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Coluna do Novo Jornal – 014 – Farpados Inglórios – 27.11.2010

julho 25, 2011

No dia 27 de novembro de 2010, fiz uma grave denúncia no Novo Jornal. Revelei a existência de um grupo chamado “Farpados Inglórios” que andam por aí, infernizando a vida das pobres moças de nossa cidade e mais ainda a dos homens indefesos diante da ação impiedosa do grupo.

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Farpados Inglórios

Os Farpados são terríveis. Estão sempre rodeados de mulheres.

Um grupo organizado tem causado sensação em Natal. “Os Farpados”, como se autodenominam, é composto pelos maiores pegadores da cidade. Para eles, paquerar é uma arte, um esporte, uma atividade para a qual se entregam com devoção e empenho genuínos. Formado por 4 jovens, são uma espécie de clube exclusivo. Todos estão na casa dos 20 e poucos anos e vêm causando seríssimos danos aos desavisados corações de toda uma geração de jovens e indefesas meninas. As pobrezinhas se tornam presas fáceis, sucumbindo aos encantos desses ardilosos e irresistíveis ladrões da inocência alheia.

Atuando individualmente, os rapazes já provocavam um considerável estrago nos diversos terrenos onde atuavam. Muitas das mais belas mulheres da cidade já haviam se curvado às sofisticadas técnicas de persuasão, ao talento e charme inato de um ou de outro. Porém, a grande mudança, capaz de impactar verdadeiramente a comunidade solteira natalense e de deixar os namorados e maridos de orelha em pé, desencadeando crises conjugais a uma razão sem precedentes, se deu quando os 4 resolveram agir em conjunto.

Eles perceberam que, ao se unirem, poderiam multiplicar as conquistas e aprimorar as táticas de abordagem a tal nível de excelência que esta cidade nunca mais seria a mesma. Com planejamento, organização, troca de experiências e metas bem definidas, tornar-se-iam infalíveis, mortais, verdadeiras máquinas de pegar mulher. Juntos podiam muito mais.

O líder do clã é o extrovertido Caio Vitorioso e seus fiéis companheiros são Betinho Menino Danado, Dimetrius Meus Oinho e Leandro Zé Mayer. Levam tão a sério o que fazem de melhor que criaram uma série de regras com o intuito de aprimorar seus talentos de galanteadores eficazes, além de promover o desenvolvimento da ciência que procuram dominar com esmero, deixando um importante legado às futuras gerações de Casanovas que quiserem seguir os seus passos, utilizando para isto os completos estudos realizados por eles.

Com o intuito de alcançar a excelência na aplicação de seus métodos, reúnem-se todas as quartas-feiras quando elaboram estratégias com vistas ao fim de semana seguinte, além de reportar detalhadamente todos os passos executados nas mais recentes batalhas. Nesses encontros semanais devem apresentar minuciosos relatórios por escrito, contendo informações primordiais para um correto registro das ações, como:

– Quantas e quais garotas foram conquistadas (para que se analise quantidade e QUALIDADE das ficadas. No caso da qualidade, diversos critérios como beleza, formosura, inteligência e charme são julgados ali mesmo na reunião).

– Quantos foras foram levados para que se possa alcançar os sucessos relatados no item anterior.

– Quais as estratégias exitosas e quais fracassaram nas tentativas feitas (descrever detalhes das situações para contextualizar as tentativas. O ambiente, a música, as pessoas presentes, a garota, para que se pudesse aferir um correto diagnóstico do porquê do fracasso, uma vez que algumas boas tentativas podem não funcionar devido às circunstâncias momentâneas ou geográficas).

Tais relatórios são essenciais para o aprendizado compartilhado e são reunidos em um livro chamado de “Livro de Ouro da Pegação”.  Na parte da reunião em que fazem planos para os próximos dias trazem sugestões de locais ou eventos que estarão repletos de gatinhas. Podem ser shows, barzinhos ou boates da moda. O critério deve ser a profusão de beldades e, uma vez decidido o destino, planejam também que tática de guerrilha devem empreender no campo de batalha. Podem atuar em grupo, em dupla ou partirem para abordagens individualizadas caso identifiquem alguma potencial vítima solitária pelo caminho.

“Os farpados” barbarizam as festas em Natal e a chegada do grupo a uma balada costuma ser avassaladora. Mulheres suspirando, abanando-se com as mãos, mexendo os cabelos de nervosismo e expectativa, apertando os olhos e mordendo de leve o lábio inferior. O impacto, aliás, não se dá apenas entre o público feminino. Muitos marmanjos quando percebem que “os farpados” aportam a um local apressam-se em pedir suas contas e fugir imediatamente com os indefectíveis rabinhos entre as pernas. “É covardia”, dizem. Os garotos despertam inveja na ala masculina do Plano Palumbo. São odiados por muitos e, se não fosse pela simpatia inata e reconhecido carisma, seriam rejeitados por todos. Alguns opositores do clube chegaram a batizá-los de “Farpados Inglórios”, em alusão ao filme do Tarantino.

Ultimamente os garotos têm sido assediados por casas de espetáculos e produtores de festas para comparecerem a seus eventos. Eles praticamente não pagam ingressos nem bebidas nos lugares, pois a simples informação de que eles vão estar num local, atrai uma legião de mulheres gatas e mais uma multidão de homens a reboque, todos esperançosos de que sobrem algumas pequenas carentes para abordarem. São como rêmoras, aguardando os restos deixados por grandes tubarões brancos. Muitas vezes dá certo. Ou seja, o trabalho dos “farpados” beneficia toda a sociedade.

Com a proximidade do Carnatal, os grandes blocos chamaram os 4 para conversar. Terão que pular cada um numa agremiação diferente para evitar o desequilíbrio na procura por abadás e provocar a concorrência desleal. Soube que aceitaram brincar no interior de cordões de isolamento distintos, desde que ganhem os abadás, tenham acesso VIP a todos os camarotes da moda e trios elétricos, bebida de graça e táxi pago pela empresa organizadora do evento. Esta, por sua vez, aceitou a oferta sem contraproposta.

Mas o mais incrível vem agora: reza o boato que foi depois de ver os “farpados” agindo em seu camarote que um ilustre Deputado Federal, famoso por suas conquistas amorosas, decidiu abandonar a vida boêmia e arrumar uma namorada séria. Sentiu que sua cidade, que ele cultivava como um feudo, já não lhe pertencia. Havia oponentes tão intimidadores que era melhor aposentar-se, deixando para trás um longo currículo de conquistas para a posteridade.

Se você vir 4 jovens que correspondam à descrição feita nesta coluna, cuidado. Parecem inofensivos, mas são perigosos. E atacam em bando.

Coluna do Novo Jornal – 013 – Natal e suas migalhas – 20.11.2010

julho 22, 2011

Crônica publicada no Novo Jornal em 20 de novembro de 2010.

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Natal e suas migalhas

Natal é uma caverna. Essa frase pode ter vários sentidos. Poderia referir-se ao comportamento pré-histórico de parte de nossa sociedade que flana por aí, balbuciando clichês ou se repetindo em seu rebuscado vocabulário de 100 palavras. Também seria justo que tratasse do eco produzido em nossas paredes, dando ressonância a mediocridades forasteiras, selecionadas segundo cuidadosos critérios à base do “quanto-pior-melhor”. No entanto, a alegoria representada pela caverna da frase inicial remete a Platão e seu diálogo mais difundido.

O natalense se contenta com pouco. Somos eternamente gratos pelas sombras vislumbradas na parede de pedra à nossa frente e nos recusamos a visualizar as imagens reais, uma vez que a simples representação das mesmas já nos satisfaz plenamente. Nosso raciocínio linear, rasteiro e desprovido de maiores reflexões nos impede de enxergar além do óbvio. Costumo dizer que em nossa cidade muita gente se torna bem sucedida por absoluta falta de competição resultante da incompetência generalizada que nos cerca. São os “vitoriosos por W.O.”

Tomemos a questão da Copa de 14 como exemplo. Há pelo menos 3 anos se discute o tema e tudo o que se faz é falar das obras, do estádio nababesco que se tornará um monumento à nossa bestialidade, dos consórcios que utilizarão o dinheiro do BNDES para transformar o centro administrativo em um cenário digno de Dubai. Nada se falou de ações paralelas que envolvam educação, prática esportiva e formação de atletas em larga escala, atendendo a milhares de adolescentes e crianças das redes municipal e estadual de ensino. Por que não utilizar alguns milhões para transformar o Rio Grande do Norte num pólo de excelência na transformação social por meio do esporte? Por que não incentivar a atividade física nas escolas associada ao bom rendimento dos alunos? Se enxergássemos o esporte como fator importantíssimo na construção, não de praças suntuosas, mas de cidadãos, representando inclusive, a possibilidade de ascensão social para muitos jovens, poderíamos promover um grande projeto que traria benefícios incalculáveis ao futuro de nosso estado.

Um estádio é importante, os investimentos federais para dotar o estado de infraestrutura, transporte público e formação profissional para receber turistas também. Sem falar nas divisas que ingressarão na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal. Porém, nada disso é o principal. Como bem disse o cientista Miguel Nicolelis, tudo isso é migalha. São sombras na caverna diante da verdadeira revolução que a educação faria pela nossa cidade.

Se tivéssemos uma visão periférica um pouquinho mais abrangente, uma percepção mais aguçada e uma maior desenvoltura para articular raciocínios minimamente complexos, notaríamos a oportunidade única que se mostra logo a frente de promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local.

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

No entanto, nós ainda não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) que nunca serviu para melhorar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Com relação à Copa de 14 será a mesma coisa. Infraestrutura é essencial, segurança e transporte são necessários, mas o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão. Que comamos migalhas, pois.

Coluna do Novo Jornal – 012 – O fabuloso Anthony Burgess e sua Laranja Mecânica – 13.11.2010

julho 20, 2011

Uma crônica literária. Espero que gostem.

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O fabuloso Anthony Burgess e sua Laranja Mecânica

 

Existe um momento na vida em que você finalmente se dá conta de que está, sim senhor, envelhecendo. É quando subitamente começa a pedir para baixar o volume do som em vez de aumentar ou quando dores surgidas em práticas esportivas começam a demorar mais a ir embora. Porém, o que mais denuncia a desabalada carreira ladeira abaixo é o estranhamento que passa a nos causar certas atitudes da juventude. Porque, diferentemente de nós, que temos o privilégio da experiência adicional, os mais moços não buscam sentido em tudo o que fazem, reagindo muito mais a uma explosiva combinação de instintos, hormônios em ebulição e uma necessidade extrema de aceitação social em suas ações automáticas.

Vez em quando leio algo como “adolescentes de torcidas organizadas brigam em escolas (ou praça de alimentação de algum centro de compras) por causa de futebol” e fico me perguntando “por que esses moleques fazem isso?” Também já chego a me indignar com certas atitudes vazias de violência e vandalismo como um bom adulto deve fazer. O auge da consciência de minha nova condição veio quando, certa vez, eu disse algo como: “essa garotada está perdida.”

Na Inglaterra, no meio do século passado, um cidadão chamado Anthony Burgess passou por uma experiência de não reconhecimento dos adolescentes, seus compatriotas. Burgess olhava em volta e tudo o que via era delinquência juvenil, casos de violência gratuita e toda sorte de crimes cometidos por rapazes pra lá de inquietos. Para expressar todo esse estranhamento, foi escrito o livro “Laranja Mecânica”, romance que compõe a santíssima trindade da ficção científica juntamente com “1984” de George Orwell e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ambos também ingleses.

A história fala de uma Inglaterra do futuro em que ninguém costuma sair à noite por causa dos altos índices de violência. As ruas estavam tomadas por jovens arruaceiros que batiam em qualquer um que cruzasse seus errantes caminhos. Adultos e menores de idade coexistem num mesmo país, porém em mundos distintos. Uns trancados em casa apavorados, outros causando desordem nos becos sinistros em busca de libertação. Para temperar, um governo autoritário de ultradireita “administra” a situação.

Para enfatizar a distância entre jovens e adultos, os adolescentes se comunicam numa linguagem própria, um idioma das ruas repleto de gírias que foi inteiramente desenvolvido pelo autor exclusivamente para o livro. O protagonista e narrador de “Laranja Mecânica”, Alex, conta a história neste dialeto próprio. O autor, apaixonado por línguas e linguagem, falante de vários idiomas e estudioso de outros tantos, criou o Nadsat, falado pela moçada daquela hipotética Inglaterra.

Vejam o exemplo da seguinte frase: “Havia ali algumas malenk domis antigas que eram muito horrorshow, meus irmãos, com alguns plebeus starres vivendo nelas e pititsas velhas com gatos que eram surdas e viúvas, e que nunca haviam recebido o toque de tchelovek nenhum em todas as suas puríssimas jiznas. Um Maltchik como eu, sempre que itiava a uma vizinhança como essas e videava a situação toda com meus druguis não parava de smekar.”

É meio esquisito, certo? Até que dá para intuir os significados de algumas palavras pelo contexto, mas ainda assim ficamos na dúvida. Era essa a sensação de estranhamento que Burgess pretendia extrair dos leitores ingleses em 1962. Porém, mesmo com o inusitado da situação, o bom leitor, ao concluir a obra estará tão habituado à linguagem daqueles retardados e violentos jovens ingleses que compreenderá quase que a totalidade do que eles falam. É outro efeito de gênio produzido pelo escritor: a língua criada por ele é tão bem elaborada ou demonstrada tão claramente que acabamos por aprendê-la na medida em que a leitura avança.

O romance fala de um grupo de rapazes na casa dos 17 anos que sai pelas ruas de Londres todas as noites praticando violência contra qualquer pessoa que encontrem, saqueando comércios e gastando o dinheiro arrecadado em álcool e outras drogas sintéticas. Um dia Alex, que é o líder do pequeno núcleo criminoso, se excede em uma sessão de pancadaria e acaba por cometer um assassinato. Preso, é submetido a um processo (promovido pelo Estado) de “reabilitação” baseado na teoria de condicionamento clássico de Pavlov, tornando-se um ser humano incapaz de praticar o mal.

Alex recebe um tratamento e é libertado, mas logo começam outros questionamentos a respeito de sua nova condição. Um homem privado de sua capacidade de fazer escolhas é ainda um homem? Até que ponto o Estado pode interferir na vida de um indivíduo em prol da coletividade? Os governos têm o direito de fazer qualquer coisa para obrigar um cidadão a praticar apenas atos socialmente aceitáveis? São algumas das questões que os personagens que cruzam o caminho do protagonista provocam enquanto este vem sendo manipulado e agredido sem condições de reagir.

A narrativa de “Laranja Mecânica” é arrebatadora. O comportamento intenso, insano e quase inexplicável dos jovens delinquentes, a maneira como Alex se converte em vítima num segundo momento, recebendo tratamento tão cruel da sociedade quanto ele próprio havia sido no passado, a relação do Estado com o indivíduo e a tentativa de controle exercido por ele conduzem a uma profunda reflexão. Quando decidiu criar uma linguagem própria para seus jovens e narrar o livro em primeira pessoa pela voz do principal desses marginais juvenis, Burgess quis reproduzir a sensação que ele tinha na Inglaterra dos anos 1960, a de que ele não falava o mesmo idioma da juventude, não compreendia o que eles queriam, não sabia o porquê de tanta violência inconsciente. Os leitores também não deveriam entender bem suas palavras. Deveria ser uma compreensão com ruído para transmitir a eles a mesma sensação de deslocamento. Em Natal do século XXI, bem como em todo o mundo, imagino, todos os adultos se sentem um pouco deslocados também. Não entendemos os jovens, não vemos muito sentido em sua autenticidade vazia e ler “Laranja Mecânica” nos dá o alento de sabermos que não somos os únicos a passar por isso.

Novos Colunistas da Revista do Versailles

julho 19, 2011

Em agosto estrearei coluna em mais uma publicação local. A exemplo do @NovoJornalRN , a Revista do Versailles de @Laraborges_ passará a contar com crônicas exclusivas de minha autoria com o tema festa. Não estarei sozinho nesta nova empreitada. Terei as ilustres companhias de Paulo Araújo, Patrício Jr. e Gladis Vivane.

Participamos de uma sessão com o fotógrafo Ramon Vasconcelos, profissional responsa que leiautou o cartaz virtual abaixo onde aparecemos em trajes casuais, bem do dia a dia mesmo:

Clicados por Ramon Vasconcelos, Paulo Araújo, Carlos Fialho, Gladis Vivane e Patrício Jr., os novoc colunistas da Revista do Versailles.

Coluna do Novo Jornal – 011 – Eu sei, mas não tô lembrado. – 06.11.2010

julho 18, 2011

Ano passado, fiz uma nova amizade que me encheu de alegria e orgulho. Conheci o Prata pai. Em razão desta nova amizade, escrevi esta coluna para o Novo Jornal. Publicada no início de novembro de 2010. Espero que curtam.

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Eu sei, mas não lembrado.

Mario Prata, o Prata Pai.

 

Numa sexta-feira qualquer você está no trabalho por volta das 11h30 da manhã, ainda meio indeciso a respeito de onde vai almoçar quando, repentinamente, toca o telefone. E não poderia ser de outra forma, ou você já viu algum telefone que não toque repentinamente? Os telefones não avisam quando vão tocar. Eles não mandam um SMS dizendo: “claro usuário, dentro de alguns segundos, o senhor receberá um telefonema. Atenção para a contagem: 10… 9… 8…” Não, isso não existe. Eles simplesmente tocam.

Naquela sexta-feira, em particular, quando o meu telefone tocou, eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser, pois, apesar de meu aparelho contar com os muitíssimo úteis préstimos de um bina, o visor de cristal líquido olhava para mim com uma cara de “olha, senhor, o número é esse mesmo. Eu também não o conheço e estou tão curioso quanto o senhor.” Quando um número desconhecido brilha em seu aparelho celular, a chance de ser alguém que você conheça, mas que tenha mudado de número recentemente é considerável. Chega a 90%. A probabilidade de ser alguém que você não conheça, mas precisa falar com você por um motivo qualquer é de 7%. Engano fica com 2,9%. Já a possibilidade de ser alguém que você admire há anos, que acompanhe o trabalho, que viva no outro extremo do país e que acredite nunca conhecer pessoalmente é quase nula: 0,01%.

– Alô.

– Alô, aqui é o Prata pai.

E foi assim que, contrariando todas as estatísticas e leis da probabilidade, recebi um telefonema de Mario Prata, o escritor. Queria encontrar-se comigo para almoçar, bater um papo. Quase que eu respondo: “Senhor Prata, na verdade, essa fala deveria ser minha. Façamos o seguinte: vamos desligar, eu retorno o telefonema e digo “quero me encontrar com você, almoçar, bater um papo.” Mas não o fiz. Limitei-me a aceitar resignado o quinhão de generosidade com que o destino me presenteava.

Mario Prata é pai de Antonio, também escritor, de quem me tornei amigo em 2006 graças aos felizes e tortuosos caminhos da literatura. Mario esteve em Natal para participar de um congresso sobre leitura educação promovido pela educadora Cláudia Santa Rosa e havia sido avisado pelo filho de que eu poderia levá-lo a algum restaurante local para comer iguarias com as quais Antonio havia se fartado quando esteve por essas bandas (feijão verde, arroz de leite, paçoca, pirão de queijo e carne de sol). Essa era uma das razões do telefonema. Ele queria almoçar em um bom restaurante de comida regional. A outra razão era para poder bater um bom papo com gente de Natal num ambiente aprazível para trocar impressões e fazer novos amigos. Marquei de pegá-lo no hotel dentro de 30 minutos e levá-lo a um bom restaurante ali mesmo em Ponta Negra, onde ele estava hospedado.

Assim que desligamos, convidei alguns amigos meus que eu sabia serem seus leitores. Eu não queria correr o risco de um possível surto de timidez de minha parte somado a uma personalidade introspectiva do visitante. Nossos comensais foram Renato Quaresma e Patrício Jr., dois articulados conhecedores dos textos do autor, que não deixariam a conversa morrer nem o silêncio pairar sobre a mesa. Após alguns poucos minutos, percebemos que não corríamos esse perigo. Bastante comunicativo e tomado por uma urgência de dividir com os demais suas idéias, pensamentos, opiniões, típico de alguns escritores e cronistas, Mario nos brindou com muitíssimas palavras numa conversa inspirada e inspiradora que nos limitávamos a pontuar com perguntas a cada respiro do comensal, procurando sorver o máximo de conhecimento que ele depositava ali sobre a mesa, entre a vinagrete e a farofa d’água.

“Quanto custa um apartamento aqui em Natal? Eu quero vir morar em Ponta Negra durante 6 meses por ano. Quero estar aqui quando a Copa de 2014 acontecer.” Explicamos que os preços não eram nada convidativos, que a especulação imobiliária e o foco das construtoras no público estrangeiro fizeram subir muitíssimo os valores de imóveis, sobretudo em Ponta Negra, que a crise mundial até atenuou um pouco a situação, mas os patamares continuavam altos. Enfim, desencorajamos o homem. Ainda mais quando comentamos alguns valores de imóveis. Ele lamentou profundamente, explicando que estava encantado com as pessoas daqui.

“Estou um pouco cansado de Florianópolis, sabem? Faz um frio danado no inverno e as pessoas não são simpáticas como aqui. Quando cheguei no aeroporto, perguntei a um taxista se ele conhecia o hotel em que eu ficaria hospedado. Ele respondeu: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Essa frase é sensacional! Vou usá-la numa crônica ou em algum livro: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Isso é muito bom.”, disse às gargalhadas.

Perguntei a ele a respeito do seu primo, Walter Campos de Carvalho, escritor genial de quem sou fã incondicional. Mario contou como ele próprio resgatou Campos de Carvalho do ostracismo onde ele se escondia e articulou a republicação de sua obra completa, transformando o autor em referência Cult para toda uma nova geração de escritores. O autor passou os últimos 40 anos de sua vida sem escrever uma linha sequer, tudo porque um dia ladrões invadiram sua casa e roubaram a máquina de escrever. Campos interpretou aquilo como um sinal de que deveria parar e assim o fez. Ao falecer, em 1995, meses depois de ter sido encontrado por Mario, quase ninguém compareceu ao seu enterro e só depois de algum tempo, seus livros foram descobertos pelos jovens e se tornaram um sucesso. Qualquer dia desses, em outra crônica reproduzirei aqui a história completa que Mario contou a respeito do escritor. Uma sucessão de surpresas e reviravoltas.

Como não poderia deixar de fazer, pedi dicas para escrever um futuro romance. “Quer escrever um romance? Leia livros policiais. Romance é ação e é nos bons romances policiais que está a ação. Vou passar pra você uma lista de bons livros do gênero para você poder ler e aprender com os mestres”, respondeu em tom professoral. Depois, desabafou: “Vivo insistindo para o meu filho ler os policiais, mas ele só quer saber desses intelectuais. Puxa vida! Lendo intelectuais, ele pode até seguir uma carreira acadêmica ou se tornar um cronista cada vez melhor, mas tem que ler os policiais. Eu digo isso a ele, mas o Antonio não me ouve. É incrível: o Antonio não me ouve.” Como se estivesse dando uma bronca no filho por nosso intermédio arrematou: “O único intelectual que se tornou um bom romancista é o Umberto Eco. E vocês sabem porque? Ele é fanático em literatura policial.” Com isso, deu o caso por encerrado.

Mario Prata ainda conversou bastante conosco durante o almoço e, no dia seguinte, num jantar. Deu várias dicas sobre o ofício da escrita e contou muitas histórias de sua vivência pessoal. Histórias essas que procuramos ouvir atentamente, ao contrário do Antonio, e que dariam uma série inteira de crônicas exclusivamente a seu respeito. Só que, infelizmente não poderei contá-las. Até porque, muitas delas eu até sei, mas não lembrado.

Coluna do Novo Jornal – 010 – Lá onde a coruja acorda – 30.10.2010

julho 11, 2011

Muitas vezes, nosso estado de ânimo é feito de pequenas alegrias. Uma delas é a presença matinal da coruja buraqueira da Rota do Sol. Desde que a descobri, tenho cultivado eventuais sorrisos moderados e alimentado a permanentemente renovável expectativa de vê-la na manhã seguinte. Com vocês, umas das crônicas mais singelas e legais que escrevi ano passado, publicada no Novo Jornal em 30 de outubro de 2010, “Lá onde a coruja acorda”.

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Lá onde a coruja acorda.

 

Foto da protagonista desta coluna tirada pelo titular do blogue.

Um dia a coruja não estava lá. Lembrei-me daquele mini-conto do escritor hondurenho, Augusto Monterroso (“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”). Só que, no meu caso, ela NÃO estava mais lá. Acordei, engoli uma barra de cereal, enchi uma garrafinha d’água, botei capacete e calcei luvas, peguei minha Caloi (eu não esqueço) e parti. São 18 quilômetros percorridos 3 vezes por semana. Geralmente em companhia do amigo Fernando Filho, que também é viciado em endorfina, aquele hormônio que o corpo libera quando realizamos uma atividade aeróbica e dá uma sensação de prazer que pode durar horas.

Isso sem falar nos pequenos prazeres, aqueles que se manifestam por meio de um dos 5 sentidos oficiais. A brisa no rosto, a visão de um cenário de cinema e outras bobagens que vão ganhando importância na medida em que o preparo físico melhora, o habito se torna vício e a percepção aumenta, permitindo prestar mais atenção ao que rodeia o ciclista em seu trajeto de combustão lipídica e liberação de suor. Foi assim que percebi as garças que surgiram do lado direito da pista, numa lagoa formada por uma temporada dessas de chuva que nos inundam julho após julho. Houve outros momentos, como a raposa atropelada, um gavião com cara de mau e, claro, os tão discriminados urubus.

Porém, nada me agradou mais do que a coruja buraqueira em plena luz do dia. Depois eu descobri que se trata de uma coruja com hábitos diurnos, mas antes disso fiquei encantado com a ilustre companhia de tão familiar ave, que já habitava meu imaginário desde a mais tenra infância. Afinal, as corujas são personagens destacadas em muitos desenhos animados, onde invariavelmente interpretam o bicho mais sábio da turma, que é consultado sempre que ocorre alguma situação em que se requer bom senso e sensatez. A virada de pescoço de 360 graus ao melhor estilo “O Exorcista” também faz parte do seu show. Na primeira vez estacionei a magrela pra apreciar a vista, feito um observador de pássaros estadosunidense e sua cabeça descreveu uma rotação completa para devolver-me o olhar. Eu, admirado. Ela, altiva, sustentava um grave semblante.

Nos dias seguintes, quando eu acordava, ela sempre estava lá. Eu passava a sorrir de satisfação e ela, condescendente, fitava o horizonte em seu banho de sol matinal. Talvez digerindo algum calango que comera no café-da-manhã. Desde então, além das descargas de endorfina, encontrá-la no percurso seria mais uma motivação para minha prática desportiva matinal. A expectativa por vê-la e o suspense diante da possibilidade de uma possível ausência funcionavam como alimento para minhas jornadas. Mas ela, fiel ao nosso acordo implícito, não fugia ao compromisso.

Um dia, no entanto, ela faltou. O toco de onde costumava contemplar o universo a seu redor se mostrava vazio. Enfaticamente vazio, aliás. Como nunca estivera. Durante algumas semanas, meus exercícios aeróbicos e cíclicos se revelaram mais tristes, vazios de significado, tendo apenas o sentimento de culpa a me fazer madrugar e tirar a magrela do quartinho onde dorme. Senti sua falta.

Até que essa semana chegou. E lá estava ela, no mesmo lugar, de volta. Alegrei-me e parei diante dela para reverenciá-la. Onde ela estivera? Será que tirara férias? Caíra de cama? Uma gripe? Ou simplesmente passara um período de preguiça, dormindo até um pouco mais tarde? Vá saber. Seu olhar permanecia o mesmo, impassível, superior. Não dava mostras de que iria explicar seu sumiço. Eu que tirasse minhas conclusões se quisesse. Dei um gole na água, sorri mais uma vez e pedalei de volta pra casa. Semana que vem ela poderá estar lá, no local de sempre. Ou não.

Vídeos Legais

julho 8, 2011

Os vídeos desta postagem servem para tornar sua tarde de trabalho de sexta e, por extensão, o fim de semana que se avizinha, algo mais divertido.

# 1 – Razões para acreditar em propaganda

Produzido pelo CCRJ, uma divertida paródia do comercial da Coca-cola. Ficou bem legal, mas só pra quem é publicitário ou manja do assunto.

 

# 2 – Joca Reiners Terron fala de seu próximo romance

Joca Reiners Terron fala sobre o livro “Guia de ruas sem saída” que será publicado em 2012. Pela descrição, deve ser bom pra car***alho.

 

# 3 – Antonio Prata no Programa do Jô – Impagável, divertidíssimo, hilariante!

Vejam como se suas vidas dependessem disso!

 

 

 

Coluna do Novo Jornal – 009 – O nome de Deus – 23.10.2010

julho 8, 2011

Crônica publicada no Novo Jornal em 23 de outubro de 2010.

Leiam, reflitam, divirtam-se!

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O nome de Deus

Meu Deus, o Senhor não sabe. Ou melhor, até sabe sim, né? O Senhor é onipresente, onisciente, Todo Poderoso e tal e coisa. Sei, sei. Mas olha só o que andam aprontando aqui em Vosso reino. É melhor eu vos tratar assim, né?: por meio do pronome vós. É que vós sois 3 em 1, né? Lá no Colégio das Neves me ensinaram isso. Disseram também que o aborto é um crime de lesa-humanidade, que fazer sexo antes do casamento é pecado, que o matrimônio é um sacramento indissolúvel, que o homossexualismo é uma aberração e que o Senhor é misericordioso, mas ai de nós se aprontássemos alguma.

Um dos mandamentos que me ensinaram no colégio, Senhor, foi que não devemos usar o Vosso nome em vão. Embora, eu nunca tenha sabido direito o que danado isso significava. Quando é que se justifica que a gente diga o Vosso nome? E o que exatamente caracteriza uma pronúncia vã? Na boa, Senhor, tenho um apreço todo especial pela Vossa capacidade de síntese, mas acho que 10 mandamentos são insuficientes para gerir o universo inteiro, sabeis? Conheço empresas muito menores que criam manuais de conduta extensos e detalhados. Taí uma ideia pra o Senhor estudar na próxima reunião do conselho celestial: os 10 mandamentos poderiam vir com um manual de instruções. E nem venhais me dizer que esse manual já existe, porque a Bíblia não é manual coisíssima nenhuma. A Bíblia é literatura. Aliás, parabéns! Gosto muito da forma como o Senhor escrevestes. O Velho Testamento com todas aquelas histórias hebraicas e mitologias. Aí, lá pelo meio do livro, como só os grandes autores podem conceber, ocorre uma reviravolta daquelas. Surge Jesus, O Cara!, e muda tudo. O final também é bem impactante. Gosto da versão do Saramago, mas confesso que a original feita por Vós e adaptada pra telona pelo Mel Gibson é bem melhor.

Mas vamos pra frente, apesar de gostar da Bíblia e reconhecer todo o Vosso talento e versatilidade literária, eu ainda acho que os 10 mandamentos poderiam vir com um livro explicativo, tipo manual mesmo, dessas auto-ajudas corporativas, sabeis? Porque assim, poderiam ficar mais claras algumas questões como essa de “Não usar o nome de Deus em vão.” Pode parecer algo sem importância, mas eu conheço muita gente que acredita realmente que vai pro inferno porque vive exclamando “Ai, meu Deus!” por aí. Então, é isso. Fica a dica.

No entanto, posso afirmar sem medo de errar, Senhor, que nessa campanha eleitoral para presidente da República Federativa do Brasil, o pessoal anda abusando. Finalmente, compreendi sem a ajuda de nenhum manual, o que significa “usar o nome de Deus em vão”. O Senhor não andais com Vossas orelhas divinas queimando não? Pois é. São eles: os candidatos e militantes andam banalizando o Vosso nome. O Serra deu pra dizer que conta com Vosso apoio. Foi a forma que ele encontrou de neutralizar o apoio do Lula à Dilma. O Lula, aliás, anda se comportando com certa soberba, Senhor. Houve momentos no primeiro turno que dava a impressão que ele achava que era o Senhor. Mais um pouquinho e ele ia acabar pensando que era o Fernando Henrique.

Pois bem, pelo que eu estou entendendo do horário eleitoral, o Lula pensa que é o Senhor e apoia a Dilma. Já o Serra, diz que conta com Vosso voto e tem como principal proposta proibir o aborto. Ou algo do tipo, pois de outra coisa ele não fala. Ele foi ministro da saúde, sabe que essa é uma questão de saúde pública, que deve ser discutida fora dos méritos religiosos, que essa história de ficar citando o Senhor toda hora, além de configurar o uso vão do Vosso nome é também uma temeridade para a sociedade, além de um precedente perigoso. Porém, nada disso parece importar. Quando se quer ganhar, vale de tudo. Lembra quando o Lúcifer tentou armar pra cima do Senhor, dar o golpe e acabou expulso do Céu com seus simpatizantes? Eles fundaram um partido dissidente, chamaram de Inferno e vem até se popularizando nos últimos anos, mais até que o MST, talvez. Então, na política aqui da terra é igualzinho. Uma trairagem só.

E olheis bem, Senhor. Se ao menos o nosso país tivesse uma boa educação, escolas descentes, hospitais que funcionassem, instituições que suprissem as necessidades mais básicas da população, até que poderíamos ter o aborto como tema principal de uma campanha presidencial. Mas não é o caso. Levaram a discussão para as sacristias e querem seguir ao pé da letra aquela sua fala de “crescei e multiplicai-vos”. Aí, quando um monte de crianças nascerem contra a vontade dos pais, não vão encontrar escola, nem saúde, nem comida. Só vão ter violência e cachimbos de crack a vontade. Isso sem falar que os mesmos que se indignam com a descriminação do aborto, alegando o direito à vida, recorrendo ao Vosso nome e tal, são os que clamam pela execução sumária de criminosos e assaltantes que ousem levar seus bens ou cometer delitos outros, menos o de corrupção e desvio de verba. Esses ainda vão estar liberados por muito tempo.

Enfim, é isso, Senhor. Desculpeis aí o mau jeito. Presteis um pouquinho de atenção na disputa que os dois candidatos estão travando pelo Vosso apoio. E se julgares necessário intervir, por favor, não pensais duas vezes. Se o Senhor existir, claro.

***

Guia de Navegação – Dicas de sítios para você não se perder nos caminhos da Internet.

Cleyciany – Uma serva do Senhor no mundo da Internet. http://cleycianne.blogspot.com/

E para continuar abordando o assunto religião, indico aos meus leitores o melhor blogue religioso do Brasil. Cleyciany é uma menina pura e cheia de fé que faz questão de dividir com todos nós suas convicções. Acessem. Vale muito à pena.

Apontamentos Desconexos # 7 – Reunião dos Jovens Escribas, coluna de sábado e mais fotinhas.

julho 7, 2011

# Reunião Jovens Escribas – julho de 2011

No último domingo, me encontrei com Patrício Jr e Daniel Minchoni, meus sócios na Editora Jovens Escribas para tratar das ações de dominação mundial que empreenderemos neste segundo semestre. Planos que envolvem grandes nomes como Clotilde Tavares, Pablo Capistrano, Cláudia Magalhães e vários outros e que não vou contar hoje. Mas fiquem com o registro fotográfico de nosso encontro.

Minchoni, Patrício e eu no último domingo.

 

# Neste sábado do Novo Jornal

No próximo sábado, minha coluna do Novo Jornal vai se chamar “Ânderson Miguel – o nosso Brás Cubas”. Quem tiver curiosidade, procure seu exemplar na banca mais próxima.

 

# Férias

Passei metade do mês de junho de férias com Nina. Abaixo, umas fotinhas pra ilustrar.

Na Grécia, participamos dos protestos. Na verdade, minha participação se resumiu a esta foto de apoio com cara de galado. Mas tá valendo, né não?

 

Do alto da montanha, se vê ao longe.

Tivemos que nos adaptar à culinária local. Mas vencemos o desafio.

Também provamos as exóticas bebidas locais.

Mas pelo menos ajudamos a economizar água.

Tivemos que descansar onde dava pra nos encostar.

O sol demorava muito a se pôr. O jeito era esperar.

Chuuuupa, Marina Badauê!

Bem, por hora é isso. Depois subo aqui mais fotos da Grécia e algumas da Espanha.

 

Coluna do Novo Jornal – 008 – O Clube dos Manicacas – 16.10.2010

julho 6, 2011

Wanderley Moreira, colega publicitário sempre me contava anedotas sobre o Clube dos Manicacas que ele e alguns amigos tentaram implantar anos atrás. Inspirado nas histórias contadas por ele, escrevi esta coluna para o Novo Jornal, da qual gosto bastante. Na verdade, é uma das que saíram no Novo que eu mais curto. Ainda mais porque eu próprio sou um manicaca assumido e orgulhoso de tal condição.

E esperam que vocês gostem também. Divirtam-se!

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O Clube dos Manicacas

O Clube dos Manicacas teve vida curta. Acabou precocemente porque as mulheres proibiram seus maridos e namorados de comparecerem às reuniões. Uma pena, pois o clube tinha nobilíssimos fins e sua razão de existir era justamente manter os membros fiéis a suas convicções. E, no caso dos componentes de tão representativa instituição, manter-se fiéis a suas convicções significava, por extensão, serem fiéis a suas mulheres. Mas ai deles se tentassem argumentar em defesa dos encontros periódicos. Logo vinha uma resposta contundente: “um bando de homem junto só pode estar aprontando alguma coisa! Ou estão fazendo safadeza ou estão falando em safadeza ou estão pensando em safadeza!” Enfim, tudo acabado. E não adiantava discutir. Num mundo onde imperam a injustiça e a incompreensão não haveria mesmo lugar para um clube tão zeloso de seus firmes princípios.

Talvez a rápida decadência do Clube dos Manicacas tenha ocorrido devido a uma intervenção divina com o objetivo de preservar a pureza de seus sócios. Deus pode ter impedido a continuidade do clube ao antever as terríveis perseguições que ele sofreria por parte dos ímpios, abjetos e usurpadores seres humanos. De fato, era difícil conceber a existência de uma organização que pregava valores tão puros num mesmo planeta em que existiam o terrorismo, a miséria e o Luan Santana. Seria um animador sinal de esperança, é verdade, mas cá pra nós, será que o mundo merecia?

Em todo caso, mesmo que brevemente, o clube teve uma trajetória marcante.  Sua história, apesar de curta, é rica em lutas pelos direitos dos oprimidos e vale a pena ser relembrada aqui neste espaço. O fundador e primeiro presidente do Clube dos Manicacas foi Wanderley Moreira. Sua plataforma de trabalho se baseava na conquista de direitos básicos dos manicacas, como o de jogar bola com os amigos uma vez por semana ou tomar uma cervejinha com os colegas depois do expediente. Wanderley conseguiu liberação para se bater uma peladinha durante a semana à noite, desde que o peladeiro se comprometesse a acompanhar a patroa no supermercado das quintas-feiras. Também foi permitido a partir de então que os maridos e namorados comparecessem a um happy-hour a cada 15 dias, desde que fossem em bares movimentados, bem iluminados, acompanhados de colegas de trabalho com mais de 2 anos de empresa e que o termo “uma cervejinha” fosse levado ao pé da letra. Além dessa primeira flexibilização de normas, ficou acordado que haveria uma segunda rodada de negociações muito em breve para garantir a ampliação dos direitos dos cônjuges, bem como outros pontos importantes como assistir futebol em bares e a participação em torneios de pôquer.

Porém, após brilhantes 23 dias no exercício de seu mandato, forças ocultas (quer dizer, na verdade, sua esposa pediu para ele deixar o cargo), obrigaram os sócios a escolherem um novo representante. Thiago Lajus foi alçado ao poder com o compromisso de promover uma revolução nas relações marido-mulher, conquistando privilégios nunca antes sonhados por qualquer homem manobrado por mulher. De perfil progressista e mentalidade prafrentex, sua campanha foi marcada por discursos inflamados que prometiam uma nova era de diálogo, confiança, compreensão e generosa permissividade para que os manicacas de Natal e, quem sabe um dia?, do mundo inteiro, pudessem andar na linha com muito mais liberdade.

Lajus, apesar de sua correção, firmeza de caráter e reputação ilibada (a única vez que fez alguma coisa escondido da mulher, foi preparar uma festa de aniversário surpresa para ela. Mesmo assim, sofreu remorso depois.), ficou apenas 6 dias no poder. Sua postura ousada e a personalidade inquieta incomodaram sobremaneira as esposas que obrigaram seus maridos a votarem o Impeachment do presidente. Em sua defesa, tentou argumentar que a coisa não era bem assim, que promoveria uma revolução sim, mas só se não impedisse de os homens assistirem a novela das 8 com suas mulheres, que os benefícios de suas ações seriam mútuos, que elas seriam plenamente recompensadas. Em vão. Thiago Lajus foi deposto por uma astuciosa manobra das mulheres que manipulavam seus homens.

O terceiro presidente do clube deveria ter um perfil mais moderado. Nada de arroubos de heroísmo ou tendências à subversão. O escolhido não poderia ser outro, senão o Varela.  Aquele sim, um sujeito irrepreensível. Era o álibi perfeito para os amigos infiéis. A alegação de que eles não estavam fazendo nada de errado, pois estavam acompanhados daquele que era uma reserva moral dos homens comprometidos, o maior exemplo de correção e boa conduta que já surgiu nas sociedades judaico-cristãs-ocidentais. Sempre que queriam se safar de alguma pisada na bola com as patroas, recorriam ao santo nome do Varela. Era infalível.

Varela tinha um jeito quieto, tranquilo, silencioso, mas não obstante essa aparente passividade, obteve avanços significativos. Os homens poderiam, por exemplo, assistir filmes de ação, guerra ou artes marciais no cinema, fato inédito para qualquer manicaca. Em contrapartida, só teriam que levar as mulheres para ver quantas comédias românticas elas quisessem, o que não se configurava exatamente num problema, uma vez que eles já faziam isso antes. Foi também durante a sua gestão que ele estendeu o direito de reunião etílica para ver corridas de Fórmula 1. Antes, esses encontros eram permitidos apenas para jogos do brasileirão em bares frequentados apenas por homens. As corridas teriam que ser vistas na casa de algum amigo casado, mas ainda assim, era um passo adiante.

Após 40 dias de atuação discreta, mas surpreendente, Varela precisou abdicar do cargo. Ajudaria a esposa na difícil tarefa de ser vice-síndica do condomínio onde moravam e, portanto, não poderia mais se dedicar à presidência, havendo inclusive aberto mão de sua condição de sócio. Foi aí que o clube acabou. Temendo que o cargo de líder pudesse ser ocupado por um membro da ala radical, as mulheres finalmente proibiram seus maridos, noivos e namorados de comparecerem às reuniões. Todos nós, obedientes e disciplinados que somos, atendemos aos seus pedidos. Até porque, nós do Clube dos Manicacas fazemos absoluta questão de dizer sempre as últimas palavras em qualquer discussão: “Sim, senhora!”

Apontamentos Desconexos # 6 e Fotinhas bacaninhas

julho 5, 2011

Mês passado, o Comitê Analytics, braço digital do Comitê comandado por @thiagolajus , participou da XV Convenção da FCDL. De quebra, ainda me escalaram para mediar uma das melhores mesas do evento com o Fred Alecrim (Ponto de Referência), Fábio Seixas (Camiseteria) e Júlio Vasconcelos (Peixe Urbano). Acabo de postar umas fotinhas logo abaixo. Cousa fina.

Olha eu aí, apresentando os palestrantes. Só fera!

 

Fábio Seixas e Fred Alecrim se preparam para falar.

Com Marcelo Rosado e grande elenco. Turma boa.

Com a diretora executiva do evento, Diana Petta, única personalidade para quem pedi que tirasse uma foto comigo.

Thiago Lajus, diretor do Comitê Analytics.

Mas vale salientar que este evento ocorreu há mais de 20 dias, antes de eu ter saído de férias. Fui à Grécia e a Madrid. Depois, postarei fotos aqui. Andei comprando uns livros e quadrinhos legais dos quais falarei também em momento oportuno. Um deles é a biografia dos escritores Beats (Kerouac, Ginsberg e Bourghous) feita pelo Harvey Pekar. Também comprei um livro-catálogo do Banksy, a série The Walking dead (a HQ) e, para presentear, “Zombie Evolution – O livro dos mortos-vivos no cinema”, uma espécie de enciclopédia do gênero. O livro do Banksy foi de presente pro Caio Vitoriano, o dos Beats será emprestado ao Pablo Capistrano e o dos zumbis darei para o professor Gustavo Bitencourt.

Aliás, já que estou postando aqui algumas fotinhas, encontrei, por acaso na net, umas imagens de eventos de anos passados em que estive ao lado deste jovem, compondo mesas literárias. Foram na Feira do Livro de Mossoró de 2005 e no Encontro Potiguar de Escritores de 2007. Publico também para registrar aqui.

Eu, o professor da UERN Tobias e Pablo na Feira do Livro de Mossoró.

Pablo, Sheyla Azevedo e eu no Encontro Potiguar de Escritores.

Coluna do Novo Jornal – 007 – Coisas que a gente vai vendo. – 09.10.2010

julho 4, 2011

Olá, juventude! Estive de férias por alguns dias, mas voltei a trabalhar na última sexta. Para marcar minha volta, publico mais uma crônica do Novo Jornal. Esta fala do preconceito que os natalenses têm contra os mossoroenses. Saiu no dia 09 de outubro de 2010.

Divirtam-se!

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Coisas que a gente vai vendo

“Essa é uma terra de um deus mar”

Acredito que Natal seja composta por uma das sociedades mais preconceituosas do Brasil. Não posso aferir qualquer rigor científico à afirmação ou mesmo garantir que ela seja baseada numa ampla e abrangente observação ou estudo do comportamento dos cidadãos de outras capitais brasileiras. É apenas uma opinião fundamentada na crença de que é difícil haver alguma cidade muito mais resistente ao novo, ao diferente, ao “estranho” do que a nossa. O natalense médio odeia os pobres, os negros e os homossexuais. Nossa elite segue uma rígida cartilha, conduzida por sólidos e inflexíveis valores morais, baseados num fervor religioso retrógrado e numa “tradição” que procura preservar o imobilismo social e a manutenção de favorecimentos econômicos, políticos e empresariais.

“De um deus mar que vive para o sol”

A novidade para mim, nos últimos meses foi o fato de que muitos conterrâneos também nutrem um clamoroso sentimento discriminatório com relação à segunda maior cidade do Estado. De repente uma xenofobia ensandecida nunca antes percebida nesta capital dos Reis Magos, aflorou.  Fomos tomados pela necessidade urgente de reação imediata, uma sensação de revolta despertou em nosso âmago, um inconformismo inédito mostrou que por trás de nossa aparente docilidade se esconde um povo capaz de levantar-se ante as ameaças iminentes que possam alterar a ordem natural das coisas. E esta ameaça tinha nome, sobrenome, um passado e a capacidade real de vencer uma disputa que poderia mudar muita coisa. Precisávamos combatê-la, contê-la, impedi-la de chegar à nossa cidade que, afinal de contas, ANTES DE TUDO, é NOSSA. É uma pena que nunca tenhamos reagido com tanta avidez e intensidade contra os invasores que cruzaram o atlântico para transformarem Natal na Meca do turismo sexual, fazendo sexo com nossas meninas pobres e convertendo a nossa principal praia urbana num bairro da luz vermelha informal, sem serem minimamente importunados por nós. Mas esse é justamente o cerne da questão. As meninas do turismo sexual são pobres. e, como já foi dito aqui, não gostamos de pobres. Seria mais sensato guardarmos toda nossa sanha e direcionarmos ataques aos nossos conterrâneos do Oeste quando o momento exigiu.

“E esse sol está muito perto daqui”.  

Toda essa agressividade contra a cidade de Mossoró nasceu do preconceito que cultivamos para com ela. Preconceito este que, como todo preconceito, nasce da ignorância que vem a ser o nosso maior patrimônio intelectual. A ignorância gera medo. E o medo provoca uma reação. Conheci Mossoró de verdade em 2004. Passei uma temporada de trabalho na cidade, onde fiz vários amigos e percebi uma cidade e população que experimentavam um clima de prosperidade e otimismo. Surpreendi-me com os avanços observados na cidade, reproduzidos em infindáveis relatos sobre como a cidade e a vida das pessoas vinha melhorando progressivamente nos últimos anos. Constatei que, antes daquela temporada de trabalho, eu não sabia quase nada a seu respeito e, quando retornei a Natal, as pessoas me faziam comentários e perguntas sobre Mossoró que denunciavam o completo desconhecimento do Natalense a respeito de uma cidade para a qual demos as costas há muito tempo. Só lembrávamos dela e de seus habitantes para contar piadas depreciativas.

“Venha e veja tanto quanto pode se curtir.”

No entanto, a comunicação institucional bem feita realizada por Mossoró começou a produzir seus efeitos em Natal e no restante do Estado. Um sentimento de orgulho que já brotara nos corações dos mossoroenses graças a um árduo e contínuo trabalho de resgate e promoção das raízes culturais e históricas. Agora, esse orgulho que já começava a ganhar contornos do mais autêntico ufanismo, contagiava agora a todos nós sob a forma de admiração. Foi como se, pela primeira vez, percebêssemos aquela cidadezinha pequena e sem importância realizar prodígios que nós, a ensolarada e abençoada capital, até então nunca havíamos feito. As ações culturais, econômicas e sociais já não passavam despercebidas. Descobrimos a existência de Mossoró juntamente com a admiração que logo se tornou uma leve inveja de que nossa cidade pudesse viver tal prosperidade. A ameaça começava a envenenar o inconsciente coletivo.

“Linda terra para a mãe gentil.”

Em 2006, o primeiro aviso. A derrota de um senador que tinha sua carreira política engendrada na capital demonstrava a força de uma liderança em ascensão. A vitória da candidata até mesmo em Natal fez todo o reconhecimento e admiração se tornarem preocupação. Luz amarela.

“Belo cai o sol sobre esse rio”.

Em 2010, ela voltou. Disputaria o Governo do Estado. Era favorita ao pleito. A admiração que se tornara preocupação, agora dava vez ao desespero. Estava na hora do ataque, chegara o momento de desconstruir uma imagem. Tínhamos poucos meses para apagar da cabeça das pessoas um trabalho de anos. Era imperativo dizer que “veja bem, as coisas não são bem assim”. No final, ela venceu, mas temos que reconhecer e nos orgulhar de nosso trabalho. Tentamos de tudo. Mostramos que em Mossoró ainda existe pobreza, ameaçamos que ela poderia fazer uma gestão semelhante à da atual prefeita de Natal, denunciamos o sacrilégio extremo de que ela pertence a um partido de oposição a Lula, espalhamos que ela governaria única e exclusivamente para a região oeste do Estado e, numa cartada final ilustrativa de nossos temores maiores, explicamos que ela iria mudar a capital do Rio Grande do Norte para Mossoró. O horror! O horror! Este último argumento revela que o fato de uma política não-natalense ocupando o cargo executivo máximo do Estado poderia significar perda de privilégios, de oportunidades, de status. Um governo descentralizado que trabalhe de maneira uniforme para todas as regiões não nos interessa. Farinha pouca, meu pirão primeiro é o nosso grito de guerra.

“E esse rio também está perto daqui”.

Só que agora é tarde e Inês é morta. Todas as nossas tentativas de derrotar a mulher se mostraram infrutíferas graças à inconsistência dos argumentos. Serviram apenas para evidenciar o quanto somos ignorantes, preconceituosos, egoístas e resistentes a ceder o poder a alguém “de fora”. Como se a nossa cidade, loteada pelos gringos e a especulação imobiliária do cartel de construtoras ainda fosse realmente NOSSA. Esta é uma Natal que não merece ser cantada pelos versos de Pedrinho Mendes reproduzidos aqui entre os parágrafos. É a Natal do atraso, da mesquinhez, da intolerância. Enfim, são coisas que a gente vai vendo.

“Venha e veja tanto quanto pode se curtir.”