Coluna do Novo Jornal – 017 – O teatro de Riachuelo – 18.12.2010

Coluna do Novo Jornal, a 17ª, publicada em 18 de dezembro de 2010.

Divirtam-se!

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O Teatro de Riachuelo

 

Mulher, você foi convidada pra inauguração do novo Teatro Municipal de Riachuelo? Mas você tá muito sem prestígio, viu? Onde já se viu? Eu é que não ia ficar de fora dessa. Já pensou? No começo até que tentaram ousar não me incluir na lista de otoridades que iam estar presentes no evento. Mas logo eu? Que sou tia de segundo grau do ex-vereador Micarlos Medeiros, pessoa da mais alta estirpe, que até em São Paulo já morou por bem uns dois meses? Tenho mais do que ninguém o direito de ir a qualquer evento VIP que se passe dentro de Riachuelo. Sou uma das maiores personalidades entre os nossos 5 mil habitantes, minha filha. Não sou pouca coisa não, viu?

Ah e a inauguração foi linda demais. Teve a banda de música da cidade tocando aquelas músicas finas: Roberto Carlos, Fábio Júnior, Reginaldo Rossi, Elimar Santos. Ai, adooooro! Eu sou uma pessoa de bom nível, né? Teatro, por exemplo, eu frequento muito. Já fui a uns 10 shows de Zé Lezim da Paraíba tanto em Natal como em Mossoró. Cultura, minha filha, é muito importante pra cabeça da gente, sabia? E eu gosto muito de uma cultura pra enriquecer mais as idéias. Ééééé. Eu sou assim mesmo.

Das outras otoridades que estavam no lançamento do teatro, tinha político, empresário, intelectual, secretário. Teve aquele menino lá da Imobiliária Impacto que falou bem bonito. Ele deu uma declaração pro jornal que tinha achado tudo muito “impressionante, maravilhoso, sem palavras. A abertura emocionou a todos e mesmo com o show da banda de música, a grande atração foi o teatro.” Eu também poderia ter dado uma declaração dessa, mas esses jornalistas daqui são tudo uns babão. Só querem saber de gente que tem cargo. Eu é que merecia mais ser ouvida, pois tive que brigar a tapa pelo privilégio de estar presente na festa.

A sorte foi que ainda saí numa coluna social. Não que eu faça questão dessas coisas. Nem de aparecer eu gosto. Pra mim é indiferente, tanto faz como tanto fez. Mas é que o registro das pessoas importantes da cidade tem que ser feitas, pois senão só saem as beradeiras. Ou então vem o povo de Lagoa de Velhos, Barcelona, Lajes e saem na coluna como se fosse daqui. Não pode. Tem que ser gente de Riachuelo mesmo. Aí apareci na coluna social. Meio de relance, é verdade, mas pelo menos fez-se justiça à cidade.

Teve outra declaração no jornal de um líder dos comerciantes locais, dizendo que “o teatro de Riachuelo é de primeiro mundo. Não deixa nada a dever para a as grandes casas. Com ele, Riachuelo entra para o circuito dos grandes espetáculos.” Ah, tomara. E espero também que o povo seja mais educado, pois o que eu presenciei de barraco de madame atrás de ingresso ou convite para assistir ao espetáculo não está escrito. Foi uma loucura. Uma vergonha. Coisa de gente sem cultura, como eu. Que não sabe manter a pose. Foi cada uma que eu vi. mas, olhe, vou lhe ser sincera, mulher. Isso só aconteceu porque foi aqui em Riachuelo, viu? Eu queria ver a inauguração de um grande teatro desses pra convidados em Natal, que é a capital. Ia ser outro nível de público. As pessoas lá têm classe. Não iam ficar se estapeando por um convitezinho a toa não. Nem ficar com recalque porque não foi convidada. Em Natal, minha filha, o nível é outro: muito mais alto. Não tem esse comportamento provinciano daqui não. Afe! Que gafe!

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Tem Chope que desce rasgando 2

A Biblioteca Câmara Cascudo que se desmancha diante de nossos olhos inertes conseguiu o direito a um significativo investimento por parte do Governo Federal desde que o Governo Estadual dê uma contrapartida de R$ 350 mil, valor 3 vezes menor do que o que cada um dos condenados pelo escândalo do Foliaduto terá que devolver ao erário. Bem, se depender das contas de Iberê e do seu assessor fiel Chope, a reforma da biblioteca terá que ficar para outra vez, pois eles é que não vão liberar verba. E o Deputado Nélter ainda aparece com uma declaração digna de quem usa óleo de peroba como hidratante facial, dando conta de que o Estado está com as contas equilibradas.  Sei. Sei.

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O hipócrita arrependido.

Lembro-me de um episódio em que dois estudiosos estrangeiros, ao terem feito um estudo sobre Natal, propuseram estabelecer ordem na putaria generalizada em que se converteu nossa cidade, sobretudo a praia de Ponta Negra. Já que o poder público não tem o menor interesse em mudar a situação de depravação a céu aberto, em conter essa “indústria sem chaminé” que é o sexo-turismo (com ironia, faz favor), eles deram a ideia de reconhecer a prostituição como uma atividade importante para a cidade. Seria criada uma área em que a atividade pudesse ser exercida livremente, localizada especificamente na região próxima ao Conjunto Alagamar, nos mesmos moldes do bairro da Luz Vermelha em Amsterdã.

Se fosse colocada em prática, seria uma solução para um problema que, convenhamos, Micarla, Carlos Eduardo e Vilma não tiveram competência nem interesse em resolver. Teríamos que admitir publicamente o nosso fracasso em impedir que a noiva do sol se convertesse na meretriz do sol, mas pelo menos mostraríamos que buscávamos soluções. Exercício de humildade, claro, impensável para políticos, ainda mais os nossos.

O estudo dos gringos foi noticiado à época no Diário de Natal, o que provocou reação indignada de um certo vereador que, enxergando uma ofensa aos sólidos valores morais da cidade de Natal (aqui também tem ironia, senhoras e senhores) concedeu aos pesquisadores o título de “personas non gratas” na cidade. Como que para tapar o sol com a peneira, o político parecia não querer admitir que ocorresse tal situação vexatória de prostituição desenfreada sob o nosso sol.

Pois bem, não é que este mesmo vereador foi preso meses depois deste episódio, dirigindo embriagado, na contramão, numa BR? Foi fotografado e estampado saindo de um camburão, algemado na capa do mesmo jornal que entrevistou os professores estrangeiros? A máscara havia caído.

Hoje, o político é um ex-vereador, mas tem alcançado mais notoriedade que os atuais ocupantes de gabinetes na Campus Sales. Trocou a hipocrisia extrema dos tempos de legislador à sinceridade ferina com que se comunica no Twitter. Tornou-se mais uma celebridade virtual, dentre tantas outras nulidades que pululam na rede.  O caráter não melhorou nada, mas a versão sem papas na língua do ex-qualquer-coisa tem divertido nossos estimados conterrâneos.

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