas produções independentes para ganhar experiência na área e se divertirem um pouco. Contudo, este exemplo é diferente, pois trata-se do profissional que alterou conceitos, mudou os rumos da indústria do cinema de terror, popularizou um personagem que se converteu num dos monstros mais populares (e por que não dizer pops?) do cinema moderno. No livro que li e que inspirou esta série de crônicas sobre zumbis (“Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”), o autor José Serrano Cueto, opina: “Poucas abominações podem ser definidas como tão autenticamente cinematográficas quanto os zumbis.” E foi Romero o grande responsável para que esta afrirmação possa ser encarada hoje como uma irrefutável verdade.

Depois de fazerem diversos filmes experimentais juntos, durante as férias, horarios de folga e fins de semana, os amigos Russel Streiner, Rudy Ricci, Richard Ricci, John Russo e George Romero decidiram abrir em 1963 uma pequena produtora para gravar filmes para publicidade, a “Latent Images”. A empresa foi bem e eles acabaram adquirindo uma câmera de 35mm. Com ela, veio a ideia de realizar um longametragem. Mas sobre o que? John Russo estabeleceu uma premissa: tinha que começar num cemitério. Na época, Romero havia lido o livro “Eu sou a lenda” (Richard Matheson, 1954) em que os antagonistas são vampiros. Baseado no livro havia escrito um argumento sem fazer referência ao que atacava os protagonistas. Mostrou o texto aos amigos e sócios e todos ficaram encantados.

 

“The night of the living dead” (1968)

Ele escreveu o roteiro, os sócios pediram dinheiro emprestado a familiares e conhecidos (20 pessoas contribuíram), arrumaram sangue e carne com um amigo dono de açougue e os mesmos que emprestaram dinheiro foram os atores secundários e figurantes. Na hora de dividir as tarefas imperou o mesmo espírito de cooperativa: uns cuidavam da maquiagem por terem mais aptidão para tal, outro seria o produtor por ter experiência com administração de empresas, e a Romero coube dirigir, pois ele tinha um poco mais de experiência nessa área que os demais.

O protagonista negro (Duane Jones), foi escolhido por acaso. O roteiro não previa que ele fosse negro. Na verdade, não fazia nenhuma menção à cor da pele. Mas como ele foi muito bem nos testes, Russo e Romero nem quiseram ver mais nenhum ator postulante ao papel. Muitas teorias foram desenvolvidas sobre o significado oculto em se escolher um negro para protagonista, ainda mais que no final acaba morto por brancos, justo no ano em que Martin Luther King foi assassinado. No entanto, todas as suposições deste tipo são falas, uma vez que o filme já estava pronto quando King foi morto e Romero não mexeu sequer uma vírgula no roteiro depois de escolherem Duane Jones para viver Ben. Ou seja, o filme teria sido rigorosamente o mesmo caso o ator principal houvesse sido um branco.

 

O estilo romeriano

O filme entrou pra história e se tornou  um divisor de águas no cinema de terror, transformando o próprio Romero numa lenda, objeto de culto e alvo da admiração de milhares de fãs mundo afora. O que mais chama atenção nos filmes de Romero é a profundidade com que toca temas delicados, por trás da embalagem do terror. Em entrevista, ele declarou: “Todos os meus filmes sobre zumbis surgiram a partir de ideias, ao observer o que estava ocorrendo cultural e politicamente.”

Dessa forma, os monstros se transformam em instrumentos para articular uma crítica social, uma análise dos conflitos humanos que podem ser associados a acontecimentos históricos determinados: a guerra do Vietnã (“The night of the living dead”, 1968), o consumiso exagerado (“Dawn of the dead”, 1978), o abuso do poder militar (“Day of dead”, 1985), a luta de classes (“Land of the dead”, 2005) e a informação sencaionalista (“Diary of the dead”,2008). A Romero não interessa o simples terror, mas leitura que através dele se possa ter da sociedade.

Os 4 primeiros filmes formam uma mesma saga que mostra, gradualmente a devastação do mundo mediante o surgimento e avanço da epidemia dos zumbis. Separadamente, é possível assistir e assimilar a mensagem de cada um deles, mas no todo, representam a decadência do planeta em 3 tempos: a noite, o amanhecer e o dia, até que (no 4º filme) o homem passa a conviver com o problema como se achasse tudo natural e os mortos caminhantes já fizessem parte do dia-a-dia. Nas histórias romerianas, os personagens formam coletivos pequenos em constante conflito entre si.

Outra característica importante é o ambiente da ação. Em seus roteiros, o espaço é tão importante quanto os próprios personagens, sendo praticamente um protagonista em si mesmo. Uma casa no primeiro, um centro comercial no segundo e um bunker no terceiro são, não só cenários, mas também parte ativa das histórias que nos são contadas. A terra dos mortos tenta repetir a fórmula sem êxito. A cidade em que se passa o filme deveria ser uma geradora de conflitos, mas não consegue e isso a afasta das outras 3 produções anteriores, tirando um pouco a unidade da tetralogia.

“Dawn of the dead” (1978)

O segundo filme da saga traz uma clara crítica ao consumismo exarcebado. 10 anos depois do início da epidemia, 4 personagens (2 policiais e 2 jornalistas) decidem ir a um centro de compras de helicóptero, para recolher algumas provisões antes de partirem em busca de um refúgio seguro aonde a epidemia ainda não haja chegado. Uma vez lá dentro, concluem que o lugar pode servir de abrigo temporário antes de partirem , já que está cheio de mantimentos e objetos úteis. No interiro encontram muitos zumbis que se movem mecanicamente como se recordações de vida os fizessem andar pelas lojas. Eles representam a massa alienada, uma hipérbole dos consumidores hipnotizados pela publicidade e se movem todos os dias pelos centros comerciais do mundo. O filme exprime que hoje (já era assim em 1978)não há lugar para a simplicidade voluntária, a que só praticam umas poucas mentes revolucionárias, capazes de sentir que a plenitude não se encontra em possuir, mas em extrair o máximo proveito daquilo que se tem.

A uma certa altura um bando de motoqueiros invade o lugar e começa a saquear e roubar tudo o que podem, ignorando o fato de que dinheiro e objetos outrora vailosos não faziam mais sentido num mundo caótico em que viviam. Nada daquilo que roubam teria utilidade na terra arrasada. É a ganância sobrevivendo mesmo em tempos extremos. O ápice do materialismo, como o consumismo desenfreado mesmo em tempos de crise.

“Day of dead” (1985)

Mais alguns anos depois, a terra está arrasada, o mundo está morto e existem mais zumbis que sobreviventes. O filme começa com imagens silenciosas do chão rachado de um pequeno povoado. Logo o silêncio é quebrado por alguns gemidos distantes.

É a maneira com que Romero exprime a terra de ninguém e de valores distorcidos que estava sendo construída nos anos 80, em que um governo republicano belicoso governava os Estados Unidos e regia o mundo mediante uma corrida armamentista desenfreada e o mercado financeiro vivia um colapso desesperador. Um mundo cada vez mais desigual, o ápice da desumanidade estava se configurando. Romero disse que ele começava a se perguntar: “O que diabos estivemos construindo esses anos todos?”

“Day of dead” representa todo esse pessimismo. Afinal, o que seria melhor para representar um mundo que perdia sua humanidade do que o domínio daqueles que haviam sido humanos um dia? É o filme mais sujo e mais feio das produções. Logo na primeira aparição de zumbis, um recado claro: esse filme vai ser duro, muito duro. Aqui não se esconde nada. O que vocês vão ver é agressivo.

Os sobreviventes que dessa vez são representados por 3 grupos distintos (cientistas, militares e civie) vivem conflitos entre si. Estão todos encerrados em um bunker. Um cientista louco quer domesticar os zumbis, um militar com vocação para ditador quer matá-los e os civis só querem fugir dali e sobreviver. Os militares representam o excesso de poder em tempos de tensão, os cientistas a insesatez travestida de razão, e os civis seriam os cidadãos comuns, encurralados em meio a essa disputa de ambos os grupos. No fim, um final anárquico e subversivo, obsceno até para os padrões hollywoodianos. Morrem os cientistas e militares das piores formas possíveis e só sobrevivem uma mulher, um negro e um bêbado.

“Land of the dead” (2005)

Em 2005, 20 anos depois do terceiro filme de zumbis, o homem de Pittsburgh, Pensilvania, já se tornara um mito, havendo adquirido fama e respeito e todas as partes. Por isso um dos maiores estúdios estadosunidenses, a Universal, resolveu dar a ele a oportunidade de realizar uma produção com grande orçamento. Pela primeira vez, George A. Romero poderia contar com atores famosos, profissionais vindos de grandes produções (e não apenas seus amigos). Dessa vez, a narrativa gira em torno da luta de classes e, como não poderia deixar de ser em 2005, faz uma crítica ao governo Bush.

O mundo aprendeu a coexistir com os zumbis. As cidades se converteram em enormes fortalezas cercadas por grades, fossos e pontes superprotegidas. As elites financeiras e governantes se refugiaram em enormes arranha céus nos centros, enquanto as populações mais pobres ficavam às margens das grades, mais próximas do perigo, mais expostas. E os zumbis, fora de tudo isso, excluídos do processo e da sociedade, apenas contemplando de longe a cidade que um dia também foi deles. Representam a classe mais oprimida, os deserdados da terra. Romero critica o abuso de poder e a desigualdade social. O vilão da história, Kaufman (Dennis Hopper) é um corrupto e sem escrúpulos gestor que foi baseado no então secretário de estado americano, Donald Rumsfeld.

Em meio a disputa, existem ainda um grupo de mercenários que se encarrega de matar zumbis e cobrar por isso, protegendo as elites e população. Um deles, ambicioso e ingênuo sonha fazer parte da elite dos arranha céus. Em um dado momento da película, alguém faz um alerta despretensioso que dá a chave da trama: “E se eles (os zumbis) adquirissem a capacidade de se organizarem?” É exatamente o que acontece. Os mortos pegam em armas e promovem uma revolução zumbi contra os vivos que os oprimem, partindo em direção a cidade que um dia foi deles para reconquistá-la.

Neste filme ocorre uma humanização maior dos montros, como se, de 68 para cá, eles houvessem evoluído. O resultado, no entanto, na opinião do jornalista Serrano Cueto e do próprio Romero, não foi tão bom quanto os anteriores. Apesar de ter contado com um grande orçamento, pela primeira vez, existe mais ação que trama psicológica e a reflexão social se perde em meio ao ritmo mais acelerado. Os fãs protestaram, as bilheterias não corresponderam e Romero admitiu que o tamanho do projeto o superou. Por isso, decidiu voltar a produções mais  modestas depois dela. “Eu prefiro as coisas mais simples”, declarou. Certamente. E é justamente nas produces mais simples e despretensiosas que ele consegue ser grande. Ou melhor: grandioso.

Coluna da Digi # 86 – Zumbis 2 – A volta dos que se foram.

janeiro 13, 2011

A coluna da Digi número 85 está meio datada. Por isso decidi pular. Passo para a sequência de crônicas sobre o universo dos zumbis. Esta foi publicada em 03.12.2009. Amanhã postarei a outra.

Valeu!

***

Zumbis 2 – A volta dos que se foram.

Em 10 de setembro de 2007, escrevi uma coluna aqui na Digi sobre minha admiração pelos filmes de zumbis. Era um texto leve e bastante simples que visava um público geral, não necessariamente fãs deste gênero cinematográfico. A crônica, que mantinha uma verve bem humorada em toda a sua extensão, começava citando uma conversa que tive com um amigo na qual ele ficou surpreso com o fato de eu, um rapaz tão bem educado, gostar desse tipo de produções. Na verdade, meu amigo foi além ao demonstrar total desconhecimento sobre a existência desta categoria de películas de terror.

O conteúdo genérico da coluna falava muito rapidamente de George A. Romero, maior ícone dos mortos vivos na tela grande, limitando-se praticamente a citar sua filmografia. Também falava de alguns outros trabalhos como a homenagem a Romero dirigida por Zack Snyder em 2004, a paródia inglesa “Todo mundo quase morto” e o parente próximo “Extermínio” da dupla britânica Alex Garland e Dany Boyle.

Como todo assunto que desperta paixões, logo surgiram reações contrárias, revelando a controvérsia gerada pelo tema. Sobre o texto, um leitor mais atento e detalhista chamado César denuciou a pouca profundidade do que escrevi: “Extermínio não é filme de zumbi. vc nao captou a mensagem dos filmes do romero e falou deles com uma interpretação aborrecente e superficial. o buraco é mais embaixo. outra coisa, filme de zumbi em que se explica o porque dos mortos estarem andando, não é filme de zumbi.

O leitor estava correto ao acusar-me de superficial. O texto não se atreveu a ir mais fundo pelo simples fato de que eu não queria falar com falso conhecimento de causa sobre um assunto que não dominava plenamente. Porém, mesmo cercando-me de precauções, em certa altura, cometi um pecado grave. Afirmei de maneira um tanto irresponsável o que segue: “A premissa é simples. Os mortos voltam a viver e atormentam a vida dos vivos. Nada de muita elaboração ou de roteiros rebuscados. Geralmente eles vêm tentar comer ou morder os vivos para também transformá-los em zumbis.” Esse trecho deu razão parcial ao comentário do leitor. Esta era, com certeza, uma interpretação “superficial e aborrecente” dos filmes de zumbis. Por isso, essas linhas que teclo agora são uma tentativa tardia de tréplica. 

Daí do outro lado da tela, vocês devem estar se perguntando “mas por que só responde agora, mais de 2 anos após o ocorrido?” Respondo: é que um dia desses encontrei um livro que é uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto: “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” (autor José Manuel Serrano Cueto, T&B Editora, Espanha). Percebi na publicação uma oportunidade de aprender mais a respeito e adentrar de vez no universo pútrido dos cadáveres famintos e caminhantes. O escritor é um jornalista espanhol nerd, aficcionado por ficção científica e terror, que realizou uma extensa pesquisa e nos presenteou a todos com um belíssimo livro elucidador de dúvidas. Por isso, finalmente, me sinto devidamente apto a argumentar em defesa de meus escritos frente ao comentário de César.

Por exemplo, quando ele afirma irredutível que “extermínio não é filme de zumbi” e que “filme de zumbi em que se explica o porque dos mortos estarem andando, não é filme de zumbi.”, cabem argumentos em contrário e respeitosas discordâncias. Na crônica de 2007 eu não dizia que “Extermínio” era um filme de zumbi, mas sim uma produção semelhante a eles, sendo contudo, perfeitamente plausível nesses tempos de epidemias globais. E para meu regozijo, tenho prazer de revelar que o escritor especialista no assunto José Manuel Serrano Cueto corrobora minhas palavras ao afirmar que “Dois dos mais badalados filmes de zumbis dos últimos anos não são, a rigor, filmes de zumbis. Extermínio” (“28 days later”, 2002) e “REC” (2004) são histórias sobre seres humanos infectados por vírus, mas ainda vivos, e apesar de apresentarem similitudes físicas e de comportamento com os mortos vivos, não podem ser definidos como tal pelo fato de que os personagens ainda não morreram.” Mais na frente, o autor disse que essas duas produções mudaram o perfil das produções a partir de então. Os montsros de movimentos lentos e arrastados deram lugar a ameaças ágeis, fortes e mais ameaçadoras. Na lista de “zumbis apócrifos” do livro entram ainda os monstros de “Planeta Terror” (2007) de Robert Rodriguez, em que mais uma vez um estranho vírus converte as pessoas em monstros canibais, mas não as mata.

 A segunda colocação sobre a revelação ou não da razão porque os mortos retornaram pode ser classificada como uma opinião pessoal de um evidente seguidor “romeriano”. Em tal condição, sinto-me a vontade de me posicionar em contrário sem que minha opinião tenha que prevalecer sobre a dele. É certo que os filmes de Romero não revelam a origem da epidemia ou a causa das ressucitações e que 99% dos fãs preferem assim. Também é verdade que o cinesta de Pittsburgh é o autor de uma obra seminal que ditou diversas regras para esse gênero de produção. Um exemplo de filmes de zumbis em que é revelada a origem dos mesmos é o da saga “Return of living dead” (1985), bastante popular entre admiradores do sub-gênero e que uma substância radioativa provoca a ressurreição dos mortos. Sou da corrente que é um equívoso desconsiderar todas os longas que quebrem uma ou outra das regras elaboradas por Romero. Acredito que este seja um caminho por demais reducionista que prefiro não trilhar.

 Em todo caso, falarei de George A. Romero e seus filmes mais detidamente, com o devido respeito e culto que o diretor merece na próxima coluna. Até lá.

Coluna da Digi # 84 – Pior é na guerra.

janeiro 11, 2011

Escrevi esse texto após assistir Valsa com Bashir. Demorei algumas semanas, talvez meses, e publiquei na coluna da Digi. foi em 26.11.2009. Republico aqui, seguindo a cronologia da retrospectativa de colunas.

Boa leitura.

***

Pior é na guerra

 

“Valsa com Bashir” é mais uma dessas pequenas obras-primas com as quais nos deparamos quando estamos distraídos. Representa o nosso lado mais desumano através da arte, demonstrando, contraditoriamente, por meio de uma produção belíssima, todo o horror de uma guerra. Está, guardadas as proporções, apresso-me em dizer, para a guerra do Líbano assim como o quadro Guernica de Picasso está para a guerra civil espanhola. Um resgitro em movimento do sofrimento, da agonia, de morte e dor.

A animação, vencedora do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro além de uma porção de outros prêmios pelo mundo, conta a história de alguns veteranos de guerra israelenses atormentados com as lembranças do conflito ocorrido 20 anos antes. Os homens, que se aproximam de entrar nos 40 anos, tinham entre 18 e 19 anos quando estiveram no campo de batalha. Em meio à ação, eles viram amigos tombarem ao seu lado, foram obrigados a matar cachorros para abafarem os latidos, presenciaram massacres de civis sem poderem fazer nada e sentiram a morte de muito perto.

Carregando seus traumas, cicatrizes e culpas para o resto de suas vidas, eles tentam lembrar de episódios que o sub-consciente os fez esquecer. Acreditam que, ao rememorar o ocorrido, poderão curar suas angústias de homens de meia-idade atormentados. O filme mostra delicadamente, como a cadência de uma valsa, que mesmo por trás das maiores atrocidades, existem seres humanos que não tem responsabilidade direta pelo que ocorre e que dariam tudo para não estar ali.

A trilha sonora da animação também é excelente, revelando ótimos rocks israelenses que tratam de guerra e paz. “Valsa com Bashir” é arte pura. Alterna momentos de fina delicadeza com cenas chocantes. No final que não é, nem poderia ser, feliz, fica claro para todos que numa guerra cruel, como foi a guerra de Israel contra o Líbano em 1982?, não há nem nunca haverá vencedores.

Coluna da Digi # 83 – Por trás daquele beijo.

janeiro 10, 2011

Antes de mais nada, duas cousas: 1 – em algum momento nessa retrospectiva eu me confundi e perdi a conta. Como não estou a fim de conferir as postagens passadas uma por uma, apenas regularizei a situação daqui por diante. Fica então esta coluna da Digi numerada corretamente como a 83. E estamos conversados. 2 – Esta é a primeira postagem de 2011. Que seja a primeira de muitas e que este ano superemos bastante o número de acessos de 2010. Muito obrigado aos mais de 40 mil amigos que estiveram aqui em 2010. Vamos ver se esse ano eu consigo chegar a uns 100 mil. Ia ser bom, né não? Vamos pra frente.

***

Em 2009, quando morava em Madrid com Nina, minha mulher, certa vez me deparei com um casal se beijando na rua. A cena me agradou tanto que, naquele mesmo dia, ao chegar em casa, escrevi uma crônica bem legal e postei na coluna da Diginet. Foi publicada em 23.11.2009. Minha homenagem a todos os casais apaixonados.

***

Por trás daquele beijo

 

Sinal aberto. Eu, pedestre. Esperava o câmbio de cores que permitiria minha passagem para o outro extremo. Nada mais usual, nada mais corriqueiro, até que uma visão ousou desafiar a normalidade da urbe. Uma imagem terna, do outro lado da rua, quebrava a urgência da rotina, destoava dos passos apressados, dos olhares determinados ou perdidos, apontando o vazio.

Era um beijo. Intenso, demorado, com direito a um abraço apertado. Ele, sujeito jovem, mas formal. Terno cinza, gravata, sapatos italianos, óculos de grau, a pasta executiva no chão, aos seus pés, sustentada entre os calcanhares. Nada nele poderia revelar que fosse capaz de tamanho arrojo, de ir na contramão do senso comum, de declarar o seu amor, de sucumbir a espontaneidade de um gesto tão significativo, assim, em público, na frente de quem quisesse ver, nesses dias tão impessoais, de discrições e limites, de boa conduta e vida em sociedade, de etiqueta e autocontrole.

Ela, também vestida para o trabalho, menos formal, mas bem arrumada, de calças e salto alto, maquiada, cabelos lisos, se entregava completamente. Era cedo da manhã. O expediente ainda não começara, mas a metrópole já despertara, por suas artérias corriam carros e pessoas, pulsando, bebendo café, com pressa de chegar. Porém, aquele casal desafiava a paisagem, quebrava o ritmo frenético, promovia uma intervenção, quase uma licença romântica inesperada, surpreendente, longa, demorada.

O sinal abriu. Atravessei a larga avenida, passei pelo casal, andei mais de 100 metros além deles, minutos se passaram, olhei pra trás. Nenhuma mudança. Ambos permaneciam completamente envoltos um no outro, alheios ao mundo que os cercava. Os cidadãos iam e vinham, fingindo sórdida indiferença. Mas eles viam, ah viam. Teriam inveja? Satisfação? Esboçariam um sorriso em pensamento? Censurariam aquela depravação? Sentiriam vergonha alheia?

Fiquei imaginando o que esconderia aquela demonstração explícita e afetuosa. Seria um reencontro? Ou talvez um primeiro encontro? Seriam colegas de empresa, apaixonados um pelo outro, e que finalmente resolveram se declarar? O que haveria por trás daquele ilimitado catálogo de possibilidades?  Cheguei ao meu destino. Pensei em olhar pra trás, comtemplá-los mais uma vez, saber se ainda estavam se beijando com a mesma intensidade depois de tanto tempo. Não o fiz. Preferi crer que sim, prosseguiam absortos pela mesmíssima paixão que testemunhei. E continuo acreditando nisso. Penso que eles ainda estão se beijando naquela esquina neste preciso momento. E vou além: vão continuar se beijando amanhã, depois de amanhã e para sempre, mostrando aos impassíveis transeuntes, que um beijo como aquele é uma dessas coisas que fazem a vida valer a pena.