Coluna do Novo Jornal – 003 – Saudades da Limbo – 14.09.2010

Saudades da Limbo

Por esses dias fechou a livraria Nobel que ficava ali em Petrópolis, próximo ao CCAB. Na frente podemos ver uma faixa que, entre o desespero e a desolação, anuncia a disponibilidade do ponto. Foi a segunda tentativa de se ter uma livraria de rua no mesmo local. Antes, havia ali a Sparta, que também não vingou, apesar de ter virado papelaria numa espécie de súplica por longevidade que resultou apenas numa sobrevida efêmera. Tempos depois, não sei precisar quanto, funcionou na Afonso Pena, próximo ao Banco do Brasil, a Livraria Bortolai. Aqueles ali fizeram de tudo: já começaram como “livraria e papelaria”. Inclusive vendiam papel em grandes quantidades. Promoveram eventos em parceria com grupos culturais da cidade, tentaram a todo custo atrair o público natalense até lá. O resultado foi o mesmo da Sparta. Puseram uma faixa de “aluga-se” e hoje funciona um restaurante de refeições no peso. E quem foi que disse que “a gente não quer só comida”?

Quando viajo por aí e me deparo com uma livraria de rua, num ponto movimentado de uma cidade, sendo frequentada por pessoas genuinamente interessadas em leitura, me dá um aperto no coração. Lembro de Natal, da frivolidade de meus conterrâneos, de como as poucas leituras consumidas pelos natalenses tem que ser exclusivamente a literatura de fácil assimilação, de simples digestão. Nada contra essas publicações. Juro. Até gosto por uma razão específica, uma vez que são precisamente os mais vendidos que financiam as edições de muitos autores talentosos.

O que me entristece é que a procura incipiente de experiências literárias acabem aí, na fronteira entre a total e absoluta falta de leitura e o possível aprofundamento ao mundo das letras, diversificando os títulos, explorando novos gêneros, descobrindo um universo desconhecido e se tornando, por tabela, pessoas mais interessantes, profissionais mais cultos, personalidades mais complexas, indivíduos mais versáteis, dotados de conteúdo qualificado, além de melhor preparados para a vida.

Na terra onde impera a mesmice e a tão fútil rotina dos prazeres efêmeros não há espaço para boas livrarias de rua e alguns heróis da resistência, teimosos e brigadores, como Abimael Silva, permanecem de pé atendendo os leitores da cidade do sol, todos os 5. Mas, por que, pergunto eu, não haveria espaço para bons comércios de livros em Tirol e Petrópolis, por exemplo? Por que não uma livraria simplezinha, mas arrumada na Afonso Pena, a nossa “Oscar Freire”? Será que não poderia haver uma singela venda de volumes de contos, bons romances, biografias de qualidade naquela rua? As mulheres e homens que comprassem algumas boas roupas de marca, como calças de R$ 3.000, poderiam passar na loja e adquirir também um exemplar bem legal de um escritor bacana por uns R$ 30.   

O curioso é que até pouco tempo havia um lugar que funcionava como um recanto de esperança precisamente naquela avenida. A Limbo Livros Selecionados era uma flor no asfalto do centro de compras de luxo ao ar livre que é a Afonso Pena. Entre os restaurantes requintados, as clínicas e hospitais de elite e as butiques da moda, estava lá a pequena lojinha, anunciando orgulhosamente em sua fachada o critério absoluto com que escolhiam os títulos que ocupavam suas prateleiras. Um pequeno, mas valoroso e disputadíssimo espaço cuidadosamente preenchido com ótima qualidade literária.

Na Limbo era possível encontrar um ambiente saudável e bons amigos que buscavam o mesmo que você: estar cercados por uma seleção de livros que fugia do óbvio, com autores contemporâneos brasileiros e estrangeiros,  além de clássicos universais em versões caprichadas, alguns bem baratos até em suas edições de bolso.

Na Limbo se podia tomar um café logo depois do almoço, no intervalo do trabalho. Ou uma Heineken no sábado à tarde quando muitos clientes, também selecionados, acorriam  para lá, aproveitando preguiçosamente o sereno entardecer de Petrópolis, um bairro tranquilíssimo nos fins de semana. E não era só um ponto de encontro de velhos amigos, mas também um excelente lugar para fazer novos. Foi lá que conheci Chico Guedes, o culto tradutor de húngaro, que encontrei na semana em que, coincidentemente, havia falecido Ferenk Puskas.

Também era possível eventualmente se deparar com gente digna de nota como os escritores Xico Sá, João Paulo Cuenca, Daniel Galera e Moacy Cirne, o músico Jorge Mautner, o sociólogo Hermano Vianna (que escreveu uma bela crônica sobre Natal citando a livraria) ou o multi-mídia Rômulo Tavares.

Mas o melhor da Limbo era o que ela representava na vida da cidade. Era a derradeira livraria de rua, uma jóia encravada no coração da cidade, cercada por comércios de lu(i)xo que são o ouro de tolo de uma sociedade que vive de cultuar seu exterior sem se preocupar em absoluto em preencher a cabeça com doses mínimas que sejam de conhecimento. Sei que alguns podem argumentar que a banca de Tota (a banca Cidade do Sol), que também fica na Afonso Pena vendem bons livros, mas acredito que não é mesma coisa. Apesar de muito agradáveis, bancas de jornal não são livrarias. E a Limbo era mais que uma livraria, era um verdadeiro pente fino, onde se encontrava livros preciosos e clientes interessantes, enchendo nossa cidade de esperança. Com o fechamento da empresa, no fim de 2007, morreu um pouco da fé que tenho numa Natal melhor.

*** 

Guia de Navegação – Dicas de sítios para você não se perder na internet.

RevistaCatorze – www.revistacatorze.com.br

Essa semana houve um debate entre os 3 principais candidatos ao Governo do Estado, com o tema políticas culturais, realizado na Casa da Ribeira. Iniciativa louvável, ainda mais que os organizadores foram os garotos da Revista Catorza, uma revista virtual que põe em prática jornalismo cultural de qualidade com imaginação e criatividade. Os garotos e garotas vão produzindo entrevistas, matérias, resenhas, coberturas de eventos e as ótimas reportagens em quadrinhos que muito lembram os livros do Joe Sacco. Vale a pena passar por lá sempre!

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: