Coluna da Digi # 88 – Zumbis 4 – George Romero Revivido

No dia 23 de dezembro de 2009, publiquei mais uma crônica da série sobre filmes de zumbis. Dessa vez, abordando as refilmagens de clássicos romerianos e novas produções do próprio diretor. Espero que sigam gostando.

Um abraço.

***

Zumbis 4 – George Romero Revivido

Cartaz da refilmagem de "Dawn of the dead" de Zack Snyder (2004)

Esta crônica é uma continuação de outras escritas anteriormente. Para entendê-la melhor recomendo que leiam os demais textos aqui, aqui e aqui.

“The night of the living dead” (1990)

Quando “The night of the living dead” foi lançado, em 1968, um problema burocrático fez com que George A. Romero e seus amigos perdessem os direitos autorais sobre a obra. Com isso, acabaram faturando menos do que esperavam, servindo apenas para recuperar o dinheiro investido. Em 1990, o filme e a saga romeriana iniciada na “Latent Images” já havia se tornado célebre e muitas homenagens, referências e releituras livres haviam sido feitas sobre suas obras em todos os meios possíveis, sobretudo no cinema, claro. Os amigos, decidiram, entretanto, fazer eles mesmos um remake para ver se finalmente ganhavam algum dinheiro. Romero não quis dirigir o filme e a função foi desempenhada por Tom Savini que tinha pouca experiência como diretor e antes era o responsável pela maquiagem das entregas anteriores. A escolha se mostrou acertada, todos gostaram do resultado e “The night of the living dead” (1990) tornou-se uma bela homenagem à obra original com o selo de qualidade do próprio criador da saga.

“Dawn of the dead” (2004)

Em 2004, um novato chamado Zack Snyder, também foi convidado para realizar uma releitura de um filme de Romero. Dessa vez, seria o segundo filme, “Dawn of the dead” (1978), em que um grupo de sobreviventes se refugia em um centro de compras, configurando-se em uma crítica explícita ao consumismo. Snyder dirigiu um filme exitoso em vários sentidos. É entretenimento dos bons, teve boa recepção do público e faturou bem no mundo tod. Ainda por cima, agradou ao homenageado, apesar de ele ter feito algumas ressalvas: “É um bom filme de ação, bom entretenimento, mas não há muita substância por baixo de uma embalagem tão bonita”.

A afirmação de Romero tem razão de ser. Em vez do universo reduzido de protagonistas da versão original (apenas 4) com seus conflitos, relação tensa, dramas psicológicos oriundos da situação extrema de sobrevivência, aqui existem 12 principais. A crítica ao consumismo da película mãe também se perde e o centro de compras que era como um personagem se torna um simples cenário para a ação, nada mais que um refúgio seguro para os apersonagens. Outra licença artística do diretor foi a não continuidade. Snyder optou por contar a história de um novo início para a epidemia enquanto no filme de 1978, já se haviam passado 10 anos do surgimento. Em contrapartida, outro dogma sagrado romeriano foi mantido ao não explicar a origem do ocorrido. Essa não é a única referência, os mais atenciosos e nerds encontrarão várias pequenas homenagens e participações especiais que remetem à produções do cultuado diretor.

“Dawn of the dead” (2004) recorre a uma concepção mais moderna do espetáculo audiovisual e utiliza ação frenética e diversos focos de dramaturgia para não aborrecer o público atual. Apesar dos “poréns” apontados acima, é um filme muito bom e divertido que agrada a diferentes públicos, revelando o diretor Zack Snyder para o grande mercado, fato que acabaria por convertê-lo num dos grandes nomes da nova geração, a despeito das acusações de “gozar com o pau dos outros” feitas em virtude de sua obra até o momento (adaptações das obras de Romero, Frank Miller e Alan Moore).  

Uma boa dica para os que virem o longa é a existência do curta “The lost tape: Andy’s terryfing last days revealed” com um minidocumentário sobre os últimos dias de Andy, o dono da loja de arma que fica em frente ao shopping e interage com os sobreviventes protagonistas do filme.

“Diary of the dead” (2008)

Este filme marca o feliz regresso de George Romero às catacumbas do cinema independente após a fracassada tentativa de ser mainstream em “Land of the dead” e que resultou em algo tão deslocado quanto uma apresentação da banda “Expose your hate” no Faustão.

Dessa vez a produção não segue a trama original, revelando-se uma peça independente da história clássica, e mostra um outro início para o fenômeno zumbis. O alvo da reflexão proposta é a era da (des)informação que vivemos com a explosão de de meios de comunicação alternativos que observamos ao nosso redor. Para chamar a atenção, os meios tradicionais, principalmente a TV, recorrem a uma linguagem sensacionalisma cada vez mais escandalosa. O diretor desenvolveu uma leitura sobre a necessidade e obsessão da imagem nos tempos atuais, na era do Youtube.

Sobre o filme, ele declarou: “Se eu pusesse alguns estudantes de cinema na noite em que ocorre a loucura no mundo (a epidemia zumbi), provavelmente filmariam. Em 1968 não. Naquele tempo, eles correriam, mas hoje filmariam. Daí, surgiu a ideia.”

O filme segue a linha de outras produções como “A bruxa de Blair”, “Cloverfield” e “REC”. Câmera nervosa, no ombro, registrando as cenas de um pseudodocumentário. A história mostra uns estudantes iniciando a produção de um filme de múmia (que, na verdade, pode ser encarada como uma ancestral dos zumbis modernos) quando percebem que o seu protagonista, envolto em ataduras converteu-se em um zumbi de verdade. Daí, eles percebem que um morto real daria muito mais projeção audiência que um de ficção.

No Brasil, vivemos um pouco dessa realidade mórbida ano passado quando cultuamos o cadáver da menina Isabela Nardoni. Quanto mais apareciam notícias referentes à menina na TV, maior era nossa urgência em violar o túmulo, profanar seus restos mortais, mexer, remexer, impedir seus descanso. E fizemos com muito deleite e regojizo, ataravés do Jornal Nacional, Ana Maria Braga, noticiários da Record e tantos outros. “Diary of the dead”

 fala um pouco desse fascínio que sentimos e não conseguimos disfarçar pela morte.

Uma cena marcante da película ocorre quando, já perto do final, um dos personagens percebe que está se tornando um zumbi, entrega a câmera para um colega e decreta: “Grave-me.” Este segura a câmera com uma mão e uma arma com a outra e dispara as duas simultaneamente no amigo moribundo.

…of the dead (2009/2010)

Atualmente está em fase de pós-produção um novo filme de Romero chamado “…of the dead”. É mais uma produção independente e, com toda certeza, o mestre dos zumbis nos trará mais uma pérola do gênero. Pois como seus personagens favoritos, George A. Romero sabe voltar. E cada vez mais assustador do que antes.

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