Coluna do Novo Jornal – 004 – Às margens do rio Mondego – 21.09.2010

Uma postagem remota e requentada. Esta foi a quarta coluna publicada no Novo Jornal, em 21 de setembro de 2010. Falava de um restaurante que ainda me faz salivar sempre que me recordo dele. Divido o texto com os frequentadores deste blogue.

*** 

Às margens do rio Mondego

O nome do Restaurante citado no fim desta cronica e que fica as margens do Rio Mondego, eh Restaurante Italia. Descobri depois de jah haver publicado a coluna. Se um dia forem a Coimbra, recomendo.

Talvez existam regras pra isso, talvez não, mas algumas das mais deliciosas iguarias que comi foram às margens de rios. Quem sabe, em algum lugar numa outra dimensão ou instância superior, haja uma comissão responsável por determinar que algumas localizações geográficas são propícias para a instalação de restaurantes específicos. É possível que eles apontem aleatoriamente para os mapas ou escolham com critério científico e rigor marcial onde podem ser erigidos os templos supremos dos gourmets. Particularmente, eu acredito que isso ocorra. Os indícios seguem cada vez mais fortes de que, não só tais normas existem, como as comissões responsáveis por sua aplicação prática as respeita cegamente.

Em suas reuniões periódicas, os seres superiores, que são como jurados da Vejinha ou do Guide Michelin de outro mundo, definem que os restaurantes de estrada farão uma galinha caipira deliciosa, que os bares à beira mar serão especialistas em pastel de camarão e que qualquer estabelecimento culinário às margens de algum rio produzirão pratos tão saborosos que provocarão suores frios de abstinência pela simples lembrança da refeição, em todos aqueles que tiverem o privilégio de prová-los pelo menos uma vez.

Aqui no Estado acontece isso com a ginga com tapioca da Redinha, de frente pro Potengi, o nosso Ganji, e também com os pratos do Seu Banga, em Pirangi, só pra citar dois. Mas a prova definitiva da existência de uma clara associação entre o lugar em que o restaurante está e a qualidade de sua cozinha eu tive do outro lado do Atlântico.

Tenho um amigo em Portugal. Não, ele não é um brasileiro que vive lá. É português mesmo. Um caba muito gente boa, chamado Fabrício, e que sempre me ciceroneia quando vou à terra de Pessoa, Saramago e Coentrão. Da última vez que estive por lá, com minha noiva, ele e sua esposa, Catarina nos indicaram um restaurante no Chiado, em Lisboa, chamado Bota Alta. Lá, comemos um bacalhau tão bom que até hoje costumo entrar em devaneios saudosos e emocionados a ponto de me fazerem chorar e salivar em igual medida.

Mas o meu amigo foi capaz de se superar dois dias depois. Viajamos pra Coimbra, sua cidade natal, e ele nos indicou um restaurante italiano às margens do Rio Mondego, que corta a cidade. Pequeno, mas aprazível, arquitetura em madeira com grandes paredes de vidro para podermos ver o rio correndo do lado de fora. Chegamos cedo para os padrões europeus (no inverno, meio dia pra eles é como se fosse 8h da manhã) e já tinha fila. Bom sinal.

Após uma moderada espera, durante a qual, impiedosos garçons na cessaram de passar por nós carregando pratos com cheiros que nos faziam supor o sabor irresistível, de tão promissores que se revelavam, chegou nossa vez de entrar. Cumprimos o tradicional ritual de sentarmos, folhearmos o cardápio, fazermos o pedido e não ir com muita ênfase nos pães que eles trouxeram para aperitivo. Era preciso aguardar e reservar espaço para os espaguetes. Que, aliás, não demoraram. E quando demos a primeira garfada soubemos que todos os restaurantes que havíamos freqüentado até ali foram uma mera preparação para aquele momento sublime. Todos as refeições feitas fora de casa se tornaram prólogo para a história que vivíamos. Tudo mais virou preâmbulo, prefácio, considerações iniciais. De repente havíamos saído da caverna onde vislumbrávamos as sombras nas paredes e gostamos muito do que vimos, ou melhor dizendo, comemos.

Posso dizer, sem exagero nenhum, que o espaguete à beira do Rio Mondego foi o auge de uma trajetória. Na categoria de restaurantes do mundo, aquele está à frente de todos, inclusive dos localizados às margens de rios. Se você for um dia a Coimbra, procure-o. Mas volte para me dizer o nome, pois esqueci deste detalhe. Eu digo volte porque eu e minha noiva, enquanto o garçom saíra para providenciar a conta, conversamos seriamente em nos oferecer para ficar ali, trabalhando ilegalmente no local, em troca de uma ou duas refeições diárias. Infelizmente, o garçom foi rápido o suficiente para que não levássemos a cabo nossa proposta, talvez temendo pelo seu emprego, ciente do risco que corria. É possível que os próprios garçons ali recebam seus pagamentos em massa. Eu não estranharia.

Só sei que, sempre que alguém me convida para conhecer um restaurante novo, procuro sua localização no mapa. Se ficar às margens de um rio, largo tudo o que estiver fazendo e me desloco pra lá voando. Aliás, aconselho que faça o mesmo. Você não vai se arrepender.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 004 – Às margens do rio Mondego – 21.09.2010”

  1. Fonsini Says:

    É um grande restaurante! 🙂

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