Coluna da Digi # 102 – O relógio que vovô usou.

Mais uma crônica da safra madrilenha que publiquei tardiamente na coluna da Digi, precisamente no dia 26 de abril de 2010. Mas deu certo. O pessoal gostou. Pois, como dizem por aí: tudo tem seu tempo.

***

O relógio que vovô usou.

Em 1999 eu precisava de um relógio. Na época, eu estava fazendo intercâmbio em outro país e, além do deslocamento espacial em alguns (na verdade muitos) milhares de quilômetros ao norte, carecia de um acessório que, acoplado satisfatoriamente ao meu pulso esquerdo, pudesse me devolver a orientação temporal perdida desde que meu relógio anterior havia se quebrado. Ainda mais que eu me encontrava com 5 horas de diferença de fuso horário (confuso horário?), o que é um fator a mais de complicação. Nessas situações, um objeto que nos ajude a nos situar no tempo é de enorme utilidade, adquirindo um valor que transcende a própria estética inerente ao adorno em que se converteu o relógio em detrimento de sua natureza inegavelmente prática.

Busquei um centro de compras onde pudesse encontrar um dos bons, que não fosse um mero mostrador de horas. Afinal de contas, sou brasileiro, compatriota do Alberto Santos Dummont, ninguém menos que o inventor dessa porra, tá sabendo? E em tão privilegiada situação, eu merecia respeito e a condição de ostentar o que de melhor houvesse na categoria de indicadores de horário portátil. O relógio que eu compraria deveria preencher uma série de requisitos prévios, ser avaliado segundo rigorosos parâmetros, estar de acordo com os mais exigentes critérios, respeitando altos padrões de excelência.

Seguindo este raciocínio, o eleito deveria ter qualidade comprovada e precisava demonstrá-la , trabalhando dia e noite sem intervalos, consumir pouco das poluentes baterias, não atrasar, ser resistente e durável, tranquilizando-me quanto ao seu uso continuado e longevidade. Um relógio que se preze deve ajudar com soluções e não ser motivo de mais problemas. Por essas razões, uma boa marca, reconhecida e recomendada por especialistas, deveria ser minha opção. Também se fazia imperativo que fosse agradável aos olhos, porém discreto, uma vez que eu estaria seguidamente consultando-o, não poderia correr o risco de me cansar dele. Além disso, não seria nada conveniente que ele acabasse chamando a atenção das pessoas em demasia. Os outros só deveriam notá-lo quando precisassem saber as horas. Porque o tempo é o real motivo pelo qual usamos relógios. O tempo é o astro e o relógio é um relativo controle (ou ao menos informação) sobre o nosso tempo. Portanto, se um relógio aparece mais que o necessário, fazendo-nos esquecer, por alguns momentos que seja, seu propósito, superando o tempo em atenção dispensada, configura-se uma abjeta inversão de valores que deve ser prioritariamente corrigida. Em resumo: deve ser bonito, mas sem “causar”.

Um relógio não deve perder seu foco porque detém consigo muita responsabilidade. Apesar de sermos nós que os levamos no pulso, ele leva em si nossa reputação e imagem. Há muito em jogo naquele pequeno objeto além da simples satisfação da curiosidade sobre em que instante do movimento de rotação da Terra nos encontramos. O que está permanente em xeque ali é a nossa pontualidade. Essa é a irrevogável e duríssima realidade.

No centro de compras encontrei várias alternativas e logo me agradou uma delas, um belo, discreto e de boa procedência (da marca Guess) relógio com tons equilibrados entre o azul, dourado e prateado. Encaixou-se bem no meu pulso, inspirou-me confiança e levei.

É motivo de grande felicidade quando as coisas dão certo em nossas vidas, quando tomamos decisões que, posteriormente, se mostram acertadas, quando temos nossas expectativas plenamente correspondidas. Pois bem, o relógio se revelou uma excelente escolha. Eu não poderia ter acertado mais. Era um disciplinado operário, consciente do seu dever, cumpridor de todas as suas obrigações com diligência e eficácia. Em 10 anos que estivemos juntos nunca quebrou, mesmo depois de tantas pancadas, e devo haver trocado suas baterias umas duas vezes apenas. Incrível!

Sua ótima qualidade e durabilidade me deixaram tão tranquilo que me esquecia completamente do fato que, um dia, teria que substituí-lo. Um amigo mais afeito aos chistes e gaiatices, uma espécie de pândego da turma, sempre que me encontrava começava a cantar: “o relógio que vovô usou, o meu pai herdou e deixou pra mim”. Ele se divertia com o fato de eu usar o mesmo artefato havia tantos anos. Com isso, o maior mérito do meu instrumento de medição temporal acabou se tornando também o principal motivo de zombaria alheia.

Não me importava com o humor do meu amigo, adepto da filosofia de que nunca se deve deixar passar uma oportunidade de tripudiar com os demais. Preferia manter-me fiel a meu relógio, companheiro de todas as horas, enquanto este ainda cumprisse bem sua missão. Era uma questão de lógica: se funciona bem, se realiza o que dele se espera, não havia porque trocá-lo por outro, ainda que mais moderno, bonito e que transmitisse mais status. Substituí-lo sem uma boa justificativa seria sujeitar-se aos caprichos nocivos do consumismo, dos supérfluos, da aparência sem propósito. Eu não sou assim. Não gosto. Prefiro adquirir coisas que realmente sejam necessárias e não sucumbir aos apelos sedutores da publicidade que cria “necessidades” novas e inúteis a cada dia, alimentando o eu-materialista que habita a superfície de cada um de nós. Por sustentar firmemente essa postura, por tomar atitudes da mais pura austeridade e absoluta consciência, por não ser mais uma vítima dos exageros e arroubos capitalistas, eu me senti tranquilo, pois sabia que a crise econômica mundial que atravessamos não foi responsabilidade minha, pelo menos em grande medida.

Só que… o tempo… Este mesmo tempo que é senhor da razão, este “mano velho” que nos dá sabedoria, discernimento e maturidade, e que é, em si mesmo, a razão para que o relógio exista, é também carrasco implacável de todas as pessoas e coisas, setenciando o nosso inevitável ocaso. Digo isso porque essa semana, depois de 10 anos de serviços prestados, meu companheiro parou de funcionar. Seu coração artificial interrompeu suas pulsações e ele, cansado da labuta de uma década, deixou de mover seus ponteiros. Estou agora neste preciso momento olhando para ele, sua carcaça inanimada é pouco mais que um arremedo do que já foi, remetendo a lembranças de episódios passados.

Percebo que finalmente chegou o momento de substituí-lo. Vou comprar outro relógio. Buscarei numa loja outro que me inspire a mesma confiança e que seja tão discreto e de boa procedência quanto ele. Espero acertar outra vez na escolha.

Quanto ao meu velho amigo, o “relógio que vovô usou”, trocarei suas baterias e ele reviverá no pulso de um homem humilde que necessite de um relógio, mas não tenha tantas condições para comprar. Espero que este homem seja tão feliz quanto eu fui e que ele funcione mais 10 anos em seu pulso. Porque certamente a sua hora derradeira ainda não chegou.

Tudo tem seu tempo.

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