Coluna do Novo Jornal – 014 – Farpados Inglórios – 27.11.2010

No dia 27 de novembro de 2010, fiz uma grave denúncia no Novo Jornal. Revelei a existência de um grupo chamado “Farpados Inglórios” que andam por aí, infernizando a vida das pobres moças de nossa cidade e mais ainda a dos homens indefesos diante da ação impiedosa do grupo.

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Farpados Inglórios

Os Farpados são terríveis. Estão sempre rodeados de mulheres.

Um grupo organizado tem causado sensação em Natal. “Os Farpados”, como se autodenominam, é composto pelos maiores pegadores da cidade. Para eles, paquerar é uma arte, um esporte, uma atividade para a qual se entregam com devoção e empenho genuínos. Formado por 4 jovens, são uma espécie de clube exclusivo. Todos estão na casa dos 20 e poucos anos e vêm causando seríssimos danos aos desavisados corações de toda uma geração de jovens e indefesas meninas. As pobrezinhas se tornam presas fáceis, sucumbindo aos encantos desses ardilosos e irresistíveis ladrões da inocência alheia.

Atuando individualmente, os rapazes já provocavam um considerável estrago nos diversos terrenos onde atuavam. Muitas das mais belas mulheres da cidade já haviam se curvado às sofisticadas técnicas de persuasão, ao talento e charme inato de um ou de outro. Porém, a grande mudança, capaz de impactar verdadeiramente a comunidade solteira natalense e de deixar os namorados e maridos de orelha em pé, desencadeando crises conjugais a uma razão sem precedentes, se deu quando os 4 resolveram agir em conjunto.

Eles perceberam que, ao se unirem, poderiam multiplicar as conquistas e aprimorar as táticas de abordagem a tal nível de excelência que esta cidade nunca mais seria a mesma. Com planejamento, organização, troca de experiências e metas bem definidas, tornar-se-iam infalíveis, mortais, verdadeiras máquinas de pegar mulher. Juntos podiam muito mais.

O líder do clã é o extrovertido Caio Vitorioso e seus fiéis companheiros são Betinho Menino Danado, Dimetrius Meus Oinho e Leandro Zé Mayer. Levam tão a sério o que fazem de melhor que criaram uma série de regras com o intuito de aprimorar seus talentos de galanteadores eficazes, além de promover o desenvolvimento da ciência que procuram dominar com esmero, deixando um importante legado às futuras gerações de Casanovas que quiserem seguir os seus passos, utilizando para isto os completos estudos realizados por eles.

Com o intuito de alcançar a excelência na aplicação de seus métodos, reúnem-se todas as quartas-feiras quando elaboram estratégias com vistas ao fim de semana seguinte, além de reportar detalhadamente todos os passos executados nas mais recentes batalhas. Nesses encontros semanais devem apresentar minuciosos relatórios por escrito, contendo informações primordiais para um correto registro das ações, como:

– Quantas e quais garotas foram conquistadas (para que se analise quantidade e QUALIDADE das ficadas. No caso da qualidade, diversos critérios como beleza, formosura, inteligência e charme são julgados ali mesmo na reunião).

– Quantos foras foram levados para que se possa alcançar os sucessos relatados no item anterior.

– Quais as estratégias exitosas e quais fracassaram nas tentativas feitas (descrever detalhes das situações para contextualizar as tentativas. O ambiente, a música, as pessoas presentes, a garota, para que se pudesse aferir um correto diagnóstico do porquê do fracasso, uma vez que algumas boas tentativas podem não funcionar devido às circunstâncias momentâneas ou geográficas).

Tais relatórios são essenciais para o aprendizado compartilhado e são reunidos em um livro chamado de “Livro de Ouro da Pegação”.  Na parte da reunião em que fazem planos para os próximos dias trazem sugestões de locais ou eventos que estarão repletos de gatinhas. Podem ser shows, barzinhos ou boates da moda. O critério deve ser a profusão de beldades e, uma vez decidido o destino, planejam também que tática de guerrilha devem empreender no campo de batalha. Podem atuar em grupo, em dupla ou partirem para abordagens individualizadas caso identifiquem alguma potencial vítima solitária pelo caminho.

“Os farpados” barbarizam as festas em Natal e a chegada do grupo a uma balada costuma ser avassaladora. Mulheres suspirando, abanando-se com as mãos, mexendo os cabelos de nervosismo e expectativa, apertando os olhos e mordendo de leve o lábio inferior. O impacto, aliás, não se dá apenas entre o público feminino. Muitos marmanjos quando percebem que “os farpados” aportam a um local apressam-se em pedir suas contas e fugir imediatamente com os indefectíveis rabinhos entre as pernas. “É covardia”, dizem. Os garotos despertam inveja na ala masculina do Plano Palumbo. São odiados por muitos e, se não fosse pela simpatia inata e reconhecido carisma, seriam rejeitados por todos. Alguns opositores do clube chegaram a batizá-los de “Farpados Inglórios”, em alusão ao filme do Tarantino.

Ultimamente os garotos têm sido assediados por casas de espetáculos e produtores de festas para comparecerem a seus eventos. Eles praticamente não pagam ingressos nem bebidas nos lugares, pois a simples informação de que eles vão estar num local, atrai uma legião de mulheres gatas e mais uma multidão de homens a reboque, todos esperançosos de que sobrem algumas pequenas carentes para abordarem. São como rêmoras, aguardando os restos deixados por grandes tubarões brancos. Muitas vezes dá certo. Ou seja, o trabalho dos “farpados” beneficia toda a sociedade.

Com a proximidade do Carnatal, os grandes blocos chamaram os 4 para conversar. Terão que pular cada um numa agremiação diferente para evitar o desequilíbrio na procura por abadás e provocar a concorrência desleal. Soube que aceitaram brincar no interior de cordões de isolamento distintos, desde que ganhem os abadás, tenham acesso VIP a todos os camarotes da moda e trios elétricos, bebida de graça e táxi pago pela empresa organizadora do evento. Esta, por sua vez, aceitou a oferta sem contraproposta.

Mas o mais incrível vem agora: reza o boato que foi depois de ver os “farpados” agindo em seu camarote que um ilustre Deputado Federal, famoso por suas conquistas amorosas, decidiu abandonar a vida boêmia e arrumar uma namorada séria. Sentiu que sua cidade, que ele cultivava como um feudo, já não lhe pertencia. Havia oponentes tão intimidadores que era melhor aposentar-se, deixando para trás um longo currículo de conquistas para a posteridade.

Se você vir 4 jovens que correspondam à descrição feita nesta coluna, cuidado. Parecem inofensivos, mas são perigosos. E atacam em bando.

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