Coluna da Digi # 108 – Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

Hoje, resolvi subverter a sequência cronológica de publicações neste blogue. Tudo porque, após ter anunciado a morte da série de crônicas sobre zumbis no cinema (Coluna da Digi #98), afinal já havia publicado 5 textos a esse respeito, ressucitei o assunto em uma 6ª e, por hora, definitiva coluna. A crônica “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, publicada em 20 de setembro de 2010, fala do surpreendentemente ótimo filme de comédia protagonizado por Woody Harelson e Mark Zuckberg.

Curtam eo texto e vejam o filme depois. Valeu!

***

Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

 

 “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. A frase não passa de uma piadinha para muitas pessoas, para legiões de leitores e expectadores ao redor do mundo, ela é um truísmo estático sedimentado por centenas de livros, filmes, HQs, videogames. Quando um morto-vivo surge numa narrativa, ele carrega nas costas uma respeitável bagagem de histórias que deram certo, que aterrorizaram, divertiram e fizeram pensar”

Daniel Galera, na orelha de “Areia nos dentes”, do autor Antônio Xerxenesky.

 

Dia desses, saí de casa para conferir dois filmes novos que acabavam de entrar em cartaz. Estava curioso acerca de “Onde vivem os monstros” do diretor Spike Jonze (“Quero ser John Malkovitch”), roteirizado pelo escritor americano Dave Eggars. No mesmo local estava passando também uma comédia com zumbis chamada “Zumbilândia”. Este último fui ver sem muitas expectativas. Apesar de fã confesso das produções sobre mortos-vivos e de estar empolgado com a recente leitura de “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” do jornalista espanhol Jose Manuel Serano Cueto, eu sabia que aquele filme representava uma aposta de alto risco.

Uma comédia americana sobre mortos andantes poderia resultar num desastre muito pior que uma infecção real de zumbis. “Shawn of dead”, que no Brasil ganhou a tradução ridícula “Todo mundo quase morto”, é uma divertida paródia do gênero, mas é inglês. As comédias inglesas costumam ser mais inteligentes que os filmes sorvete na testa americanos. Mesmo assim, resolvi arriscar. “Zumbilândia” vinha sendo elogiado, havia recebido boas críticas e além do mais, como disse o escritor Daniel Galera na orelha do romance “Areia nos dentes” do autor Antônio Xerxenesky: “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom”. Generalizações a parte, resolvi conferir.

Foi então que ocorreu uma reviravolta digna dos bons roteiros, uma inversão de expectativas realmente inesperada. Decepcionei-me com “Onde vivem os mostros”. Um bom filme, mas apenas isso. Nada perto do que se poderia esperar de uma parceria entre o inventivo diretor Spike Jonze e Dave Eggars, que vem sendo cultuado nos Estados Unidos como o queridinho da nova geração de escritores, já tendo sido até chamado de “o Bono da literatura”.

“Zumbilândia”, por sua vez, agradou em cheio. Para minha surpresa, não se tratava de é uma paródia dos filmes de George Romero, nem de outras produções sobre moribundos andarilhos. Trata-se de uma história original, bem escrita, com boas piadas e partindo de uma premissa bastante interessante: a de que, para sobreviver a um mundo dominado por zumbis, é preciso criar regras estritas e segui-las rigorosamente. Dessa forma, foi concebido o improvável protagonista frágil, nerd e extremamente tímido que, paradoxalmente é o mais indicado a sobreviver num mundo infectado. Tudo porque o personagem criou seu próprio manual de sobrevivência e repassa sempre as normas estabelecidas para não se tornar mais um morto-vivo.

A fonte de inspiração do filme pode muito bem ter sido o livro “The zombie survival guide”, de 2003. Algo como “O guia de sobrevivência para um mundo de zumbis”, do autor estadosunidense Max Brooks, filho do cineasta Mel Brooks. Max vem se destacando por escrever livros muito bem sucedidos sobre o gênero. Sua segunda publicação, “World War Z: an oral history of a zumbi war”, repetiu as ótimas vendas da estreia. Em seu guia de sobrevivência, Max explicita duas informações básicas. A primeira é: como não ser mordido, infectado, devorado ou morto pelos monstros. A segunda: como matá-los, informando diferentes maneiras de acabar com as aberrações a parte do clássico tiro na cabeça.

Em “Zumbilândia”, além do tímido Columbus (…), surge também o excêntrico Talahasee (Woody Halreson, muito bom) que se especializou em matar zumbis das mais variadas maneiras. Assim, os dois personagens principais se complementam e parecem tirados do primeiro livro de Max Brooks. Um especialista em fuga e sobrevivência e o outro em acabar com os mortos que surgirem no caminho. Os próprios comerciais de TV disponíveis no Youtube ilustram bem isso ao mostrarem os dois protagonistas, respondendo perguntas acerca de como agir num mundo zumbificado.

Columbus e Talahasee tem a companhia de duas garotas em sua aventura. Uma delas é interpretada pela atriz Abigail …, que ficou conhecida como a “Pequena Miss Sunshine”. E tem também os zumbis, que seguem a tendência moderna desta década, ditada pelo filme “Extermínio” do diretor escocês Danny Boyle. Zumbis rápidos, ágeis e mais ameaçadores. Esta nova realidade já havia sido explorada por Zack Snyder na nova versão de “Madrugada dos Mortos” (2004). 

Além desses elementos principais da história, há diversos outros que temperam o filme. Detalhes capazes de diferenciar um bom filme de um ótimo.

1 – Boa trilha sonora – A abertura com … do Metallica é sensacional, já servindo para introduzir os expectadores na história, avisando que o que eles verão ali é ação da boa, intensa e mostrando também que os realizadores tem bom gosto.

2 – A parte visual é uma atração a parte. Os cenários apocalípticos ou abandonados, como as estradas, cidades, supermercados ou comércios estão ótimos. Recomendo que assistam aos extras do DVD para verem como eles produziram tudo.

3 – Os letterings interativos – a maneira com que eles aplicaram os caracteres tanto na abertura quanto durante todo o filme é de uma criatividade arrebatadora. As regras sempre relembradas por Columbus surgem o tempo todo em perfeita harmonia com o cenário onde ocorre a ação. Seja no interior do carro, acompanhando o bip do cinto de segurança ou no asfalto, após um acidente, você pode sempre recapitular as regras junto com o personagem.

4 – As regras – as regras estabelecidas também são bastante divertidas, pois trazem consigo as lembranças de todas as produções do gênero ao concluírem que alguns segredos de sobrevivência são bastante simples e até mesmo ridiculamente óbvios: ter bom preparo físico (“os gordos foram os primeiros a serem pegos”), cuidado com banheiros, ponha o cinto de segurança, olhe o banco de trás, alongue sempre, mate duas vezes. Enfim, mandamentos que poderiam ser transmitidos aos muitos personagens de outros filmes que foram alcançados pelos monstrengos por pura ignorância dessa lista de normas de conduta.

No filme, existem algumas piadas referenciais a outros filmes como Anaconda, Garfield, Titanic. E há também uma participação sensacional de Bill Muray interpretando a si mesmo. 

Por todas essas peças que se encaixam harmoniosamente, formando um ótimo filme, com um bom roteiro, ação e entretenimento de primeira, recomendo a todos que são fãs desse que é o subgênero cinematográfico mais popular da atualidade. Se você não é fã ou alimenta algum preconceito a respeito, é bom ficar onde está e não macular esta produção com sua audiência pouco qualificada e opiniões descontextualizadas. “Zumbilândia” é para quem tem senso de humor e o mínimo de conhecimento específico. Se você preenche esses requisitos básicos, divirta-se.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 108 – Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.”

  1. manu Says:

    Sobre Up, já assisti uma dezena de vezes com meu filho. Foi o primeiro filme que o emocionou, ou seja, nos emocionou. É um lindo filme.

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