Coluna da Digi # 101 – E agora, Brasil?

Na coluna 100 da Digi fiz uma leve retrospectiva dos 99 textos anteriores. Aí passamos para a coluna de número 101. No dia 13 de abril de 2010 publiquei o texto “E agora, Brasil?”, uma divertida reflexão sobre a mudança de patamar de nosso país.

Boa leitura, jovens!

***

E agora, Brasil?

E essa história de que agora o Brasil é uma potência, hein? A verdade é que nos custa a adaptar. Nossos, agora colegas, os países ricos convidam para as festas mais exclusivas. No encontro do G8, lá estamos nós. Na cúpula do clima de Copenhagen, nossa participação é fudamental. A Copa e as Olimpíadas? Levamos, sob o olhar resignado e de reconhecida admiração dos outros concorrentes que, no fundo, sabiam que não seriam páreos para nós. Eles apaludiam o nosso sucesso e pensavam por trás de seus sorrisos: “Ah, como nós queríamos ser como eles…” No meio de um encontro, a Alemanha nos chama a um canto e nos conta um segredo e até (por Deus!) pede uma opinião. Quando confraternizamos com os nossos iguais no meio do salão, aparece os Estados Unidos, apontam para nós e dizem para todos ouvirem: “Vocês são os caras!”

O Brasil aceita os convites com alegria e transborda toda a sua simpatia característica, quebrando seguidamente sisudos e cerimoniosos protocolos. De vez em quando, faz uma metáfora espirituosa e arrisca até uma sambadinha. Os outros riem e, mais uma vez, nos admiram pela espontaneidade. Todos parecem muito felizes com a nossa chegada ao clube. Na verdade, os únicos que parecem um pouco incomodados com isso somos nós, os próprios brasileiros.

E não é por mal, nem uma demonstração tardia e pós-rodrigueana de síndrome de viralatas, mas é que nós, os filhos do Brasil (assim como Ele), não estamos lá muito bem resolvidos com essa situação. Desde que éramos pequenos (em vários sentidos) nos diziam que éramos pobres, subdesenvolvidos, que nossa economia era fraquinha, que a hiperinflação não tinha jeito, que até tínhamos potencial, mas infelizmente não daria para desenvolvê-lo nesta encarnação. Éramos o país do futuro. E o futuro, como se sabe, não acontece hoje. Essa era a nossa realidade: a de povo pobre, mas limpinho que usava nossa supremacia futebolística para brincar um pouco de soberba. O refrão de “Inútil”, do Ultraje era o nosso hino nacional extraoficial.

Aí, de repente a gente cresceu. Nossa voz mudou e passou a ser ouvida, ganhamos corpo frente às outras nações e, apesar de desajeitados com nossas novas dimensões, tentamos nos adaptar. Os países ricos nos olharam e disseram orgulhosos: “Gente, olha só o Brasil. Eu conheço desde que o PIB era deste tamanhinho.” A partir daí começa o nosso conflito adolescente em busca da sua identidade. Estamos crescendo mais rápido que esperávamos e ainda não decidimos se vamos ser Bélgica ou Índia.

Diante de tanta pressão o Brasil senta à mesa de um boteco (ou no balcão de um pub irlandês) e resolve desabafar com um dos novos amigos europeus. A Espanha, digamos. Começam falando amenidades, contam uma que outra piada e, a certa altura da conversa, o Brasil solta a frase que já lhe sai tão automática por força do hábito: “é que eu, como sou um país pobre…” A Espanha dispara um olhar severo, chama a atenção do gigante verde e amarelo (“você é pobre? Você?!”) e começa a enumerar suas desgraças recentes, aparentemente mais graves que as nossas. Para serenar os ânimos e desfazer a tensão, o Brasil resolve mudar de assunto. “Falemos agora de futebol. Esse ano tem Copa, nossa seleção é uma das favoritas…” Mais uma vez ele é fuzilados pelo olhar inquisidor espanhol. “Vocês favoritos? Esse ano não tem pra ninguém! A Espanha é favorita e nenhuma seleção do mundo está no nosso nível de excelência individual, coletivo e ainda com tantos craques jovens despontando.”

E aí a coisa se torna ainda pior. Se antes a possibilidade de o mundo estar de cabeça para baixo não passava apenas de uma hipótese possível, agora se converte em certeza irrefutável. O Brasil está entre as melhores, mais estáveis e sólidas economias do mundo, porém não é mais o país do futebol. Como se vê, a coisa é mais grave do que parece. Nos custa a entender esse mundo. Precisamos de uma explicação lógica e plausível. Alguma coisa está muitíssimo fora da ordem. Mas agora que somos ricos, pelo menos já podemos pagar a terapia.

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