Coluna do Novo Jornal – 015 – Não roubei, mas sei quem fui. – 04.12.2010

Em 04 de dezembro de 2010 já era Carnatal em Natal, vem amar vem viver e o escândalo desencadeado pela Operação Hygia ocupava as páginas dos jornais, indignando a população pelo disparate de alguns agentes públicos que desviaram dinheiro destinado à compra de ambulâncias para suas contas e bens. Filhos da puta! A crônica que segue, “homenageia” tais distintos senhores e, para minha surpresa, me fez receber diversos e-mails de médicos, indignados com o ocorrido.

Senhoras e senhores, com vocês, “Eu não roubei, mas sei quem fui.” Divirtam-se!

***

Não roubei, mas sei quem fui.

Senhor juiz, pare agora! O senhor está a ponto de cometer uma brutal injustiça contra um dos cidadãos mais íntegros de que tenho notícia, no caso, a minha pessoa. Se eu for julgado culpado, estarei sendo submetido a uma desmoralização sem precedentes na história de nosso Estado sem ter culpa nenhuma. Sinceramente, não sei como meu imaculado nome foi parar nesse inquérito. Veja bem, sou gente boa, dono de ilibada reputação. Pode perguntar por aí. Mais de 7% das pessoas, dependendo da região onde o senhor for perguntar, podem confirmar isso. Somente uma minoria de 93% tem algo contra mim, mas estes são indivíduos obviamente mal intencionados e tendenciosos, contrários ao meu trabalho em favor dos mais humildes, dos desvalidos, críticos de minha atuação em prol da saúde e da educação, invejosos da projeção que consegui com muito trabalho.

Aí vem a Polícia Federal me implicar nesse caso intricado. O senhor quer saber mesmo o que pode ter havido? Veja bem, essa turma da Polícia Federal devia estar cansada de tanto trabalhar na hora em que algum funcionário mais distraído escreveu meu nome por engano. E o Ministério Público é aquela coisa, né? São promotores voluntariosos, abnegados, trabalhadores, mas… acabaram se deixando levar pelo empenho em excesso e me botaram de gaiato no processo. Será que não foi um erro de digitação? Eu, se fosse o senhor, não descartaria essa possibilidade. É preciso analisar todas as variáveis pra não cometer erros. Pois comigo é assim: gosto das coisas certas.

Tudo bem, eu sei que meu nome foi citado por mais de uma testemunha, que graças ao meu bom Deus, tive a benção de enriquecer um bocadinho nos últimos anos e que a minha declaração de renda em contraste com meus bens soa tão inusitada quanto um pinguim comendo ginga com tapioca no mercado da Redinha. Mas, senhor juiz, o senhor há de convir que tudo tem uma explicação, não é verdade? E eu tenho uma boa explicação pra tudo isso. Meu nome é agradável de dizer, entende? É um nome doce como dizem no interior. Aí, o sujeito está lá, no meio de um depoimento, tenso, pressionado pelos investigadores a apontar algum envolvido no esquema e diz o primeiro nome que vem à cabeça. Foi aí que me acusaram. Algo totalmente involuntário, o senhor pode ter certeza. Já o meu enriquecimento é uma questão de organização pessoal e doméstica. Sou um homem organizado que gasta menos do que ganha, só isso. Pratico em casa a mesma austeridade que apliquei na secretaria de Estado. Com isso acaba sobrando um dinheirinho no fim do mês para comprar um patrimoniozinho à toa. E nem é tanta coisa assim: uma cobertura em Areia Preta, dois apartamentos no Tirol, uma fazenda ao estilo europeu, uma casa de praia em Jacumã e outra no Bomfim, um apartamento no Rio e outro em Brasília, uma Land Rover, um Volvo e um Audi A4. Enfim, umas coisinhas que de tão poucas acabei esquecendo de declarar no imposto de renda. Sabe como é, né? Sou meio desleixado às vezes.

Também já fiquei sabendo que fui acusado pelo empresário que venceu a licitação como um dos principais articuladores do esquema de corrupção, que desviei verba da educação e da saúde, que visitei o empresário diversas vezes em seu escritório, que chantageei, extorqui, exigi comissões aviltantes. Ora,ora,ora. Quanta imaginação desse senhor. Excelência, se eu o ameacei alguma vez foi com a intenção de fiscalizar o cumprimento dos serviços ora licitados. Se tem uma coisa que me dá asco, que me causa náuseas, que provoca em mim profundas úlceras nervosas, é o mau uso do dinheiro público. Ainda mais, meritíssimo… posso lhe chamar de meritíssimo? Vi num filme e achei elegante. Bem, como eu ia dizendo, fico verdadeiramente incomodado com o desperdício de dinheiro, ainda mais na educação, área que é meu xodó na política e, claro, na saúde.

Quando li nos jornais sobre esse caso escabroso de desrespeito à população, de crime contra a saúde pública fiquei indignado como qualquer outro cidadão de bem como eu. Agora mesmo, enquanto falo com o senhor, não cesso de revoltar-me internamente com a torpeza de tão vis usurpadores do patrimônio potiguar. Essa cruel rede de safadeza denunciada pela Operação… Operação… como é que chama mesmo? Nem lembro, mas sei que é um nome muito criativo. Aliás, muito boa essa iniciativa da Polícia Federal de empregar redatores publicitários para criar os nomes das operações, o senhor não acha? Não? Ah tá. Estou fugindo do assunto. Nem se preocupe. Em nenhum momento eu pensei em fugir. Estou aqui pra responder aos questionamentos com as mãos leves e a cara de pau. Opa! Quero dizer: estou aqui pra responder aos questionamentos com mãos limpas e a consciência leve.

Olha, excelência, se o empresário diz que eu frequentava seu escritório e outras não sei quantas pessoas confirmaram, só posso supor que o verão escaldante que já se instalou na cidade está a causar alucinações coletivas nos depoentes. Ou então pode ser até que eu tenha ido alguma vez ao local de trabalho do referido senhor, mas não com o intuito de combinar esta ou aquela artimanha que pudesse causar prejuízo à gente de bem desta terra de Poti por quem tenho a mais sincera admiração e um infindável apreço. Devo ter ido lá por cortesia ou então para cobrar maior transparência na prestação de contas do trabalho realizado por sua empresa de terceirização de mão-de-obra. Porque é assim mesmo que eu sou. Cortês e extremamente rígido ao mesmo tempo.

O que? Que milhão? Ah, sim! O um milhão de Reais em dinheiro que foi encontrado em minha casa? Essa história é curiosa. É que as pessoas confiam tanto em mim que acabam deixando dinheiro delas pra que eu guarde em casa mesmo, sabe? Chega um amigo me entrega 10 mil, aí vem outro e deixa 5 mil, um terceiro vem e pede pra eu manter 20 mil em lugar seguro. Aí eu vou fazendo esses pequenos favores. Tudo na melhor das intenções, de forma totalmente desinteressada como sempre ajo. É que eu tenho esse único defeito na vida: não sei dizer não pros amigos. Aí, na minha inocência, acabo acumulando grandes quantias em casa sem nem me dar conta. Acontece. O senhor entende, né? Hã? Não? Não entende não? Bom, em todo caso, espero que eu tenha conseguido esclarecer todas as dúvidas a respeito da minha não participação nos eventos sinistros julgados por Vossa Senhoria. Não tenho culpa nenhuma, doutor. Sabe como é, né? Eu sou gente boa.

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