Coluna da Digi # 87 – Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

No dia 14 de dezembro de 2009, publiquei a terceira crônica a respeito do universo dos zumbis no cinema, inspirado pelo livro “Zombie Evolution”, cuja leitura acabara de concluir.

Boa leitura, jovens.

***

Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

George Romero

George A. Romero nasceu em Pittsburgh, estado da Pensilvania, Estados Unidos. Levou uma vida normal, tornou-se um jovem fanático por ficção cientíica e terror (uma espécie de Alex de Souza estadosunidense), estudou cinema e junto com alguns amigos, começou a fazer filmes nas horas vagas. Até aí, esta parece ser a trajetória de milhares de estudantes de cinema ou comunicação pelo mundo que, realizam suas produções independentes para ganhar experiência na área e se divertirem um pouco. Contudo, este exemplo é diferente, pois trata-se do profissional que alterou conceitos, mudou os rumos da indústria do cinema de terror, popularizou um personagem que se converteu num dos monstros mais populares (e por que não dizer pops?) do cinema moderno. No livro que li e que inspirou esta série de crônicas sobre zumbis (“Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”), o autor José Serrano Cueto, opina: “Poucas abominações podem ser definidas como tão autenticamente cinematográficas quanto os zumbis.” E foi Romero o grande responsável para que esta afrirmação possa ser encarada hoje como uma irrefutável verdade.

Depois de fazerem diversos filmes experimentais juntos, durante as férias, horarios de folga e fins de semana, os amigos Russel Streiner, Rudy Ricci, Richard Ricci, John Russo e George Romero decidiram abrir em 1963 uma pequena produtora para gravar filmes para publicidade, a “Latent Images”. A empresa foi bem e eles acabaram adquirindo uma câmera de 35mm. Com ela, veio a ideia de realizar um longametragem. Mas sobre o que? John Russo estabeleceu uma premissa: tinha que começar num cemitério. Na época, Romero havia lido o livro “Eu sou a lenda” (Richard Matheson, 1954) em que os antagonistas são vampiros. Baseado no livro havia escrito um argumento sem fazer referência ao que atacava os protagonistas. Mostrou o texto aos amigos e sócios e todos ficaram encantados.

 

“The night of the living dead” (1968)

Ele escreveu o roteiro, os sócios pediram dinheiro emprestado a familiares e conhecidos (20 pessoas contribuíram), arrumaram sangue e carne com um amigo dono de açougue e os mesmos que emprestaram dinheiro foram os atores secundários e figurantes. Na hora de dividir as tarefas imperou o mesmo espírito de cooperativa: uns cuidavam da maquiagem por terem mais aptidão para tal, outro seria o produtor por ter experiência com administração de empresas, e a Romero coube dirigir, pois ele tinha um poco mais de experiência nessa área que os demais.

O protagonista negro (Duane Jones), foi escolhido por acaso. O roteiro não previa que ele fosse negro. Na verdade, não fazia nenhuma menção à cor da pele. Mas como ele foi muito bem nos testes, Russo e Romero nem quiseram ver mais nenhum ator postulante ao papel. Muitas teorias foram desenvolvidas sobre o significado oculto em se escolher um negro para protagonista, ainda mais que no final acaba morto por brancos, justo no ano em que Martin Luther King foi assassinado. No entanto, todas as suposições deste tipo são falas, uma vez que o filme já estava pronto quando King foi morto e Romero não mexeu sequer uma vírgula no roteiro depois de escolherem Duane Jones para viver Ben. Ou seja, o filme teria sido rigorosamente o mesmo caso o ator principal houvesse sido um branco.

 

O estilo romeriano

O filme entrou pra história e se tornou  um divisor de águas no cinema de terror, transformando o próprio Romero numa lenda, objeto de culto e alvo da admiração de milhares de fãs mundo afora. O que mais chama atenção nos filmes de Romero é a profundidade com que toca temas delicados, por trás da embalagem do terror. Em entrevista, ele declarou: “Todos os meus filmes sobre zumbis surgiram a partir de ideias, ao observer o que estava ocorrendo cultural e politicamente.”

Dessa forma, os monstros se transformam em instrumentos para articular uma crítica social, uma análise dos conflitos humanos que podem ser associados a acontecimentos históricos determinados: a guerra do Vietnã (“The night of the living dead”, 1968), o consumiso exagerado (“Dawn of the dead”, 1978), o abuso do poder militar (“Day of dead”, 1985), a luta de classes (“Land of the dead”, 2005) e a informação sencaionalista (“Diary of the dead”,2008). A Romero não interessa o simples terror, mas leitura que através dele se possa ter da sociedade.

Os 4 primeiros filmes formam uma mesma saga que mostra, gradualmente a devastação do mundo mediante o surgimento e avanço da epidemia dos zumbis. Separadamente, é possível assistir e assimilar a mensagem de cada um deles, mas no todo, representam a decadência do planeta em 3 tempos: a noite, o amanhecer e o dia, até que (no 4º filme) o homem passa a conviver com o problema como se achasse tudo natural e os mortos caminhantes já fizessem parte do dia-a-dia. Nas histórias romerianas, os personagens formam coletivos pequenos em constante conflito entre si.

Outra característica importante é o ambiente da ação. Em seus roteiros, o espaço é tão importante quanto os próprios personagens, sendo praticamente um protagonista em si mesmo. Uma casa no primeiro, um centro comercial no segundo e um bunker no terceiro são, não só cenários, mas também parte ativa das histórias que nos são contadas. A terra dos mortos tenta repetir a fórmula sem êxito. A cidade em que se passa o filme deveria ser uma geradora de conflitos, mas não consegue e isso a afasta das outras 3 produções anteriores, tirando um pouco a unidade da tetralogia.

“Dawn of the dead” (1978)

O segundo filme da saga traz uma clara crítica ao consumismo exarcebado. 10 anos depois do início da epidemia, 4 personagens (2 policiais e 2 jornalistas) decidem ir a um centro de compras de helicóptero, para recolher algumas provisões antes de partirem em busca de um refúgio seguro aonde a epidemia ainda não haja chegado. Uma vez lá dentro, concluem que o lugar pode servir de abrigo temporário antes de partirem , já que está cheio de mantimentos e objetos úteis. No interiro encontram muitos zumbis que se movem mecanicamente como se recordações de vida os fizessem andar pelas lojas. Eles representam a massa alienada, uma hipérbole dos consumidores hipnotizados pela publicidade e se movem todos os dias pelos centros comerciais do mundo. O filme exprime que hoje (já era assim em 1978)não há lugar para a simplicidade voluntária, a que só praticam umas poucas mentes revolucionárias, capazes de sentir que a plenitude não se encontra em possuir, mas em extrair o máximo proveito daquilo que se tem.

A uma certa altura um bando de motoqueiros invade o lugar e começa a saquear e roubar tudo o que podem, ignorando o fato de que dinheiro e objetos outrora vailosos não faziam mais sentido num mundo caótico em que viviam. Nada daquilo que roubam teria utilidade na terra arrasada. É a ganância sobrevivendo mesmo em tempos extremos. O ápice do materialismo, como o consumismo desenfreado mesmo em tempos de crise.

“Day of dead” (1985)

Mais alguns anos depois, a terra está arrasada, o mundo está morto e existem mais zumbis que sobreviventes. O filme começa com imagens silenciosas do chão rachado de um pequeno povoado. Logo o silêncio é quebrado por alguns gemidos distantes.

É a maneira com que Romero exprime a terra de ninguém e de valores distorcidos que estava sendo construída nos anos 80, em que um governo republicano belicoso governava os Estados Unidos e regia o mundo mediante uma corrida armamentista desenfreada e o mercado financeiro vivia um colapso desesperador. Um mundo cada vez mais desigual, o ápice da desumanidade estava se configurando. Romero disse que ele começava a se perguntar: “O que diabos estivemos construindo esses anos todos?”

“Day of dead” representa todo esse pessimismo. Afinal, o que seria melhor para representar um mundo que perdia sua humanidade do que o domínio daqueles que haviam sido humanos um dia? É o filme mais sujo e mais feio das produções. Logo na primeira aparição de zumbis, um recado claro: esse filme vai ser duro, muito duro. Aqui não se esconde nada. O que vocês vão ver é agressivo.

Os sobreviventes que dessa vez são representados por 3 grupos distintos (cientistas, militares e civie) vivem conflitos entre si. Estão todos encerrados em um bunker. Um cientista louco quer domesticar os zumbis, um militar com vocação para ditador quer matá-los e os civis só querem fugir dali e sobreviver. Os militares representam o excesso de poder em tempos de tensão, os cientistas a insesatez travestida de razão, e os civis seriam os cidadãos comuns, encurralados em meio a essa disputa de ambos os grupos. No fim, um final anárquico e subversivo, obsceno até para os padrões hollywoodianos. Morrem os cientistas e militares das piores formas possíveis e só sobrevivem uma mulher, um negro e um bêbado.

“Land of the dead” (2005)

Em 2005, 20 anos depois do terceiro filme de zumbis, o homem de Pittsburgh, Pensilvania, já se tornara um mito, havendo adquirido fama e respeito e todas as partes. Por isso um dos maiores estúdios estadosunidenses, a Universal, resolveu dar a ele a oportunidade de realizar uma produção com grande orçamento. Pela primeira vez, George A. Romero poderia contar com atores famosos, profissionais vindos de grandes produções (e não apenas seus amigos). Dessa vez, a narrativa gira em torno da luta de classes e, como não poderia deixar de ser em 2005, faz uma crítica ao governo Bush.

O mundo aprendeu a coexistir com os zumbis. As cidades se converteram em enormes fortalezas cercadas por grades, fossos e pontes superprotegidas. As elites financeiras e governantes se refugiaram em enormes arranha céus nos centros, enquanto as populações mais pobres ficavam às margens das grades, mais próximas do perigo, mais expostas. E os zumbis, fora de tudo isso, excluídos do processo e da sociedade, apenas contemplando de longe a cidade que um dia também foi deles. Representam a classe mais oprimida, os deserdados da terra. Romero critica o abuso de poder e a desigualdade social. O vilão da história, Kaufman (Dennis Hopper) é um corrupto e sem escrúpulos gestor que foi baseado no então secretário de estado americano, Donald Rumsfeld.

Em meio a disputa, existem ainda um grupo de mercenários que se encarrega de matar zumbis e cobrar por isso, protegendo as elites e população. Um deles, ambicioso e ingênuo sonha fazer parte da elite dos arranha céus. Em um dado momento da película, alguém faz um alerta despretensioso que dá a chave da trama: “E se eles (os zumbis) adquirissem a capacidade de se organizarem?” É exatamente o que acontece. Os mortos pegam em armas e promovem uma revolução zumbi contra os vivos que os oprimem, partindo em direção a cidade que um dia foi deles para reconquistá-la.

Neste filme ocorre uma humanização maior dos montros, como se, de 68 para cá, eles houvessem evoluído. O resultado, no entanto, na opinião do jornalista Serrano Cueto e do próprio Romero, não foi tão bom quanto os anteriores. Apesar de ter contado com um grande orçamento, pela primeira vez, existe mais ação que trama psicológica e a reflexão social se perde em meio ao ritmo mais acelerado. Os fãs protestaram, as bilheterias não corresponderam e Romero admitiu que o tamanho do projeto o superou. Por isso, decidiu voltar a produções mais  modestas depois dela. “Eu prefiro as coisas mais simples”, declarou. Certamente. E é justamente nas produces mais simples e despretensiosas que ele consegue ser grande. Ou melhor: grandioso.

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2 Respostas to “Coluna da Digi # 87 – Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.”

  1. Aristeu Araújo Says:

    Reserve o meu!

  2. Priscila Costa Says:

    Otimo artigo!!

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