Coluna da Digi # 106 – O roteirista de Stallone Cobra

A exemplo de outros textos publicados aqui (“A Copa de 90” e “Saúde é o que interessa.”), este  é mais um conto que escrevi para a coletânea organizada por Thiago de Góes “80 contos sobre os anos 80”. Gosto dele. Acho bem divertido. Espero que vocês gostem também.

***

O roteirista de Stallone Cobra

Sempre gostei das frases de efeito. As verdades absolutas, incontestáveis, que impactam como uma sipuada no meio da testa. Aquelas que deixam qualquer interlocutor sem chão, pensativo, sem prumo nem ação. E o melhor das verdades inegáveis é que nem precisam ser verdades. Basta serem pronunciadas com cerimônia, a trilha sonora adequada no fundo, no tempo certo e conforme a ocasião. Se você constrói o cenário ideal, uma boa frase de efeito se torna a mais irresistível verdade já proferida.

No meu caso, sempre foi assim. Por exemplo, eu nem me lembro direito quando vim dar com os costados nos Estados Unidos, mas recordo qual foi a primeira frase que disse assim que cheguei: “Deixarei marcas indeléveis nesta gloriosa nação libertária!” Infelizmente, como eu ainda não falava inglês e as pessoas que estavam no saguão não entendiam português, essa frase não entrou pra história. Faltou timming.

É que as coisas funcionam mais ou menos assim: tem que ter o momento certo pra dizer a frase, mas também não pode ser qualquer frase. Imaginem se o Dom Pedro I tivesse dito algo como “É, acho que já deu. Bem que o Brasil poderia, assim, ficar, tipo, independente de Portugal, saca?”? Certamente a gente estaria até hoje dançando o vira, ouvindo fado e contando piadas sobre nós mesmos. Ele tinha que dizer algo imponente e marcante como “Independência ou morte!”, montado em um cavalo magnífico, rodeado de fiéis e patrióticos guerreiros, com uma trilha épica de fundo composta pelo John Williams e muito gelo seco pra dar um clima. E, olha que se fosse eu que tivesse escrito a cena, ainda faria mais dramática. Ele diaria algo como “Eles podem até levar nossas vidas, mas nunca poderão levar nossa LIBERDADE!” Como não fui, acabei sugerindo essa fala pro Mel Gibson e ele aproveitou no “Coração Valente” anos depois.

E o Neil Amstrong? E se ele tivesse dito, ao pisar na Lua, algo como “Uhuuuuuu!!! Cheguei primeiro! Pega porra!” Poderia ter sido a primeira e última viagem tripulada ao satélite. O resto da humanidade nunca mais se interessaria por outros planetas ou estrelas ou satélites e os astronautas e cosmonautas de todo o mundo perderiam irremediavelmente seu charme. A corrida espacial não teria vencedores, só frustração e uma terrível sensação de tempo e dinheiro perdidos. Mas não, o roteirista da viagem à lua foi o Kubrick e ele não daria bobeira. Era perfeccionista e sensível. Sabia dizer a coisa certa no momento adequado.

Eu também tive a sorte de ser agraciado com esse dom. Sei o que colocar na boca dos atores e a carga dramática exigida a cada nova cena. Por isso venci aqui nessa terra do entretenimento. Escrever filmes de sucesso em Hollywood requer talento, claro. Mas não é só isso. Os roteiros de grande alcance popular com resultados expressivos nas bilheterias exigem um quê de genialidade, o auxílio de luxo de profissionais como eu: assistente de roteiro, que se ocupa em imaginar as tiradas geniais, os ditos que ecoarão nas mentes mundo afora e ficarão na memória dos espectadores. Ser roteirista respeitado nos Estados Unidos é trabalho para mentes criativas. Agora ser um assistente de roteiro digno de registro é para cabeças divinamente iluminadas e inovadoras, ousadas e brilhantes. Enfim, gente como eu.

Ou vocês acham que frases como “Que a Força esteja com você.”, de “Star Wars” ou  “Tire suas patas imundas de mim, seu macaco maldito” do “Planeta dos Macacos” foram idealizadas pelos próprios roteiristas? Não, foram cunhadas por Assistentes de roteiro históricos. O mesmo pode ser dito sobre “My name is Bond, James Bond.” E “Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.” De “O Poderoso Chefão”. Gente mais importante que os próprios que assinam os roteiros.

No meu começo no showbusiness, trabalhei como o cara que segura o cabo, com o devido respeito. Daí, em 1980 quando o George Lucas estava numa dúvida danada sobre um nó que ele queria desatar numa história, eu criei coragem e falei pra ele: “Look, mister Lucas, lá no Brasil, sempre que acontecem essas coisas nas novelas, os caras dão um jeito de alguém ser filho de alguém. Can you understand? Tipo um casal que descobre que são pai e filha… aí sai dizendo “Look, minha filha, I’m your father.” Ele abuticou os olhos pra cima de mim e disse “That’s it! LUKE, I AM YOUR FATHER!” E acabaram-se meus dias de rapaz do cabo.

Logo depois, minha fama de ajeitador de histórias se espalhou por Hollywood e o Silvester Stallone me pediu pra que eu desse uma força com seu novo filme sobre um soldado rebelde no Vietnã: Rambo. Sugeri um pequeno diálogo em que um vilão pergunta: “Quem é você?” e o Stallone respondia “Seu pior pesadelo!” Minha contribuição acrescentou uma carga dramática de tal magnitude à produção que o filme fez sucesso no mundo todo e o Stallone me pediu que escrevesse um roteiro inteirinho pra ele em vez de apenas colaborações esparsas.

Só que eu não poderia atender o convite do Sly imediatamente por já ter topado trabalhar com o Spielberg e ajudá-lo com o seu projeto da vez, além de outros que havia assumido antes. Em 82, o diretor de “Tubarão” ficou bastante satisfeito com meu toque de Midas. Bastou uma única frase minha para fazer o seu “ET” voar até a lideranças das bilheterias mundiais: “ET telefone casa!” Depois, o Arnold, meu amigo, pediu uma dica para encerrar o seu “Exterminador do Futuro”. Sem pestanejar, declarei: “Eu voltarei!” E por causa disso, os caras já vão bem no sexto filme da franquia.

Depois mais dois clássicos para adolescentes: “Quem vão chamar? Caça-fantasmas!” e “Slott quer chocolate.” dos Goonies, mais uma parceria minha com o Steve. Como o Stallone não me deixava em paz, fui escrever o filme novo dele, meu único trabalho como roteirista propriamente dito. Bem, digo aos senhores, sem medo de errar: foi minha obra prima. “Stallone Cobra” de 1986 é o melhor filme da história do cinema! Cheio de sentenças memoráveis e a antológica “Você é a doença e eu sou a cura!”. Com mnha reputação cada vez mais nas alturas, até o Stephen King recorreu a mim para adornar uma de suas histórias. Era sobre amizade. Pensei um pouco e falei pra ele que “Amigos entram e saem de nossas vidas como garçons num restaurante”. Ele escreveu o filme “Conta Comigo” que até virou cult.

O ano de 86 ainda me proporcionou mais uma pérola. Estávamos bebendo, eu e dois colegas, em um bar de Los Angeles quando eu disse que era muito bom estar ali com eles, pois “a vida é muito curta pra desperdiçar.” Eles começaram a gritar eufóricos e afirmaram que tiveram uma ideia para um roteiro me colocariam como co-autor. Foi assim que participei de “Curtindo a vida adoidado”.

Minha última façanha na década de ouro foi uma contribuição que dei a um certo cara chamado Tom. Eu sugeri duas frases “Oh, Capitão, meu Capitão!” e “Carpe Diem.” E, a partir delas, ele fez um filme bem legal e elogiado chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Nos anos que se seguiram, me aposentei. Uma vez, um indiano ligou pra mim querendo que eu o ajudasse numa história. Me fiz de doido, e disse algo bem sem sentido como “Eu vejo gente morta!” O safado fez um ótimo filme a partir dessa frase. Depois veio me pedir mais dicas e eu me recusei a dizer algo. Parece que desde então, nunca mais fez nada que prestasse.

No início dos anos 2000, promovi uma festa pra comemorar 20 anos de carreira. Convidei uns amigos do meio, entre eles o Fernando, que estava pra filmar um livro do qual ele gostava muito. Ele quis conversar sobre o projeto. Disse que o Bráulio Montovani, um garoto muito talentoso estava à frente e me contou alguns detalhes da história. Eu até gostei, mas o nome do vilão não estava certo. Aí, ele me perguntou: “O que foi? Você não gosta do Dadinho?” Ao que eu respondi: “Pô, Fernando! Dadinho é o caralho!” Acabei que não vi o filme ainda, mas fiquei sabendo que a frase teve um efeito legal na plateia. É como eu sempre digo ao ver um roteiro com defeito: “Você é a doença e eu sou a cura!”

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