Coluna do Novo Jornal – 018 – O amor de Jesus no coração – 25.12.2010

Um dos meus contos preferidos de Rubem Fonseca se chama “Com o amor de Jesus no coração”. No dia de Natal de 2010, prestei essa homenagem ao velho Zé Rubem e abordei um assunto que muito me incomodou ano passado, o extremismo cristão tão em voga em nossos dias.

***

O amor de Jesus no coração.

Hoje é dia de Natal, uma data em que muitos de nós prestamos homenagem a um aniversariante ilustre. Tempo de reconciliação e reflexão, de consumismo desenfreado é verdade, mas também de meditação. E oportunamente hoje, nesta ocasião tão importante para um país cristão como o nosso, divido com vocês alguns pensamentos que têm me assaltado ultimamente, conduzindo-me por devaneios variados acerca das religiões e da razão ser de todas elas.

Afinal, qual o propósito de tudo isso? A ideia não era pregar o amor? Amor a Deus e ao próximo, afinal Ele nos criou (nós e o próximo) a Sua imagem e semelhança. E Jesus não teria falado que o “Ama o próximo como a ti mesmo.” resume todos os mandamentos? Então por que utilizar esse mesmo amor como pretexto para atacar, agredir, desrespeitar uns aos outros? Qual a lógica em falar de luz e de iluminação espiritual quando atitudes e palavras nos encobrem com as trevas da ignorância e, sobretudo, da intolerância a todo aquele que pensa diferente?

Outro dia, frequentando um curso de noivos, assisti a uma palestra que me fez crer por instantes ter viajado no tempo e no espaço para a Europa medieval. A explanação era sobre “orientação sexual aos novos casais” e seu conteúdo me fez compreender porque as religiões têm perdido seguidores entre as novas gerações. Para começar, numa desastrada ação de antipropaganda involuntária o palestrante esclareceu que as notícias de que o papa havia feito declarações positivas referentes à camisinha não passavam de “rumores maldosos da mídia que é muito tendenciosa”. Em seguida, ele decretou com firmeza e convicção: “A Igreja não permite a camisinha pra evitar o sexo antes do casamento.” Juro que ele disse isso. Pensei em sugerir que eles mudassem de tática, pois conheço alguns casais amigos que não estão casados e, pasmem!, praticam sexo constantemente, como se fosse a coisa mais natural do mundo e não uma maldita e abjeta perversão.

Pensei nos milhões de mortos em decorrência da AIDS na África, nas altíssimas taxas de natalidade dos países pobres que geram filhos em profusão para padecerem de fome ou serem abandonados por pais miseráveis. Concluí que o puritanismo torpe que associa o sexo a algo sujo, pecaminoso e vil é mais importante para os homens de batina do que o sofrimento das pessoas. Algo do tipo: “pra que educar e orientar se amedrontar com a ideia de um Deus vingativo que não tolera o pecado (sexo) é mais eficaz?” Enfim, nada que já não soubéssemos. O mais patético ainda estava por vir.

O senhor com microfone disse que o uso do preservativo, assim como qualquer outra artimanha contraceptiva artificial, não é aceito nem mesmo depois do casamento e que o anticoncepcional é pior ainda, pois a mulher está “mentindo para o próprio corpo”. A única prática aceita é o método Billings que se utiliza da consistência do muco genital das mulheres para determinar se o casal pode ou não fazer sexo. Surreal, mas como um Filho do Amor Divino, educado no Colégio das Neves e seguidor fiel de Madre Francisca Lechner, fui ao Wikipedia me inteirar sobre esse método viscoso que leva estampado o selo oficial de aprovação “O Vaticano recomenda”. Tem que ter fé, viu? Se os anticoncepcionais ou o preservativo masculino são coisas do demônio, devo admitir que ele foi bem mais prático.

Outra lição que o homem deu foi com relação ao comportamento dos futuros filhos. Afinal, o casamento serve para que cumpramos nossas missões de sermos instrumentos do amor de Deus, gerando filhos. Falou que devemos criar nossos rebentos de acordo com o que está expresso na Bíblia e que eles, por sua vez, devem seguir nossos passos até que um dia encontrem uma mulher (se for homem) ou um homem (se for mulher). “Qualquer outra realidade é um grave desvio moral”. Ou seja, sabe aqueles seu amigo gay? Ligue pra ele agora mesmo e alerte para o incômodo que deve ser o fogo do inferno, ressaltando ainda que a eternidade é muito tempo pra ficar queimando e sentindo cheiro de enxofre. Diga também que amizade entre vocês precisa ser descontinuada para estar em concordância com as leis divinas. Não importa o quão boa gente ele seja. Não interessa o caráter, a honestidade ou a bondade de sua alma. Fiquei bege.

Ao ter contato novamente com tais dogmas medievais e a maneira vigorosa e firme com que são pregados à massa, fica mais fácil entender os atos de violência cometidos mundo afora por fanáticos religiosos, os desmandos dos Bushs e Ahminejads da vida que, em nome de Cristo ou Alá, praticam os maiores absurdos amparados na fé.

Há um conto de Rubem Fonseca no livro “Histórias de amor” homônimo a esta coluna. Na trama, dois policiais, Guedes e Leitão, participam de uma investigação de assassinato. Guedes é um homem ateu, mas muitíssimo correto que age sempre de acordo com a lei. Leitão é um católico fundamentalista que vive em função do Evangelho. Na tentativa de encontrar um culpado, chegam a um suspeito. Leitão afirma ter certeza de que ele é o culpado, pois encontrou uma estatueta de macumba em sua sala, porém Guedes descobre que o rapaz é inocente por meio de provas conclusivas. Quando, em dado momento, Guedes deixa o jovem a sós com Leitão, este o mata. O diálogo que sucede o episódio é o que segue:

“Por que você fez isso?”

“Ele reagiu.”

“Reagiu merda nenhuma!”

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça.”

“Você é um fanático, Leitão!”

“Eu estou de bem com a minha consciência. Estou de bem com Deus. Tenho o amor de Jesus no coração.”

Tal conversa ilustra bem os contorcionismos morais a que somos levados graças ao que consideramos sagrado. Se as religiões pregassem valores verdadeiramente humanos e não meros preconceitos idiotas e irracionais, talvez o mundo fosse um lugar melhor de se viver. Não seria assim um céu, um paraíso ou algo do tipo. Mas seria melhor.

Feliz Natal a todos.

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