Coluna do Novo Jornal – 010 – Lá onde a coruja acorda – 30.10.2010

Muitas vezes, nosso estado de ânimo é feito de pequenas alegrias. Uma delas é a presença matinal da coruja buraqueira da Rota do Sol. Desde que a descobri, tenho cultivado eventuais sorrisos moderados e alimentado a permanentemente renovável expectativa de vê-la na manhã seguinte. Com vocês, umas das crônicas mais singelas e legais que escrevi ano passado, publicada no Novo Jornal em 30 de outubro de 2010, “Lá onde a coruja acorda”.

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Lá onde a coruja acorda.

 

Foto da protagonista desta coluna tirada pelo titular do blogue.

Um dia a coruja não estava lá. Lembrei-me daquele mini-conto do escritor hondurenho, Augusto Monterroso (“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”). Só que, no meu caso, ela NÃO estava mais lá. Acordei, engoli uma barra de cereal, enchi uma garrafinha d’água, botei capacete e calcei luvas, peguei minha Caloi (eu não esqueço) e parti. São 18 quilômetros percorridos 3 vezes por semana. Geralmente em companhia do amigo Fernando Filho, que também é viciado em endorfina, aquele hormônio que o corpo libera quando realizamos uma atividade aeróbica e dá uma sensação de prazer que pode durar horas.

Isso sem falar nos pequenos prazeres, aqueles que se manifestam por meio de um dos 5 sentidos oficiais. A brisa no rosto, a visão de um cenário de cinema e outras bobagens que vão ganhando importância na medida em que o preparo físico melhora, o habito se torna vício e a percepção aumenta, permitindo prestar mais atenção ao que rodeia o ciclista em seu trajeto de combustão lipídica e liberação de suor. Foi assim que percebi as garças que surgiram do lado direito da pista, numa lagoa formada por uma temporada dessas de chuva que nos inundam julho após julho. Houve outros momentos, como a raposa atropelada, um gavião com cara de mau e, claro, os tão discriminados urubus.

Porém, nada me agradou mais do que a coruja buraqueira em plena luz do dia. Depois eu descobri que se trata de uma coruja com hábitos diurnos, mas antes disso fiquei encantado com a ilustre companhia de tão familiar ave, que já habitava meu imaginário desde a mais tenra infância. Afinal, as corujas são personagens destacadas em muitos desenhos animados, onde invariavelmente interpretam o bicho mais sábio da turma, que é consultado sempre que ocorre alguma situação em que se requer bom senso e sensatez. A virada de pescoço de 360 graus ao melhor estilo “O Exorcista” também faz parte do seu show. Na primeira vez estacionei a magrela pra apreciar a vista, feito um observador de pássaros estadosunidense e sua cabeça descreveu uma rotação completa para devolver-me o olhar. Eu, admirado. Ela, altiva, sustentava um grave semblante.

Nos dias seguintes, quando eu acordava, ela sempre estava lá. Eu passava a sorrir de satisfação e ela, condescendente, fitava o horizonte em seu banho de sol matinal. Talvez digerindo algum calango que comera no café-da-manhã. Desde então, além das descargas de endorfina, encontrá-la no percurso seria mais uma motivação para minha prática desportiva matinal. A expectativa por vê-la e o suspense diante da possibilidade de uma possível ausência funcionavam como alimento para minhas jornadas. Mas ela, fiel ao nosso acordo implícito, não fugia ao compromisso.

Um dia, no entanto, ela faltou. O toco de onde costumava contemplar o universo a seu redor se mostrava vazio. Enfaticamente vazio, aliás. Como nunca estivera. Durante algumas semanas, meus exercícios aeróbicos e cíclicos se revelaram mais tristes, vazios de significado, tendo apenas o sentimento de culpa a me fazer madrugar e tirar a magrela do quartinho onde dorme. Senti sua falta.

Até que essa semana chegou. E lá estava ela, no mesmo lugar, de volta. Alegrei-me e parei diante dela para reverenciá-la. Onde ela estivera? Será que tirara férias? Caíra de cama? Uma gripe? Ou simplesmente passara um período de preguiça, dormindo até um pouco mais tarde? Vá saber. Seu olhar permanecia o mesmo, impassível, superior. Não dava mostras de que iria explicar seu sumiço. Eu que tirasse minhas conclusões se quisesse. Dei um gole na água, sorri mais uma vez e pedalei de volta pra casa. Semana que vem ela poderá estar lá, no local de sempre. Ou não.

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