Coluna da Digi # 92 – Bem-vindo a Natal

Em 4 de janeiro de 2010, publiquei a coluna de número 92 da Diginet. Era uma crônica cheia de ironia, em que um conterrâneo escrevia a um amigo, convidando-o a passar uma temporada na cidade e expondo razões para tal. Uma coluna que passou meio despercebida à época, mas que nem por isso fica de fora da nossa retrospectiva.

***

Bem-vindo a Natal.

Meu amigo, como vão as coisas por aí? Espero que bem. Escrevo para transmitir as saudades que sentimos da sua agradável presença, de sua família linda. Inclusive, manda um beijão na Joana e nas crianças. Minha senhora deseja o mesmo. Imagino que a vida de vocês ande corrida, aquele ritmo de cidade grande, né? Escritório, trânsito, deixar as crianças na escola, pegar as crianças na escola, voltar pra casa, mais trânsito, uma loucura. A impressão que me dá é que vocês sempre estão precisando de férias. Aí, já sabe, né? Venham pra cá, pois vocês têm a sorte de ter amigos que moram onde vocês passam férias. E aqui não tem o trânsito que vocês têm aí. Bem, er, quer dizer, ainda né? Porque a quantidade de carros que as concessionárias botam nas ruas a cada mês sem que a cidade tenha condições de absorver está deixando as ruas um tanto quanto lentas e até mesmo intransitáveis em certos horários. Barulho, fumaça, stress e alguns ingredientes novos no caldo cotidiano natalense. Mas normal. É um preço a se pagar pelo desenvolvimento.

Fora isso, tudo na paz. Quer dizer, metaforicamente falando, porque a onda de assaltos a mão armada, sequestros relâmpagos e assassinatos parece não ter fim. Ninguém mais pode morar em casa para não ter a propriedade invadida por bandidos que fazem as famílias reféns e depenam tudo o que eles têm. A nossa casa de veraneio que você tão bem conhece, lembra? Só esse ano foi arrombada duas vezes. As saídas de banco então, são o ponto favorito dos trombadinhas com revólver em punho. Os sinais vermelhos também não são exatamente os lugares mais seguros para se estar parado, pois logo se encosta uma arma no vidro e aí já viu, né? A gente tem que dar um passeio forçado com um cano frio na nuca bem menos prazeroso que aquele que demos pelas dunas em janeiro passado. Com emoção, mas não a mesma daquela vez, sabe? Veja você que até mesmo a Afonso Pena que é tipo a Oscar Freire daqui sofre com os marginais. Todos os dias as lojas, restaurantes, bancas de revista e comércios em geral são assaltados. Os comerciantes estão contratando segurança privada, incluindo uma margem para os assaltos no orçamento, enfim, se virando como bons brasileiros que são, pois se ficarem esperando pela polícia ou pelo poder público, dançam bonito.

Mas é como você sempre diz, meu amigo: “o importante é ter saúde.” E isso a gente tem de sobra. Ainda mais com a benção de Deus que recebemos, que nos deu essa natureza belíssima, exuberante. Se bem que… sabe como é, os cenários aqui estão sofrendo umas pequenas mudanças circunstanciais. É que a especulação imobiliária, os empresários do setor, as construtoras e essa turma toda fazem de tudo pra construir cada vez mais. Eles deram uma “impactante” ajuda aos vereadores em 2007 para votarem um “plano diretor amigo”, financiaram a campanha da prefeita, querem construir uns arranha-céus na frente do Morro do Careca e, a última deles é o seguinte: pressionam a opinião pública para construir uns emissários submarinos, levando os esgotos da cidade toda direto para o mar de Ponta Negra. E olhe que a água da praia já está imprópria pra banho faz tempo. É que a CAERN, órgão estadual que deveria cuidar da nossa água e dos esgotos é, na verdade, um loteamento de empregos para um deputado aliado da governadora. É um que tem um filho bem famoso que vive pegando mulher bonita da televisão. O resultado são as línguas negras de ligações clandestinas e a água da zona norte da cidade, contaminada com nitrato.

E quer saber? Esse negócio de “o importante é ter saúde” já não é tão certo, viu? Tenho uma prima que é enfermeira e trabalha numa unidade de saúde da prefeitura. Ela andou reclamando que faltava esparadrapo e até sabonete pra lavar as mãos. Nos hospitais do Estado também tá feia a coisa. Veja você que um dia desses precisei passar no Walfredo Gurgel e o que vi por lá foi um cenário desses que a gente vê nos filmes de guerra. Desde que eu sou pequeno, ouço falar que ali é uma filial do inferno e ninguém muda a situação.

Mas pelo menos a gente tem o… o… bem, er, o clima, né? O ano inteiro aqui é verão. Um verão cada vez mais intenso, pois estão cortando todas as árvores da cidade. Aí a temperatura sobe mais e a cada ano tá mais quente. Outra coisa que li por aí é que as árvores também absorvem muito a água da chuva, talvez por isso temos sofrido tanto com alagamentos. De maio a agosto fica tudo inundado por aqui. Só você vendo.

Em todo caso, estamos esperando vocês aqui pra passar as férias com a gente. Sabe como é, né? Sou um otimista nato e acredito sempre que as coisas vão melhorar. Então já sabe, estão convidados. Mas, olha só: se vocês decidirem ir a outra parte, viajar por aí, nos avise antes, talvez a gente queira ir junto. Tá bom?

Um abraço.

Seu amigo.

Tags: , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: