Archive for fevereiro \28\+00:00 2011

Coluna da Digi # 109 – À mesa com Marçal

fevereiro 28, 2011

Os leitores mais atentos já devem ter percebido que, nesta republicação cronológica das colunas da Diginet, tenho alternado algumas, pulado outras, enfim, bagunçando um pouco o coreto ao meu bel prazer. Por exemplo, a última que publiquei foi “O Roteirista de Stallone Cobra ( a número 106)” e agora já passo para a número 109 (“À mesa com Marçal”). Bem, o que ocorreru foi que a de número 107 foi a minha coluna de despedida, que publiquei em 05 de setembro de 2010, mas depois acabei escrevendo mais algumas até o final do ano passado. Por isso, só republicarei a coluna 107 por último, para ficar mais adequado. Já a de número 108, “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, eu já postei aqui junto das outras crônicas sobre o tema. Basta clicar aqui para ler (https://blogdofialho.wordpress.com/2011/01/24/coluna-da-digi-108-zumbis-6-%e2%80%93-bem-vindos-a-zumbilandia/). Por essas razões, republico hoje a coluna de número 109, “À mesa com Marçal”.

Boa leitura!

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À mesa com Marçal

Marçal Aquino, Antonio Prata, Carlos Fialho e Daniel Galera.

 

Você percebe que alguém é acima da média quando percebe que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos. Foi dessa forma que conheci a obra de Jorge Luís Borges. Sou fã dos textos do gaúcho Luís Fernando Veríssimo, do carioca Arthur Dapieve e do paulista Antonio Prata. Prata faz diversas referências a Borges em seus divertidíssimos contos; Dapieve considera o autor como o melhor escritor do Século XX; Veríssimo vai além e define Borges como o melhor escritor da história. E olhe que falamos de três autores brasileiros apaixonados por futebol, o que deve pesar um pouco em se tratando de um autor argentino elogiado tão efusivamente por eles. De tanto ler seus elogios, resolvi àquela época, conferir a obra do hermano e descobrir que ele tem todos os méritos em ser ídolo dos ídolos. Tanta imaginação a serviço da literatura fez de Borges um escritor universal, estudado, cultuado, admirado e, claro, lido no mundo inteiro. E foi justamente graças a esse movimento típico e “uma coisa puxa a outra” que me inscrevi orgulhoso no fã-clube do Borges. Mas isso já faz mais de 10 anos. Naquele tempo eu era jovem e nem pensava ainda seriamente em ser escriba.

Em tempos mais recentes, mais precisamente no mês de outubro de 2006, estive em São Paulo, junto com outros 3 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o selo Jovens Escribas. Naquela noite fria na capital paulista, percebi que Marçal Aquino é o cara. Nossos convidados começavam a chegar ao local do lançamento, a Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes em Sampa, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Entre os presentes também estavam Daniel Galera e o já citado Antonio Prata. Mas foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema, teatro e o escambau, o homem por trás da histórica editora Livros do Mal, passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tinha a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo.

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, metendo nela, nele, sei lá, quando a hermafrodita começou a ter uma ereção. Não riam ainda que a história não acabou. Não é que a hermafrodita ficou excitada e gozou no meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei pra um amigo e disse: pô, tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que várias mulheres iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela gozou de tanto apanhar. É estranha a sensação. Nunca mais quis bater em ninguém depois disso.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, sentou à mesa conosco e anunciou dramática: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em DVDs ou livros. Leia o romance “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” e garanto que você vai ter que ir atrás de todo o restante. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) tempo, ajuda a entender de onde tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

Cores & Nomes com Túlio Ratto

fevereiro 24, 2011

Depois de postar a entrevista de Margot com Daniel Galera, agora é a vez do editor da Papangu, cartunista, ilustrador, artista plástico, modelo e atriz, Túlio Ratto.

Vejam o vídeo com o jovem mossoroense cheio de graça:

Entrevista com Daniel Galera no Cores & Nomes

fevereiro 24, 2011

Hoje postarei uma entrevista bem legal com um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, Daniel Galera. Um cara talentosíssimo, que sempre deu uma moral pros Jovens Escribas e que esteve recentemente no RN para participar da FLIPIPA e lançar seu mais recente trabalho, o romance gráfico “Cachalote”, escrito em parceria com Rafael Coutinho.

A entrevista que posto agora foi concedida a Margot no seu quadro “Cores & Nomes” no RNTV primeira edição aos sábados. Ficou bem legal.

Curtam aí:

Aliás, quem for fã do Daniel Galera, recomendo a leitura da seção “Correspondência” no blog do Instituto Moreira Salles, em que o escritor tem trocado missivas com o editor paulista André Conti e ambos têm produzido textos sensacionais no processo. Recomendo: http://blogdoims.uol.com.br/?cat=87

A História dos Jovens Escribas – Entrevista ao Cores & Nomes – Vídeos joias!

fevereiro 23, 2011

Dois vídeos bem lesgais furam postados na net recentemente. O primeiro é um videoclipe que produzimos para comemorar nossos primeiros 5 anos de atuação que conta com a ótima trilha da “Camarones Orquestra Guitarrística”. São 90 segundos que resumem um pouco da nossa história. A edição é da ótima produtora Mais Vídeo.

Outro vídeo bem legal é a entrevista que concedenos a Margot no quadro semanal que ela comanda no RNTV, o Cores&Nomes. Ficou muito legal a entrevista e a edição está muito bem feita. Reparem nas camisetas. Demos entrevista uniformizados. Hehehe. Inclusive, temos camisetas dos modelos verde e preto à venda. Encomendem as suas nos comentários.

Segue o vídeo:

Vídeos Legais.

fevereiro 22, 2011

Marlos Apyus é um jovem jornalista que trabalha com webdesigner. Inquieto que é, o rapaz sempre apronta algumas gaiatices por aí. tudo isso, além do trabalho musical à frente da banda experimental Experiência Apyus.

Pois bem, não é que o bom moço, editou um vídeo bem legal com aquela versão que o Radiohead fez para “Beber, cair, levantar”? O que? Vocês não conhecem essa versão? Pois vejam abaixo:

Outro garoto de grande sagacidade e bom humor é o infante Ticiano Damore, criado do já lendário Wílame. Pois bem, Ticiano é o criador da versão para Bossa Nova instrumental de “Minha mulher não deixa não”. Confiram:

Aliás, para seguir os dois meninos no Twitter, corram atrás de @apyus e @damoreticiano .

Primavera Verão Jovens Escribas 2011

fevereiro 21, 2011

O estilista Caio Vitoriano (foto) assina a coleção Primavera Verão 2011 de camisetas dos Jovens Escribas. As camisetas “Sopa de Letrinhas” e “Caça Palavras” serão vendidas por R$ 35,00 e o valor arrecadado vai bancar a edição do novo livro de Pablo Capistrano a ser enviado pra gráfica no próximo mês.

Caio Versolato

Inclusive, vamos lançar agora mesmo uma promoção especial: quem comprar ambos os modelos das camisetas, vai ganhar de presente um exemplar do livro “É preciso ter sorte quando se está em guerra” autografado pelo autor, o filósofo e professor Pablo Capistrano.

Capa do livro de Pablo

E agora vocês ficam com o ensaio sensual que produzimos com alguns dos modelos internacionais mais requisitados na atualidade.

Coluna da Digi # 106 – O roteirista de Stallone Cobra

fevereiro 17, 2011

A exemplo de outros textos publicados aqui (“A Copa de 90” e “Saúde é o que interessa.”), este  é mais um conto que escrevi para a coletânea organizada por Thiago de Góes “80 contos sobre os anos 80”. Gosto dele. Acho bem divertido. Espero que vocês gostem também.

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O roteirista de Stallone Cobra

Sempre gostei das frases de efeito. As verdades absolutas, incontestáveis, que impactam como uma sipuada no meio da testa. Aquelas que deixam qualquer interlocutor sem chão, pensativo, sem prumo nem ação. E o melhor das verdades inegáveis é que nem precisam ser verdades. Basta serem pronunciadas com cerimônia, a trilha sonora adequada no fundo, no tempo certo e conforme a ocasião. Se você constrói o cenário ideal, uma boa frase de efeito se torna a mais irresistível verdade já proferida.

No meu caso, sempre foi assim. Por exemplo, eu nem me lembro direito quando vim dar com os costados nos Estados Unidos, mas recordo qual foi a primeira frase que disse assim que cheguei: “Deixarei marcas indeléveis nesta gloriosa nação libertária!” Infelizmente, como eu ainda não falava inglês e as pessoas que estavam no saguão não entendiam português, essa frase não entrou pra história. Faltou timming.

É que as coisas funcionam mais ou menos assim: tem que ter o momento certo pra dizer a frase, mas também não pode ser qualquer frase. Imaginem se o Dom Pedro I tivesse dito algo como “É, acho que já deu. Bem que o Brasil poderia, assim, ficar, tipo, independente de Portugal, saca?”? Certamente a gente estaria até hoje dançando o vira, ouvindo fado e contando piadas sobre nós mesmos. Ele tinha que dizer algo imponente e marcante como “Independência ou morte!”, montado em um cavalo magnífico, rodeado de fiéis e patrióticos guerreiros, com uma trilha épica de fundo composta pelo John Williams e muito gelo seco pra dar um clima. E, olha que se fosse eu que tivesse escrito a cena, ainda faria mais dramática. Ele diaria algo como “Eles podem até levar nossas vidas, mas nunca poderão levar nossa LIBERDADE!” Como não fui, acabei sugerindo essa fala pro Mel Gibson e ele aproveitou no “Coração Valente” anos depois.

E o Neil Amstrong? E se ele tivesse dito, ao pisar na Lua, algo como “Uhuuuuuu!!! Cheguei primeiro! Pega porra!” Poderia ter sido a primeira e última viagem tripulada ao satélite. O resto da humanidade nunca mais se interessaria por outros planetas ou estrelas ou satélites e os astronautas e cosmonautas de todo o mundo perderiam irremediavelmente seu charme. A corrida espacial não teria vencedores, só frustração e uma terrível sensação de tempo e dinheiro perdidos. Mas não, o roteirista da viagem à lua foi o Kubrick e ele não daria bobeira. Era perfeccionista e sensível. Sabia dizer a coisa certa no momento adequado.

Eu também tive a sorte de ser agraciado com esse dom. Sei o que colocar na boca dos atores e a carga dramática exigida a cada nova cena. Por isso venci aqui nessa terra do entretenimento. Escrever filmes de sucesso em Hollywood requer talento, claro. Mas não é só isso. Os roteiros de grande alcance popular com resultados expressivos nas bilheterias exigem um quê de genialidade, o auxílio de luxo de profissionais como eu: assistente de roteiro, que se ocupa em imaginar as tiradas geniais, os ditos que ecoarão nas mentes mundo afora e ficarão na memória dos espectadores. Ser roteirista respeitado nos Estados Unidos é trabalho para mentes criativas. Agora ser um assistente de roteiro digno de registro é para cabeças divinamente iluminadas e inovadoras, ousadas e brilhantes. Enfim, gente como eu.

Ou vocês acham que frases como “Que a Força esteja com você.”, de “Star Wars” ou  “Tire suas patas imundas de mim, seu macaco maldito” do “Planeta dos Macacos” foram idealizadas pelos próprios roteiristas? Não, foram cunhadas por Assistentes de roteiro históricos. O mesmo pode ser dito sobre “My name is Bond, James Bond.” E “Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.” De “O Poderoso Chefão”. Gente mais importante que os próprios que assinam os roteiros.

No meu começo no showbusiness, trabalhei como o cara que segura o cabo, com o devido respeito. Daí, em 1980 quando o George Lucas estava numa dúvida danada sobre um nó que ele queria desatar numa história, eu criei coragem e falei pra ele: “Look, mister Lucas, lá no Brasil, sempre que acontecem essas coisas nas novelas, os caras dão um jeito de alguém ser filho de alguém. Can you understand? Tipo um casal que descobre que são pai e filha… aí sai dizendo “Look, minha filha, I’m your father.” Ele abuticou os olhos pra cima de mim e disse “That’s it! LUKE, I AM YOUR FATHER!” E acabaram-se meus dias de rapaz do cabo.

Logo depois, minha fama de ajeitador de histórias se espalhou por Hollywood e o Silvester Stallone me pediu pra que eu desse uma força com seu novo filme sobre um soldado rebelde no Vietnã: Rambo. Sugeri um pequeno diálogo em que um vilão pergunta: “Quem é você?” e o Stallone respondia “Seu pior pesadelo!” Minha contribuição acrescentou uma carga dramática de tal magnitude à produção que o filme fez sucesso no mundo todo e o Stallone me pediu que escrevesse um roteiro inteirinho pra ele em vez de apenas colaborações esparsas.

Só que eu não poderia atender o convite do Sly imediatamente por já ter topado trabalhar com o Spielberg e ajudá-lo com o seu projeto da vez, além de outros que havia assumido antes. Em 82, o diretor de “Tubarão” ficou bastante satisfeito com meu toque de Midas. Bastou uma única frase minha para fazer o seu “ET” voar até a lideranças das bilheterias mundiais: “ET telefone casa!” Depois, o Arnold, meu amigo, pediu uma dica para encerrar o seu “Exterminador do Futuro”. Sem pestanejar, declarei: “Eu voltarei!” E por causa disso, os caras já vão bem no sexto filme da franquia.

Depois mais dois clássicos para adolescentes: “Quem vão chamar? Caça-fantasmas!” e “Slott quer chocolate.” dos Goonies, mais uma parceria minha com o Steve. Como o Stallone não me deixava em paz, fui escrever o filme novo dele, meu único trabalho como roteirista propriamente dito. Bem, digo aos senhores, sem medo de errar: foi minha obra prima. “Stallone Cobra” de 1986 é o melhor filme da história do cinema! Cheio de sentenças memoráveis e a antológica “Você é a doença e eu sou a cura!”. Com mnha reputação cada vez mais nas alturas, até o Stephen King recorreu a mim para adornar uma de suas histórias. Era sobre amizade. Pensei um pouco e falei pra ele que “Amigos entram e saem de nossas vidas como garçons num restaurante”. Ele escreveu o filme “Conta Comigo” que até virou cult.

O ano de 86 ainda me proporcionou mais uma pérola. Estávamos bebendo, eu e dois colegas, em um bar de Los Angeles quando eu disse que era muito bom estar ali com eles, pois “a vida é muito curta pra desperdiçar.” Eles começaram a gritar eufóricos e afirmaram que tiveram uma ideia para um roteiro me colocariam como co-autor. Foi assim que participei de “Curtindo a vida adoidado”.

Minha última façanha na década de ouro foi uma contribuição que dei a um certo cara chamado Tom. Eu sugeri duas frases “Oh, Capitão, meu Capitão!” e “Carpe Diem.” E, a partir delas, ele fez um filme bem legal e elogiado chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Nos anos que se seguiram, me aposentei. Uma vez, um indiano ligou pra mim querendo que eu o ajudasse numa história. Me fiz de doido, e disse algo bem sem sentido como “Eu vejo gente morta!” O safado fez um ótimo filme a partir dessa frase. Depois veio me pedir mais dicas e eu me recusei a dizer algo. Parece que desde então, nunca mais fez nada que prestasse.

No início dos anos 2000, promovi uma festa pra comemorar 20 anos de carreira. Convidei uns amigos do meio, entre eles o Fernando, que estava pra filmar um livro do qual ele gostava muito. Ele quis conversar sobre o projeto. Disse que o Bráulio Montovani, um garoto muito talentoso estava à frente e me contou alguns detalhes da história. Eu até gostei, mas o nome do vilão não estava certo. Aí, ele me perguntou: “O que foi? Você não gosta do Dadinho?” Ao que eu respondi: “Pô, Fernando! Dadinho é o caralho!” Acabei que não vi o filme ainda, mas fiquei sabendo que a frase teve um efeito legal na plateia. É como eu sempre digo ao ver um roteiro com defeito: “Você é a doença e eu sou a cura!”

A Arte de Giovanna e Geórgia # 2

fevereiro 15, 2011

Conforme prometido, aqui vão mais algumas fotinhas das jovens Giovanna e Geórgia, as meninas de Giovanni Sérgio.

Quem quiser conhecer mais do trabalho das meninas, acesse: http://www.flickr.com/photos/giovannaegeorgia/

Coluna da Digi # 105 – Copa de 2014. E o principal?

fevereiro 14, 2011

 

Esta foi mais uma crônica da sequência de textos sobre a Copa de 2014. Aborda a eterna fixação pelo secundário dos natalenses, deixando de lado itens muito mais essenciais para o nosso desenvolvimento. Espero que sirva de reflexão para todos.

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Copa de 2014 – E o principal?

A Copa do Mundo é nossa. Ou deles, sei lá. Do Ricardo Texeira, dos governos federal e estadual, da prefeitura, da Globo, dos patrocinadores e suas isenções fiscais absurdas e imorais. Mas, a despeito de toda essa turma que monopoliza o filé e retém para si os principais dividendos, manejando enormes quantias de dinheiro, alguma mínima parte do montante acaba por beneficiar os moradores locais. Benefícios que vem através de investimentos em infraestrutura, transporte público, turismo e formação profissional para receber turistas. Sem falar nas divisas que ingressam na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal.

Essas são algumas vantagens de sediar o evento. E muita gente tem opinado sobre tais aspectos, seja cobrando providências, apontando soluções ou promovendo palestras e debates. Todos os dias vemos autoridades nos jornais explanando sobre o tema. São governantes, candidatos, dirigentes de entidades diversas e representantes das mais variadas categorias. Ninguém quer ficar de fora do foco de todas as atenções. Até o termo “político copa do mundo” foi reinventado, ganhando uma conotação positiva.

No entanto, nenhuma dessas autoridades ou os jornalistas que abordam o assunto diariamente na imprensa tocaram num ponto importantíssimo do processo. Ninguém parece ter enxergado que a realização da Copa no Brasil, tendo Natal como sub-sede, pode significar uma oportunidade única para promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. É claro que isso não me surpreende, já que uma das nossas maiores características é a falta de visão periférica dos detentores da informação (empresários, jornalistas, intelectuais, políticos e universitários). Parecemos (os natalenses) incapazes de elaborar raciocínios minimamente complexos, envolvendo planejamento, ações de longo prazo e benefícios mais abrangentes, ocupados demais que estamos com interesses individuais e imediatos.

A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local. Que tal um projeto de transformação social por meio da prática esportiva de alto nível associada à educação de excelência?

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

Um trabalho como este resultaria em um legado realmente duradouro para a nossa cidade. E ainda nos salvaria do ridículo de construir um estádio moderno e caríssimo sem ter atletas preparados para atuar lá. Pois como disse o neurocientista Miguel Nicolelis recentemente, não podemos ficar eternamente dependendo do turismo. “Turismo é migalha”, declarou. Pesquisa, ciência e educação são riquezas muito mais duráveis e valiosas.

Mas nós não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) e ele nunca serviu para mudar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Por isso, mesmo acreditando que a infraestrutura é essencial, a segurança e o transporte são necessários, defendo que o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado por nós. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão.

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Quem quiser ler as crônica anteriores sobre o tema, pode clicar nos seguintes atalhos:

A roubalheira vai começar.

A conta é nossa.

Minhas razões

Bombas de efeito imoral.

A Arte de Caio Vitoriano # 5

fevereiro 11, 2011

Mais alguns trabalhos deste jovem talentoso e lindo.

CD de Camila Masiso

 

Livro Contos do Mar do grupo Clowns de Shakespeare

 

Cartaz bonitaço pra Água Mineral Cristalina

 

Camisa Macaxeira Jazz (A macaxeira dos meninos que mais faz sucesso em Natal).

 

Cartaz da peça "Sua Inlicença Ricardo Terceiro".

 

Cartaz do Festival Dosol 2010

 

Estampa Sopa de Letrinhas para os Jovens Escribas.

Coluna da Digi # 104 – A Marcha da Maconha

fevereiro 10, 2011

Durante a SBPC 2010, realizada em Natal, na UFRN, um intrépido grupo de jovens resolveram defender a legalização do consumo recreativo da maconha, causa que apoio com toda a convicção e entusiasmo, apesar de não ser usuário nem de gostar nem um pouco de fumaça, seja lá qual for a origem. É que também sou defensor ferrenho da máxima de Voltaire, o maior defensor da liberdade de expressão: “Sou contra tudo o que você disse, mas derramarei até a última gota do meu sangue para que você tenha o direito de dizê-lo.”

E foi nessa pegada que escrevi a polêmica coluna “A Marcha da Maconha” em 02 de agosto de 2010. Boa leitura, jovens. 

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A Marcha da Maconha

A versão carioca da marcha, uma das pioneiras do Brasil.

Os jovens que marcharam na UFRN na última sexta-feira (30.07.2010) em defesa da liberação da maconha talvez nem saibam, mas foram protagonistas de um episódio histórico para Natal. Até bem pouco tempo, um ato semelhante a este seria impensável por aqui. Nessa capital com alma interiorana, temos o velho hábito de observar a vida alheia a partir das calçadas e janelas simbólicas da vida, verdadeiros tribunais sem direito a recursos ou instâncias posteriores, de onde tecemos juízo de valor sobre tudo e todos.

Um ambiente hostil como este resulta numa sociedade preocupada em excesso com opiniões alheias, seguindo hábitos e atitudes padronizadas pela maioria, pelos ditames de modas e frivolidades coletivas. É preciso manter certas aparências para ser aceito. Quem deseja transitar incólume pela zona de conforto da aprovação consensual não pode quebrar regras estabelecidas. Dos interesses culturais ao modo de vestir, tudo precisa seguir a cartilha.

O problema é que a cartilha em vigor faz de nós verdadeiros agentes da caretice. Homens e mulheres conservadores, assustadiços e frontalmente avessos a mudanças. Ela condena opiniões originais e ovelhas desgarradas, fazendo de Natal a cidade mais preconceituosa, machista, repressora e (o horror! O horror!) careta do Brasil. Nossa elite falida e, por extensão, nossa classe média odeia negros, pobres, mulheres com personalidade, gays e maconheiros. A mesma cidade que cultua a contravenção chique do lança-perfume, condena à fogueira os que se atrevem a experimentar a erva maldita.

Tudo isso, somado à boa e velha passividade do Natalense, cria uma situação de letargia e imobilidade difícil de reverter. No entanto, a sociedade, assim como você, o design automotivo e o vírus da gripe, pode evoluir. E esta evolução, que deixaria até Darwin surpreso, chegou até nós.

Algumas vozes tímidas e eventuais ergueram-se em meio a tirania do mesmo e manifestaram publicamente seu gosto musical “alternativo”, sua opção sexual distinta ou qualquer outra forma de subversão, levando à loucura os bastiões da elite natalense.

Porém, a primeira marcha da maconha vai mais longe ao reivindicar a liberação de uma substância proibida pela Constituição Brasileira. Um evento que eu julgava impossível de acontecer na terra dos magos reacionários. O próprio fato de as autoridades policiais terem ensaiado uma repressão e depois permitido, por pressão da opinião pública, é emblemático.

Demonstra que já admitimos opiniões diferentes. A marcha da maconha recupera em boa medida minha fé numa Natal melhor no futuro, com mais gente defendendo idéias e menos janelas para a vida alheia, com mais diversidade cultural e menos trios elétricos, com mais Casas do Bem e menos individualismos. Porque pra frente é que se anda. Ou se marcha.

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Post Scriptum: um detalhe legal é que Pablo Capistrano também escreveu uma crônica em resposta a esta (“A longa marcha da maconha”), fazendo uma retrospectiva histórica da erva e dos sinuosos caminhos de sua proibição nos países ocidentais, além dos verdadeiros interesses ocultos por falsos moralismos. O texto pode ser lido aqui.

A arte de Giovanna e Geórgia

fevereiro 9, 2011

Giovanna Rêgo e sua irmã mais nova, Geórgia Hackradt são duas fotógrafas que estão mandando muito em trabalhos de raro capricho e excelente qualidade. As mocinhas trazem a arte de apreender imagens e roubar almas em suas genealogias, uma vez que são filhas de Giovanni Sérgio e irmãs de Renan Rêgo.  

Pego emprestado, com a devida licença das garotas, que fique claro, alguns de seus trabalhos recentes e divulgo aqui neste sítio pessoal.

Apreciem:

Giovanna e Geórgia

 

Depois eu posto mais.

Mas quem quiser ver o trabalho completo das meninas, acessem o Flickr delas.

O delas é http://www.flickr.com/photos/giovannaegeorgia/ .

Coluna da Digi # 103 – Papa essa, Brasil!

fevereiro 8, 2011

Ah, a Copa de 90! Que celebraçãpo do futebol arte, não foi mesmo? Este texto foi concebido a partir da ideia do autor Thiago de Góes (“Contos Bregas”, “Lobas, Deusas e Ninfetas”) de escrever contos sobre os anos 80. Brinquei com o fato de que o ano de 1990 faz parte da década de 80, apesar de as pessoas em geral não considerarem isso. Foi então que resolvi escrever um texto cheio de ironia a respeito da pior Copa do Mundo de todos os tempos.

Abraços.

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Papa essa, Brasil!

Eu acho que agora vai! Depois de 20 anos chegou a hora de a gente papar essa Copa do mundo. E olhe que eu tenho uma intuição muito boa, boa mesmo. O Collor, por exemplo, começou mal, com essas medidas impopulares, mas pra fazer as coisas darem certo no Brasil, com esses tantos problemas, tem que ser radical mesmo. Um remédio, pra ser bom, tem que ser amargo. Senão remédio seria pizza, né não? Meu pai é que quase teve um treco quando tomaram a poupança dele, mas depois se recuperou, ou quase, e tirando os remédios pra pressão alta e depressão, está levando uma vida próxima do normal.

Mas, fanado de coisas boas, a seleção vai ganhar a Copa sim. Eu tenho fé nisso. Veja a Copa América do ano passado. Demos um baile, jogando bonito, vencendo os rivais. Inclusive a Argentina que vinha com toda aquela banca de campeã mundial. Dançaram bonito no Maracanã. O Lazaroni é aquela coisa, né? Estrategista, com boas peças na mão. Na defesa tem o Taffarel, o Jorginho, o Branco, Mozzer. Na frente tem o Careca, o Muller e ainda Bebeto, Romário e Renato no banco. Só não gosto muito do Dunga, sabe? Não acho que esse aí vá a lugar nenhum. Mas, enfim, se a gente for campeão, ele também vai estar na foto do tetra. Aliás, voltando ao Lazaroni, vocês viram como ele está bem como ator naquela propaganda da Fiat? Hehehe. Muito engraçado.

E vamos que vamos, ao ritmo da Lambada, conquistar a Itália. Por falar nisso, minha irmã virou professora de Lambada. Aquela ali está feita. Vai se dar muito bem na vida, pois não dou 5 anos para o ritmo paraense desbancar o samba como símbolo da música brasileira no mundo. Com certeza, não nenhuma moda. É uma profunda mudança de costumes e valores culturais. A Lambada veio pra ficar. Pode confiar.

E podem confiar em meus palpites futebolísticos também. A Holanda é a campeã europeia. Por isso acho que vai bem longe. Certamente vai fazer a final contra o Brasil. Não acredito nas outras seleções. Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental e Argentina não vão chegar longe dessa vez. E olhe que os donos da casa têm pinta de favoritos. Argentina e Alemanha também porque foram finalistas no México, mas nenhum deles vai ficar de pé se cruzar com Brasil ou Holanda.

Sabe qual é uma equipe que pode surpreender? O Uruguai. Em 86 Francescoli já deu um show e acredito que agora eles também vão arrebentar. É capaz de pintar numa semifinal. Outro time sul-americano que pode ser uma zebra é a Colômbia. Aquelas saídas do Higuita para driblar fora da área irritam os adversários a ponto de deixá-los sem ação. Ele ainda vai aprontar uma das suas nessa Copa. Alguns acham que é irresponsabilidade, mas eu e minha intuição sabemos que não vai acontecer nada de errado com os colombianos por causa daquilo. É capaz que, em uma dessas jogadas, ele dê início a uma jogada de gol na Colômbia.

O que ainda é triste é o fato de as equipes asiáticas e principalmente as africanas serem enormes sacos de pancada, meros coadjuvantes para que europeus e sul-americanos exibam seu talento. Já na abertura a gente vai ver. A Argentina vai dar uma surra em Camarões e vão se achar os favoritos absolutos. Ouvi dizer que Camarões tem um centroavante de 38 anos de idade. O nome dele é Roger Milla. Minha Nossa Senhora! O que é que esse senhor vai fazer numa Copa do Mundo? Tá na cara que vieram passar vergonha.

E aposto no artilheiro também. Vai ser o Van Basten. Seguro que vai. Ou talvez o Lineker ou algum brasileiro. Da Itália é que não vai ser. Aquele futebol feio, amarrado, sem criatividade. O pessoal tá dizendo que o Brasil está querendo jogar à italiana, mas… que nada! O Brasil vai testar esse esquema de 3 zagueiros, mas logo vai mostrar sua categoria, malemolência, futebol moleque e, esquemas italianos à parte, vamos vencer uma linda final contra a Holanda.

Enfim, quem quiser pode anotar o que eu estou dizendo. Sou muito bom em previsões e tudo o que eu disse vai acontecer. O Brasil vai ganhar a Copa de 90 depois de 20 anos, o Collor vai ser um grande presidente, a Lambada vai ser o ritmo essencialmente brasileiro, tomando o lugar do Samba e muitas outras coisas que a minha intuição está me dizendo. Podem confiar. Eu sou infalível!

Festival Dosol 2010 – Vídeo Cobertura Lado R e O Inimigo.

fevereiro 7, 2011

Vídeo muito legal produzido pela galera do “Lado R” e “O Inimigo” com a cobertura do Festival Dosol 2010. Curtie demais. Curtam aí também!

Coluna da Digi # 102 – O relógio que vovô usou.

fevereiro 3, 2011

Mais uma crônica da safra madrilenha que publiquei tardiamente na coluna da Digi, precisamente no dia 26 de abril de 2010. Mas deu certo. O pessoal gostou. Pois, como dizem por aí: tudo tem seu tempo.

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O relógio que vovô usou.

Em 1999 eu precisava de um relógio. Na época, eu estava fazendo intercâmbio em outro país e, além do deslocamento espacial em alguns (na verdade muitos) milhares de quilômetros ao norte, carecia de um acessório que, acoplado satisfatoriamente ao meu pulso esquerdo, pudesse me devolver a orientação temporal perdida desde que meu relógio anterior havia se quebrado. Ainda mais que eu me encontrava com 5 horas de diferença de fuso horário (confuso horário?), o que é um fator a mais de complicação. Nessas situações, um objeto que nos ajude a nos situar no tempo é de enorme utilidade, adquirindo um valor que transcende a própria estética inerente ao adorno em que se converteu o relógio em detrimento de sua natureza inegavelmente prática.

Busquei um centro de compras onde pudesse encontrar um dos bons, que não fosse um mero mostrador de horas. Afinal de contas, sou brasileiro, compatriota do Alberto Santos Dummont, ninguém menos que o inventor dessa porra, tá sabendo? E em tão privilegiada situação, eu merecia respeito e a condição de ostentar o que de melhor houvesse na categoria de indicadores de horário portátil. O relógio que eu compraria deveria preencher uma série de requisitos prévios, ser avaliado segundo rigorosos parâmetros, estar de acordo com os mais exigentes critérios, respeitando altos padrões de excelência.

Seguindo este raciocínio, o eleito deveria ter qualidade comprovada e precisava demonstrá-la , trabalhando dia e noite sem intervalos, consumir pouco das poluentes baterias, não atrasar, ser resistente e durável, tranquilizando-me quanto ao seu uso continuado e longevidade. Um relógio que se preze deve ajudar com soluções e não ser motivo de mais problemas. Por essas razões, uma boa marca, reconhecida e recomendada por especialistas, deveria ser minha opção. Também se fazia imperativo que fosse agradável aos olhos, porém discreto, uma vez que eu estaria seguidamente consultando-o, não poderia correr o risco de me cansar dele. Além disso, não seria nada conveniente que ele acabasse chamando a atenção das pessoas em demasia. Os outros só deveriam notá-lo quando precisassem saber as horas. Porque o tempo é o real motivo pelo qual usamos relógios. O tempo é o astro e o relógio é um relativo controle (ou ao menos informação) sobre o nosso tempo. Portanto, se um relógio aparece mais que o necessário, fazendo-nos esquecer, por alguns momentos que seja, seu propósito, superando o tempo em atenção dispensada, configura-se uma abjeta inversão de valores que deve ser prioritariamente corrigida. Em resumo: deve ser bonito, mas sem “causar”.

Um relógio não deve perder seu foco porque detém consigo muita responsabilidade. Apesar de sermos nós que os levamos no pulso, ele leva em si nossa reputação e imagem. Há muito em jogo naquele pequeno objeto além da simples satisfação da curiosidade sobre em que instante do movimento de rotação da Terra nos encontramos. O que está permanente em xeque ali é a nossa pontualidade. Essa é a irrevogável e duríssima realidade.

No centro de compras encontrei várias alternativas e logo me agradou uma delas, um belo, discreto e de boa procedência (da marca Guess) relógio com tons equilibrados entre o azul, dourado e prateado. Encaixou-se bem no meu pulso, inspirou-me confiança e levei.

É motivo de grande felicidade quando as coisas dão certo em nossas vidas, quando tomamos decisões que, posteriormente, se mostram acertadas, quando temos nossas expectativas plenamente correspondidas. Pois bem, o relógio se revelou uma excelente escolha. Eu não poderia ter acertado mais. Era um disciplinado operário, consciente do seu dever, cumpridor de todas as suas obrigações com diligência e eficácia. Em 10 anos que estivemos juntos nunca quebrou, mesmo depois de tantas pancadas, e devo haver trocado suas baterias umas duas vezes apenas. Incrível!

Sua ótima qualidade e durabilidade me deixaram tão tranquilo que me esquecia completamente do fato que, um dia, teria que substituí-lo. Um amigo mais afeito aos chistes e gaiatices, uma espécie de pândego da turma, sempre que me encontrava começava a cantar: “o relógio que vovô usou, o meu pai herdou e deixou pra mim”. Ele se divertia com o fato de eu usar o mesmo artefato havia tantos anos. Com isso, o maior mérito do meu instrumento de medição temporal acabou se tornando também o principal motivo de zombaria alheia.

Não me importava com o humor do meu amigo, adepto da filosofia de que nunca se deve deixar passar uma oportunidade de tripudiar com os demais. Preferia manter-me fiel a meu relógio, companheiro de todas as horas, enquanto este ainda cumprisse bem sua missão. Era uma questão de lógica: se funciona bem, se realiza o que dele se espera, não havia porque trocá-lo por outro, ainda que mais moderno, bonito e que transmitisse mais status. Substituí-lo sem uma boa justificativa seria sujeitar-se aos caprichos nocivos do consumismo, dos supérfluos, da aparência sem propósito. Eu não sou assim. Não gosto. Prefiro adquirir coisas que realmente sejam necessárias e não sucumbir aos apelos sedutores da publicidade que cria “necessidades” novas e inúteis a cada dia, alimentando o eu-materialista que habita a superfície de cada um de nós. Por sustentar firmemente essa postura, por tomar atitudes da mais pura austeridade e absoluta consciência, por não ser mais uma vítima dos exageros e arroubos capitalistas, eu me senti tranquilo, pois sabia que a crise econômica mundial que atravessamos não foi responsabilidade minha, pelo menos em grande medida.

Só que… o tempo… Este mesmo tempo que é senhor da razão, este “mano velho” que nos dá sabedoria, discernimento e maturidade, e que é, em si mesmo, a razão para que o relógio exista, é também carrasco implacável de todas as pessoas e coisas, setenciando o nosso inevitável ocaso. Digo isso porque essa semana, depois de 10 anos de serviços prestados, meu companheiro parou de funcionar. Seu coração artificial interrompeu suas pulsações e ele, cansado da labuta de uma década, deixou de mover seus ponteiros. Estou agora neste preciso momento olhando para ele, sua carcaça inanimada é pouco mais que um arremedo do que já foi, remetendo a lembranças de episódios passados.

Percebo que finalmente chegou o momento de substituí-lo. Vou comprar outro relógio. Buscarei numa loja outro que me inspire a mesma confiança e que seja tão discreto e de boa procedência quanto ele. Espero acertar outra vez na escolha.

Quanto ao meu velho amigo, o “relógio que vovô usou”, trocarei suas baterias e ele reviverá no pulso de um homem humilde que necessite de um relógio, mas não tenha tantas condições para comprar. Espero que este homem seja tão feliz quanto eu fui e que ele funcione mais 10 anos em seu pulso. Porque certamente a sua hora derradeira ainda não chegou.

Tudo tem seu tempo.