Coluna do Novo Jornal – 007 – Coisas que a gente vai vendo. – 09.10.2010

Olá, juventude! Estive de férias por alguns dias, mas voltei a trabalhar na última sexta. Para marcar minha volta, publico mais uma crônica do Novo Jornal. Esta fala do preconceito que os natalenses têm contra os mossoroenses. Saiu no dia 09 de outubro de 2010.

Divirtam-se!

***

Coisas que a gente vai vendo

“Essa é uma terra de um deus mar”

Acredito que Natal seja composta por uma das sociedades mais preconceituosas do Brasil. Não posso aferir qualquer rigor científico à afirmação ou mesmo garantir que ela seja baseada numa ampla e abrangente observação ou estudo do comportamento dos cidadãos de outras capitais brasileiras. É apenas uma opinião fundamentada na crença de que é difícil haver alguma cidade muito mais resistente ao novo, ao diferente, ao “estranho” do que a nossa. O natalense médio odeia os pobres, os negros e os homossexuais. Nossa elite segue uma rígida cartilha, conduzida por sólidos e inflexíveis valores morais, baseados num fervor religioso retrógrado e numa “tradição” que procura preservar o imobilismo social e a manutenção de favorecimentos econômicos, políticos e empresariais.

“De um deus mar que vive para o sol”

A novidade para mim, nos últimos meses foi o fato de que muitos conterrâneos também nutrem um clamoroso sentimento discriminatório com relação à segunda maior cidade do Estado. De repente uma xenofobia ensandecida nunca antes percebida nesta capital dos Reis Magos, aflorou.  Fomos tomados pela necessidade urgente de reação imediata, uma sensação de revolta despertou em nosso âmago, um inconformismo inédito mostrou que por trás de nossa aparente docilidade se esconde um povo capaz de levantar-se ante as ameaças iminentes que possam alterar a ordem natural das coisas. E esta ameaça tinha nome, sobrenome, um passado e a capacidade real de vencer uma disputa que poderia mudar muita coisa. Precisávamos combatê-la, contê-la, impedi-la de chegar à nossa cidade que, afinal de contas, ANTES DE TUDO, é NOSSA. É uma pena que nunca tenhamos reagido com tanta avidez e intensidade contra os invasores que cruzaram o atlântico para transformarem Natal na Meca do turismo sexual, fazendo sexo com nossas meninas pobres e convertendo a nossa principal praia urbana num bairro da luz vermelha informal, sem serem minimamente importunados por nós. Mas esse é justamente o cerne da questão. As meninas do turismo sexual são pobres. e, como já foi dito aqui, não gostamos de pobres. Seria mais sensato guardarmos toda nossa sanha e direcionarmos ataques aos nossos conterrâneos do Oeste quando o momento exigiu.

“E esse sol está muito perto daqui”.  

Toda essa agressividade contra a cidade de Mossoró nasceu do preconceito que cultivamos para com ela. Preconceito este que, como todo preconceito, nasce da ignorância que vem a ser o nosso maior patrimônio intelectual. A ignorância gera medo. E o medo provoca uma reação. Conheci Mossoró de verdade em 2004. Passei uma temporada de trabalho na cidade, onde fiz vários amigos e percebi uma cidade e população que experimentavam um clima de prosperidade e otimismo. Surpreendi-me com os avanços observados na cidade, reproduzidos em infindáveis relatos sobre como a cidade e a vida das pessoas vinha melhorando progressivamente nos últimos anos. Constatei que, antes daquela temporada de trabalho, eu não sabia quase nada a seu respeito e, quando retornei a Natal, as pessoas me faziam comentários e perguntas sobre Mossoró que denunciavam o completo desconhecimento do Natalense a respeito de uma cidade para a qual demos as costas há muito tempo. Só lembrávamos dela e de seus habitantes para contar piadas depreciativas.

“Venha e veja tanto quanto pode se curtir.”

No entanto, a comunicação institucional bem feita realizada por Mossoró começou a produzir seus efeitos em Natal e no restante do Estado. Um sentimento de orgulho que já brotara nos corações dos mossoroenses graças a um árduo e contínuo trabalho de resgate e promoção das raízes culturais e históricas. Agora, esse orgulho que já começava a ganhar contornos do mais autêntico ufanismo, contagiava agora a todos nós sob a forma de admiração. Foi como se, pela primeira vez, percebêssemos aquela cidadezinha pequena e sem importância realizar prodígios que nós, a ensolarada e abençoada capital, até então nunca havíamos feito. As ações culturais, econômicas e sociais já não passavam despercebidas. Descobrimos a existência de Mossoró juntamente com a admiração que logo se tornou uma leve inveja de que nossa cidade pudesse viver tal prosperidade. A ameaça começava a envenenar o inconsciente coletivo.

“Linda terra para a mãe gentil.”

Em 2006, o primeiro aviso. A derrota de um senador que tinha sua carreira política engendrada na capital demonstrava a força de uma liderança em ascensão. A vitória da candidata até mesmo em Natal fez todo o reconhecimento e admiração se tornarem preocupação. Luz amarela.

“Belo cai o sol sobre esse rio”.

Em 2010, ela voltou. Disputaria o Governo do Estado. Era favorita ao pleito. A admiração que se tornara preocupação, agora dava vez ao desespero. Estava na hora do ataque, chegara o momento de desconstruir uma imagem. Tínhamos poucos meses para apagar da cabeça das pessoas um trabalho de anos. Era imperativo dizer que “veja bem, as coisas não são bem assim”. No final, ela venceu, mas temos que reconhecer e nos orgulhar de nosso trabalho. Tentamos de tudo. Mostramos que em Mossoró ainda existe pobreza, ameaçamos que ela poderia fazer uma gestão semelhante à da atual prefeita de Natal, denunciamos o sacrilégio extremo de que ela pertence a um partido de oposição a Lula, espalhamos que ela governaria única e exclusivamente para a região oeste do Estado e, numa cartada final ilustrativa de nossos temores maiores, explicamos que ela iria mudar a capital do Rio Grande do Norte para Mossoró. O horror! O horror! Este último argumento revela que o fato de uma política não-natalense ocupando o cargo executivo máximo do Estado poderia significar perda de privilégios, de oportunidades, de status. Um governo descentralizado que trabalhe de maneira uniforme para todas as regiões não nos interessa. Farinha pouca, meu pirão primeiro é o nosso grito de guerra.

“E esse rio também está perto daqui”.

Só que agora é tarde e Inês é morta. Todas as nossas tentativas de derrotar a mulher se mostraram infrutíferas graças à inconsistência dos argumentos. Serviram apenas para evidenciar o quanto somos ignorantes, preconceituosos, egoístas e resistentes a ceder o poder a alguém “de fora”. Como se a nossa cidade, loteada pelos gringos e a especulação imobiliária do cartel de construtoras ainda fosse realmente NOSSA. Esta é uma Natal que não merece ser cantada pelos versos de Pedrinho Mendes reproduzidos aqui entre os parágrafos. É a Natal do atraso, da mesquinhez, da intolerância. Enfim, são coisas que a gente vai vendo.

“Venha e veja tanto quanto pode se curtir.”

Anúncios

Tags: , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: