Coluna do Novo Jornal – 013 – Natal e suas migalhas – 20.11.2010

Crônica publicada no Novo Jornal em 20 de novembro de 2010.

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Natal e suas migalhas

Natal é uma caverna. Essa frase pode ter vários sentidos. Poderia referir-se ao comportamento pré-histórico de parte de nossa sociedade que flana por aí, balbuciando clichês ou se repetindo em seu rebuscado vocabulário de 100 palavras. Também seria justo que tratasse do eco produzido em nossas paredes, dando ressonância a mediocridades forasteiras, selecionadas segundo cuidadosos critérios à base do “quanto-pior-melhor”. No entanto, a alegoria representada pela caverna da frase inicial remete a Platão e seu diálogo mais difundido.

O natalense se contenta com pouco. Somos eternamente gratos pelas sombras vislumbradas na parede de pedra à nossa frente e nos recusamos a visualizar as imagens reais, uma vez que a simples representação das mesmas já nos satisfaz plenamente. Nosso raciocínio linear, rasteiro e desprovido de maiores reflexões nos impede de enxergar além do óbvio. Costumo dizer que em nossa cidade muita gente se torna bem sucedida por absoluta falta de competição resultante da incompetência generalizada que nos cerca. São os “vitoriosos por W.O.”

Tomemos a questão da Copa de 14 como exemplo. Há pelo menos 3 anos se discute o tema e tudo o que se faz é falar das obras, do estádio nababesco que se tornará um monumento à nossa bestialidade, dos consórcios que utilizarão o dinheiro do BNDES para transformar o centro administrativo em um cenário digno de Dubai. Nada se falou de ações paralelas que envolvam educação, prática esportiva e formação de atletas em larga escala, atendendo a milhares de adolescentes e crianças das redes municipal e estadual de ensino. Por que não utilizar alguns milhões para transformar o Rio Grande do Norte num pólo de excelência na transformação social por meio do esporte? Por que não incentivar a atividade física nas escolas associada ao bom rendimento dos alunos? Se enxergássemos o esporte como fator importantíssimo na construção, não de praças suntuosas, mas de cidadãos, representando inclusive, a possibilidade de ascensão social para muitos jovens, poderíamos promover um grande projeto que traria benefícios incalculáveis ao futuro de nosso estado.

Um estádio é importante, os investimentos federais para dotar o estado de infraestrutura, transporte público e formação profissional para receber turistas também. Sem falar nas divisas que ingressarão na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal. Porém, nada disso é o principal. Como bem disse o cientista Miguel Nicolelis, tudo isso é migalha. São sombras na caverna diante da verdadeira revolução que a educação faria pela nossa cidade.

Se tivéssemos uma visão periférica um pouquinho mais abrangente, uma percepção mais aguçada e uma maior desenvoltura para articular raciocínios minimamente complexos, notaríamos a oportunidade única que se mostra logo a frente de promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local.

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

No entanto, nós ainda não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) que nunca serviu para melhorar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Com relação à Copa de 14 será a mesma coisa. Infraestrutura é essencial, segurança e transporte são necessários, mas o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão. Que comamos migalhas, pois.

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