Fora Mikarlopoulus!

ATENCAO: Esta postagem esta de acordo com a reforma ortografica de 2029, que abolira completamente os acentos da lingua portuguesa. Isto posto, boa leitura.  
E os pos-socraticos gritam a plenos pulmoes: “1, 2, 3, so sei que nada sei!”

Nao sei que dia da semana e hoje, ou mesmo qual o numero correspondente no calendario. Isso e bom. Significa que as ferias estao surtindo o efeito desejado. A vida dupla de publicitario e editor me conduz por caminhos repletos de prazos apertados, rigidos cronogramas e tarefas de emergencia que surgem a todo momento, demandando imediata e pronta atencao. Quando percebo que estou, mesmo que momentaneamente, desconectado desta realidade, sinto-me deveras aliviado, certo de que terei minhas baterias recarregadas quando retornar a sisudez do cotidiano, a rotina das agendas de compromissos, nas quais, nao so os dias, mas tambem as horas saltam aos olhos como neon no escuro, como que nos dizendo que devemos atuar com agilidade e, O horror! O horror!, proatividade.

Quando  viajo, seja la por qual razao, procuro olhar o mundo com olhos de vizinho bisbilhoteiro. Quero saber tudo o que se passa. Aprender e apreender o maximo possivel para, quem sabe, converter tais conhecimentos em textos futuros, ou trechos de cronicas, ou simples citacoes uteis que edifiquem algum argumento pueril. Divirto-me tracando paralelos entre mundos distantes, universos diversos, paises remotos como, por exemplo, Mossoro, e a minha cidade, que me gerou em suas ensolaradas entranhas e cuspiu para o mundo que, ate o presente momento, tem me acolhido muito bem, sem maiores queixas que eu possa expressar-vos.

Do Augusto Severo, fiz uma conexao no aeroporto de Lisboa. Beatriz e eu passariamos algumas horas circulando pela area de embarque e isso, no meu caso, significa preencher o tempo e algumas paginas do Moleskine com reflexoes a esmo. Antes de sentar-me diante de um espresso, passei pela livraria. Havia livros de Bolanos, Silviano Santiago e outros autores do momento. Porem, num grande mural na parede, um titulo se destacava. No ranking dos mais vendidos, o primeiro lugar e bem conhecido dos brasileiros. Ninguem menos que o amigo do Ricardo Texeira, Paulo Coelho. Mais uma vez me pus a pensar como este nosso conterraneo e fenomenal. E recordista de vendas no Brasil, Portugal, Vladvostok, Aral, Omsk, Dudinka e em mais 24 territorios a sua escolha.

Foi ai que algo me chamou a atencao. Se ele vende o que vende no Brasil, se e tao lido, como e que eu nao conheco tantos leitores do Mr. Rabbit assim? Quero dizer, ate conheco pessoas que leram um ou outro livro, mas nada perto da histeria que se criou em torno de seu nome. Nao sei de ninguem que leu muitos de seus títulos ou de muitas pessoas que leram pelo menos um deles.

A conclusao possivel e que os leitores de Paulo Coelho sao como os eleitores de Micarla. Voce ate conhece alguns, mas os numeros simplesmente nao batem. Como ela ganhou no primeiro turno se quase ninguem que conheco admite ter votado na criatura? E o outro? Como ele pode ter se convertido num impressionante éxito de vendas se nao conhecemos muitas pessoas que hajam lido suas obras? Será que existe algum fetiche ai? “Vou ler, mas nao contarei a ninguem.” Ou ainda: “Vou comprar uns 20 exemplares de cada livro, depois esconder e  nao direi nada.” Algo como uma seita de compradores de livros de Paulo Coelho. Eles nao admitem em publico, digressionam quando tocamos no assunto, disfarcam se indagados a respeito, fazem-se de doidos, como se diz no interior, mas estao la, com seus livros armazenados em lugares inacessiveis aos nossos olhos. Ou pode ser vergonha mesmo. No caso do mago carioca eu nao sei, mas quanto a prefeita natalense, fica facil compreender tal sentimento. Eu mesmo, sinto muita vergonha alheia dessa gente.

Entretanto, essa nao foi a unica ligacao entre o campeao de vendas e a vitoriosa nas urnas de 2008. Acredito, piamente que Micarla, tenha utilizado a mais famosa citacao do autor para chegar ao Palacio Felipe Camarao (“Quando voce quer muito uma coisa, o universo conspira a seu favor”.). Ela conseguiu. Fato. O problema e que um livro nao escrito pelo senhor Coelho nem por nenhum autor menos celebre, chamado senso comum, diz que “se voce fizer muita merda, o universo vai ficar puto da vida!” Dai pra surgir o movimento “Fora Micarla” foi um pulo.

Em meio a devaneios, envolvendo os supracitados personagens, cheguei a Atenas, na Grecia. A cidade estava um burburinho so. Protestos da populacao contra os arrochos que se seguirao ao acordo com a Uniao Europeia em troca de ajuda financeira. Uma greve paralisou a cidade e cheguamos a apressar o passo em dado momento quando pegamos uma rua errada e sentimos os primeiros efeitos do gas lacrimogenio no organismo. Pela TV, vi aquelas milhares de pessoas reunidas, com suas faixas e cartazes e pensando em sugerir algo como “Por que voces nao acampam no parlamento?” Mas preferi nao me envolver. Fui fazer o programa de turista regular e visitar alguns pontos turisticos.

Mas mesmo ai, o distanciamento nao foi total. As escavacoes arqueologicas logo me remeteram a Natal. Afinal, todos aqueles buracos no chao pareciam mais a Prudente de Morais, Romualdo Galvao ou Alexandrino de Alencar, com suas crateras lunares a cada trecho de avenida. Os monumentos milenares tambem me fizeram recordade imediatamente de nossa suntuosa arvore de Mirassol. Aquilo sim e grandioso.

No dia seguinte, a caminho da praia, fiquei sabendo que o primeiro ministro do pais renunciou. Andei conversando com os locais para saber o que eles acham dessa situacao, das possiveis consequencias e, talvez, reproduzir pra voces em alguns dias. Afinal, ja que estou na Grecia, tenho por obrigacao e dever moral, filosofar um bocadinho.

De qualquer forma, acredito que os lideres do movimento “Fora Micarla” vao gostar de saber que aqui na Grecia o “Fora Micarlopoulus” deu certo. So espero, para o bem dos gregos, que o vice primeiro-ministro nao seja o Paulinho Freire. Na boa.  Do fundo do coracao.

Agora, voces vao me dar licenca, que estou quase concluindo o primeiro ato da peca que os meninos e meninas do Clowns pretendem encenar no segundo semestre e preciso ir ao escritorio que consegui aqui. Logo abaixo, segue uma foto dele.

Nao se preocupem, jovens. Quando eu cansar disso aqui, volto rapidinho.

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