Coluna do Novo Jornal – 006 – No princípio, era a fita. – 02.10.2010

Uma coluna do Novo Jornal publicada em 02 de outubro de 2010. Inspirado no filme “Rebobine, por favor.”, resolvi fazer esta nostálgica crônica.

***

No princípio, era a fita.

 

Outro dia, papeando sobre o inevitável assunto que pauta muitas conversas informais dos novos tempos desde a mais remota aldeia amazônica até a cobertura de um prédio comercial na Paulista: a tecnologia, alguns amigos e eu fizemos uma analogia dos dias de hoje com tempos imemoriáveis, desses que custamos a acreditar que nós próprios vivemos. Ao recordarmos certas circunstâncias passadas, a relativização do tempo não pareceu suficiente para diferir tais lembranças de sonhos fantásticos, distantes e tão absurdos quanto um pinguim voador ou o Tiririca ser eleito deputado.

A conversa tomou este rumo surreal, quase uma obra de Dalí, quando alguém, lá pelo meio da prosa, despretensiosamente, como sói acontecer com as melhores idéias, perguntou: “Vocês lembram o primeiro filme que viram no videocassete?”

Silêncio.

Suspense.

Apreensão.

Em questão de segundos, o filme de nossas vidas foi projetado na memória. Num rompante, lembramos das primeiras idas a uma vídeolocadora, do nomezinho “National” prateado fixado em alto relevo na pesada carcaça de metal preta. Expressões como “4 cabeças”, “rebobinar” e “cabeçote sujo”  vieram à tona como esqueletos guardados no fundo de armários comprometedores, revelando-nos que, sim, chegamos à meia idade. Ainda não estamos velhos, é verdade, mas já estamos passando pelo meio do caminho.

Podemos, por exemplo, distribuir olhares de serena sabedoria e altiva condescendência aos jovens, estupefatos que estão com tudo o que a Maitê anda aprontando em “Passione”.  Mal sabem eles que já conhecemos a ninfomania dessa senhora desde que ela era uma promissora revelação, tomando inspiradores banhos de cachoeira em “Dona Beija”, aquela novela que, por alguma razão, agradava mais aos pais que às mães. Também vimos, mesmo com olhos de crianças, a Argentina campeã do mundo, o governo Sarney (aquele amigo do Lula), o Plano Cruzado, o Corcel sair de linha e as mudanças drásticas na formação do Balão Mágico. Naquele tempo, um amigo que morava muito longe, tinha casaem Cidade Jardimou Capim Macio, a gente ia ao Cine Nordeste ver filmes dos Trapalhões e a grande revolução era que não precisaríamos mais esperar que um filme passasse na TV. As famílias estavam adquirindo um novo aparelho que proporcionava a chance de assistirmos o filme que quiséssemos à hora que preferíssemos.

Na minha casa, vivíamos toda a excitação característica da chegada de um videocassete. Imagino que haja ocorrido algo parecido com os televisores adquiridos nos primórdios da TV no Brasil. Vizinhos e parentes próximos estavam presentes para conferirem conosco as fitas alugadas na locadora Vitória Régia, que ficavaem Petrópolis. Naépoca, além dela, havia também a Canal 1 e a Vídeo Imagem. Era nessas 3 que tínhamos cadastro. A primeira fita a desbravar a fenda receptáculo do sagrado aparelho reprodutor de imagens foi “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Começamos com o pé direito. No mesmo fim de semana, vimos ainda “Os Goonies” e “A última festa de solteiro”. Nas semanas seguintes, viriam ainda “De volta para o futuro”, “Os caçadores da arca perdida” e diversos outros. Foram tantos filmes de Spielberg em tão pouco tempo que tenho a impressão de ele ter ligado pra nossa casa lá no Alecrim pra agradecer pessoalmente.

Entre os componentes da roda de bate-papo que originou o assunto desta coluna, as primeiras experiências com fitas VHS também foram marcantes. Ou então, aquela era uma turma de prodigiosa memória, uma vez que todos lembraram dos seus longas-metragens particulares que deram início às séries de filmes vistos e revistos até hoje. Havia “Os caça-fantasmas” e sua inconfundível música tema, “Stallone Cobra” fazendo justiça com sua arma e frases de efeito (“você é a doença e eu sou a cura.”), além de outras variações do mesmo personagem (Rambo, Rocky, Falcão…).

O Governator também era assíduo de nossas salas de exibição domésticas com “clássicos” da estirpe de “Predador”, “O exterminador do futuro” e, o maior de todos, “Comando para matar” (“Você prometeu que ia me matar por último”. “Pois é. Eu menti.”). Monstro sagrado. De vez em quando chegava uma novidade: “Rapaz, você precisa ver “Curtindo a vida adoidado”. Barra todos os filmes que vi esse ano”. E pior que barrava mesmo.

E tinham os Extra-terrestres que pousavam muito por aqui naqueles tempos. Eles eram os vampiros da vez, fosse com “ET”, “Contatos imediatos do terceiro grau”, “Cocoon” ou “Guerra nas estrelas”. Ainda no clima futurista, mas com os pés firmes no planeta terra, havia produções como “Robocop” e “Blade Runner” (este baseado na obra do Philip K. Dick) que tentavam antever como seria a vida num amanhã não tão distante.

E quando queríamos ter um filme em casa para revermos sempre? Era preciso pegar dois vídeos e conectar ambos para reproduzir a fita, ou gravar direto da TV. Não tinha essa de baixar pela, como é o nome mesmo? Internet? Não, não tinha isso não. Nem DVD que só foi chegar aqui lá por volta de nem lembro mais quando. A evolução nos trouxe o DVD e agora o Blu-ray. A internet e os computadores portáteis também nos deram a oportunidade de baixar gratuitamente o filme que quisermos, forçando os grandes estúdios a se adaptarem a uma nova realidade, ditada por nós, seus consumidores.

Agora, para ver um filme, basta digitar seu nome no Google e procurar um arquivo acessível para download. Mas toda essa comodidade que vivemos hoje só é possível porque um dia descobrimos que ver um filme no conforto do lar, a qualquer hora do dia, sozinhos ou bem acompanhados era melhor do que nos submeter a sessões, multidões de desconhecidos e deslocamentos inconvenientes. Os filmes em arquivos de MPEG que guardamos hoje em nossos pen-drives são descendentes diretos daqueles impressos nas fitas marrons que nos eram tão familiares nos anos 1980.

As fitas e os pen-drives, aliás, são provas concretas da irrefreável passagem do tempo.  E querem saber? Ainda bem que o tempo passa. Porque eu não tenho saudade nenhuma daquela mão de obra toda.

E vamos pra frente.

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