Coluna do Novo Jornal – 016 – Ponta Negra é minha praia. – 11.12.2010

Aaaah, Ponta Negra. Esse paraíso tropical… para os ambulantes e poluidores diversos.

Boa leitura.

***

Ponta Negra é minha praia

Foi lançada há pouco, a campanha “Ponta Negra é minha praia”. Uma iniciativa louvável para recuperar a autoestima dos moradores do bairro e dos natalenses em geral que assistiram o nosso principal cartão postal ser degradado pelo trio parada dura Vilma-Carlos Eduardo-Micarla. Aquela que tinha tudo para ser a nossa princesinha do mar, hoje, infelizmente não passa da nossa garotinha de programa do mar. Eu, como orgulhoso morador do bairro (“De dia é Ponta Negra / de noite é Black point.”, como canta o Dusouto) me identifiquei de imediato com a campanha. Colei o adesivo no pára-choque do carro, procurei reunir alguns amigos e ir ao encontro das ondas imediatamente, sempre disposto a cumprir com meu dever de cidadão do bairro, contribuindo civicamente com tão edificante campanha.

Aliás, nenhum programa é mais natalense do que ir a Ponta Negra no domingo. É uma tradição cheia de graves rituais que já começam nos preparativos e passam de geração em geração. É preciso dar alguns telefonemas e juntar uns itens básicos: frescobol, toalha, um livro pra quem é de livro e uma prancha pra quem é de surf.

No entanto, apesar de meu insistente apelo, alegando o amor pela praia da zona sul, o resgate de hábitos ancestrais e a oportunidade de contemplar mais uma vez o Morro do Careca, nenhum dos meus argumentos foi eloquente  o bastante para convencer meus amigos a me fazerem companhia. Suas escusas me pareceram um tanto alarmistas. Negaram-se, dizendo que o ambiente na zona sul não é nada aprazível para quem nasceu e cresceu em Natal. Teve um que falou inclusive que somos estrangeiros em nossa própria cidade e está cada vez mais insuportável ir a Ponta Negra. Respondi que eles estavam viajando na maionese e decidi ir sozinho de qualquer forma. Não sei de onde eles tiraram tantos disparates. Eu que não daria bola pra essas fofocas. Afinal, Ponta Negra é minha praia.

Estacionei muito próximo do mar, a uns 4 quilômetros, bem do lado de um hotel onde havia um congresso da Herbalife. Ao chegar na areia, com toalha em punho, procurei um pedaço de chão onde pudesse sentar-me e tomar um bocado de sol até que o calor acumulado provocasse em meu corpo uma necessidade irresistível, quase magnética, de entrar no mar,  dando início a um incessante movimento pendular entre as ondas e a areia. Porém, não havia chão nenhum que não estivesse ocupado pelos guardassóis e pelas espreguiçadeiras de aluguel. Aliás, havia sim uma faixa livre, por onde corria uma água escura e fétida do calçadão ao mar. Ponderei não sentar ali e acabei alugando uma barraquinha pelo preço módico de R$ 10.

Como estava só, levei um livro para me fazer companhia. Instalei-me comodamente e, assim que abri as páginas, um vendedor de artesanatos de durepox veio mostrar sua arte. Agradeci cordialmente, mas quando tentei novamente iniciar a leitura, o homem insistiu que eu examinasse todas as peças escondidas em seu balaio. Tentou até mesmo me convencer que aquelas eram algumas das maiores obras de arte já concebidas pelo homem, comparáveis aos afrescos da Capela Sistina, ao Pensador de Rodin ou à Quinta Sinfonia. Após muito insistir, o Michelângelo de dreadlocks, o Aleijadinho chapado pediu que eu, ao menos, segurasse um dos bonecos por alguns instantes. Assim o fiz, na esperança de que ele partisse depois desta leve concessão. Ledo engano. Declarou que, uma vez que eu havia posto as mãos em sua arte, teria que adquiri-la, pois a havia maculado com o toque de minhas mãos imundas. Tentei recusar, mas ele ameaçou permanecer ali, recusando-se a ir embora. Comprei um velho fumando um cachimbo. E o homem se foi.

Respirei aliviado e baixei novamente os olhos para o livro, quando um barulho ensurdecedor se anunciou. Era um vendedor de CDs Piratas curtindo algum desses formidáveis sucessos da Banda Grafith. Não sei se o carrinho do rapaz era patrocinado pelo Centro Auditivo Telex, mas ele parecia realmente disposto a fazer-se ouvir num perímetro que poderia ir de Tabatinga ao mercado da Redinha. Depois, chegaram outros ambulantes como ele, mantendo a combinação de falta de educação com mau gosto musical a estratosféricos decibéis. Dava até pra aferir uma parada de sucessos que ia dos mais sórdidos forrós, passava pelas canções carnatalescas, desembocava em Dire Straits e alcançava o clímax com as piadas de Zé Lezin, o artista teatral preferido da elite natalense. Apesar da barulheira, não me irritei. Ponta Negra é minha praia e é preciso levar na esportiva essa espontânea e efusiva demonstração de alegria explícita, musical e tropical.

Arrisquei mais algumas vezes iniciar a leitura, mas era sempre abordado por vendedores de rede, o carrinho do Camarão do Mato Grosso, tatuadores provisórios, palhaços sociais e até por um velho conhecido, um senhor deficiente que, desde que sou criança pede dinheiro para comprar uma nova prótese para a perna, pois a dele está velhinha. Das duas, uma: ou este senhor coleciona pernas a ponto de querer virar uma centopeia humana ou a que ele quer é tão cara que até hoje, 20 anos depois de ter começado a juntar dinheiro, ainda não pode comprar. Logo percebi que seria inútil tentar ler novamente e fui dar um mergulho no Atlântico.

A temperatura da água estava ótima. Dizem que são os coliformes fecais que a deixam assim: morninha. Aliás, tive a nítida impressão de ver alguns cardumes de coliformezinhos fecais nadando livremente ao meu redor. Que beleza que é a natureza, né não? Voltando revigorado da água, pude observar com mais atenção um grupo que estava instalado no gaurdassol vizinho ao meu. Eram senhores italianos bem simpáticos, animados, acompanhados de umas mocinhas brasileiras que pareciam ser suas filhas adotivas. Aquilo me comoveu bastante ainda mais quando percebi o carinho com que os homens tratavam as filhinhas. Algumas carícias pareciam até íntimas demais segundo nossa cultura conservadora, mas gostei da atitude caridosa daqueles senhores. E olhe que os italianos são muito discriminados por aqui, pelo visto, injustamente.

O sol já ia quase alcançando o zênite, quando resolvi ir embora. Saí poucos instantes antes de uma dupla de violeiros chegar a minha barraca, vendendo emboladas. Uma pena. Perdi essa, mas tinha que ir. Estava tarde. É sempre uma pena ir embora dali. Porque Ponta Negra é minha, é nossa. E ainda tem gente que não gosta.

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2 Respostas to “Coluna do Novo Jornal – 016 – Ponta Negra é minha praia. – 11.12.2010”

  1. Solano Braw Says:

    kkkkk… massa !!! Tem soh um erro de digitação na palavra “guardassol” no penultimo paragrafo. =D

  2. Júlio Valério Says:

    Achei seu blog no portaleca.unp.br e resolvi dar uma olhada. Gostei muito do que falara… relembrei bem a epoca em que costumava ir a ponta negra qnd criança e, não a puta negra, hehehe

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