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Coluna do Novo Jornal – 006 – No princípio, era a fita. – 02.10.2010

junho 28, 2011

Uma coluna do Novo Jornal publicada em 02 de outubro de 2010. Inspirado no filme “Rebobine, por favor.”, resolvi fazer esta nostálgica crônica.

***

No princípio, era a fita.

 

Outro dia, papeando sobre o inevitável assunto que pauta muitas conversas informais dos novos tempos desde a mais remota aldeia amazônica até a cobertura de um prédio comercial na Paulista: a tecnologia, alguns amigos e eu fizemos uma analogia dos dias de hoje com tempos imemoriáveis, desses que custamos a acreditar que nós próprios vivemos. Ao recordarmos certas circunstâncias passadas, a relativização do tempo não pareceu suficiente para diferir tais lembranças de sonhos fantásticos, distantes e tão absurdos quanto um pinguim voador ou o Tiririca ser eleito deputado.

A conversa tomou este rumo surreal, quase uma obra de Dalí, quando alguém, lá pelo meio da prosa, despretensiosamente, como sói acontecer com as melhores idéias, perguntou: “Vocês lembram o primeiro filme que viram no videocassete?”

Silêncio.

Suspense.

Apreensão.

Em questão de segundos, o filme de nossas vidas foi projetado na memória. Num rompante, lembramos das primeiras idas a uma vídeolocadora, do nomezinho “National” prateado fixado em alto relevo na pesada carcaça de metal preta. Expressões como “4 cabeças”, “rebobinar” e “cabeçote sujo”  vieram à tona como esqueletos guardados no fundo de armários comprometedores, revelando-nos que, sim, chegamos à meia idade. Ainda não estamos velhos, é verdade, mas já estamos passando pelo meio do caminho.

Podemos, por exemplo, distribuir olhares de serena sabedoria e altiva condescendência aos jovens, estupefatos que estão com tudo o que a Maitê anda aprontando em “Passione”.  Mal sabem eles que já conhecemos a ninfomania dessa senhora desde que ela era uma promissora revelação, tomando inspiradores banhos de cachoeira em “Dona Beija”, aquela novela que, por alguma razão, agradava mais aos pais que às mães. Também vimos, mesmo com olhos de crianças, a Argentina campeã do mundo, o governo Sarney (aquele amigo do Lula), o Plano Cruzado, o Corcel sair de linha e as mudanças drásticas na formação do Balão Mágico. Naquele tempo, um amigo que morava muito longe, tinha casaem Cidade Jardimou Capim Macio, a gente ia ao Cine Nordeste ver filmes dos Trapalhões e a grande revolução era que não precisaríamos mais esperar que um filme passasse na TV. As famílias estavam adquirindo um novo aparelho que proporcionava a chance de assistirmos o filme que quiséssemos à hora que preferíssemos.

Na minha casa, vivíamos toda a excitação característica da chegada de um videocassete. Imagino que haja ocorrido algo parecido com os televisores adquiridos nos primórdios da TV no Brasil. Vizinhos e parentes próximos estavam presentes para conferirem conosco as fitas alugadas na locadora Vitória Régia, que ficavaem Petrópolis. Naépoca, além dela, havia também a Canal 1 e a Vídeo Imagem. Era nessas 3 que tínhamos cadastro. A primeira fita a desbravar a fenda receptáculo do sagrado aparelho reprodutor de imagens foi “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Começamos com o pé direito. No mesmo fim de semana, vimos ainda “Os Goonies” e “A última festa de solteiro”. Nas semanas seguintes, viriam ainda “De volta para o futuro”, “Os caçadores da arca perdida” e diversos outros. Foram tantos filmes de Spielberg em tão pouco tempo que tenho a impressão de ele ter ligado pra nossa casa lá no Alecrim pra agradecer pessoalmente.

Entre os componentes da roda de bate-papo que originou o assunto desta coluna, as primeiras experiências com fitas VHS também foram marcantes. Ou então, aquela era uma turma de prodigiosa memória, uma vez que todos lembraram dos seus longas-metragens particulares que deram início às séries de filmes vistos e revistos até hoje. Havia “Os caça-fantasmas” e sua inconfundível música tema, “Stallone Cobra” fazendo justiça com sua arma e frases de efeito (“você é a doença e eu sou a cura.”), além de outras variações do mesmo personagem (Rambo, Rocky, Falcão…).

O Governator também era assíduo de nossas salas de exibição domésticas com “clássicos” da estirpe de “Predador”, “O exterminador do futuro” e, o maior de todos, “Comando para matar” (“Você prometeu que ia me matar por último”. “Pois é. Eu menti.”). Monstro sagrado. De vez em quando chegava uma novidade: “Rapaz, você precisa ver “Curtindo a vida adoidado”. Barra todos os filmes que vi esse ano”. E pior que barrava mesmo.

E tinham os Extra-terrestres que pousavam muito por aqui naqueles tempos. Eles eram os vampiros da vez, fosse com “ET”, “Contatos imediatos do terceiro grau”, “Cocoon” ou “Guerra nas estrelas”. Ainda no clima futurista, mas com os pés firmes no planeta terra, havia produções como “Robocop” e “Blade Runner” (este baseado na obra do Philip K. Dick) que tentavam antever como seria a vida num amanhã não tão distante.

E quando queríamos ter um filme em casa para revermos sempre? Era preciso pegar dois vídeos e conectar ambos para reproduzir a fita, ou gravar direto da TV. Não tinha essa de baixar pela, como é o nome mesmo? Internet? Não, não tinha isso não. Nem DVD que só foi chegar aqui lá por volta de nem lembro mais quando. A evolução nos trouxe o DVD e agora o Blu-ray. A internet e os computadores portáteis também nos deram a oportunidade de baixar gratuitamente o filme que quisermos, forçando os grandes estúdios a se adaptarem a uma nova realidade, ditada por nós, seus consumidores.

Agora, para ver um filme, basta digitar seu nome no Google e procurar um arquivo acessível para download. Mas toda essa comodidade que vivemos hoje só é possível porque um dia descobrimos que ver um filme no conforto do lar, a qualquer hora do dia, sozinhos ou bem acompanhados era melhor do que nos submeter a sessões, multidões de desconhecidos e deslocamentos inconvenientes. Os filmes em arquivos de MPEG que guardamos hoje em nossos pen-drives são descendentes diretos daqueles impressos nas fitas marrons que nos eram tão familiares nos anos 1980.

As fitas e os pen-drives, aliás, são provas concretas da irrefreável passagem do tempo.  E querem saber? Ainda bem que o tempo passa. Porque eu não tenho saudade nenhuma daquela mão de obra toda.

E vamos pra frente.

Coluna do Novo Jornal – 005 – Simples e profundo – 28.09.2010

junho 24, 2011

Minha quinta publicacao no Novo Jornal foi a respeito de um livro que havia lindo e me encantado por ele. Era tambem uma homenagem a Pablo Capistrano, o escritor potiguar que tem tido enorme exito em levar a filosofia ao alcance das pessoas. Republico aqui esta coluna que muito me apraz.

Divirtam-se!

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SIMPLES E PROFUNDO

 

A chamada alta cultura, arte erudita e quetais sofrem nos dias de hoje uma concorrência desleal de manifestações populares de fácil assimilação. Vivemos a era das muitas imagens, pouco vocabulário e uma pressa angustiada e irracional por conhecer novidades, muitas vezes é preciso dar uma nova roupagem ao que causa resistência à maioria. Se a cultura perde para os modismos, se ela padece com a preferência pela forma em detrimento do conteúdo, que demos à cultura uma embalagem mais agradável, pois.

Foi exatamente isso que ocorreu, por exemplo, com o maracatu, o coco, a ciranda e outras manifestações nordestinas que vieram à tona com o trabalho de “Chico Sciensce & Nação Zumbi” e outras bandas de sua geração, conseguindo em pouco tempo o que muitos intelectuais e acadêmicos já tentavam havia décadas, sem êxito: chamar a atenção de um público amplo para a cultura popular, as tradições regionais e a riqueza desconhecida do nosso interior. As músicas da Nação e seus contemporâneos mostraram aos jovens de todo o Brasil que havia muita coisa boa em nossas raízes culturais. A reboque da mistura de ritmos promovida por eles, os rapazes e moças de Pernambuco e imediações, foram ao encontro dos artistas que deram origem à série, promovendo o maracatu, os caboclinhos, os bois de Nazaré da Mata e muito mais. Quando os Armoriais se deram conta, o Abril Pro-Rock já estava dançando a ciranda, independente de seus despeitados protestos.

Iniciei o texto, evocando Chico porque consigo enxergar certa semelhança entre o que ele fez nos anos 1990 e o que tem feito o potiguar Pablo Capistrano no final destes anos 00 (lembro que a década de 10 só começa em 2011). Em seu livro “Simples Filosofia” (Editora Rocco, 2009), Pablo, que é filósofo, professor e escritor, reúne 47 crônicas que contam a história da Filosofia, contextualizando historicamente e nos apresentando os grandes vultos do pensamento ocidental.

Seu maior mérito é partir de temas tidos como complexos pelo senso comum e discorrer a respeito com a mesma naturalidade que falaria sobre o último filme do Tarantino, o movimento punk inglês ou a situação cataclísmica do América no campeonato brasileiro. Dessa forma, como já explicita o título, ele simplifica a filosofia, mas sem torná-la superficial. O próprio Pablo já afirmou em entrevistas na época do lançamento que é possível ser simples sem ser raso e que nem sempre o que é complexo é profundo.  

Na primeira crônica do livro, “Desconhecida Íntima”, ele fala o porquê, quando e onde resolveu escrever “na superfície da linguagem, sobre um tema profundo”. Em seguida, enfileira uma sequência de personagens de quem já ouvimos falar, mas nem sempre (ou quase nunca) sabemos direito o que fez ou representou. Em “Mamãe Literatura”, nos apresenta a Friedrich Nietzsche, o homem que trouxe subjetividade ao pensamento filosófico, levando-o para mais próximo da literatura que de uma ciência exata.

E a “dialética”? Quantas vezes não escutamos alguém falar da danada da dialética. Após nos explicar como o termo surgiu a partir dos fragmentos que restaram da obra de Heráclito, ele nos conta que a dialética nos ensina que nada permanece o mesmo todo o tempo. Que as coisas mudam, tudo é transitório e tudo carrega em si o seu contrário.”

De acordo com o tema, são citados exemplos elucidativos, capazes de nos levar a aprender por associação. Isso revela uma faceta muito evidente da persona do autor: o professor. Em nenhum momento quando escrevia o livro ele saiu da sala de aula, nos adotando como seus alunos, na esperança de que, após aquela experiência lítero-filosófica, aprendamos um pouco que seja. Sua reputação de professor depende disso, depende de nós, seus leitores, seus alunos.

Um dos textos mais divertidos para mim é o “Filosófos e juízes”. Aliás, é bom que se diga, uma das características mais marcantes do livro é o humor, que lhe confere a leveza necessária na difícil missão de fazer deste assunto, ora complexo, algo agradável. Nesta crônica, aprendemos que filósofo significa “amante da sabedoria”. Mas quem seria o marido?, pergunta o jovem Capistrano. Segundo ele, são os juristas, que casam com o saber de “papel passado” e tem “direito a separação parcial de bens e solidariedade em caso de divórcio.”

Outro ótimo exemplo é “O rei filósofo” em que nos é mostrado que nem sempre o mais preparado intelectualmente é o melhor governante, provocando muitas vezes em nós, decepções com a política. Como o exemplo que Pablo nos relata de como Platão se decepcionou com o príncipe de Siracusa, seu pupilo, porque o garoto começou a matar as aulas de metafísica para assistir às corridas de cavalos, tomar vinho e curtir belas mulheres, numa versão clássica do trinômio agroboy: cachaça, vaquejada e mulher.” Mais ilustrativo, impossível.

Além do tom professoral (no melhor dos sentidos), também é palpável em “Simples Filosofia” que a veia literária do autor o faz conceber premissas e questionamentos diversos que servem como fio condutor de suas crônicas. Em certo momento, ele questiona: “O que é uma vaca?” E a partir daí concluir que “A verdade não está no que a gente vê, mas sim naquilo que a nossa mente pode compreender.” Mais à frente, ele quer saber “O homem é bom?” E utiliza a pergunta para falar do pensamento aristotélico e a teoria de que a nossa humanidade reside em “saber a medida certa das coisas”.

O rosário é extenso. Cada texto de SF discorre sobre assuntos cotidianos, utilizando a filosofia como pano de fundo. Virada a página derradeira, fiquei feliz por ter concluído a leitura de um ótimo livro, mas tive vontade de começar de novo do início. “Simples Filosofia” nos ensina bastante sobre um assunto interessantíssimo. Não é só filosofia. É literatura. E das boas. Serve para alguma coisa? Bem, isso é o que menos importa. Pois, como diz o próprio Pablo: “Filosofia é como sexo oral. Não serve pra nada, mas é legal pra caramba.”

A blogueira tuiteira picareta

junho 22, 2011

Alguns textos que escrevi de 2001 pra ca ganharam vida e vontade proprias gracas a esta rede ilimitada de conexoes plurais que e a internet. Esta semana, mais uma dessas despretensiosas producoes ganhou vida propria e circulou por ai, em blogues, e-mails, atalhos em redes sociais e muitas outras variacoes. Por isso, resolvi atender a inumeros pedidos que chegaram via Twitter e publicar em meu proprio blogue o texto “A blogueira tuiteira picareta”. Divirtam-se, senhoras e senhores. Boa leitura e voltem sempre!

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A blogueira tuiteira picareta

Poucas personagens são capazes de definir melhor a sociedade natalense atual do que a blogueira tuiteira picareta. Surgida nas hostes do jornalismo local, tal figura traz consigo algumas de nossas principais características como a burrice explícita cultivada com a preservação de valores frívolos e pequenas futilidades cotidianas, além do oportunismo e ganância desmedida que o culto desenfreado ao dinheiro provoca em mentes pueris.

Sua rotina é árdua e exige muita criatividade e imaginação para criar situações ficcionais e publicá-las como se fossem fatos recém ocorridos. Sua trajetória ascendente rumo ao sucesso foi meteórica. Teve a sagacidade de criar uma página virtual com notícias sobre políticos, empresários e administrações municipal e estadual. Escolheu fazê-lo em espaço próprio para atuar mais comodamente. É a versão 2.0 dos cronistas sociais que utilizam suas colunas como armazém de secos e molhados em que cada nota tem seu preço. Livre das amarras de um chefe mandão, a intervenção de editores rigorosos ou a censura de veículos comprometidos com grupos políticos ou econômicos pode escrever o que bem entender.

Logo seu espaço ganhou notoriedade e numerosos acessos graças a uma elite formadora de opinião que sofre de extrema falta de referências culturais e, por conseguinte, considera suas postagens muy bem redigidas, apesar do paupérrimo vocabulário, estilo sofrível e erros de concordância tão básicos que orgulhariam os neogramáticos do MEC.

Para chegar ao coração da classe mediana e dos mais abastados conterrâneos, a pseudojornalista pôs em prática uma simples e infalível fórmula de sucesso. Pautou seu conteúdo na falta de informação, num inconsequente culto à ignorância, além de exibir diversas fotos de pessoas célebres, sempre anunciadas como furos ou flagrantes exclusivos. Tal estratégia tem se revelado muito boa, uma vez que, ao nivelar por baixo sua “linha editorial” (não por vontade própria, que se diga, mas por absoluta carência de recursos intelectuais), fala a um amplo público local que sente dificuldades em ler textos minimamente bem escritos e qualquer redação com vocabulário maior que 100 palavras. As fofocas disfarçadas de notícias em postagens repletas de fotos também atendem à voracidade dos potiguares em saber tudo quanto possível da vida alheia.

A blogueira não teve dificuldades em vender banners virtuais para políticos ciosos da influência exercida por ela junto aos leitores eleitores. Logo sua página se encheu de reclames alusivos a administrações públicas que, a uma módica quantia de alguns milhares de reais todo mês, divulga logomarca e slogan como se estampasse ali seu selo de qualidade, o certificado de veículo chapa branca, recomendando a leitura para simpatizantes da prefeitura ou governo, dependendo para qual lado ela esteja trabalhando no momento.

Nas últimas semanas, a esperta senhora bateu todos os recordes de, digamos, popularidade. Ao desafiar a inteligência dos internautas de forma desmedida e suprimir qualquer resquício de bom senso de suas recentes atualizações, atraiu para si a ira de jovens que foram caluniados. Inventou histórias tão fantasiosas que quase entra numa antologia de contos fantásticos. Até aí, tudo bem. O problema foi tentar convencer as pessoas de que suas “notícias” eram factuais.

A blogueira percebeu que os protestos de rua contra a prefeita precisavam ser combatidos, desqualificados, esvaziados. Daí, começou a dizer que haveria um confronto das torcidas de América e ABC no mesmo local e hora da concentração do protesto. Como não surtiu nenhum efeito, a não ser conseguir unir as duas torcidas em sua indignação, criou um perfil falso no microblog Twitter e o utilizou como fonte jornalística, repercutindo frases supostamente ditas por este espectro internético. Como o torpe expediente carecia de uma melhor elaboração, foi facilmente descoberto por outros usuários da rede social e logo passou a tentar novas acusações direcionadas ao movimento de rua, mas a esta altura o que restava de sua credibilidade já se havia esvaído. Talvez, para sempre.

Além de proteger seus mecenas políticos, a blogueira tuiteira picareta põe em prática outras artimanhas em busca de sobrevivência. Uma delas é ir a um bom restaurante da cidade e, ao menor deslize no atendimento, começar a criticar o estabelecimento pelo Twitter, Facebook, no blog, onde for. O dono ou gerente fica sabendo do que ela vem postando na net e oferece a refeição como cortesia, além de um pedido público de desculpas. Dessa maneira, ela alimenta o corpo, o ego e não desembolsa um tostão dos anúncios que estampa em sua página.

Além deste golpe dos restaurantes que, segundo apurei, ela também tem aplicado em boutiques da Afonso Pena, é bom os empresários evitarem anunciar no seu blogue. Um amigo meu, dono de uma ótima empresa, líder em sua área na cidade, me mostrou os dados de quão inócuo, sem efeito ou repercussão foi anunciar na página da comunicadora sênior. Nada de telefonemas, novos clientes ou aumento de acessos no seu site. Ou seja, o alto número de acessos disfarça uma situação de pouco retorno para eventuais anunciantes. Sem falar, claro, que as empresas estarão associando suas marcas a alguém desprovida de qualquer coisa que se pareça vagamente com credibilidade.

A forma como tal personagem natalense tem se destacado e se mantido imune acaba por gerar filhotes e imitadores. Uma delas é uma espécie de cópia em miniatura que foi jocosamente intitulada de “rainha”. Tal miniatura da picareta que deu origem à série, lembra bastante a original. Desde a flagrante toupeirice até a sobrevalorização de sua influência, passando pelo estilo da redação cheio de erros, em quase tudo ambas se assemelham. Assim como a blogueira, mantém uma atuação parasitária junto a políticos e acredita ser alguém realmente importante em nossa província. A bichinha.

Hoje, enquanto escrevo esta coluna para vocês, tomei uma decisão importante. Vou ajudar a senhora blogueira. Passarei a ser seu leitor e seguidor. Corrigirei a gramática, chamarei a atenção para os erros graves, darei sugestões de que terceirize o conteúdo com alguém que saiba escrever. Ou que pelo menos não seja uma analfabeta funcional como ela. Inclusive, recomendo a vocês que também façam o mesmo. Afinal, somos nós os verdadeiros donos daquele sítio, pois se quem paga por ele é a prefeitura com o dinheiro de nossos tributos, nada mais justo que queiramos receber um melhor serviço.

E você? Sabia que cada vez que você paga o IPTU ou que uma empresa paga o ISS, parte do dinheiro é investido em um superbanner no site da blogueira tuiteira picareta?

Agora você sabe. Mas aprova?

Coluna do Novo Jornal – 004 – Às margens do rio Mondego – 21.09.2010

junho 20, 2011

Uma postagem remota e requentada. Esta foi a quarta coluna publicada no Novo Jornal, em 21 de setembro de 2010. Falava de um restaurante que ainda me faz salivar sempre que me recordo dele. Divido o texto com os frequentadores deste blogue.

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Às margens do rio Mondego

O nome do Restaurante citado no fim desta cronica e que fica as margens do Rio Mondego, eh Restaurante Italia. Descobri depois de jah haver publicado a coluna. Se um dia forem a Coimbra, recomendo.

Talvez existam regras pra isso, talvez não, mas algumas das mais deliciosas iguarias que comi foram às margens de rios. Quem sabe, em algum lugar numa outra dimensão ou instância superior, haja uma comissão responsável por determinar que algumas localizações geográficas são propícias para a instalação de restaurantes específicos. É possível que eles apontem aleatoriamente para os mapas ou escolham com critério científico e rigor marcial onde podem ser erigidos os templos supremos dos gourmets. Particularmente, eu acredito que isso ocorra. Os indícios seguem cada vez mais fortes de que, não só tais normas existem, como as comissões responsáveis por sua aplicação prática as respeita cegamente.

Em suas reuniões periódicas, os seres superiores, que são como jurados da Vejinha ou do Guide Michelin de outro mundo, definem que os restaurantes de estrada farão uma galinha caipira deliciosa, que os bares à beira mar serão especialistas em pastel de camarão e que qualquer estabelecimento culinário às margens de algum rio produzirão pratos tão saborosos que provocarão suores frios de abstinência pela simples lembrança da refeição, em todos aqueles que tiverem o privilégio de prová-los pelo menos uma vez.

Aqui no Estado acontece isso com a ginga com tapioca da Redinha, de frente pro Potengi, o nosso Ganji, e também com os pratos do Seu Banga, em Pirangi, só pra citar dois. Mas a prova definitiva da existência de uma clara associação entre o lugar em que o restaurante está e a qualidade de sua cozinha eu tive do outro lado do Atlântico.

Tenho um amigo em Portugal. Não, ele não é um brasileiro que vive lá. É português mesmo. Um caba muito gente boa, chamado Fabrício, e que sempre me ciceroneia quando vou à terra de Pessoa, Saramago e Coentrão. Da última vez que estive por lá, com minha noiva, ele e sua esposa, Catarina nos indicaram um restaurante no Chiado, em Lisboa, chamado Bota Alta. Lá, comemos um bacalhau tão bom que até hoje costumo entrar em devaneios saudosos e emocionados a ponto de me fazerem chorar e salivar em igual medida.

Mas o meu amigo foi capaz de se superar dois dias depois. Viajamos pra Coimbra, sua cidade natal, e ele nos indicou um restaurante italiano às margens do Rio Mondego, que corta a cidade. Pequeno, mas aprazível, arquitetura em madeira com grandes paredes de vidro para podermos ver o rio correndo do lado de fora. Chegamos cedo para os padrões europeus (no inverno, meio dia pra eles é como se fosse 8h da manhã) e já tinha fila. Bom sinal.

Após uma moderada espera, durante a qual, impiedosos garçons na cessaram de passar por nós carregando pratos com cheiros que nos faziam supor o sabor irresistível, de tão promissores que se revelavam, chegou nossa vez de entrar. Cumprimos o tradicional ritual de sentarmos, folhearmos o cardápio, fazermos o pedido e não ir com muita ênfase nos pães que eles trouxeram para aperitivo. Era preciso aguardar e reservar espaço para os espaguetes. Que, aliás, não demoraram. E quando demos a primeira garfada soubemos que todos os restaurantes que havíamos freqüentado até ali foram uma mera preparação para aquele momento sublime. Todos as refeições feitas fora de casa se tornaram prólogo para a história que vivíamos. Tudo mais virou preâmbulo, prefácio, considerações iniciais. De repente havíamos saído da caverna onde vislumbrávamos as sombras nas paredes e gostamos muito do que vimos, ou melhor dizendo, comemos.

Posso dizer, sem exagero nenhum, que o espaguete à beira do Rio Mondego foi o auge de uma trajetória. Na categoria de restaurantes do mundo, aquele está à frente de todos, inclusive dos localizados às margens de rios. Se você for um dia a Coimbra, procure-o. Mas volte para me dizer o nome, pois esqueci deste detalhe. Eu digo volte porque eu e minha noiva, enquanto o garçom saíra para providenciar a conta, conversamos seriamente em nos oferecer para ficar ali, trabalhando ilegalmente no local, em troca de uma ou duas refeições diárias. Infelizmente, o garçom foi rápido o suficiente para que não levássemos a cabo nossa proposta, talvez temendo pelo seu emprego, ciente do risco que corria. É possível que os próprios garçons ali recebam seus pagamentos em massa. Eu não estranharia.

Só sei que, sempre que alguém me convida para conhecer um restaurante novo, procuro sua localização no mapa. Se ficar às margens de um rio, largo tudo o que estiver fazendo e me desloco pra lá voando. Aliás, aconselho que faça o mesmo. Você não vai se arrepender.

Fora Mikarlopoulus!

junho 17, 2011
ATENCAO: Esta postagem esta de acordo com a reforma ortografica de 2029, que abolira completamente os acentos da lingua portuguesa. Isto posto, boa leitura.  

E os pos-socraticos gritam a plenos pulmoes: “1, 2, 3, so sei que nada sei!”

Nao sei que dia da semana e hoje, ou mesmo qual o numero correspondente no calendario. Isso e bom. Significa que as ferias estao surtindo o efeito desejado. A vida dupla de publicitario e editor me conduz por caminhos repletos de prazos apertados, rigidos cronogramas e tarefas de emergencia que surgem a todo momento, demandando imediata e pronta atencao. Quando percebo que estou, mesmo que momentaneamente, desconectado desta realidade, sinto-me deveras aliviado, certo de que terei minhas baterias recarregadas quando retornar a sisudez do cotidiano, a rotina das agendas de compromissos, nas quais, nao so os dias, mas tambem as horas saltam aos olhos como neon no escuro, como que nos dizendo que devemos atuar com agilidade e, O horror! O horror!, proatividade.

Quando  viajo, seja la por qual razao, procuro olhar o mundo com olhos de vizinho bisbilhoteiro. Quero saber tudo o que se passa. Aprender e apreender o maximo possivel para, quem sabe, converter tais conhecimentos em textos futuros, ou trechos de cronicas, ou simples citacoes uteis que edifiquem algum argumento pueril. Divirto-me tracando paralelos entre mundos distantes, universos diversos, paises remotos como, por exemplo, Mossoro, e a minha cidade, que me gerou em suas ensolaradas entranhas e cuspiu para o mundo que, ate o presente momento, tem me acolhido muito bem, sem maiores queixas que eu possa expressar-vos.

Do Augusto Severo, fiz uma conexao no aeroporto de Lisboa. Beatriz e eu passariamos algumas horas circulando pela area de embarque e isso, no meu caso, significa preencher o tempo e algumas paginas do Moleskine com reflexoes a esmo. Antes de sentar-me diante de um espresso, passei pela livraria. Havia livros de Bolanos, Silviano Santiago e outros autores do momento. Porem, num grande mural na parede, um titulo se destacava. No ranking dos mais vendidos, o primeiro lugar e bem conhecido dos brasileiros. Ninguem menos que o amigo do Ricardo Texeira, Paulo Coelho. Mais uma vez me pus a pensar como este nosso conterraneo e fenomenal. E recordista de vendas no Brasil, Portugal, Vladvostok, Aral, Omsk, Dudinka e em mais 24 territorios a sua escolha.

Foi ai que algo me chamou a atencao. Se ele vende o que vende no Brasil, se e tao lido, como e que eu nao conheco tantos leitores do Mr. Rabbit assim? Quero dizer, ate conheco pessoas que leram um ou outro livro, mas nada perto da histeria que se criou em torno de seu nome. Nao sei de ninguem que leu muitos de seus títulos ou de muitas pessoas que leram pelo menos um deles.

A conclusao possivel e que os leitores de Paulo Coelho sao como os eleitores de Micarla. Voce ate conhece alguns, mas os numeros simplesmente nao batem. Como ela ganhou no primeiro turno se quase ninguem que conheco admite ter votado na criatura? E o outro? Como ele pode ter se convertido num impressionante éxito de vendas se nao conhecemos muitas pessoas que hajam lido suas obras? Será que existe algum fetiche ai? “Vou ler, mas nao contarei a ninguem.” Ou ainda: “Vou comprar uns 20 exemplares de cada livro, depois esconder e  nao direi nada.” Algo como uma seita de compradores de livros de Paulo Coelho. Eles nao admitem em publico, digressionam quando tocamos no assunto, disfarcam se indagados a respeito, fazem-se de doidos, como se diz no interior, mas estao la, com seus livros armazenados em lugares inacessiveis aos nossos olhos. Ou pode ser vergonha mesmo. No caso do mago carioca eu nao sei, mas quanto a prefeita natalense, fica facil compreender tal sentimento. Eu mesmo, sinto muita vergonha alheia dessa gente.

Entretanto, essa nao foi a unica ligacao entre o campeao de vendas e a vitoriosa nas urnas de 2008. Acredito, piamente que Micarla, tenha utilizado a mais famosa citacao do autor para chegar ao Palacio Felipe Camarao (“Quando voce quer muito uma coisa, o universo conspira a seu favor”.). Ela conseguiu. Fato. O problema e que um livro nao escrito pelo senhor Coelho nem por nenhum autor menos celebre, chamado senso comum, diz que “se voce fizer muita merda, o universo vai ficar puto da vida!” Dai pra surgir o movimento “Fora Micarla” foi um pulo.

Em meio a devaneios, envolvendo os supracitados personagens, cheguei a Atenas, na Grecia. A cidade estava um burburinho so. Protestos da populacao contra os arrochos que se seguirao ao acordo com a Uniao Europeia em troca de ajuda financeira. Uma greve paralisou a cidade e cheguamos a apressar o passo em dado momento quando pegamos uma rua errada e sentimos os primeiros efeitos do gas lacrimogenio no organismo. Pela TV, vi aquelas milhares de pessoas reunidas, com suas faixas e cartazes e pensando em sugerir algo como “Por que voces nao acampam no parlamento?” Mas preferi nao me envolver. Fui fazer o programa de turista regular e visitar alguns pontos turisticos.

Mas mesmo ai, o distanciamento nao foi total. As escavacoes arqueologicas logo me remeteram a Natal. Afinal, todos aqueles buracos no chao pareciam mais a Prudente de Morais, Romualdo Galvao ou Alexandrino de Alencar, com suas crateras lunares a cada trecho de avenida. Os monumentos milenares tambem me fizeram recordade imediatamente de nossa suntuosa arvore de Mirassol. Aquilo sim e grandioso.

No dia seguinte, a caminho da praia, fiquei sabendo que o primeiro ministro do pais renunciou. Andei conversando com os locais para saber o que eles acham dessa situacao, das possiveis consequencias e, talvez, reproduzir pra voces em alguns dias. Afinal, ja que estou na Grecia, tenho por obrigacao e dever moral, filosofar um bocadinho.

De qualquer forma, acredito que os lideres do movimento “Fora Micarla” vao gostar de saber que aqui na Grecia o “Fora Micarlopoulus” deu certo. So espero, para o bem dos gregos, que o vice primeiro-ministro nao seja o Paulinho Freire. Na boa.  Do fundo do coracao.

Agora, voces vao me dar licenca, que estou quase concluindo o primeiro ato da peca que os meninos e meninas do Clowns pretendem encenar no segundo semestre e preciso ir ao escritorio que consegui aqui. Logo abaixo, segue uma foto dele.

Nao se preocupem, jovens. Quando eu cansar disso aqui, volto rapidinho.

Coluna do Novo Jornal – 003 – Saudades da Limbo – 14.09.2010

junho 10, 2011

Saudades da Limbo

Por esses dias fechou a livraria Nobel que ficava ali em Petrópolis, próximo ao CCAB. Na frente podemos ver uma faixa que, entre o desespero e a desolação, anuncia a disponibilidade do ponto. Foi a segunda tentativa de se ter uma livraria de rua no mesmo local. Antes, havia ali a Sparta, que também não vingou, apesar de ter virado papelaria numa espécie de súplica por longevidade que resultou apenas numa sobrevida efêmera. Tempos depois, não sei precisar quanto, funcionou na Afonso Pena, próximo ao Banco do Brasil, a Livraria Bortolai. Aqueles ali fizeram de tudo: já começaram como “livraria e papelaria”. Inclusive vendiam papel em grandes quantidades. Promoveram eventos em parceria com grupos culturais da cidade, tentaram a todo custo atrair o público natalense até lá. O resultado foi o mesmo da Sparta. Puseram uma faixa de “aluga-se” e hoje funciona um restaurante de refeições no peso. E quem foi que disse que “a gente não quer só comida”?

Quando viajo por aí e me deparo com uma livraria de rua, num ponto movimentado de uma cidade, sendo frequentada por pessoas genuinamente interessadas em leitura, me dá um aperto no coração. Lembro de Natal, da frivolidade de meus conterrâneos, de como as poucas leituras consumidas pelos natalenses tem que ser exclusivamente a literatura de fácil assimilação, de simples digestão. Nada contra essas publicações. Juro. Até gosto por uma razão específica, uma vez que são precisamente os mais vendidos que financiam as edições de muitos autores talentosos.

O que me entristece é que a procura incipiente de experiências literárias acabem aí, na fronteira entre a total e absoluta falta de leitura e o possível aprofundamento ao mundo das letras, diversificando os títulos, explorando novos gêneros, descobrindo um universo desconhecido e se tornando, por tabela, pessoas mais interessantes, profissionais mais cultos, personalidades mais complexas, indivíduos mais versáteis, dotados de conteúdo qualificado, além de melhor preparados para a vida.

Na terra onde impera a mesmice e a tão fútil rotina dos prazeres efêmeros não há espaço para boas livrarias de rua e alguns heróis da resistência, teimosos e brigadores, como Abimael Silva, permanecem de pé atendendo os leitores da cidade do sol, todos os 5. Mas, por que, pergunto eu, não haveria espaço para bons comércios de livros em Tirol e Petrópolis, por exemplo? Por que não uma livraria simplezinha, mas arrumada na Afonso Pena, a nossa “Oscar Freire”? Será que não poderia haver uma singela venda de volumes de contos, bons romances, biografias de qualidade naquela rua? As mulheres e homens que comprassem algumas boas roupas de marca, como calças de R$ 3.000, poderiam passar na loja e adquirir também um exemplar bem legal de um escritor bacana por uns R$ 30.   

O curioso é que até pouco tempo havia um lugar que funcionava como um recanto de esperança precisamente naquela avenida. A Limbo Livros Selecionados era uma flor no asfalto do centro de compras de luxo ao ar livre que é a Afonso Pena. Entre os restaurantes requintados, as clínicas e hospitais de elite e as butiques da moda, estava lá a pequena lojinha, anunciando orgulhosamente em sua fachada o critério absoluto com que escolhiam os títulos que ocupavam suas prateleiras. Um pequeno, mas valoroso e disputadíssimo espaço cuidadosamente preenchido com ótima qualidade literária.

Na Limbo era possível encontrar um ambiente saudável e bons amigos que buscavam o mesmo que você: estar cercados por uma seleção de livros que fugia do óbvio, com autores contemporâneos brasileiros e estrangeiros,  além de clássicos universais em versões caprichadas, alguns bem baratos até em suas edições de bolso.

Na Limbo se podia tomar um café logo depois do almoço, no intervalo do trabalho. Ou uma Heineken no sábado à tarde quando muitos clientes, também selecionados, acorriam  para lá, aproveitando preguiçosamente o sereno entardecer de Petrópolis, um bairro tranquilíssimo nos fins de semana. E não era só um ponto de encontro de velhos amigos, mas também um excelente lugar para fazer novos. Foi lá que conheci Chico Guedes, o culto tradutor de húngaro, que encontrei na semana em que, coincidentemente, havia falecido Ferenk Puskas.

Também era possível eventualmente se deparar com gente digna de nota como os escritores Xico Sá, João Paulo Cuenca, Daniel Galera e Moacy Cirne, o músico Jorge Mautner, o sociólogo Hermano Vianna (que escreveu uma bela crônica sobre Natal citando a livraria) ou o multi-mídia Rômulo Tavares.

Mas o melhor da Limbo era o que ela representava na vida da cidade. Era a derradeira livraria de rua, uma jóia encravada no coração da cidade, cercada por comércios de lu(i)xo que são o ouro de tolo de uma sociedade que vive de cultuar seu exterior sem se preocupar em absoluto em preencher a cabeça com doses mínimas que sejam de conhecimento. Sei que alguns podem argumentar que a banca de Tota (a banca Cidade do Sol), que também fica na Afonso Pena vendem bons livros, mas acredito que não é mesma coisa. Apesar de muito agradáveis, bancas de jornal não são livrarias. E a Limbo era mais que uma livraria, era um verdadeiro pente fino, onde se encontrava livros preciosos e clientes interessantes, enchendo nossa cidade de esperança. Com o fechamento da empresa, no fim de 2007, morreu um pouco da fé que tenho numa Natal melhor.

*** 

Guia de Navegação – Dicas de sítios para você não se perder na internet.

RevistaCatorze – www.revistacatorze.com.br

Essa semana houve um debate entre os 3 principais candidatos ao Governo do Estado, com o tema políticas culturais, realizado na Casa da Ribeira. Iniciativa louvável, ainda mais que os organizadores foram os garotos da Revista Catorza, uma revista virtual que põe em prática jornalismo cultural de qualidade com imaginação e criatividade. Os garotos e garotas vão produzindo entrevistas, matérias, resenhas, coberturas de eventos e as ótimas reportagens em quadrinhos que muito lembram os livros do Joe Sacco. Vale a pena passar por lá sempre!

Mônica e Eduardo – Do tempo dos fanzines

junho 9, 2011

Talvez muitos aqui não tenham vivido esta época, mas no fim dos anos 90, quando eu era estudante de comunicação, havia os fanzines, publicações em papel que evoluíram para plataformas mais dinâmicas como sites e blogues. Entre 1997 e 1999, alguns amigos editavam a AZ Revista, publicação da qual participei com muito orgulho ao lado de Caio Vitoriano, Paulo Celestino, George Rodrigo e Cristiano Medeiros. Hoje, tirando o Lado Erre, não há mais fanzines por aí, mas naquela época os fanzineiros se correspondiam e enviavam suas publicações uns para os outros pelo correio. Uma vez recebi de alguém um zine chamado “Os reis da gambiarra”, divertidíssimo que trazia um texto chamado “Mônica e Eduardo” supostamente escrito por um tal Adolar Gangorra, um senhor de 71 anos de idade. Era uma crítica analítica à música “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana.

Essa semana, com o (muito bom) vídeo da VIVO em homenagem à canção da Legião, procurei aqui em meus arquivos o texto do zine e aproveito para publicar aqui pra vocês.

Antes, vejam o vídeo da VIVO:

E agora, divirtam-se com o texto resgatado do fundo falso do baú.

***

Mônica e Eduardo
Por Adolar Gangorra
18/05/01

Esse texto é uma análise comportamental crítica sobre Eduardo e Mônica (aquela música que todo mundo tem obrigação de tocar em churrascos, ao lado de Wish You Were Here, Stairway to Heaven, etc ….) A música Eduardo e Monica da banda Legião Urbana esconderia uma implicância com o sexo masculino? É o que garante Adolar Gangorra. Leia e confira.


O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista.  Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava.  E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso.

Como no caso da música Eduardo e Monica, do álbum Dois da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente enquanto a feminina (Monica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.

Analisemos o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (“Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram”) ao mesmo tempo que tentar dar uma imagem forte e charmosa à Monica (“enquanto Monica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram”). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã, como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (“Festa estranha, com gente esquisita…”). Bom, “Festa Estranha” significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poder fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. “Gente esquisita” é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta era a tal “festa legal” em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos (“- Eu não estou legal. Não agüento mais birita”). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Monica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground. Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (“E a Monica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar”). Vamos por partes: em “E a Monica riu” nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Monica para com Eduardo. Ela, bêbada inveterada, ri de um bêbado inexperiente!

Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se “quis saber um pouco mais” leia-se “quis dar para”!  É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Monica. A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo “boyzinho que tentava impressionar”!  É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como “boyzinho”… Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Monica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (“Se encontraram então no parque da cidade A Monica de moto e o Eduardo de camelo”). A não ser que o Eduardo fosse um beduíno, e estivesse realmente de camelo, mas ainda nesse caso não seria um “boyzinho”. Se alguém aí age como boy, esta seria Monica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (“Ela era de Leão e ele tinha dezesseis”) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Monica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu? Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Monica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (“O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Monica queria ver um filme do Godard”). Atitude esta nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Monica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto, em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com muitas cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo “menina” para se referir suavemente à Monica (“O Eduardo achou estranho e melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo”). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. À pouco vimos Monica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Note que Russo informa a idade de Eduardo, mas propositadamente omite a de Monica. Além disto, se Monica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga escrota mesmo.

O autor insiste em retratar Monica como uma gênia sem par. (“Ela fazia Medicina e falava alemão”) e Eduardo como um idiota retardado (“E ele ainda nas aulinhas de inglês”). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar “iéis”, “nou” e “mai neime is Eduardo”! Incomoda como são usadas as palavras “ainda” e “aulinhas”, para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um jumento mesmo…

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (“Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud”). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.As, muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão “do Bandeira”. Francamente, “Bandeira” é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí, cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar “Êta” com “Tiêta” e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (“E o Eduardo gostava de novela”) e crianção (“E jogava futebol de botão com seu avô”). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões!  É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos (“Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação”). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada … Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Monica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (“E o Eduardo ainda estava no esquema “escola – cinema – clube – televisão”). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse “bar da esquina – terreiro de macumba – sauna gay – delegacia”?? E qual é o problema de se ir a escola, caramba?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Monica (“Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar”). Por ordem: 1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo. 3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (“A Monica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar”). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Monica trabalha na previsão do tempo? Não. Monica é geóloga? Não. Monica é professora de química? Não. Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba? Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência …

Ainda em “Ele aprendeu a beber”, não precisa ser muito esperto pra sacar com quem… é claro, com Monica, a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Monica! Grande contribuição!

Depois, temos “deixou o cabelo crescer”. Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Monica na cabeça do iludido Eduardo. Sempre à frente em tudo, Monica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (“E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular”). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Monica deverá estar ganhando o seu prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor está em (“porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação”). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Monica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. Bem típico de algum recalque homossexual do autor, talvez magoado com a natureza masculina. É sabido que em todas culturas e povos existentes, o homem sempre oprimiu amulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra.

Por quê? Ora, porque tanto homens, mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até… Renato!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos The Fevers.

Pérolas de Siney Cláudio – Compilação

junho 7, 2011

Ano passado, publiquei aqui algumas tirinhas do publicitário Siney Cláudio, chamadas “Pérolas”. Gosto muito do trabalho dele e essas tiras, em especial, me encntaram pelo humor, sagacidade e ironia. Resolvi republicá-las todas aqui hoje em uma única postagem.

IMPORTANTE: QUEM QUISER VER AS TIRINHAS EM TAMANHO MAIOR, BASTA CLICAR NELAS. 🙂

Divirtam-se!

Siney Cláudio - O pai de todas essas pérolas.

Coluna do Novo Jornal – 002 – O Potigüês – 07.09.2010

junho 6, 2011

No dia 07 de setembro de 2010, publiquei a segunda coluna no Novo Jornal. Reminiscências sobre a crônica “Galado” e palavras exclusivas de um lugar deram a tônica do texto. Boa leitura.

O Potigüês.

Quem me lê aqui todo desenvolto e serelepe ocupando impunemente meia página de um jornal diário, pode se perguntar como me interessei em escrever crônicas, como iniciei nessa literatura fácil servida em pequenas doses periódicas. Outra possibilidade (bem mais provável) é que ninguém nunca tenha se perguntado sobre isso e que é muita pretensão de minha parte acreditar que alguém que esteja segurando o jornal nesse momento faça alguma remota especulação sobre minha vida pregressa ou queira inteirar-se dos detalhes de minha formação literária. Ah, mas não tem nada. Vou contar assim mesmo.

Tudo começou com um palavrão. O motivo de eu ter tomado gosto pela crônica, passado a escrever periodicamente até que recebo o convite para ocupar esse espaço que você está vendo, foi um texto intitulado “Galado” que escrevi há quase uma década.

Isso foi lá pelos idos de 2001, ano em que não morei em Natal e que, justamente pela distância e saudade, fui levado a refletir sobre certos aspectos que nos definem como natalenses. Porque, como dizem sabiamente alguns, muitas vezes é preciso estar longe para vermos de perto. O afastamento geográfico funciona como lente de aumento apontada para nossas mais proeminentes qualidades e maiores defeitos. Em meio a minha reflexão, resolvi escrever um texto que soasse como uma sincera homenagem a Natal. Uma crônica que abordasse o “ser natalense”, mas sem soar piegas. Algo que fosse facilmente identificável, mas sem poesia, sem romantismo, porque poesia mesmo é “Linda Baby” do Pedrinho Mendes e nem por hipótese eu cometeria a insensatez de tentar fazer algo no estilo.

Resolvi então utilizar a prosa, mais propriamente a crônica e, sendo mais específico: a crônica de humor. Falaria de uma palavra que é utilizada exaustivamente pelos jovens potiguares que vivem na capital do Estado. Uma palavra que ainda era tida por muitos, naquele tempo romântico e inocente “pré-11 de setembro”, como um palavrão. Uma palavra que duas colegas do curso de jornalismo da UFRN (Milena Freire e Isabela Salim) haviam identificado como a palavra natalense por definição. Pronto, estava decidido. Para aplacar um pouco da saudade de Natal e prestar uma bonita(?!) homenagem, escreveria uma crônica-exaltação ao vocábulo “Galado”.

Escrevi e enviei por e-mail para alguns poucos destinatários que constavam em meu catálogo de endereços virtuais. A partir daí o texto deixou de ser meu. Criou vida própria e viajou freneticamente na velocidade que a internet confere a certos conteúdos. Muito antes de falarem em “virais”, eu, sem querer, criei um. Os meus contatos repassaram para outras pessoas, que repassaram para outras, que repassaram para outras e, nesse trajeto todo, perdeu-se a autoria. Eu não queria ver algo que eu havia escrito sendo atribuído a outras pessoas. Resolvi então publicar um livro que reunisse aquele e outros textos que se parecessem com ele em humor e leveza, atraindo leitores para meus escritos, da mesma forma que aquela crônica embrionária e viral.

Desde então, tive que conviver com os louros de ter feito muita gente rir, mas também com certas conseqüências menos gratificantes. Uma delas é que costumo ser perguntado por aí “Você é o cara do Galado?” ao que respondo “Sim, sou eu mesmo”. E tem alguns, como Cassiano Arruda, proprietário deste periódico que desde que leu o texto e seu subversivo título, esqueceu deliberadamente meu nome e só me chama de…, adivinhem só.

Recordo aqui esta crônica antiga porque tenho convivido nas últimas semanas com alguns amigos que passam uma temporada de trabalho em Natal. E, como costuma acontecer com forasteiros diversos, alguns dos nossos termos tem causado estranhamento. Dia desses no trânsito, um deles me ouviu dizer que um certo motorista era “cangueiro”. Quis saber imediatamente o que era. Depois, ao estacionarmos para almoçar, percebeu que eu usei a palavra “pastorador” ao me referir ao flanelinha. A conversa evoluiu até que comecei a discorrer sobre alguns termos que são muito utilizados por aqui e que não são muito comuns em outros Estados. 

O fato é que, assim como qualquer lugar, o Rio Grande do Norte tem sua linguagem própria. Um idioma, dialeto ou apenas algumas singularidades semânticas. Uma língua, talvez, o “potigüês”. Lembrei-me então de duas publicações que tentam catalogar o nosso vocabulário, reunindo muitas das palavras peculiares ao nosso modo de falar. A primeira é o livro “Papo Jerimum” de Cleudo Freire, com rimas criadas a partir de palavras típicas nossas. A outra é o “Dicionário de Potigüês” de Kadno Donato que vai do Abestalhado à Zunhada, passando por muitas palavras esclarecedoras para os turistas desavisados.

Os forasteiros perguntaram, entre gozação e curiosidade, se eu conhecia a letra do hino do Rio Grande do Norte. Se alguma daquelas palavras constantes no dicionário Respondi que não. O hino, realmente, eu não conheço. Mas uma coisa é certa. Se não tiver a palavra “Galado” na letra, precisa urgentemente de uma nova roupagem.

E tenho dito.

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Paulo Celestino é um dos jornalistas mais atuantes que já passaram pelos corredores do setor V da UFRN. Um dos criadores do histórico fanzine “AZ Revista”, vive há muitos anos em São Paulo onde ensina comunicação numa faculdade paulista e trabalha numa empresa de assessoria de imprensa. Quando lhe sobra tempo, realiza entrevistas para o seu blogue, com atualizações mensais. Nas postagens, faz uma relação dos seus entrevistados com as suas cidades, os lugares onde vivem. Entre os já consultados por Paulo estão o carioca Marcelo Moutinho, os potiguares Emanuelle Albuquerque, Ânderson Foca e Pablo Capistrano, além de muitas outras pessoas de diferentes lugares, sempre falando de suas atividades e a relação com as cidades onde vivem.

Coluna do Novo Jornal – 001 – O Homem Misterioso – 31.08.2010

junho 3, 2011

Em 31 de agosto de 2010, iniciei minhas colaborações no Novo Jornal. Fiquei muito feliz em receber o convite de um jornal importante na cidade, algo que almejava há algum tempo. Em minha estreia, escrevi uma crônica curtinha e singela sobre um personagem da cidade que muito me intriga. Para completar o espaço, algumas notas sobre minha entrada no Novo Jornal, descontinuidade de minha coluna da Digi e a vida paralela neste blogue. Espero que gostem. E não deixem de acompanhar minha coluna todos os sábados no Novo que, aliás, não tem medo de dar opinião.

Valeu!

Carlos Fialho

O Homem Misterioso

Você já deve ter se deparado com ele por aí. Certamente, numa dessas idas e vindas cada vez mais frenéticas nesta outrora pacata Natal, você parou num sinal vermelho e ele chegou junto ao veículo, assobiou e fez o gesto característico que traduzindo para o idioma de Machado, Cascudo e Bruna Surfistinha significa “o senhor tem uma moeda aí”? Em geral, temos dois sentimentos predominantes: alívio, caso consigamos alcançar algum átimo de real que seja e entregá-lo ao pedinte; culpa, pela nossa incapacidade em atenuar minimamente a condição desfavorável daquele homem, caso não tenhamos capital disponível para o redentor ato de filantropia. E não adianta partir para subterfúgios ou quaisquer atenuantes.

Se não dispomos de dinheiro no momento, se a carteira está lá no fundo do bolso de trás e o cinto de segurança se torna um obstáculo adicional, se os 3 tempos do semáforo não são disponíveis. Nada disso pode ser considerado uma justificativa plausível para amenizar o sentimento de que você teve diante de si a oportunidade, talvez única, de ajudar um ser humano necessitado de seu auxílio, um semelhante que vive em circunstâncias muito mais difíceis que as suas, um homem que, apesar de todas as suas limitações, veio até sua janela automotiva e estendeu a mão cheio de expectativa de que você fosse alguém um pouco mais generoso do que realmente é. Ah, a culpa, esse sentimento incutido em nossas mentes pelo catolicismo, que nos lembra diariamente da nossa responsabilidade diante do outro.

O outro, no caso presente, é ele, o personagem desta crônica. Moreno, usa boné, veste sempre alguma variação de camisa do Grêmio de Futebol Porto Alegrense, desliza pelo asfalto com um skate exibindo mobilidade e desenvoltura, utiliza uma lancheira de criança para guardar o dinheiro apurado e alterna os locais de atuação. Às vezes está na Prudente, próximo à Maternidade Januário Cicco e outras vezes em Ponta Negra, ao lado da estátua de Dinarte Mariz. Apresenta uma deficiência congênita que meus parcos conhecimentos médicos não identificam a olho nu, uma condição que tornaria o simples ato de acordar de manhã em algo insuportável apara a maioria de nós.

No meu caso, sempre que cruzo com o homem, surge em mim um misto de admiração, reverência e autorrepreensão por, muitas vezes, reclamar da minha própria vida. Quando baixo o vidro e ofereço moedas, além de me desculpar por gozar de boa saúde e ter nível social confortável, também o faço por reconhecimento de seus méritos. O simples fato de aquele cara haver chegado à idade adulta, circular por aí e rodar a cidade todos os dias em busca de sobrevivência, me impelem a identificar nele uma pessoa evoluída, superior muitos seres humanos que conheço. Aliás, quase todos.

Outro dia, quando parei diante de uma dessas luzes vermelhas que adiam nossas viagens cotidianas, ele estava lá e me pus a pensar que aquela figura já faz parte de minha vida há vários anos. Nós sempre nos cruzamos, nos cumprimentamos em sinais diversos, às vezes contribuo com seu sustento, outras não e, apesar de já saber dele há tempos, nada conheço de sua vida. Concluí que esse é mais um aspecto que contribui com seu caráter admirável: o mistério. Tive vontade de perguntar-lhe sobre assuntos pessoais. Porém, não o fiz, pois já se formava uma fila de carros atrás do meu e, se eu o interpelasse ali, no meio de seu périplo, prejudicaria sua arrecadação. A luz verde surgiu e levei minhas dúvidas pra casa.

Porém, certa curiosidade ainda martela minhas ideias. Quem é ele? Como se chama? Tem família? Onde mora? É feliz? Tem amigos? Como se sente em relação aos natalenses que o encontram diariamente? E, acima de tudo, por que diabos ele torce pro Grêmio, caramba?!

Despedida

Ao estrear neste espaço, deixo minha coluna no portal Diginet. Eu gostaria de agradecer bastante a algumas pessoas com quem trabalhei lá. Primeiramente, Humberto Diógenes e Luís Caitif que me convidaram a ocupar o espaço no qual estive por 3 anos. Luana Ferreira e Atalija Lima que foram as responsáveis pela comunicação do portal durante esse tempo, aos muitos leitores que conquistei graças às crônicas engraçadinhas, apelativas, cotidianas, sensacionalistas, boas e más. Graças à coluna “Sei Lá, Mil Coisas!” habituei-me a produzir um texto semanal e pude inclusive, publicar algumas das melhores em meu último livro, o “Mano Celo”.

De tudo um pouco

Quem conhece meus textos sabe que gosto de abordar assuntos variados. Filmes, livros, sociedade, comportamento, natalidades, futebol, banhos de mar, relacionamento e muito mais. Ou seja, vou falar de coisas sobre as quais não entendo nada. Pois, como bom publicitário que sou, não entendo de porra nenhuma, mas sei fingir que entendo.

O Fiasco

Paralelo à coluna, continuarei alimentando meu blogue pessoal com variedades toscas e dicas de coisas inúteis que poderão não contribuir em nada com sua vida. O endereço é blogdofialho.wordpress.com . Passa lá, sempre que sua vida não estiver mais fazendo o menor sentido. Não garanto que vá se sentir melhor, mas pelo menos eu ganho moral com o Google Analytics.

Coluna da Digi

Os mais de 100 textos que publiquei na Diginet continuarão disponíveis no site, através do endereço www.diginet.com.br/colunas . Além disso, estou também republicando todo o material no meu blogue. Quem quiser reler os textos, pesquisar por algum, ou republicar em seus próprios espaços virtuais, fique à vontade. Gostaria apenas que me mandassem um e-mail, para que eu fique sabendo da divulgação.