Coluna do Novo Jornal – 002 – O Potigüês – 07.09.2010

No dia 07 de setembro de 2010, publiquei a segunda coluna no Novo Jornal. Reminiscências sobre a crônica “Galado” e palavras exclusivas de um lugar deram a tônica do texto. Boa leitura.

O Potigüês.

Quem me lê aqui todo desenvolto e serelepe ocupando impunemente meia página de um jornal diário, pode se perguntar como me interessei em escrever crônicas, como iniciei nessa literatura fácil servida em pequenas doses periódicas. Outra possibilidade (bem mais provável) é que ninguém nunca tenha se perguntado sobre isso e que é muita pretensão de minha parte acreditar que alguém que esteja segurando o jornal nesse momento faça alguma remota especulação sobre minha vida pregressa ou queira inteirar-se dos detalhes de minha formação literária. Ah, mas não tem nada. Vou contar assim mesmo.

Tudo começou com um palavrão. O motivo de eu ter tomado gosto pela crônica, passado a escrever periodicamente até que recebo o convite para ocupar esse espaço que você está vendo, foi um texto intitulado “Galado” que escrevi há quase uma década.

Isso foi lá pelos idos de 2001, ano em que não morei em Natal e que, justamente pela distância e saudade, fui levado a refletir sobre certos aspectos que nos definem como natalenses. Porque, como dizem sabiamente alguns, muitas vezes é preciso estar longe para vermos de perto. O afastamento geográfico funciona como lente de aumento apontada para nossas mais proeminentes qualidades e maiores defeitos. Em meio a minha reflexão, resolvi escrever um texto que soasse como uma sincera homenagem a Natal. Uma crônica que abordasse o “ser natalense”, mas sem soar piegas. Algo que fosse facilmente identificável, mas sem poesia, sem romantismo, porque poesia mesmo é “Linda Baby” do Pedrinho Mendes e nem por hipótese eu cometeria a insensatez de tentar fazer algo no estilo.

Resolvi então utilizar a prosa, mais propriamente a crônica e, sendo mais específico: a crônica de humor. Falaria de uma palavra que é utilizada exaustivamente pelos jovens potiguares que vivem na capital do Estado. Uma palavra que ainda era tida por muitos, naquele tempo romântico e inocente “pré-11 de setembro”, como um palavrão. Uma palavra que duas colegas do curso de jornalismo da UFRN (Milena Freire e Isabela Salim) haviam identificado como a palavra natalense por definição. Pronto, estava decidido. Para aplacar um pouco da saudade de Natal e prestar uma bonita(?!) homenagem, escreveria uma crônica-exaltação ao vocábulo “Galado”.

Escrevi e enviei por e-mail para alguns poucos destinatários que constavam em meu catálogo de endereços virtuais. A partir daí o texto deixou de ser meu. Criou vida própria e viajou freneticamente na velocidade que a internet confere a certos conteúdos. Muito antes de falarem em “virais”, eu, sem querer, criei um. Os meus contatos repassaram para outras pessoas, que repassaram para outras, que repassaram para outras e, nesse trajeto todo, perdeu-se a autoria. Eu não queria ver algo que eu havia escrito sendo atribuído a outras pessoas. Resolvi então publicar um livro que reunisse aquele e outros textos que se parecessem com ele em humor e leveza, atraindo leitores para meus escritos, da mesma forma que aquela crônica embrionária e viral.

Desde então, tive que conviver com os louros de ter feito muita gente rir, mas também com certas conseqüências menos gratificantes. Uma delas é que costumo ser perguntado por aí “Você é o cara do Galado?” ao que respondo “Sim, sou eu mesmo”. E tem alguns, como Cassiano Arruda, proprietário deste periódico que desde que leu o texto e seu subversivo título, esqueceu deliberadamente meu nome e só me chama de…, adivinhem só.

Recordo aqui esta crônica antiga porque tenho convivido nas últimas semanas com alguns amigos que passam uma temporada de trabalho em Natal. E, como costuma acontecer com forasteiros diversos, alguns dos nossos termos tem causado estranhamento. Dia desses no trânsito, um deles me ouviu dizer que um certo motorista era “cangueiro”. Quis saber imediatamente o que era. Depois, ao estacionarmos para almoçar, percebeu que eu usei a palavra “pastorador” ao me referir ao flanelinha. A conversa evoluiu até que comecei a discorrer sobre alguns termos que são muito utilizados por aqui e que não são muito comuns em outros Estados. 

O fato é que, assim como qualquer lugar, o Rio Grande do Norte tem sua linguagem própria. Um idioma, dialeto ou apenas algumas singularidades semânticas. Uma língua, talvez, o “potigüês”. Lembrei-me então de duas publicações que tentam catalogar o nosso vocabulário, reunindo muitas das palavras peculiares ao nosso modo de falar. A primeira é o livro “Papo Jerimum” de Cleudo Freire, com rimas criadas a partir de palavras típicas nossas. A outra é o “Dicionário de Potigüês” de Kadno Donato que vai do Abestalhado à Zunhada, passando por muitas palavras esclarecedoras para os turistas desavisados.

Os forasteiros perguntaram, entre gozação e curiosidade, se eu conhecia a letra do hino do Rio Grande do Norte. Se alguma daquelas palavras constantes no dicionário Respondi que não. O hino, realmente, eu não conheço. Mas uma coisa é certa. Se não tiver a palavra “Galado” na letra, precisa urgentemente de uma nova roupagem.

E tenho dito.

 ***

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Paulo Celestino é um dos jornalistas mais atuantes que já passaram pelos corredores do setor V da UFRN. Um dos criadores do histórico fanzine “AZ Revista”, vive há muitos anos em São Paulo onde ensina comunicação numa faculdade paulista e trabalha numa empresa de assessoria de imprensa. Quando lhe sobra tempo, realiza entrevistas para o seu blogue, com atualizações mensais. Nas postagens, faz uma relação dos seus entrevistados com as suas cidades, os lugares onde vivem. Entre os já consultados por Paulo estão o carioca Marcelo Moutinho, os potiguares Emanuelle Albuquerque, Ânderson Foca e Pablo Capistrano, além de muitas outras pessoas de diferentes lugares, sempre falando de suas atividades e a relação com as cidades onde vivem.

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