Coluna do Novo Jornal – 001 – O Homem Misterioso – 31.08.2010

Em 31 de agosto de 2010, iniciei minhas colaborações no Novo Jornal. Fiquei muito feliz em receber o convite de um jornal importante na cidade, algo que almejava há algum tempo. Em minha estreia, escrevi uma crônica curtinha e singela sobre um personagem da cidade que muito me intriga. Para completar o espaço, algumas notas sobre minha entrada no Novo Jornal, descontinuidade de minha coluna da Digi e a vida paralela neste blogue. Espero que gostem. E não deixem de acompanhar minha coluna todos os sábados no Novo que, aliás, não tem medo de dar opinião.

Valeu!

Carlos Fialho

O Homem Misterioso

Você já deve ter se deparado com ele por aí. Certamente, numa dessas idas e vindas cada vez mais frenéticas nesta outrora pacata Natal, você parou num sinal vermelho e ele chegou junto ao veículo, assobiou e fez o gesto característico que traduzindo para o idioma de Machado, Cascudo e Bruna Surfistinha significa “o senhor tem uma moeda aí”? Em geral, temos dois sentimentos predominantes: alívio, caso consigamos alcançar algum átimo de real que seja e entregá-lo ao pedinte; culpa, pela nossa incapacidade em atenuar minimamente a condição desfavorável daquele homem, caso não tenhamos capital disponível para o redentor ato de filantropia. E não adianta partir para subterfúgios ou quaisquer atenuantes.

Se não dispomos de dinheiro no momento, se a carteira está lá no fundo do bolso de trás e o cinto de segurança se torna um obstáculo adicional, se os 3 tempos do semáforo não são disponíveis. Nada disso pode ser considerado uma justificativa plausível para amenizar o sentimento de que você teve diante de si a oportunidade, talvez única, de ajudar um ser humano necessitado de seu auxílio, um semelhante que vive em circunstâncias muito mais difíceis que as suas, um homem que, apesar de todas as suas limitações, veio até sua janela automotiva e estendeu a mão cheio de expectativa de que você fosse alguém um pouco mais generoso do que realmente é. Ah, a culpa, esse sentimento incutido em nossas mentes pelo catolicismo, que nos lembra diariamente da nossa responsabilidade diante do outro.

O outro, no caso presente, é ele, o personagem desta crônica. Moreno, usa boné, veste sempre alguma variação de camisa do Grêmio de Futebol Porto Alegrense, desliza pelo asfalto com um skate exibindo mobilidade e desenvoltura, utiliza uma lancheira de criança para guardar o dinheiro apurado e alterna os locais de atuação. Às vezes está na Prudente, próximo à Maternidade Januário Cicco e outras vezes em Ponta Negra, ao lado da estátua de Dinarte Mariz. Apresenta uma deficiência congênita que meus parcos conhecimentos médicos não identificam a olho nu, uma condição que tornaria o simples ato de acordar de manhã em algo insuportável apara a maioria de nós.

No meu caso, sempre que cruzo com o homem, surge em mim um misto de admiração, reverência e autorrepreensão por, muitas vezes, reclamar da minha própria vida. Quando baixo o vidro e ofereço moedas, além de me desculpar por gozar de boa saúde e ter nível social confortável, também o faço por reconhecimento de seus méritos. O simples fato de aquele cara haver chegado à idade adulta, circular por aí e rodar a cidade todos os dias em busca de sobrevivência, me impelem a identificar nele uma pessoa evoluída, superior muitos seres humanos que conheço. Aliás, quase todos.

Outro dia, quando parei diante de uma dessas luzes vermelhas que adiam nossas viagens cotidianas, ele estava lá e me pus a pensar que aquela figura já faz parte de minha vida há vários anos. Nós sempre nos cruzamos, nos cumprimentamos em sinais diversos, às vezes contribuo com seu sustento, outras não e, apesar de já saber dele há tempos, nada conheço de sua vida. Concluí que esse é mais um aspecto que contribui com seu caráter admirável: o mistério. Tive vontade de perguntar-lhe sobre assuntos pessoais. Porém, não o fiz, pois já se formava uma fila de carros atrás do meu e, se eu o interpelasse ali, no meio de seu périplo, prejudicaria sua arrecadação. A luz verde surgiu e levei minhas dúvidas pra casa.

Porém, certa curiosidade ainda martela minhas ideias. Quem é ele? Como se chama? Tem família? Onde mora? É feliz? Tem amigos? Como se sente em relação aos natalenses que o encontram diariamente? E, acima de tudo, por que diabos ele torce pro Grêmio, caramba?!

Despedida

Ao estrear neste espaço, deixo minha coluna no portal Diginet. Eu gostaria de agradecer bastante a algumas pessoas com quem trabalhei lá. Primeiramente, Humberto Diógenes e Luís Caitif que me convidaram a ocupar o espaço no qual estive por 3 anos. Luana Ferreira e Atalija Lima que foram as responsáveis pela comunicação do portal durante esse tempo, aos muitos leitores que conquistei graças às crônicas engraçadinhas, apelativas, cotidianas, sensacionalistas, boas e más. Graças à coluna “Sei Lá, Mil Coisas!” habituei-me a produzir um texto semanal e pude inclusive, publicar algumas das melhores em meu último livro, o “Mano Celo”.

De tudo um pouco

Quem conhece meus textos sabe que gosto de abordar assuntos variados. Filmes, livros, sociedade, comportamento, natalidades, futebol, banhos de mar, relacionamento e muito mais. Ou seja, vou falar de coisas sobre as quais não entendo nada. Pois, como bom publicitário que sou, não entendo de porra nenhuma, mas sei fingir que entendo.

O Fiasco

Paralelo à coluna, continuarei alimentando meu blogue pessoal com variedades toscas e dicas de coisas inúteis que poderão não contribuir em nada com sua vida. O endereço é blogdofialho.wordpress.com . Passa lá, sempre que sua vida não estiver mais fazendo o menor sentido. Não garanto que vá se sentir melhor, mas pelo menos eu ganho moral com o Google Analytics.

Coluna da Digi

Os mais de 100 textos que publiquei na Diginet continuarão disponíveis no site, através do endereço www.diginet.com.br/colunas . Além disso, estou também republicando todo o material no meu blogue. Quem quiser reler os textos, pesquisar por algum, ou republicar em seus próprios espaços virtuais, fique à vontade. Gostaria apenas que me mandassem um e-mail, para que eu fique sabendo da divulgação.

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