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Coluna do Novo Jornal – 023 – Fefeu – 29.01.2011

agosto 26, 2011

No aniversário natalício de um amigo que morreu precocemente, minha singela homenagem ao grande Fefeu.

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Fefeu

Frederico Gurgel, o Fefeu.

Devo confessar aos senhores. Tenho um lado reacionário. Alguns dirão: “Eu sabia! Desde que você passou a escrever no Novo Jornal, eu soube disso.” Pois é, a máscara caiu. Mas precipito-me em dizer que não é nada disso que vocês estão pensando. Em minha defesa, tenho a dizer que meu apego a certos valores antiquados não tem nada de ideológico e, portanto, não me convertem em um desses dinossauros que se recusam a aceitar a irrefreável passagem do tempo, que utilizam toda a sua retórica, loquacidade e poder de persuasão para tentar convencer o resto do mundo que a ordem natural das coisas é andar para trás, que os ponteiros bem que poderiam se mover no sentido antihorário e que evoluir não é assim tão bom quanto as pessoas andam dizendo por aí. Diante da impossibilidade de mudar a condição das coisas e de acabar com “todo esse estado de coisas” ou “tudo isso que está aí”, estes mesmos senhores despejam sobre os mais jovens toda a sua frustração, inveja e um pouquinho de raiva disfarçada de ironia, sarcasmo e críticas venenosas.

Não, senhoras e senhores. Não sou um desses. Ainda. Na verdade, minha condição de neo-conservador se manifesta no cultivo de certos hábitos ancestrais, resquícios de eras passadas quando o iPad só era possível em desenhos dos Jetsons e as canetas esferográficas ainda serviam para algo mais além de assinar documentos. Naqueles embrionários dias, quando a escrita a mão só era ameaçada, quando muito, por Gutemberg, uma espécie de Steve Jobs medieval, escrevíamos à mão. Inclusive em agendas.

E é aí onde eu queria chegar. Eu uso agendas. Sabe aquelas da Tilibra, capa meio dura, com uma página para cada dia útil e os fins de semana irmanamente dividindo o espaço? A de 2011 já está a toda, lembrando-me dos compromissos, ajudando a organizar meu tempo, avisando dos aniversários dos amigos, resgatando-me do caos em que minha vida pode entrar caso ela não esteja ali, sempre atenta, alerta, a postos.

Minha agenda 2011 esta semana me deu um recado. Amanhã, domingo, dia 30 de janeiro, é o aniversário de Fefeu. Fefeu era Frederico Gurgel, jornalista, que faleceu no último dia 22 de novembro último. Em princípios de 1998, nos conhecemos no setor V da UFRN. O curso de jornalismo naquela época era, digamos assim, o mais afamado da universidade. Infraestrutura não existia. Professores? Só pra vocês terem uma idéia do nível, Graça Pinto, possivelmente a pior professora do país, era uma das nossas “mestras”. É difícil entender como, em condições tão inóspitas, minha geração produziu talentos da lavra de Alan Severiano, Paulo Celestino e Gudmila Régis. Enfim, fenômenos que só mesmo o setor V da UFRN poderia produzir. Simplesmente não tinha explicação. Talvez o curso de comunicação fosse uma alegoria do Brasil, uma metáfora dessa desordem festiva que é a nossa sociedade tropical, um microcosmos da subversão de regras como regra primordial para formação de hábitos e costumes.

A turma de Fefeu tinha Bruno Cássio, Moisés Albuquerque, Gabriel Trigueiro, Breno Perruci, Yuri Borges, Everton Dantas, Mirella Ciarlini, entre outros. Juntos, aprendemos, acho, sobre filosofia, sociologia, teorias e paradigmas. Lemos jornais na hemeroteca e testemunhamos o esforço do professor Eduardo Pinto levar de sua casa TV e aparelho de DVD (na verdade era vídeo-cassete, mas aí poderia ser que vocês não saibam o que é isso) para tentar nos fazer compreender a semiótica, enquanto falava de maneira divertida expressões como “gótchico” ou “bisontche”. Vimos as aulas de Jânio Vidal e Ricardo Rosado, que chamávamos de “o pai de Luanda”, foi autor de várias frases que ecoam em minha mente até hoje: “O Papódromo é um monumento à nossa bestialidade” ou a melhor de todas: “Não existe vida inteligente num campo de futebol”. Cassiano Arruda, em suas aulas de Comunicação Publicitária, me fez ver que eu deveria era ser publicitário porque são os primos ricos da comunicação, aí, como não sou besta nem nada, decidi ser redator publicitário a repórter. Fefeu, nos primeiros tempos do curso, também dizia que queria ser publicitário.

Passávamos muito tempo conversando nos corredores porque os professores faltavam muito. Dessa forma, nos tornamos uma turma bem próxima na qual o bom humor imperava. Bruno, Fefeu e Breno eram os reis das piadas rápidas e sagazes. Na época, ainda não estavam na moda no Brasil essas comédias em pé, mas é possível que tivessem seguido este caminho se fosse hoje. Gabriel também tinha suas tiradas, mas com outra conotação: áspero, crítico e, claro, politicamente incorreto ao extremo. Moisés ria muito de tudo, mas era mais tímido que os demais. Tocava violão e, como Fefeu gostava de cantar, dava certinho. Em nossa turma, havia outra cantora, Afra. Ambos faziam ótimos duetos embalados pelo violão de Moisés em churrascos que começavam aos sábados e não terminavam nem quando o bom senso nos alertava do perigo da irresponsabilidade desenfreada ou do abuso do álcool. Não me lembro exatamente das paradas de sucesso que vigorava em 1998, mas desconfio que tenha ouvido algumas músicas à exaustão a ponto de hoje toda vez que ouço “My heart will go on” sentir um leve princípio de convulsão, como que acometido por uma overdose de Plasil.

Fefeu era palmeirense, mas acompanhava todos os times, pois gostava de saber das coisas. De todas as coisas. Ele também assistia ao Oscar e via todos os vencedores só para poder nos contar no outro dia. Para mim, ficava claro que ele seria jornalista mesmo, pois sua sede de informações acabaria por convertê-lo num assessor de imprensa dos mais queridos. Desisti do curso de jornalismo alguns semestres depois de ele ter desistido de mim. Fui cursar publicidade na UnP. Por isso, não acompanhei minha turma até o fim e acabei convivendo menos com as gerações vindouras que, tristemente, trouxeram Marlos Apyus e Gladis Vivane.

Nos anos seguintes reencontrava todos na tradicional festa à fantasia anual do curso, a “Fantalismo” que parecia com vandalismo e era boa demais. Fefeu continuou, assim como Breno (repórter), Moisés (editor da TV Cabo Mossoró), Bruno (Chefe de reportagem da Rede Globo – AC), Gabriel (Editor do Diário de Natal) e os outros. Fefeu se formou, trabalhou como assessor de imprensa e nos encontrávamos de tempos em tempos, sempre mantendo a mesma alegria dos primeiros tempos, das boas lembranças da turma de Comunicação Social 98.1, com seu bom humor rápido e certeiro intacto. E foi exatamente para homenagear essa alegria que resolvi escrever esta coluna / tributo de uma maneira leve, sem os ares melancólicos habituais a textos do gênero. Amanhã será o aniversário dele. O primeiro que não passará cá conosco. Faz muita falta. Este mundo superpovoado de rabugice e carente de inteligência parece nos dizer a todo momento que Fefeu partiu cedo demais. Parabéns, Fefeu. E nunca é demais dizer: você faz falta, viu?

Coluna do Novo Jornal – 022 – Os imbecis – 22.01.2011

agosto 24, 2011

Uma homenagem a Henrique Castriciano e sua indignação ante a pequenez de espírito de alguns conterrâneos que, infelizmente, persiste até os dias de hoje.

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Os imbecis

Henrique Castriciano, um visionário à frente do seu tempo. E do nosso.

Henrique Castriciano de Souza era um educador potiguar, nascido em Macaíba. Foi o principal idealizador da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte, criada para desenvolver o nosso Estado através do mais eficaz instrumento concebido pelo homem: a educação. Defendia essa tese lá pelo início do século XX, 100 anos antes de alguns governantes recentes terem sucateado a educação básica e fundamental no Estado que ele tanto queria ver desenvolvido. Fico imaginando-o se revirando no túmulo ao saber do Nicolellis a procura de algum apoio local ao seu Instituto de Neurociências que realiza um excelente trabalho há 8 anos, não graças aos meus, os seus, os nossos conterrâneos.

Para mim é no mínimo estranho constatar que Natal é uma cidade em que um dos maiores neurocientistas do mundo, brasileiro que tem chance de ganhar um prêmio Nobel, um cara que poderá contribuir decisivamente para a cura do Alzheimer ou para graves lesões na medula, trabalhe sem nenhum apoio, enquanto um dos maiores milionários da cidade subiu na vida (inclusive de helicóptero) graças à autoria do refrão “Se réie pra lá!” Isso deve querer dizer alguma coisa sobre nós, nossos valores e prioridades. Quem sabe seja a prova irrefutável de nosso fracasso como sociedade civilizada.

Pois bem, lá pela virada do século XIX e início do XX, Henrique Castriciano tentava trazer melhorias, difundindo conhecimento entre seus semelhantes. Além de educador, era também poeta e cronista de jornais. Recebi no fim de 2010 o livro “Seleta – Textos e poesias – Volume 3”, reunindo diversos artigos de sua autoria. Impressiona a atualidade dos temas abordados. Não arrisco dizer que o Professor era um homem a frente do seu tempo. Na verdade, passo a acreditar que nós é que estamos atrás. Em seus artigos ele falava de temas filosóficos, literários e sociais com a lucidez dos gênios e a sensatez que permite chegar às conclusões lógicas e simples.

Por vezes, no entanto, o senhor Henrique Castriciano perdia a paciência. Banhava sua pena na tinta corrosiva da indignação e desferia profundos golpes na hipocrisia, estupidez e pobreza de espírito de seus contemporâneos. Quando a situação requeria maior firmeza, rigor na mensagem e dureza nas palavras, recorria ao expediente do pseudônimo. E foi sob o nome de José Capitulino que, em 15 de janeiro de 1899, iniciou a trilogia de crônicas “Os Imbecis”.

Os textos retratavam tipos nataleses da época, tentando alertar as pessoas para o iminente perigo de se deparar com tais espíritos de porco pelas ruas, cafés ou passeios públicos.  No primeiro da série, denuncia o “sarcasmo idiota dos emperrados, cretinos e imbecis”, referindo-se às pessoas que não contribuíam com causas, fossem elas nobres ou intelectuais, mas assim mesmo criticavam com fina ironia os feitos dos que se debruçavam ao pensamento, à realização de um projeto, a edificantes e laboriosas atividades que beneficiariam muitos. O autor prossegue em seu desabafo: “o que mais dói é a certeza que essa gente é sempre vencedora, pelo menos materialmente, porque constitui a maioria e a maioria simboliza ou representa a força.”

No parágrafo seguinte, como que transportado ao Rio Grande do Norte dos anos 10 deste novo século, vocifera contundente: “Engana-se quem supõe ser o mérito condição essencial na luta pela vida. Pelo contrário, é fator de segunda categoria. Na maioria dos casos, os vencedores não são os inteligentes ou os honestos; são os astuciosos, os dissimulados, os representantes da hipocrisia, que é a forma mais comum de imbecilidade.” HC parecia referir-se à Natal presente, em que impera a nulidade e a burrice, como uma praga devastadora, mal incurável, teima em não nos abandonar. A Natal onde os dignos de atenção precisam trabalhar 10 vezes mais para saírem exitosos com seus “Institutos de Neurociências” ou “Ligas de Ensino”, enquanto os poetas dos refrões “se réie pra lá”, impiedosamente, zombam deles. Ainda no texto, compara os já referidos imbecis a inimigos do conhecimento e do progresso da humanidade, ao dizer que foram gente desta lavra que perseguiu Galileu por não estar de acordo com “as velhas tradições bíblicas”. Ah, se ele soubesse que tais dogmas medievais  continuam a ditar regras em nossa sociedade.

O educador encerra o texto resignado, admitindo o fato que “os imbecis venceram”, pois governam “a Bolsa, a Política e a Ciência”. E conclui de maneira premonitória: “Os de amanhã terão, também, a palma da vitória… E merecem-na”.

14 dias depois, no dia 29 de janeiro de 1899, o senhor “José Capitulino” volta à carga. Em “Os Imbecis II”, aponta seu canhão de verdades condenatórias e insofismáveis para “a indiferença com que a maior parte do público brasileiro encara a vida intelectual do país”. Desta vez, rebate o argumento de que uma pátria essencialmente agrícola não pode cultivar muy proeminente erudição. A isto responde, afirmando que mesmo “os que se presumem letrados por terem feito um curso acadêmico são os mais ferozes no ataque ao nobre esforço dos que se dedicam às letras sem as lições dos mestres de toga”.

O arremate de “Os Imbecis II” é otimista, ao contrário da primeira crônica. Ele cita a construção do Teatro Carlos Gomes (que hoje é o nosso Alberto Maranhão) como indício que não se deve esmorecer. Sugere que se faça uma “comédia ou drama de costumes” para ser encenado no futuro teatro e conclui, alertando: “E não se esqueçam dos imbecis que constituem a classe mais numerosa”. Não sei se esquecemos dos imbecis, mas certamente o mau gosto de nossa elite econômica, a parvoíce flagrante de nossa juventude festiva e as paradas de sucesso radiofônicas se apressam em mostrar que os imbecis não se esqueceram de nós.

Não satisfeito com os 2 primeiros textos, Henrique Castriciano, mais uma vez convocou o distinto senhor José Capitulino para redigirem “Os Imbecis III”. Desta vez, identificou um tipo que persiste ainda em co-habitar nossa metrópole / província: o imbecil que se envergonha do Rio Grande do Norte. Ao se encontrar numa livraria com um grave e sisudo senhor, percebeu como ele se gabava de conhecer bastante os encantos do Rio de Janeiro. Perguntou-lhe: “O senhor é potiguar?” ao que o outro respondeu: “Sou, infelizmente. Antes tivesse nascido nos desertos das Arábias”. Após tal declaração, o fundador da Liga de Ensino do RN deu o veredicto: “Percebi que estava às voltas com um imbecil disfarçado.”

Atencioso, o educador seguiu ouvindo o elegante senhor palestrar sobre todas as virtudes do Rio de Janeiro e os inumeráveis defeitos desta terra primitiva. Não deixava mesmo de enfatizar: “É precioso que se note: acabo de chegar da Capital Federal, sabe? Quem lê, como eu, obras de raro valor literário, não pode aturar os literatos desta terra de jerimuns.” Por fim, o imbecil travestido de intelectual se afastou. José Capitulino / Henrique Castriciano admitiu então irônico: “Fiquei olhando-o pelas costas invejando sua felicidade de pobre de espírito. Que preciosidade!”

Nada mais atual.

Lançamento “O Verso e o Briefing” de Clotilde Tavares – Convites

agosto 23, 2011

Nesta quinta-feira, 25 de agosto, os Jovens Escribas estarão lançando o mais novo livro da escritora Clotilde Tavares. A nosso pedido, a autora preparou alguns versos, convidando leitores, familiares e amigos para a noite de lançamento. Publico os anúncios logo abaixo:

 

 

E quem quiser conhecer um pouco mais sobre Clotilde, vejam que belo perfil foi feito por Margot em sua revista televisiva Cores e Nomes. Cliquem no vídeo abaixo para assistir:

Coluna do Novo Jornal – 021 – O polvo não está saindo hoje – 15.01.2011

agosto 22, 2011

Uma crônica sobre como as coisas são ditas e como elas poderiam ser interpretadas. Ou como disse um amigo: “uma viagem.”

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O polvo não está saindo hoje.

Nos tortuosos caminhos percorridos pela linguagem, as transformações sofridas costumam muitas vezes desafiar qualquer lógica, retirando o sentido do que talvez tenha significado algo distinto de uma mera reunião de palavras ao acaso. Algumas expressões são bastante curiosas, trazendo consigo toda uma carga de mistério acerca de sua origem e de como as combinações que se dão graças ao processo dinâmico e constante da construção de um idioma produzem termos que beiram o completo “non-sense”.

Outro dia, num restaurante de frutos do mar, pedi a um simpático garçom uma porção de polvo no azeite. Momentos após minha solicitação, o nobre profissional retornou desolado com a má notícia: “Senhor, o polvo não está saindo hoje.” Tal resposta, primeiro me surpreendeu. Afinal de contas, eu não havia pedido informações detalhadas a respeito da vida social do molusco e se ele preferia recolher-se sob rochas de seu aquário em vez de aproveitar uma aprazível noite de sábado, sinceramente, não era da minha conta.

Depois, quando assimilada a sentença, desfiz minha expressão estupefata e me deixei conduzir  por divertidos e fantásticos devaneios. Logo me pus a imaginar o polvo recluso em seu habitat reproduzido artificialmente, indisposto, cansado, entediado, sendo chamado pelo garçom a sair de lá para saciar a fome de um cliente, ou mesmo cumprimentar com efusivos acenos os freqüentadores do estabelecimento. Ele se recusa. Diz que não vai sair. O cliente que peça camarão se quiser, porque ele prefere mil vezes ficar sem fazer nada, entregando-se a seu contemplativo ócio de cefalópode. O garçom implora, ajoelha-se aos prantos, mas não adianta. Impassível, com aquela expressão de desdém que só os octópodes sabem fazer: “Escuta aqui, amigo. Fala pro cliente que eu não estou saindo hoje e pronto!” Vencido, o garçom levanta, enxuga as lágrimas, recolhe o que resta de sua dignidade e vai dar a má notícia ao freguês.

Outra oração bastante intrigante é aquela em que o atendente diz: “Nós não trabalhamos com laranja.” “Como assim?”, você pode pensar. “Será que estamos falando da mesma laranja?”, pergunta a si mesmo entre surpreso e indignado. Você faz a recapitulação minuciosa das palavras que verbalizou, não encontrando nada de estranho ou moralmente condenável. Você apenas pediu um suco de sua fruta preferida, rica em vitamina C e de sabor refrescante. Mas o cara olha pra você com ar de reprovação, franze a testa e decreta: “nós não trabalhamos com laranja.”

Fica cada vez mais evidente que está acontecendo algo muito esquisito. As pessoas, sobretudo os garçons daquele estabelecimento, sabem de algo terrível a respeito da vida pregressa da laranja. Ou ainda, quem sabe?, um grave desvio de personalidade. Quem sabe uma personalidade dupla? É possível quem por trás de uma declaração tão convicta, quase uma afirmação de princípios, encontre-se escondida um deplorável histórico de rebeldia, insubordinação e mau comportamento.

A falta de caráter, o jeito de ser ácido, a maneira cítrica de se portar em público acabaram por custar caro à laranja. Sua reputação terminou vítima e a consequência imediata é a intransigente recusa de profissionais e restaurantes de trabalhar com ela, fazendo questão de deixar tal decisão clara assim que o cliente pede um refresco extraído desta outrora simpática fruta. Logo após o choque, a reação seguinte é de pesar. O que será da laranja caso os restaurantes continuem aderindo a esta campanha de não trabalhar com ela? Desaparecerá? Sobreviverá? Ou esta é apena mais uma das peças pregadas pela linguagem, significando apenas “não servimos suco de laranja, pois não costumamos comprar laranjas.” Não. Não deve ser nada tão simples assim. Alguma complexidade deve ter aí.

E se a laranja for inocente nessa história toda? E se ela for vítima de um espúrio complô orquestrado por invejosos e ressentidos opositores, movidos por vis interesses e pelo mais torpe desejo de que tudo acabe mal? É preciso reagir imediatamente, denunciar tal situação tão absurda quanto verdadeira. Temos que investigar e acabar com esse estado de coisas de uma vez por todas.

Mas a linguagem não nos surpreende apenas com relação ao que se come ou se bebe. Tem também aquelas vezes em que chegamos numa loja, pedimos um produto qualquer para comprar ou experimentar e o vendedor nos responde: “este produto eu não vou ter.” Você pensa em explicar que não quer saber se ele “vai ter”, mas sim se ele “tem”. Não é uma questão de perguntar hoje para comprar no futuro. Não. Você quer saber se ele tem o produto disponível no preciso momento em que pergunta. Antes de esclarecer a situação com o atendente, você desiste. Mas não sem pensar nos problemas temporais pelos quais passam os vendedores em geral. Será que eles tem algum problema em aceitar o presente? Ou estão todos treinando para ser videntes?

Entretanto, nada, nada mesmo, que tenham inventado até hoje, supera o já célebre gerundismo. Este idioma tão difundido em nossos dias que dominam os atendentes de telemarketing e que encontram adeptos nas mais diversas áreas: de palestrantes motivacionais a Micarla de Sousa, muitos conterrâneos nossos já são fluentes neste novo Esperanto revisitado. Sentenças como “eu vou estar confirmando seus dados”, “vou estar conversando com o secretariado”, “vou estar tomando uma atitude proativa” são a praga linguística do século. Nisso, eu, você, o polvo, a laranja, os garçons e os vendedores de shopping parecemos concordar.

 

Coluna do Novo Jornal – 020 – A última reunião de Dona Noilde – 08.01.2011

agosto 19, 2011

Tive a honra e o privilégio de conviver com uma das pessoas que mais fez pela educação do nosso Estado em toda a nossa história. Na triste ocasião do seu falecimento, publiquei esta coluna.

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A última reunião de Dona Noilde

D. Noilde

Há pessoas que se destacam de tal forma na vida de uma cidade que acabam por se tornar maiores do que o próprio local onde vivem. Em Natal, isso é bem comum, uma vez que sofremos da eterna privação de pessoas verdadeiramente célebres, que sejam dignas de culto, de justa reverência, de merecidas homenagens. Somos uma cidade marcada pelo signo do “mais-ou-menos”, povoada por uma sociedade zelosa de seus valores frívolos e com um baixíssimo grau de exigência em relação à boa educação, à reputação ilibada e ao comportamento adequado de nossas autoridades, nossa elite e nossos conterrâneos mais, por assim dizer, ilustres.

Tais características só enfatizam sobremaneira o legado deixado por Dona Noilde Ramalho que, certamente, foi uma cidadã acima da média (e assim seria mesmo que a média em nossa província que sonha em ser metrópole fosse alta). Graças ao seu trabalho, sua obra e a atenção que dedicou durante tantos anos à educação em nossa cidade, algo tão negligenciado nessa esquina tropical, Dona Noilde passou a habitar o inconsciente coletivo de todos os natalenses. Virou sinônimo de caráter, fibra e trabalho árduo em prol do ensino de qualidade, a única coisa capaz de nos resgatar das profundezas da ignorância onde invariavelmente nos escondemos. Seu nome pairava no ar e se havia tornado um exemplo de liderança e pioneirismo incontestável.

No fim de 2010, no auge dos seus 90 anos, tive o privilégio (e aqui tal palavra é mais do que adequada, mas necessária) de conhecê-la pessoalmente. Ela queria conversar comigo, com a jornalista Graciema Carneiro e o diretor de arte Arnaldo Araújo a respeito da divulgação do centenário da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte. A Liga foi fundada por Henrique Castriciano em 1911 com o objetivo de promover o desenvolvimento do nosso Estado por meio da educação. A primeira instituição fundada pela Liga foi a Escola Doméstica, criada para oferecer boa educação às mulheres que, àquela época não recebiam educação formal, sendo, quando eram, educadas em casa. Dona Noilde queria que começássemos pela criação de uma logomarca comemorativa do centenário. Contou-nos toda a história da entidade com invejável domínio e absoluta clareza, ressaltando sua importância e nos dizendo que naquele tempo havia pessoas que se dedicavam ao trabalho voluntário em benefício de uma comunidade ou de uma cidade.

Bem humorada e bastante segura, logo estava batendo papo sobre assuntos diversos que marcaram a história das escolas que dirigia. Falou-nos de Nísia Floresta e da visita que a escola recebeu da professora Constância Duarte, especialista na escritora potiguar. A certa altura, ao ser informada que eu escrevo textos semanais para este jornal, presenteou-me com um livro de crônicas de autoria de ninguém menos que o próprio Henrique Castriciano. Comecei a folhear o livro e percebi a existência de um texto que falava de alguns conterrâneos seus, os natalenses de 100 anos atrás. Chamava-se “Os imbecis”. Fiquei surpreso com 3 coisas: 1º ao saber que já havia imbecis em quantidade na cidade àquela época, 2º ao concluir que tal tipo humano é caracterizado pela longevidade centenária e, principalmente, em conhecer uma crônica de Henrique Castriciano intitulada dessa forma.

Tomado por leve e insensato momento de desenvoltura, comentei com ela: “Dona Noilde, veja esse texto. Chama-se Os Imbecis. Ele tava com raiva de alguém nesse dia.” Ela riu e explicou que o escritor se utilizava de pseudônimos para expressar opiniões mais fortes e contundentes com relação a Natal e seus cidadãos, fato que eu próprio pude comprovar algumas páginas adiante ao ver os textos “Os Imbecis 2” e “Os Imbecis 3”. Não me contive novamente e comentei: “Ô raiva pra durar!”, ao que ela respondeu rindo generosamente mais uma vez.

Dias depois voltamos à Escola Doméstica para apresentar o trabalho encomendado. Na verdade, nesta segunda ocasião, eu não pude ir. Arnaldo e Graciema foram mostrar as 3 opções de logomarca que nós preparamos para ela. Uma delas, a que mais gostávamos, era muitíssimo ousada, cheia de elementos modernos, coloridos, identificados com essa geração Facebook-Restart. Acreditávamos que aquela seria naturalmente descartada, pois ela acabaria optando por uma das outras duas mais sóbrias que levávamos. Até pela cerimônia inerente à ocasião (o centenário de uma instituição importante) era de se esperar que uma alternativa mais clássica fosse escolhida.

No momento em que viu as 3 marcas, porém, ela não teve dúvidas. Disse que queria aquela mais moderna, pois transmitia exatamente o que ela gostaria: “Uma instituição centenária, mas que se atualizou com a sociedade.” Pediu, no entanto, para que utilizássemos uma das outras mais sóbrias para estampar placas e medalhas que serão distribuídas durante o ano para “não chocar demais os mais conservadores”, explicou. Era como se ela nos dissesse: “Essa marca aqui combina mais conosco, que somos jovens.” Com isso, a marca ousada que apresentamos assinará todas as peças de divulgação do centenário da “Liga de Ensino para o Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”.

Após essa reunião, Dona Noilde saiu para almoçar e, naquela mesma tarde, viajou. Acabaria partindo para uma viagem mais longa ainda e não participaria mais de outras reuniões de trabalho. Guardo o livro de Henrique Castriciano com que ela me presenteou com muito carinho e pretendo escrever brevemente uma crônica a respeito da série de textos “Os Imbecis”. Na lembrança guardo também a alegria de ter conhecido pessoalmente alguém que foi sinônimo de vitalidade, dedicação e alvo da mais justa admiração de todos nós. Uma pessoa que merece todo o destaque que teve em vida e continuará tendo sempre, não só por ser uma cidadã acima da média, não apenas por estar acima de todos nós, mas também por estar à frente.

Coluna do Novo Jornal – 019 – Qualquer dia é dia – 01º.01.2011

agosto 17, 2011

Qualquer dia é dia.

– Alô.

– Silvino?

– Eu.

– Queria te dar os parabéns. Desejar felicidade, muitos anos de vida e todas aquelas coisas que dizemos aos amigos em datas especiais como a de hoje. Feliz aniversário mesmo, meu irmão. Perdoe o discurso protocolar, mas o que de mais interessante se pode dizer num dia como hoje do que a obviedade das palavras consagradas, a repetição das construções tradicionais, a louvação de fórmulas ancestrais?

– Só que…

– Já sei. Você vai dizer que não precisava me incomodar, que não liga pra datas e outras milongas que a humildade lhe impele a dizer.

– Não, cara. É que hoje não é meu aniversário. A gente está em janeiro e só completo anos em setembro.

– Eu sei.

– Então, por que ligou?

– É que eu decidi sistematizar minhas ações para este ano. Cheguei à conclusão que perdia muito tempo com certas tarefas cotidianas que se repetiam durante o ano inteiro. Por isso estou otimizando o meu tempo em 2011. Vou poupar muitas horas e, consequentemente, produzir mais, se fizer tudo que tem data marcada em um mesmo dia. Por isso, hoje, dia 2 de janeiro, vou ligar pra todos os meus amigos e desejar um feliz aniversário.

– Tem certeza que isso dá certo?

– Claro. Você já se vê livre de congratulações pelo resto do ano.

– Mas não é a mesma coisa, né? Tem toda a simbologia da data, o valor de você lembrar da pessoa no dia dela.

– Essa é uma desculpa esfarrapada de quem tem preguiça de empreender um planejamento bem feito, meu caro. No caso dos aniversários dos amigos, a gente pode se antecipar. Já se sabe muito antes quando vão ocorrer os eventos. Também é certo que teremos que reservar um espacinho do nosso dia para transmitir os parabéns a quem completa mais um ano. Então, por que não concentrar todos os telefonemas num só dia? Além do mais, lembrei de você antes de todo mundo, não foi? Aposto que fui o primeiro a te dar parabéns.

– É. Foi. Beleza então. Valeu, cara. Obrigado.  Tchau.

– Peraí, tem mais uma coisa.

– O que?

– Feliz Natal, meu bróder e um 2012 sensacional pra você e toda a família. Muita saúde, paz, alegria, dinheiro, amor…

– Pelo amor de Deus!

Coluna do Novo Jornal – 018 – O amor de Jesus no coração – 25.12.2010

agosto 15, 2011

Um dos meus contos preferidos de Rubem Fonseca se chama “Com o amor de Jesus no coração”. No dia de Natal de 2010, prestei essa homenagem ao velho Zé Rubem e abordei um assunto que muito me incomodou ano passado, o extremismo cristão tão em voga em nossos dias.

***

O amor de Jesus no coração.

Hoje é dia de Natal, uma data em que muitos de nós prestamos homenagem a um aniversariante ilustre. Tempo de reconciliação e reflexão, de consumismo desenfreado é verdade, mas também de meditação. E oportunamente hoje, nesta ocasião tão importante para um país cristão como o nosso, divido com vocês alguns pensamentos que têm me assaltado ultimamente, conduzindo-me por devaneios variados acerca das religiões e da razão ser de todas elas.

Afinal, qual o propósito de tudo isso? A ideia não era pregar o amor? Amor a Deus e ao próximo, afinal Ele nos criou (nós e o próximo) a Sua imagem e semelhança. E Jesus não teria falado que o “Ama o próximo como a ti mesmo.” resume todos os mandamentos? Então por que utilizar esse mesmo amor como pretexto para atacar, agredir, desrespeitar uns aos outros? Qual a lógica em falar de luz e de iluminação espiritual quando atitudes e palavras nos encobrem com as trevas da ignorância e, sobretudo, da intolerância a todo aquele que pensa diferente?

Outro dia, frequentando um curso de noivos, assisti a uma palestra que me fez crer por instantes ter viajado no tempo e no espaço para a Europa medieval. A explanação era sobre “orientação sexual aos novos casais” e seu conteúdo me fez compreender porque as religiões têm perdido seguidores entre as novas gerações. Para começar, numa desastrada ação de antipropaganda involuntária o palestrante esclareceu que as notícias de que o papa havia feito declarações positivas referentes à camisinha não passavam de “rumores maldosos da mídia que é muito tendenciosa”. Em seguida, ele decretou com firmeza e convicção: “A Igreja não permite a camisinha pra evitar o sexo antes do casamento.” Juro que ele disse isso. Pensei em sugerir que eles mudassem de tática, pois conheço alguns casais amigos que não estão casados e, pasmem!, praticam sexo constantemente, como se fosse a coisa mais natural do mundo e não uma maldita e abjeta perversão.

Pensei nos milhões de mortos em decorrência da AIDS na África, nas altíssimas taxas de natalidade dos países pobres que geram filhos em profusão para padecerem de fome ou serem abandonados por pais miseráveis. Concluí que o puritanismo torpe que associa o sexo a algo sujo, pecaminoso e vil é mais importante para os homens de batina do que o sofrimento das pessoas. Algo do tipo: “pra que educar e orientar se amedrontar com a ideia de um Deus vingativo que não tolera o pecado (sexo) é mais eficaz?” Enfim, nada que já não soubéssemos. O mais patético ainda estava por vir.

O senhor com microfone disse que o uso do preservativo, assim como qualquer outra artimanha contraceptiva artificial, não é aceito nem mesmo depois do casamento e que o anticoncepcional é pior ainda, pois a mulher está “mentindo para o próprio corpo”. A única prática aceita é o método Billings que se utiliza da consistência do muco genital das mulheres para determinar se o casal pode ou não fazer sexo. Surreal, mas como um Filho do Amor Divino, educado no Colégio das Neves e seguidor fiel de Madre Francisca Lechner, fui ao Wikipedia me inteirar sobre esse método viscoso que leva estampado o selo oficial de aprovação “O Vaticano recomenda”. Tem que ter fé, viu? Se os anticoncepcionais ou o preservativo masculino são coisas do demônio, devo admitir que ele foi bem mais prático.

Outra lição que o homem deu foi com relação ao comportamento dos futuros filhos. Afinal, o casamento serve para que cumpramos nossas missões de sermos instrumentos do amor de Deus, gerando filhos. Falou que devemos criar nossos rebentos de acordo com o que está expresso na Bíblia e que eles, por sua vez, devem seguir nossos passos até que um dia encontrem uma mulher (se for homem) ou um homem (se for mulher). “Qualquer outra realidade é um grave desvio moral”. Ou seja, sabe aqueles seu amigo gay? Ligue pra ele agora mesmo e alerte para o incômodo que deve ser o fogo do inferno, ressaltando ainda que a eternidade é muito tempo pra ficar queimando e sentindo cheiro de enxofre. Diga também que amizade entre vocês precisa ser descontinuada para estar em concordância com as leis divinas. Não importa o quão boa gente ele seja. Não interessa o caráter, a honestidade ou a bondade de sua alma. Fiquei bege.

Ao ter contato novamente com tais dogmas medievais e a maneira vigorosa e firme com que são pregados à massa, fica mais fácil entender os atos de violência cometidos mundo afora por fanáticos religiosos, os desmandos dos Bushs e Ahminejads da vida que, em nome de Cristo ou Alá, praticam os maiores absurdos amparados na fé.

Há um conto de Rubem Fonseca no livro “Histórias de amor” homônimo a esta coluna. Na trama, dois policiais, Guedes e Leitão, participam de uma investigação de assassinato. Guedes é um homem ateu, mas muitíssimo correto que age sempre de acordo com a lei. Leitão é um católico fundamentalista que vive em função do Evangelho. Na tentativa de encontrar um culpado, chegam a um suspeito. Leitão afirma ter certeza de que ele é o culpado, pois encontrou uma estatueta de macumba em sua sala, porém Guedes descobre que o rapaz é inocente por meio de provas conclusivas. Quando, em dado momento, Guedes deixa o jovem a sós com Leitão, este o mata. O diálogo que sucede o episódio é o que segue:

“Por que você fez isso?”

“Ele reagiu.”

“Reagiu merda nenhuma!”

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça.”

“Você é um fanático, Leitão!”

“Eu estou de bem com a minha consciência. Estou de bem com Deus. Tenho o amor de Jesus no coração.”

Tal conversa ilustra bem os contorcionismos morais a que somos levados graças ao que consideramos sagrado. Se as religiões pregassem valores verdadeiramente humanos e não meros preconceitos idiotas e irracionais, talvez o mundo fosse um lugar melhor de se viver. Não seria assim um céu, um paraíso ou algo do tipo. Mas seria melhor.

Feliz Natal a todos.

Coluna do Novo Jornal – 017 – O teatro de Riachuelo – 18.12.2010

agosto 7, 2011

Coluna do Novo Jornal, a 17ª, publicada em 18 de dezembro de 2010.

Divirtam-se!

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O Teatro de Riachuelo

 

Mulher, você foi convidada pra inauguração do novo Teatro Municipal de Riachuelo? Mas você tá muito sem prestígio, viu? Onde já se viu? Eu é que não ia ficar de fora dessa. Já pensou? No começo até que tentaram ousar não me incluir na lista de otoridades que iam estar presentes no evento. Mas logo eu? Que sou tia de segundo grau do ex-vereador Micarlos Medeiros, pessoa da mais alta estirpe, que até em São Paulo já morou por bem uns dois meses? Tenho mais do que ninguém o direito de ir a qualquer evento VIP que se passe dentro de Riachuelo. Sou uma das maiores personalidades entre os nossos 5 mil habitantes, minha filha. Não sou pouca coisa não, viu?

Ah e a inauguração foi linda demais. Teve a banda de música da cidade tocando aquelas músicas finas: Roberto Carlos, Fábio Júnior, Reginaldo Rossi, Elimar Santos. Ai, adooooro! Eu sou uma pessoa de bom nível, né? Teatro, por exemplo, eu frequento muito. Já fui a uns 10 shows de Zé Lezim da Paraíba tanto em Natal como em Mossoró. Cultura, minha filha, é muito importante pra cabeça da gente, sabia? E eu gosto muito de uma cultura pra enriquecer mais as idéias. Ééééé. Eu sou assim mesmo.

Das outras otoridades que estavam no lançamento do teatro, tinha político, empresário, intelectual, secretário. Teve aquele menino lá da Imobiliária Impacto que falou bem bonito. Ele deu uma declaração pro jornal que tinha achado tudo muito “impressionante, maravilhoso, sem palavras. A abertura emocionou a todos e mesmo com o show da banda de música, a grande atração foi o teatro.” Eu também poderia ter dado uma declaração dessa, mas esses jornalistas daqui são tudo uns babão. Só querem saber de gente que tem cargo. Eu é que merecia mais ser ouvida, pois tive que brigar a tapa pelo privilégio de estar presente na festa.

A sorte foi que ainda saí numa coluna social. Não que eu faça questão dessas coisas. Nem de aparecer eu gosto. Pra mim é indiferente, tanto faz como tanto fez. Mas é que o registro das pessoas importantes da cidade tem que ser feitas, pois senão só saem as beradeiras. Ou então vem o povo de Lagoa de Velhos, Barcelona, Lajes e saem na coluna como se fosse daqui. Não pode. Tem que ser gente de Riachuelo mesmo. Aí apareci na coluna social. Meio de relance, é verdade, mas pelo menos fez-se justiça à cidade.

Teve outra declaração no jornal de um líder dos comerciantes locais, dizendo que “o teatro de Riachuelo é de primeiro mundo. Não deixa nada a dever para a as grandes casas. Com ele, Riachuelo entra para o circuito dos grandes espetáculos.” Ah, tomara. E espero também que o povo seja mais educado, pois o que eu presenciei de barraco de madame atrás de ingresso ou convite para assistir ao espetáculo não está escrito. Foi uma loucura. Uma vergonha. Coisa de gente sem cultura, como eu. Que não sabe manter a pose. Foi cada uma que eu vi. mas, olhe, vou lhe ser sincera, mulher. Isso só aconteceu porque foi aqui em Riachuelo, viu? Eu queria ver a inauguração de um grande teatro desses pra convidados em Natal, que é a capital. Ia ser outro nível de público. As pessoas lá têm classe. Não iam ficar se estapeando por um convitezinho a toa não. Nem ficar com recalque porque não foi convidada. Em Natal, minha filha, o nível é outro: muito mais alto. Não tem esse comportamento provinciano daqui não. Afe! Que gafe!

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Tem Chope que desce rasgando 2

A Biblioteca Câmara Cascudo que se desmancha diante de nossos olhos inertes conseguiu o direito a um significativo investimento por parte do Governo Federal desde que o Governo Estadual dê uma contrapartida de R$ 350 mil, valor 3 vezes menor do que o que cada um dos condenados pelo escândalo do Foliaduto terá que devolver ao erário. Bem, se depender das contas de Iberê e do seu assessor fiel Chope, a reforma da biblioteca terá que ficar para outra vez, pois eles é que não vão liberar verba. E o Deputado Nélter ainda aparece com uma declaração digna de quem usa óleo de peroba como hidratante facial, dando conta de que o Estado está com as contas equilibradas.  Sei. Sei.

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O hipócrita arrependido.

Lembro-me de um episódio em que dois estudiosos estrangeiros, ao terem feito um estudo sobre Natal, propuseram estabelecer ordem na putaria generalizada em que se converteu nossa cidade, sobretudo a praia de Ponta Negra. Já que o poder público não tem o menor interesse em mudar a situação de depravação a céu aberto, em conter essa “indústria sem chaminé” que é o sexo-turismo (com ironia, faz favor), eles deram a ideia de reconhecer a prostituição como uma atividade importante para a cidade. Seria criada uma área em que a atividade pudesse ser exercida livremente, localizada especificamente na região próxima ao Conjunto Alagamar, nos mesmos moldes do bairro da Luz Vermelha em Amsterdã.

Se fosse colocada em prática, seria uma solução para um problema que, convenhamos, Micarla, Carlos Eduardo e Vilma não tiveram competência nem interesse em resolver. Teríamos que admitir publicamente o nosso fracasso em impedir que a noiva do sol se convertesse na meretriz do sol, mas pelo menos mostraríamos que buscávamos soluções. Exercício de humildade, claro, impensável para políticos, ainda mais os nossos.

O estudo dos gringos foi noticiado à época no Diário de Natal, o que provocou reação indignada de um certo vereador que, enxergando uma ofensa aos sólidos valores morais da cidade de Natal (aqui também tem ironia, senhoras e senhores) concedeu aos pesquisadores o título de “personas non gratas” na cidade. Como que para tapar o sol com a peneira, o político parecia não querer admitir que ocorresse tal situação vexatória de prostituição desenfreada sob o nosso sol.

Pois bem, não é que este mesmo vereador foi preso meses depois deste episódio, dirigindo embriagado, na contramão, numa BR? Foi fotografado e estampado saindo de um camburão, algemado na capa do mesmo jornal que entrevistou os professores estrangeiros? A máscara havia caído.

Hoje, o político é um ex-vereador, mas tem alcançado mais notoriedade que os atuais ocupantes de gabinetes na Campus Sales. Trocou a hipocrisia extrema dos tempos de legislador à sinceridade ferina com que se comunica no Twitter. Tornou-se mais uma celebridade virtual, dentre tantas outras nulidades que pululam na rede.  O caráter não melhorou nada, mas a versão sem papas na língua do ex-qualquer-coisa tem divertido nossos estimados conterrâneos.

Coluna do Novo Jornal – 016 – Ponta Negra é minha praia. – 11.12.2010

agosto 3, 2011

Aaaah, Ponta Negra. Esse paraíso tropical… para os ambulantes e poluidores diversos.

Boa leitura.

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Ponta Negra é minha praia

Foi lançada há pouco, a campanha “Ponta Negra é minha praia”. Uma iniciativa louvável para recuperar a autoestima dos moradores do bairro e dos natalenses em geral que assistiram o nosso principal cartão postal ser degradado pelo trio parada dura Vilma-Carlos Eduardo-Micarla. Aquela que tinha tudo para ser a nossa princesinha do mar, hoje, infelizmente não passa da nossa garotinha de programa do mar. Eu, como orgulhoso morador do bairro (“De dia é Ponta Negra / de noite é Black point.”, como canta o Dusouto) me identifiquei de imediato com a campanha. Colei o adesivo no pára-choque do carro, procurei reunir alguns amigos e ir ao encontro das ondas imediatamente, sempre disposto a cumprir com meu dever de cidadão do bairro, contribuindo civicamente com tão edificante campanha.

Aliás, nenhum programa é mais natalense do que ir a Ponta Negra no domingo. É uma tradição cheia de graves rituais que já começam nos preparativos e passam de geração em geração. É preciso dar alguns telefonemas e juntar uns itens básicos: frescobol, toalha, um livro pra quem é de livro e uma prancha pra quem é de surf.

No entanto, apesar de meu insistente apelo, alegando o amor pela praia da zona sul, o resgate de hábitos ancestrais e a oportunidade de contemplar mais uma vez o Morro do Careca, nenhum dos meus argumentos foi eloquente  o bastante para convencer meus amigos a me fazerem companhia. Suas escusas me pareceram um tanto alarmistas. Negaram-se, dizendo que o ambiente na zona sul não é nada aprazível para quem nasceu e cresceu em Natal. Teve um que falou inclusive que somos estrangeiros em nossa própria cidade e está cada vez mais insuportável ir a Ponta Negra. Respondi que eles estavam viajando na maionese e decidi ir sozinho de qualquer forma. Não sei de onde eles tiraram tantos disparates. Eu que não daria bola pra essas fofocas. Afinal, Ponta Negra é minha praia.

Estacionei muito próximo do mar, a uns 4 quilômetros, bem do lado de um hotel onde havia um congresso da Herbalife. Ao chegar na areia, com toalha em punho, procurei um pedaço de chão onde pudesse sentar-me e tomar um bocado de sol até que o calor acumulado provocasse em meu corpo uma necessidade irresistível, quase magnética, de entrar no mar,  dando início a um incessante movimento pendular entre as ondas e a areia. Porém, não havia chão nenhum que não estivesse ocupado pelos guardassóis e pelas espreguiçadeiras de aluguel. Aliás, havia sim uma faixa livre, por onde corria uma água escura e fétida do calçadão ao mar. Ponderei não sentar ali e acabei alugando uma barraquinha pelo preço módico de R$ 10.

Como estava só, levei um livro para me fazer companhia. Instalei-me comodamente e, assim que abri as páginas, um vendedor de artesanatos de durepox veio mostrar sua arte. Agradeci cordialmente, mas quando tentei novamente iniciar a leitura, o homem insistiu que eu examinasse todas as peças escondidas em seu balaio. Tentou até mesmo me convencer que aquelas eram algumas das maiores obras de arte já concebidas pelo homem, comparáveis aos afrescos da Capela Sistina, ao Pensador de Rodin ou à Quinta Sinfonia. Após muito insistir, o Michelângelo de dreadlocks, o Aleijadinho chapado pediu que eu, ao menos, segurasse um dos bonecos por alguns instantes. Assim o fiz, na esperança de que ele partisse depois desta leve concessão. Ledo engano. Declarou que, uma vez que eu havia posto as mãos em sua arte, teria que adquiri-la, pois a havia maculado com o toque de minhas mãos imundas. Tentei recusar, mas ele ameaçou permanecer ali, recusando-se a ir embora. Comprei um velho fumando um cachimbo. E o homem se foi.

Respirei aliviado e baixei novamente os olhos para o livro, quando um barulho ensurdecedor se anunciou. Era um vendedor de CDs Piratas curtindo algum desses formidáveis sucessos da Banda Grafith. Não sei se o carrinho do rapaz era patrocinado pelo Centro Auditivo Telex, mas ele parecia realmente disposto a fazer-se ouvir num perímetro que poderia ir de Tabatinga ao mercado da Redinha. Depois, chegaram outros ambulantes como ele, mantendo a combinação de falta de educação com mau gosto musical a estratosféricos decibéis. Dava até pra aferir uma parada de sucessos que ia dos mais sórdidos forrós, passava pelas canções carnatalescas, desembocava em Dire Straits e alcançava o clímax com as piadas de Zé Lezin, o artista teatral preferido da elite natalense. Apesar da barulheira, não me irritei. Ponta Negra é minha praia e é preciso levar na esportiva essa espontânea e efusiva demonstração de alegria explícita, musical e tropical.

Arrisquei mais algumas vezes iniciar a leitura, mas era sempre abordado por vendedores de rede, o carrinho do Camarão do Mato Grosso, tatuadores provisórios, palhaços sociais e até por um velho conhecido, um senhor deficiente que, desde que sou criança pede dinheiro para comprar uma nova prótese para a perna, pois a dele está velhinha. Das duas, uma: ou este senhor coleciona pernas a ponto de querer virar uma centopeia humana ou a que ele quer é tão cara que até hoje, 20 anos depois de ter começado a juntar dinheiro, ainda não pode comprar. Logo percebi que seria inútil tentar ler novamente e fui dar um mergulho no Atlântico.

A temperatura da água estava ótima. Dizem que são os coliformes fecais que a deixam assim: morninha. Aliás, tive a nítida impressão de ver alguns cardumes de coliformezinhos fecais nadando livremente ao meu redor. Que beleza que é a natureza, né não? Voltando revigorado da água, pude observar com mais atenção um grupo que estava instalado no gaurdassol vizinho ao meu. Eram senhores italianos bem simpáticos, animados, acompanhados de umas mocinhas brasileiras que pareciam ser suas filhas adotivas. Aquilo me comoveu bastante ainda mais quando percebi o carinho com que os homens tratavam as filhinhas. Algumas carícias pareciam até íntimas demais segundo nossa cultura conservadora, mas gostei da atitude caridosa daqueles senhores. E olhe que os italianos são muito discriminados por aqui, pelo visto, injustamente.

O sol já ia quase alcançando o zênite, quando resolvi ir embora. Saí poucos instantes antes de uma dupla de violeiros chegar a minha barraca, vendendo emboladas. Uma pena. Perdi essa, mas tinha que ir. Estava tarde. É sempre uma pena ir embora dali. Porque Ponta Negra é minha, é nossa. E ainda tem gente que não gosta.

Coluna do Novo Jornal – 015 – Não roubei, mas sei quem fui. – 04.12.2010

agosto 2, 2011

Em 04 de dezembro de 2010 já era Carnatal em Natal, vem amar vem viver e o escândalo desencadeado pela Operação Hygia ocupava as páginas dos jornais, indignando a população pelo disparate de alguns agentes públicos que desviaram dinheiro destinado à compra de ambulâncias para suas contas e bens. Filhos da puta! A crônica que segue, “homenageia” tais distintos senhores e, para minha surpresa, me fez receber diversos e-mails de médicos, indignados com o ocorrido.

Senhoras e senhores, com vocês, “Eu não roubei, mas sei quem fui.” Divirtam-se!

***

Não roubei, mas sei quem fui.

Senhor juiz, pare agora! O senhor está a ponto de cometer uma brutal injustiça contra um dos cidadãos mais íntegros de que tenho notícia, no caso, a minha pessoa. Se eu for julgado culpado, estarei sendo submetido a uma desmoralização sem precedentes na história de nosso Estado sem ter culpa nenhuma. Sinceramente, não sei como meu imaculado nome foi parar nesse inquérito. Veja bem, sou gente boa, dono de ilibada reputação. Pode perguntar por aí. Mais de 7% das pessoas, dependendo da região onde o senhor for perguntar, podem confirmar isso. Somente uma minoria de 93% tem algo contra mim, mas estes são indivíduos obviamente mal intencionados e tendenciosos, contrários ao meu trabalho em favor dos mais humildes, dos desvalidos, críticos de minha atuação em prol da saúde e da educação, invejosos da projeção que consegui com muito trabalho.

Aí vem a Polícia Federal me implicar nesse caso intricado. O senhor quer saber mesmo o que pode ter havido? Veja bem, essa turma da Polícia Federal devia estar cansada de tanto trabalhar na hora em que algum funcionário mais distraído escreveu meu nome por engano. E o Ministério Público é aquela coisa, né? São promotores voluntariosos, abnegados, trabalhadores, mas… acabaram se deixando levar pelo empenho em excesso e me botaram de gaiato no processo. Será que não foi um erro de digitação? Eu, se fosse o senhor, não descartaria essa possibilidade. É preciso analisar todas as variáveis pra não cometer erros. Pois comigo é assim: gosto das coisas certas.

Tudo bem, eu sei que meu nome foi citado por mais de uma testemunha, que graças ao meu bom Deus, tive a benção de enriquecer um bocadinho nos últimos anos e que a minha declaração de renda em contraste com meus bens soa tão inusitada quanto um pinguim comendo ginga com tapioca no mercado da Redinha. Mas, senhor juiz, o senhor há de convir que tudo tem uma explicação, não é verdade? E eu tenho uma boa explicação pra tudo isso. Meu nome é agradável de dizer, entende? É um nome doce como dizem no interior. Aí, o sujeito está lá, no meio de um depoimento, tenso, pressionado pelos investigadores a apontar algum envolvido no esquema e diz o primeiro nome que vem à cabeça. Foi aí que me acusaram. Algo totalmente involuntário, o senhor pode ter certeza. Já o meu enriquecimento é uma questão de organização pessoal e doméstica. Sou um homem organizado que gasta menos do que ganha, só isso. Pratico em casa a mesma austeridade que apliquei na secretaria de Estado. Com isso acaba sobrando um dinheirinho no fim do mês para comprar um patrimoniozinho à toa. E nem é tanta coisa assim: uma cobertura em Areia Preta, dois apartamentos no Tirol, uma fazenda ao estilo europeu, uma casa de praia em Jacumã e outra no Bomfim, um apartamento no Rio e outro em Brasília, uma Land Rover, um Volvo e um Audi A4. Enfim, umas coisinhas que de tão poucas acabei esquecendo de declarar no imposto de renda. Sabe como é, né? Sou meio desleixado às vezes.

Também já fiquei sabendo que fui acusado pelo empresário que venceu a licitação como um dos principais articuladores do esquema de corrupção, que desviei verba da educação e da saúde, que visitei o empresário diversas vezes em seu escritório, que chantageei, extorqui, exigi comissões aviltantes. Ora,ora,ora. Quanta imaginação desse senhor. Excelência, se eu o ameacei alguma vez foi com a intenção de fiscalizar o cumprimento dos serviços ora licitados. Se tem uma coisa que me dá asco, que me causa náuseas, que provoca em mim profundas úlceras nervosas, é o mau uso do dinheiro público. Ainda mais, meritíssimo… posso lhe chamar de meritíssimo? Vi num filme e achei elegante. Bem, como eu ia dizendo, fico verdadeiramente incomodado com o desperdício de dinheiro, ainda mais na educação, área que é meu xodó na política e, claro, na saúde.

Quando li nos jornais sobre esse caso escabroso de desrespeito à população, de crime contra a saúde pública fiquei indignado como qualquer outro cidadão de bem como eu. Agora mesmo, enquanto falo com o senhor, não cesso de revoltar-me internamente com a torpeza de tão vis usurpadores do patrimônio potiguar. Essa cruel rede de safadeza denunciada pela Operação… Operação… como é que chama mesmo? Nem lembro, mas sei que é um nome muito criativo. Aliás, muito boa essa iniciativa da Polícia Federal de empregar redatores publicitários para criar os nomes das operações, o senhor não acha? Não? Ah tá. Estou fugindo do assunto. Nem se preocupe. Em nenhum momento eu pensei em fugir. Estou aqui pra responder aos questionamentos com as mãos leves e a cara de pau. Opa! Quero dizer: estou aqui pra responder aos questionamentos com mãos limpas e a consciência leve.

Olha, excelência, se o empresário diz que eu frequentava seu escritório e outras não sei quantas pessoas confirmaram, só posso supor que o verão escaldante que já se instalou na cidade está a causar alucinações coletivas nos depoentes. Ou então pode ser até que eu tenha ido alguma vez ao local de trabalho do referido senhor, mas não com o intuito de combinar esta ou aquela artimanha que pudesse causar prejuízo à gente de bem desta terra de Poti por quem tenho a mais sincera admiração e um infindável apreço. Devo ter ido lá por cortesia ou então para cobrar maior transparência na prestação de contas do trabalho realizado por sua empresa de terceirização de mão-de-obra. Porque é assim mesmo que eu sou. Cortês e extremamente rígido ao mesmo tempo.

O que? Que milhão? Ah, sim! O um milhão de Reais em dinheiro que foi encontrado em minha casa? Essa história é curiosa. É que as pessoas confiam tanto em mim que acabam deixando dinheiro delas pra que eu guarde em casa mesmo, sabe? Chega um amigo me entrega 10 mil, aí vem outro e deixa 5 mil, um terceiro vem e pede pra eu manter 20 mil em lugar seguro. Aí eu vou fazendo esses pequenos favores. Tudo na melhor das intenções, de forma totalmente desinteressada como sempre ajo. É que eu tenho esse único defeito na vida: não sei dizer não pros amigos. Aí, na minha inocência, acabo acumulando grandes quantias em casa sem nem me dar conta. Acontece. O senhor entende, né? Hã? Não? Não entende não? Bom, em todo caso, espero que eu tenha conseguido esclarecer todas as dúvidas a respeito da minha não participação nos eventos sinistros julgados por Vossa Senhoria. Não tenho culpa nenhuma, doutor. Sabe como é, né? Eu sou gente boa.