Coluna do Novo Jornal – 011 – Eu sei, mas não tô lembrado. – 06.11.2010

Ano passado, fiz uma nova amizade que me encheu de alegria e orgulho. Conheci o Prata pai. Em razão desta nova amizade, escrevi esta coluna para o Novo Jornal. Publicada no início de novembro de 2010. Espero que curtam.

***

Eu sei, mas não lembrado.

Mario Prata, o Prata Pai.

 

Numa sexta-feira qualquer você está no trabalho por volta das 11h30 da manhã, ainda meio indeciso a respeito de onde vai almoçar quando, repentinamente, toca o telefone. E não poderia ser de outra forma, ou você já viu algum telefone que não toque repentinamente? Os telefones não avisam quando vão tocar. Eles não mandam um SMS dizendo: “claro usuário, dentro de alguns segundos, o senhor receberá um telefonema. Atenção para a contagem: 10… 9… 8…” Não, isso não existe. Eles simplesmente tocam.

Naquela sexta-feira, em particular, quando o meu telefone tocou, eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser, pois, apesar de meu aparelho contar com os muitíssimo úteis préstimos de um bina, o visor de cristal líquido olhava para mim com uma cara de “olha, senhor, o número é esse mesmo. Eu também não o conheço e estou tão curioso quanto o senhor.” Quando um número desconhecido brilha em seu aparelho celular, a chance de ser alguém que você conheça, mas que tenha mudado de número recentemente é considerável. Chega a 90%. A probabilidade de ser alguém que você não conheça, mas precisa falar com você por um motivo qualquer é de 7%. Engano fica com 2,9%. Já a possibilidade de ser alguém que você admire há anos, que acompanhe o trabalho, que viva no outro extremo do país e que acredite nunca conhecer pessoalmente é quase nula: 0,01%.

– Alô.

– Alô, aqui é o Prata pai.

E foi assim que, contrariando todas as estatísticas e leis da probabilidade, recebi um telefonema de Mario Prata, o escritor. Queria encontrar-se comigo para almoçar, bater um papo. Quase que eu respondo: “Senhor Prata, na verdade, essa fala deveria ser minha. Façamos o seguinte: vamos desligar, eu retorno o telefonema e digo “quero me encontrar com você, almoçar, bater um papo.” Mas não o fiz. Limitei-me a aceitar resignado o quinhão de generosidade com que o destino me presenteava.

Mario Prata é pai de Antonio, também escritor, de quem me tornei amigo em 2006 graças aos felizes e tortuosos caminhos da literatura. Mario esteve em Natal para participar de um congresso sobre leitura educação promovido pela educadora Cláudia Santa Rosa e havia sido avisado pelo filho de que eu poderia levá-lo a algum restaurante local para comer iguarias com as quais Antonio havia se fartado quando esteve por essas bandas (feijão verde, arroz de leite, paçoca, pirão de queijo e carne de sol). Essa era uma das razões do telefonema. Ele queria almoçar em um bom restaurante de comida regional. A outra razão era para poder bater um bom papo com gente de Natal num ambiente aprazível para trocar impressões e fazer novos amigos. Marquei de pegá-lo no hotel dentro de 30 minutos e levá-lo a um bom restaurante ali mesmo em Ponta Negra, onde ele estava hospedado.

Assim que desligamos, convidei alguns amigos meus que eu sabia serem seus leitores. Eu não queria correr o risco de um possível surto de timidez de minha parte somado a uma personalidade introspectiva do visitante. Nossos comensais foram Renato Quaresma e Patrício Jr., dois articulados conhecedores dos textos do autor, que não deixariam a conversa morrer nem o silêncio pairar sobre a mesa. Após alguns poucos minutos, percebemos que não corríamos esse perigo. Bastante comunicativo e tomado por uma urgência de dividir com os demais suas idéias, pensamentos, opiniões, típico de alguns escritores e cronistas, Mario nos brindou com muitíssimas palavras numa conversa inspirada e inspiradora que nos limitávamos a pontuar com perguntas a cada respiro do comensal, procurando sorver o máximo de conhecimento que ele depositava ali sobre a mesa, entre a vinagrete e a farofa d’água.

“Quanto custa um apartamento aqui em Natal? Eu quero vir morar em Ponta Negra durante 6 meses por ano. Quero estar aqui quando a Copa de 2014 acontecer.” Explicamos que os preços não eram nada convidativos, que a especulação imobiliária e o foco das construtoras no público estrangeiro fizeram subir muitíssimo os valores de imóveis, sobretudo em Ponta Negra, que a crise mundial até atenuou um pouco a situação, mas os patamares continuavam altos. Enfim, desencorajamos o homem. Ainda mais quando comentamos alguns valores de imóveis. Ele lamentou profundamente, explicando que estava encantado com as pessoas daqui.

“Estou um pouco cansado de Florianópolis, sabem? Faz um frio danado no inverno e as pessoas não são simpáticas como aqui. Quando cheguei no aeroporto, perguntei a um taxista se ele conhecia o hotel em que eu ficaria hospedado. Ele respondeu: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Essa frase é sensacional! Vou usá-la numa crônica ou em algum livro: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Isso é muito bom.”, disse às gargalhadas.

Perguntei a ele a respeito do seu primo, Walter Campos de Carvalho, escritor genial de quem sou fã incondicional. Mario contou como ele próprio resgatou Campos de Carvalho do ostracismo onde ele se escondia e articulou a republicação de sua obra completa, transformando o autor em referência Cult para toda uma nova geração de escritores. O autor passou os últimos 40 anos de sua vida sem escrever uma linha sequer, tudo porque um dia ladrões invadiram sua casa e roubaram a máquina de escrever. Campos interpretou aquilo como um sinal de que deveria parar e assim o fez. Ao falecer, em 1995, meses depois de ter sido encontrado por Mario, quase ninguém compareceu ao seu enterro e só depois de algum tempo, seus livros foram descobertos pelos jovens e se tornaram um sucesso. Qualquer dia desses, em outra crônica reproduzirei aqui a história completa que Mario contou a respeito do escritor. Uma sucessão de surpresas e reviravoltas.

Como não poderia deixar de fazer, pedi dicas para escrever um futuro romance. “Quer escrever um romance? Leia livros policiais. Romance é ação e é nos bons romances policiais que está a ação. Vou passar pra você uma lista de bons livros do gênero para você poder ler e aprender com os mestres”, respondeu em tom professoral. Depois, desabafou: “Vivo insistindo para o meu filho ler os policiais, mas ele só quer saber desses intelectuais. Puxa vida! Lendo intelectuais, ele pode até seguir uma carreira acadêmica ou se tornar um cronista cada vez melhor, mas tem que ler os policiais. Eu digo isso a ele, mas o Antonio não me ouve. É incrível: o Antonio não me ouve.” Como se estivesse dando uma bronca no filho por nosso intermédio arrematou: “O único intelectual que se tornou um bom romancista é o Umberto Eco. E vocês sabem porque? Ele é fanático em literatura policial.” Com isso, deu o caso por encerrado.

Mario Prata ainda conversou bastante conosco durante o almoço e, no dia seguinte, num jantar. Deu várias dicas sobre o ofício da escrita e contou muitas histórias de sua vivência pessoal. Histórias essas que procuramos ouvir atentamente, ao contrário do Antonio, e que dariam uma série inteira de crônicas exclusivamente a seu respeito. Só que, infelizmente não poderei contá-las. Até porque, muitas delas eu até sei, mas não lembrado.

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2 Respostas to “Coluna do Novo Jornal – 011 – Eu sei, mas não tô lembrado. – 06.11.2010”

  1. Bia Madruga Says:

    Um comentário bem gay: fiquei até arrepiada lendo o texto. Desculpa, mas é verdade. Conhecer o Antonio Prata já parece por deveras impossível, imagine receber uma ligação do pai dele! ehehe deve ter sido um dia muito agradável🙂

  2. Cláudia Santa Rosa Says:

    Senti prazer em reler seu ótimo texto. Parabéns! Abraços

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