Coluna da Digi # 105 – Copa de 2014. E o principal?

 

Esta foi mais uma crônica da sequência de textos sobre a Copa de 2014. Aborda a eterna fixação pelo secundário dos natalenses, deixando de lado itens muito mais essenciais para o nosso desenvolvimento. Espero que sirva de reflexão para todos.

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Copa de 2014 – E o principal?

A Copa do Mundo é nossa. Ou deles, sei lá. Do Ricardo Texeira, dos governos federal e estadual, da prefeitura, da Globo, dos patrocinadores e suas isenções fiscais absurdas e imorais. Mas, a despeito de toda essa turma que monopoliza o filé e retém para si os principais dividendos, manejando enormes quantias de dinheiro, alguma mínima parte do montante acaba por beneficiar os moradores locais. Benefícios que vem através de investimentos em infraestrutura, transporte público, turismo e formação profissional para receber turistas. Sem falar nas divisas que ingressam na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal.

Essas são algumas vantagens de sediar o evento. E muita gente tem opinado sobre tais aspectos, seja cobrando providências, apontando soluções ou promovendo palestras e debates. Todos os dias vemos autoridades nos jornais explanando sobre o tema. São governantes, candidatos, dirigentes de entidades diversas e representantes das mais variadas categorias. Ninguém quer ficar de fora do foco de todas as atenções. Até o termo “político copa do mundo” foi reinventado, ganhando uma conotação positiva.

No entanto, nenhuma dessas autoridades ou os jornalistas que abordam o assunto diariamente na imprensa tocaram num ponto importantíssimo do processo. Ninguém parece ter enxergado que a realização da Copa no Brasil, tendo Natal como sub-sede, pode significar uma oportunidade única para promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. É claro que isso não me surpreende, já que uma das nossas maiores características é a falta de visão periférica dos detentores da informação (empresários, jornalistas, intelectuais, políticos e universitários). Parecemos (os natalenses) incapazes de elaborar raciocínios minimamente complexos, envolvendo planejamento, ações de longo prazo e benefícios mais abrangentes, ocupados demais que estamos com interesses individuais e imediatos.

A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local. Que tal um projeto de transformação social por meio da prática esportiva de alto nível associada à educação de excelência?

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

Um trabalho como este resultaria em um legado realmente duradouro para a nossa cidade. E ainda nos salvaria do ridículo de construir um estádio moderno e caríssimo sem ter atletas preparados para atuar lá. Pois como disse o neurocientista Miguel Nicolelis recentemente, não podemos ficar eternamente dependendo do turismo. “Turismo é migalha”, declarou. Pesquisa, ciência e educação são riquezas muito mais duráveis e valiosas.

Mas nós não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) e ele nunca serviu para mudar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Por isso, mesmo acreditando que a infraestrutura é essencial, a segurança e o transporte são necessários, defendo que o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado por nós. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão.

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Quem quiser ler as crônica anteriores sobre o tema, pode clicar nos seguintes atalhos:

A roubalheira vai começar.

A conta é nossa.

Minhas razões

Bombas de efeito imoral.

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