A PRAGA DOS ABNEGADOS por Adriano de Sousa

Adriano de Sousa escreveu uma coluna irrepreensível no @NovoJornalRN esta semana. Na ocasião, ele analisa com muita propriedade a atuação dos senhores Alex Padang, Eduardo Rocha, Roberto Bezerra e Paulinho Freire à frente do clube. Uma relação parasitária que certamente foi muito proveitosa para todos eles, mas extremamente predatória para o clube. Sem mais, leiam o preciso e precioso texto de Adriano.

Adriano de Sousa ladeado por Mário Ivo e Giovanni Sérgio.

A PRAGA DOS ABNEGADOS

 Por Adriano de Sousa

A crise crônica do América não se resolve com a renúncia de Clóvis Emídio e com o retorno dos “abnegados” auto-escalados como salvadores da pátria. Ela passa ao estado de suspensão, mais conveniente ao grupo, que depende dela para manter o clube dependente dele. É a regra de ouro para perpetuar o poder, num ciclo perverso que impede o América de se estruturar profissionalmente e de estabelecer fontes regulares de receita para custear o futebol. Assim, estará sempre subjugado à bolsa e ao ego dos profissionais da abnegação. 

O modelo predatório baseado nos tais “abnegados” não é privilégio do América nem foi inventado agora, para resolver crises pontuais. Ele corrói indistintamente todos os clubes, resiste ao verniz retórico de modernização entoado como mantra de Ponta Negra a Pau dos Ferros e é tão anacrônico quanto o vocábulo que originou o termo, emprestado da religião. Etimologicamente, “abnegação” é a renúncia da própria vontade e o desapego de tudo o que não diz respeito a Deus. Em linguagem mundana, seu equivalente mais vulgar seria “altruísmo”, ou a capacidade de sobrepor aos nossos desejos as necessidades do outro.

Ao que sabe nesta aldeia de muros baixos, não há caso de abnegado que tenha deixado de retirar o que botou no caixa do clube (América ou qualquer outro). O que varia é a forma – em dinheiro vivo, em parte dos direitos federativos de algum jovem promissor, em projeção social ou carreira política. Se fossem mesmo os abnegados que dizem ser – e que a crônica esportiva referenda acriticamente, sabe-se lá a que preço – os cardeais já teriam transferido ao América não o seu rico dinheirinho, mas algo mais sólido e eficaz para os destinos do clube: a extraordinária competência gerencial que eles demonstram nos seus negócios privados.

Imaginem aí a pujança econômica do América se esses abnegados implantassem no clube os métodos e processos que fizeram do Carnatal uma inexaurível mina de ouro, que resiste até à pior das ameaças (a troca de guarda no poder) para quem desconhece fronteiras entre o público e o privado. Ou que transformaram franquias medíocres do forró de plástico em saco de bondades onde cabem helicópteros e outros brinquedinhos de luxo. Talvez o clube já tivesse – se não uma aeronave – ao menos um ônibus para transportar o elenco nos safáris ludopédicos pelos sertões do Estadual e da Série C.

A questão poderia estar em pauta se Clóvis Emídio houvesse individualizado as críticas, que eram o melhor da sua carta de renúncia. A mágoa e o amargor escancarados no documento não bastaram para nomear as vacas sagradas que, segundo ele, boicotaram sua gestão e a do antecessor. A conveniência política ou algum insondável senso de lealdade ao clube em crise deve ter pesado na opção por sonegar essas informações e por agir como carapuceiro. É uma pena, porque assim se perde a rara oportunidade de discutir a sério na mídia, sem eufemismos e sem jabá, a praga da abnegação e seus efeitos nefastos para o nosso futebol mendicante.

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