O Maconheiro Militante 3

Em 14 de janeiro de 2008 publiquei na antiga Coluna da Digi a crônica “O Maconheiro Militante“. Na época, o texto agradou bastante os meus leitores no portal, apesar de ter desagradado um pouco a classe, segundo me disseram depois. Ano passado, em 09 de agosto, por causa da 1ª Marcha da Maconha do RN, escrevi “O Maconheiro Militante 2“.

Pois bem, agora encerro a trilogia deste personagem romântico e idealista, apaixonado pela causa verde.

Jovens e jovens, com vocês, o Maconheiro Militante 3!

***

O Maconheiro Militante 3

O Maconheiro Militante anda deveras contrariado com a grande mídia careta, reacionária e atrasadona. Desde 2007, quando saiu o primeiro “Tropa de Elite”, o jovem e abnegado rebelde com justa causa vem sofrendo uma intensa e insana pressão de gente que não tem a menor noção do que está falando. Pessoas que chegam pra ele e afirmam com suposto conhecimento de causa que o papel assumido por ele prejudica a sociedade, provocando violência e mortes inocentes. “Você é cúmplice. Você alimenta o tráfico!” Ora, veja!, ele pensa antes de disparar: “O único papel que me interessa é o de seda, cara! E é você que financia os mais condenáveis crimes mundo afora, cometidos pelo capitalismo predatório, a concorrência desleal e as práticas desumanas promovidas por grandes corporações multinacionais. Você sim, é cúmplice de assassinatos, atentados políticos, sequestros, roubos, espionagem industrial, golpes de estado, a fome no mundo e toda sorte de desgraças que assolam este planeta esquecido por seu Deus! E não me venha querer me dar essa lição de moral pusilânime decorada de algum bloco do Fantástico ou de alguma matéria mal escrita da Veja.” E assim, o rapaz, vai se saindo, enfrentando os opositores com sua esfumaçada retórica cheia de paixão e fúria.

A coisa só piorou para o lado dele depois que as autoridades invadiram o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro e a discussão a respeito do tráfico e da relação dos jovens com as drogas passou a ser discutida no Jornal Nacional. O que ele teve que ouvir de piadinhas dando conta de que aqueles traficas fugindo eram seus comparsas, que cada baseado que ele acendia representava um azulejo naquelas piscinas de luxo que encontraram na favela e muitas outras do tipo não foi brincadeira. Aí veio aquele que pareceu ser o golpe de misericórdia na carreira de abnegada militância do jovem: o estrondoso sucesso do filme “Tropa de Elite 2”.

Falar mal da maconha e dos seus usuários virou moda, estava entre as últimas tendências nas filas de cinema dos shoppings e o linchamento moral e social que o Maconheiro Militante sofreria certamente faria sua causa perder força e minguar até possivelmente desaparecer. O que fazer para recuperar a credibilidade perdida? Após anos de estudos das ciências canábicas e prática também, pois ninguém aprende direito sem exercer o que se aprendeu na teoria, seria aquele o fim de sua luta? Depois de tanta leitura e de muitos discursos exaltados com o propósito de convencer os incautos da extrema importância do THC como substância redentora da humanidade, ele teria que interromper sua pregação e definhar como um náufrago que nadou até a beira apenas para morrer de cansaço? Logo agora que a sociedade parecia caminhar rumo a um amadurecimento há muito almejado?

Não. De maneira alguma, ele desistiria. Era hora de reagir, de encarar toda aquela mídia fascista, hipócrita e direitôba com a cabeça erguida, de escancarar os reais motivos desta campanha antihemp, de informar à sociedade que a indústria de bebidas, de cigarros tradicionais e as igrejas evangélicas financiam o lobby contrário à maconha, uma vez que eles já oferecem suas drogas e preferem eliminar uma concorrente de peso como esta. É preciso arregimentar soldados dispostos a ir à luta, a defender por aí a legalização da erva que cura os males do corpo, alivia os dissabores da alma e extirpa do mundo o estresse e o nervosismo que tantos prejuízos causam ao ser humano. É preciso anunciar a Boa Nova, a verdade que a maconha, na real, traz é paz, e não violência como querem fazer crer os papagaios que viram os DVDs piratas de “Tropa de Elite” e vêm pagar uma de homenzinhos éticos e honestos acima de tudo. Se fossem criar uma bandeira para o Partido da Mobilização Marijuana, ela seria branca e teria uma folha verde de 7 pontas no centro. Poderia ter também alguma representação do vermelho dos olhos ou o amarelo dos dedos, mas o branco seria predominante. Pode crer.

O Maconheiro Militante pretende unir esforços, difundir na mídia “malhada” como o Lado R ou a High Times os principais pontos de suas argumentações pró-cannabis, lançar mais produtos, personagens e elementos da cultura Pop como o Capitão Presença a fim de chamar a atenção e atrair a empatia dos mais antenados para o seu lado. Também quer conseguir o financiamento de pizzarias, redes de lanchonetes, docerias e fábricas de biscoitos de chocolates, eles que são grandes beneficiários das insaciáveis laricas ora vivenciadas. Era preciso também utilizar a música, a televisão e todas as manifestações artísticas disponíveis em prol da liberação. O Planet Hemp precisa voltar à ativa e o reggae deve ser apontado como uma sabotagem criada por aqueles contrários à erva na tentativa de associar algo extremamente antipático ao consumo deste item natural que só o bem nos traz.  

Com trabalho sério, organização e todo um esforço de comunicação, logo a maconha vai estar na crista da onda novamente, todos vão reconhecer a importância desta planta para o desenvolvimento do país. O exército convocado pelo nosso herói conseguirá, inclusive, penetrar no Congresso Nacional, elegendo sua própria bancada verde, composta por Deputados e Senadores engajados e “enganjados”. Após tais conquistas, muitos iriam chegar no sapatinho para ficar na aba daqueles que tanto trabalham pela liberdade e pelo direito de dar uns tapinhas de vez em quando sem que, para isto, corram o risco de tomar uns tapões dos policiais de plantão. A luta estaria ganha. Com a opinião pública a favor, seria moleza dobrar até mesmo a mídia reaça. Só faltaria a lei regulamentando a permissão do consumo e venda deste milenar produto beatífico.

A questão momentânea, porém, era mais profunda: por onde começar? Como iniciar essa Cruzada em busca da credibilidade perdida? Como convencer o cidadão médio, simpático ou não à causa, a conceder a devida atenção para o que o grupo teria a dizer com a urgência demandada, já que o momento é flagrantemente desfavorável?

É preciso colar em alguém que possa transmitir confiança, alguém que goze de livre trânsito em todas as esferas da sociedade, que frequente a alta sociedade, mas que conte também com a simpatia dos mais largados, que seja popular de Redinha a Ponta Negra, passando pelo Plano Palumbo sem o menor constrangimento. Quem seria essa pessoa? Uma amigo influente? Uma assessoria de imagem? Ou, quem sabe?, uma gatinha da society que seja ligada numa boa fumaça de lei? Que ouça Eddie, Dusouto e vá lá pelo Curva dos Ventos de vez em quando? Quem sabe? Uma Patricinha Cultural pra chamar de sua? O Maconheiro Militante, acendeu, puxou, prendeu e chegou à conclusão que uma boa idéia estava nascendo. Mas só a partir de amanhã. Porque hoje tá dando uma preguiça danada. E daqui a pouco vai dar uma fome também. Quer dizer, fome não. Larica mesmo. Sabe como é, né?

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2 Respostas to “O Maconheiro Militante 3”

  1. Danina Says:

    “Quem seria essa pessoa? Uma amigo influente? Uma assessoria de imagem? Ou, quem sabe?, uma gatinha da society que seja ligada numa boa fumaça de lei? Que ouça Eddie, Dusouto e vá lá pelo Curva dos Ventos de vez em quando? Quem sabe? Uma Patricinha Cultural pra chamar de sua?”

    Uma funkeira?

  2. Ramon Ribeiro Says:

    É um presepeiro mesmo!!
    Maconheiros militantes, Uni-vos!
    Mas depois da larica, claro.
    Hehehe
    LAdo R (mídia malhada, sacanagem. hehehe)

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